Os grandes debates sobre as transformações ocorridas na cultura ocidental, nas últimas quatro décadas, independentemente da área específica em que ocorreram, foram profundamente marcados pela consciência latente de um indispensável entendimento de fractura, mais ou menos sensível a uma radicalização, no modo de encarar o desenvolvimento dessa cultura no contexto do processo evolutivo da modernidade. Entre intuição e consciência, simpatia ou rejeição liminar, lucidez ou necessidade de preservação, a atitude que cada um adoptou para com esta evidência, construída a partir das declarações de mal-estar da cultura moderna, emitidas, de forma mais sistemática, a partir de, pelo menos, a década de 50 do século XX1, derivou mais dos dividendos ou prejuízos que esta acarretava circunstancialmente, que da necessária consciência da sua pertinência cultural. Convém, no entanto,
1 Referimo-nos, sobretudo, ao trabalho de Arnold Toynbee, e Charles Olson, o último director do lendário Black Moutain College, bem como, num registo de carga inversa, a C. Wright Mills e Irving Howe, pese embora o facto de que os entendimentos destes não constituem propriamente momentos de cristalização de um corpus doutrinário particularmente significativo em termos de um desenvolvimento histórico, digamos, alargado .
tomar em linha de conta, as argumentações que executam a arqueologia
remota, da designação e dos seus entendimentos, e que constituem tentativas
exaustivas de enquadrar o assunto, sublinhando o carácter generalizado da
polémica, ou seja, uma geografia que extravasa o habitual circuito bipolarizado no eixo Europa–América do Norte, e que procuram, por exemplo, demonstrar que o questionamento dos discursos da modernidade se iniciara, pelo menos na década de 30, no âmbito do mundo hispânico, sobretudo considerando o trabalho de Frederico Ónis1.
Assim, a generalização, ou popularização, da ideia de uma fractura, ou
rotura epistemológica, a partir do entendimento de Khun, mas, possivelmente,
mais ligada, na prática, a múltiplas leituras, frequentemente de conveniência, dos entendimentos de Foucault2, nos anos oitenta do século XX, ainda polémica e relutantemente entendida ao longo dessa década, e da seguinte,
1 A este respeito, uma argumentação exaustiva encontra-se em: ANDERSON, Perry – As Origens da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
2 Sublinhe-se a relação estreita entre o entendimento de uma crise paradigmática, como via específica para o questionar da modernidade, e o entendimento de uma crise da razão e do racionalismo. Será precisamente sobre os pressupostos de uma epistemologia fundada sobre paradigmas ideais, ou seja, expurgados das fragilidades que conduziram à crise, e consequente derrocada, do conhecimento científico derivado das concepções clássicas, sobretudo Aristotélicas, que se irá construir a ciência moderna, a partir do século XVII, tanto no que respeita ao racionalismo Cartesiano, como ao empirismo Baconiano. Dito de outro forma, o paradigma racionalista procurou, e acreditou, ser definitivo, ao ter respondido, a priori, a todas as possibilidades da sua própria contestação, ao lançar um anátema sobre todas as formas epistemológicas que extravasassem o âmbito do seu discurso, sob pretexto que não permitiam a fixação dos termos numa estrutura cuja configuração fosse, em última análise, passível de ter valor construtivo, no quadro geral da explicação de um real que caminhava para uma definição completa e definitiva. Esta questão é desenvolvida no ponto seguinte da nossa argumentação.
como indício incontornável, deriva de um esforço criativo – na medida em que toda a produção intelectual é criação –, efectuado, ou melhor, concretizado ao longo dos anos sessenta e setenta, e que se refere, de facto, a uma profunda crise de valores, não apenas no campo da cultura, mas na própria base civilizacional que a sustenta, e que se vinha progressivamente manifestando há, pelo menos, duas décadas.
