Como se sabe, o Minho é configurado pelos grandes e amplos vales. Com o relevo fortemente acidentado, o clima e a altitude tiveram impacto sobre a região. A extensão e variedade de terrenos incultos, na Serra da Peneda, originaram um modelo territorial único e característico da zona. Tal como a serra do Gerês, a serra da Peneda é constituída por altas superfícies de aplanamento cortadas pelos vales, e formada por um dispositivo radial de vales de grande inclinação e muito estreitos, destacando-se o vale da Gavieira, da Peneda e o troço principal do vale do rio Laboreiro (PNPG, 2010, p.5).
Fig. 2 Carta topográfica da Serra da Peneda, localização das aldeias e brandas da
Gavieira e Rouças. Projecção de Gauss- Elipsoide Internacional- Datum de Lisboa.
Integrada na mancha granítica do Noroeste da Península Ibérica, a serra, de orografia acidentada, caracteriza-se pelos seus grandes núcleos rochosos de granito a “aflorar por toda a parte, no cimo das elevações, nas encostas abruptas, nos vales” (Carvalho, 2006, p.142). Os afloramentos rochosos atingem elevadas altitudes, e as frequentes superfícies de aplanação, consequentes dos distintos momentos orogénicos, são afectadas pela acção dos vários ciclos erosivos (Rey, 2000), determinantes na formação de um terreno fragmentado e descontínuo. Na serra, o território atinge grandes amplitudes, sobretudo em altitude com variadas
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cotas, que vão desde as zonas mais baixas de vale do rio Vez e Lima, até ao pico mais alto do cume da montanha, que ronda os 1400 metros.
Os factores erosivos e a orografia acidentada do território em causa a trabalharem em conjunto, remodelaram as superfícies de aplanação que por sua vez, originaram variadas unidades topográficas como as serras e os vales. Nestas paisagens também os níveis de erosão, que se sobressaem, foram decisivos na fixação das populações. A