Em grande parte, estas polémicas, sendo na sua essência de carácter filosófico, ganharam uma visibilidade generalizada em função de alegadas interpretações estéticas, e, de um modo extremamente oblíquo, terminaram por fixar-se, em torno da discussão de um termo, cuja constituição por prefixação, isto é, o entendimento da sua pertinência, continua sendo, hoje, uma questão controversa: o pós-modernismo. Mesmo tendo em linha de conta que o próprio debate da origem da expressão poderá ser problemático, poucas designações terão sido investidas de significados tão diversos e contraditórios, nomeadamente no que respeita à própria ordem taxonómica a que se refere:
degenerescência interna do modernismo, em Frederick Jameson; categoria de
época em Arnold Toynbee; ficção contemporânea em resposta à tensão
modernista, em Irving Howe; alternativa ilusória à completude do projecto da
modernidade, em Habermas; generalização de um corte epistemológico, em
Ihab Hassan; sucessivamente, corte epistemológico e dobra interna do
modernismo, em Lyotard. Do mesmo modo, o âmbito das argumentações
pode ser, numa primeira abordagem, desconcertante1. As dificuldades em
1 Segundo Handersen: “Levin e Fiedler detectaram-no na literatura; Hassan estendeu-o à pintura e à música, ainda que mais por alusão que investigação; Jenks encontrou- o na arquitectura; Lyotard deteve-se na ciência; Habermas lidou com a filosofia. A obra de Jameson teve outro escopo – uma majestosa expansão do pós-moderno por praticamente todo o espectro das artes e do discurso sobre elas.”. ANDERSON, Perry – As Origens da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. p. 69. Este é, uma referência discutível e, certamente, incompleta, mas reporta-se às referências mais paradigmáticas e fornece um quadro claro da complexidade dos
abordar o problema são, deste modo, múltiplas, mas essa multiplicidade pode ser vista, precisamente, como uma ilustração eloquente e inequívoca de uma pluralidade que é, ao fim de contas o próprio cerne da questão. A abordagem racional da pós-modernidade, pode afirmar-se com uma boa dose de ironia, parece falhar recorrentemente a constatação da redundância de criticar a crítica de um sistema pelos próprios parâmetros que estruturam o seu discurso.
Mas, apesar de todo o aparato polémico que foi progressivamente revestindo essa necessidade de questionamento dos contornos do contemporâneo, como realidade inadequada para as cartas de uma modernidade cujo traçado remontava ao século XIX, e fortemente apoiada numa historicidade, então, recentemente inventada enquanto paradigma francamente hegemónico, o cerne da questão continuou, em certa medida, a ser, precisamente, essa mesma necessidade de mudança, menos que a questão, naturalmente mais fundamental, dos contornos de um futuro imediato que urgia traçar.
As razões para esta relutância são, logicamente, diversas, mas impõe-se considerar como central a este problema a própria natureza do paradigma histórico, o que parecerá contraditório se não considerarmos cuidadosamente a natureza teleológica desse entendimento de história, ou seja, a ideia construtiva de um presente arrancado ao fluxo evolutivo da história por via da superação das insuficiências que determinavam essa mesma evolução, entendida como uma necessidade a ser superada. Este pode ser, em linhas gerais, um posicionamento imputável à generalidade do pensamento que se identifica com a modernidade, mas é, convenhamos, uma ideia fortemente marcada por esse vínculo incontornável do pensamento político moderno que foi o Marxismo, e todo o processo da sua transformação, intrinsecamente
jogos de interpretação envolvidos numa hermenêutica dos textos produzidos nas diversas áreas.
ligado à história da ascensão e colapso da sua experiência política. Mas não é, precisamente, esse naufrágio com espectador à vista, que condiciona hoje teoricamente, de forma inefável, a nossa consciência da impossibilidade de manutenção da estrutura de entendimentos modernos?1 É, mais que em qualquer outro campo, da esfera do político que emana essa desilusão que é também, afinal, traço comum a todas as outras esferas da nossa civilização na sua forma actual:
“A ‘história’ deixou-nos ficar mal. Nenhuma nova cronologia apagará esse facto. A traição da história é tão profunda que não poderá ser perdoada afixando-lhe uma ‘pós-era’(...). Há uma verdadeira dimensão trágica na destruição dos sonhos da modernidade – utopia social, progresso histórico e abundância material para todos.”2
1 O vínculo de um entendimento de pós-modernismo a uma leitura crítica da esfera sócio-política é um traço comum a grande parte dos autores que fazem parte da arquitectura construtiva do conceito, embora, naturalmente, se encontre particularmente expresso nas abordagens mais essencialmente sociológicas, como em Toynbee – associando-o à caracterização de um declínio da burguesia como classe dominante, e a delapidação da posição hegemónica da classe média no pós-guerra; ou Wright – confrontando-o com a falência dos ideais do liberalismo e socialismo, argumentação cujos termos serão invertidos por Amitai Etzioni; Howe – que o refere como ficção contemporânea, em certa medida decorrente da dissolução de classes sociais no pós- guerra; Ihab Hassan – que, mais especificamente, aponta a sua relação à difícil opção entre o jugo de ferro da ideologia Marxista e a falácia tolerante do liberalismo pragmático ocidental, conduzindo a um pluralismo como alívio ético, apesar de impor a restrição do domínio de um pós-modernismo ao campo do saber, excluindo a possibilidade de este poder constituir um paradigma abrangente do social e do político.
2 MIRANDA, A. Bragança de ; CRUZ, Maria Teresa Cruz (organização) – Crítica das Ligações na era da Técnica. Porto: Tropismos, 2002. pp. 67 e 68. (Susan Buck-Mors citada por Laura Mulvey no texto: Conexões: um século de cinema à luz da nova tecnologia.)
Se, por um lado, é o próprio conceito teleológico de história veiculado pelo Marxismo, que entra em crise, arrastando consigo o andaime de uma história construída sobre o discurso de uma dialéctica progressista, por outro lado este conceito de traição da história, ao invés de traição à história, encerra uma recusa implícita da responsabilidade das fragilidades do próprio discurso, e das suas práticas, na falência de uma utopia que, pela sua própria natureza, não pode ser viabilizada numa realidade que teima em extravasar os horizontes desse mesmo discurso. O grau de cedência que implicou a catástrofe da materialização da utopia Marxista foi encontrado, de diversas formas, na recusa da sua própria integridade, não enquanto discurso, mas enquanto encenação desse discurso, salvaguardando, com uma teimosia exemplarmente Marxista, o núcleo duro da sua razão de ser:
“Contudo, ceder à melancolia neste momento seria atribuir ao passado uma homogeneidade que nunca existiu, confundindo a perda do sonho com a perda da sua realização.”1
A ideia, numa, algo perversa, versão da persistência metódica de Poincaré, é de que não se deve abandonar o sonho sem esgotar todas as suas possibilidades, considerando, de forma redundante, que este é o luxo a que não nos podemos furtar sob pena de negarmos a essência de um
humanismo carregado de uma subjectividade sob o controlo de um colectivo
objectivado, de ordem superior, e natureza histórico-científica universal, na
verdade, especificamente peculiar ao próprio marxismo. Mas a ideia não deixa de ser a de que se refundia os destroços de uma ruína monumental.
1 MIRANDA, A. Bragança de ; CRUZ, Maria Teresa Cruz (organização) – Crítica das Ligações na era da Técnica. Porto: Tropismos, 2002. p. 68. (Susan Buck-Mors citada por Laura Mulvey no texto: Conexões: um século de cinema à luz da nova tecnologia.)
1 - J. J. Grandville –O Dedo de Deus, de: Un Autre Monde, 1844.
Se a esfera política condicionou fortemente o processo de contestação da modernidade enquanto paradigma, tanto ao nível da travagem da sua emergência como ao nível da sua admissão, e vulgarização, da sua presença no palco dos debates teóricos, por outro lado foi ao nível da teoria e da crítica literária e da filosofia, nomeadamente no que concerne à epistemologia, que esse debate se acendeu em plena luz. O que se explica, em grande medida, pela sua caracterização como espelho menos baço, ou seja menos marcado pelo maniqueísmo ideológico do conflito político, reduzido a uma confrontação elementar entre capitalismo e marxismo. Esta transferência, significativa, da esfera política para a esfera estética, não reflecte apenas um movimento para o exílio de um debate inviável no contexto, primeiro da confrontação violenta com os fascismos europeus, apenas ganha pela força das armas e não do valor moral ou ético de uma ideologia natural e homogénea na sua recusa de soluções, em teoria, estranhas aos seus interesses superiores, depois, no contexto maniqueísta e psicótico da guerra fria, reflecte a própria natureza de um processo de contestação que se baseia na desmontagem, já não das práticas, que se revelaram tão falíveis e incompletas, mas do carácter discursivo que enformava os determinantes da sua falência, ou seja, o valor da sua entropia. A história é, deste ponto de
vista, discurso, ou seja, um construto linguístico, antes de ser dogma ou matriz para a natureza da experiência. E a sua avaliação, e a perscrutação dos seus meandros, são o processo analítico, e crítico, que permite uma
exterioridade que isenta a observação da refracção impeditiva da localização
exacta do acontecimento, imposta pela densidade própria do discurso que constrói esse facto linguístico:
“No lo niego. ‘Mi’ modernismo es, ciertamente, otro nombre dado a un campo discursivo que, como cualquier otro se halla estructurado. El conjunto de conceptos que estructura su superficie no se limita a coordinar los hechos en su seno sino que de determina incluso lo que desde su enfoque contará como hecho”1
Se a realidade é um discurso, então o real só é real quando posto em discurso, e a história pode ser um dos nomes para essa arquitectura conceptual2. A rejeição da história, num duplo sentido, modernista e marxista, não é assim a rejeição absoluta do entendimento do passado, ou uma franquia para a sua interpretação aleatória e irresponsável, é, antes, uma necessidade fundamental ao sublinhar do seu carácter de construção:
“Durante os anos 80 o difícil espaço entre o ‘então’ e o ‘agora’ era emblematicamente representado pela rejeição da história pelo pós- modernismo, bem como pelo investimento formal deste na reciclagem e
1 KRAUSS, Rosalind E. – El inconsciente óptico. Madrid: Tecnos, 1997. p. 26.
2 Na argumentação de Krauss, é a esquematização num quadro que inter-relaciona dinamicamente as coordenadas polares da modernidade, em detrimento de uma visão histórica-linear, que permite escapar à armadilha de uma auto-referência de circularidade viciosa : “La relación del esquema con el tiempo es ahistórica. La historia aparece cuando uno se sitúa en su exterior y ve cómo esquematiza una serie de preocupaciones reales, para después afirmar: ‘De modo que en esto consistía el modernismo’. Pero en el interior sólo existe repetición. La solución a un mismo rompecabezas, abordado una y otra vez, reelaborado, refigurado.”. Idem, ibidem. p. 35.
citação.(...). Do ponto de vista estético ou formal, o diacrónico, o linear e sequencial eram substituídos pelo sincrónico e seus atributos. O pós- modernismo oferecia uma estética apropriada a um período em que as ligações e conexões entre períodos históricos enfraqueceram e o passado perdeu contacto com o presente.”1
A aparente contradição entre a rejeição da história e a omnipresença da citação histórica, não apenas ao nível estético, mas expresso do mesmo modo na recuperação paroxística de ideologias e mitologias há muito inactivas na esfera cultural, fora da História, resolve-se assim na natureza de contestação da estrutura dos discursos própria do processo de desmontagem da modernidade, que conduz àquilo que será consagrado, por uma via tecnológica obviamente não isenta de ligações a este processo, que hoje designaríamos por mentalidade de hipertexto. E é precisamente nesta ligação entre logos e teknos que culminará todo este processo, que, de outro modo, talvez não reunisse condições para se impor como uma realidade efectiva, e não apenas em potência, como se desenhava ainda nos anos noventa:
“É esse estádio último da técnica que Lyotard descreve como logotécnica, considerando que ‘ao tratarem a linguagem as novas tecnologias tratam directamente o vínculo [lien] social, o ser-em conjunto’. Isto é verdade, mas não apenas por afectarem a linguagem, mas por estarem a ‘capturar’ a ‘constituição’ do mundo histórico, alterando radicalmente a nossa relação com a ‘natureza’”2
1 MIRANDA, A. Bragança de ; CRUZ, Maria Teresa Cruz (org.) – Crítica das Ligações na era da Técnica. Porto: Tropismos, 2002. p. 69. (Susan Buck-Mors citada por Laura Mulvey no texto: Conexões: um século de cinema à luz da nova tecnologia. pp. 65-71).
2 Idem, ibidem. p. 270. Citação do texto de J. A. Bragança de Miranda: Para uma crítica das ligações técnicas. pp. 259-277.
A permanência constante desta ligação ao fluxo da criação do devir
histórico, continuamente metamorfoseado num passado apenas relativo, cujo
rasto é perfeitamente sensível e constantemente presentificado na ubiquidade discursiva do registo técnico, por tanto, logo sentido, por um lado, como remoto pela radicalidade das transformações permanentes, e, por outro lado, próximo, pela reconstrução contínua do seu sentido na memória sensível e emocional, resulta num presente liquefeito, perfeitamente dependente desse
passado que cada vez mais raramente nos abandona, num contínuo temporal
e espacial, que impede a consecução cultural dessa natureza “dividida e
divisora do humano”1, ligando hoje o homem a um devir histórico que não
garante a produção estável de sentido baseada numa linearidade narrativa, assegurada por uma correspondente linearidade temporal de sentido único.
“O carregado senso do passado já não existia – fosse como transpiração de tradições repressivas ou reservatório de sonhos frustrados.”2
Hoje, à tentação de citar a história sobrepõe-se a necessidade de reconstruir permanentemente uma história, como condição necessária para a definição do sujeito num presente diluído, imanente dessa ligação significativa.
Tendo, no século XX, a área artística frequentemente sido pioneira na exploração de realidades que, apenas lentamente, foram reconhecidas pelas outras áreas da cultura e do conhecimento, não abarcou no entanto, pelo
1 MIRANDA, A. Bragança de ; CRUZ, Maria Teresa Cruz (org.) – Crítica das Ligações na era da Técnica. Porto: Tropismos, 2002. p. 270. Citação do texto de J. A. Bragança de Miranda: Para uma crítica das ligações técnicas. pp. 259-277
2 ANDERSON, Perry – As Origens da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. p. 68. Este entendimento de Jameson, sintetizado por Anderson, é completado pela constatação das consequências comuns deste processo: “(...) a perda tipicamente pós-moderna de qualquer senso do passado, numa contaminação oculta do actual pelo melancólico, em tempo que anseia por si mesmo num impotente refúgio.” Idem, ibidem. pp. 70 e 71.
menos com a celeridade de que deu provas anteriormente, a nova situação que se desenhava ao nível teórico, prolongando um entendimento de vanguardismo fundado sobre pressupostos modernos, que é, nos seus fundamentos responsável por essa desaceleração, só aparentemente paradoxal1. O carácter, periférico em relação às consequências profundas do processo de contestação da modernidade, de muitas das manifestações do que se pode identificar como a primeira fase da pós-modernidade, e, da mesma forma, de uma segunda fase, resultou frequentemente de leituras demasiado superficiais
e imediatas de grande parte desse corpus teórico, facto cujo entendimento
conduzirá a um voto de definitiva desconfiança de alguns dos seus pensadores, provenientes da área estética como Ihab Assan:
“(...) o próprio pós-modernismo mudou, dando, a meu ver, a guinada errada. Encurralado entre a truculência ideológica e a ineficácia desmiltificadora, preso no seu próprio kitch, o pós-modernismo tornou-se uma espécie de pilhéria eclética, refinada lascívia de nossos prazeres roubados e descrenças fúteis.”2
1 O problema concerne essencialmente ao equívoco moderno sobre a indisputabilidade da sua natureza progressista, fundado numa visão teológica dos seus próprios dogmas sobre o entendimento de progresso: “La théorie moderniste de l’art postulait que l´art et les moyens techniques étaint des contemporains. Elle croyait à des liens indissolubles que existeraient entre l’ordre social et l’ordre esthétique. On peut se montrer aujourd’hui plus mesuré, plus circonspect, quant à la nature de tels liens : en constatant, par example, que la technologie et les pratiques artistiques ne vont pas toujours de pair , et que ce décalage ne nuit ni à l’un ni à l’autre.”. BOURRIAUD, Nicolas – Esthétique relationnelle. S.l : Les presses du réel, 1998. p. 67.
2 ANDERSON, Perry – As Origens da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar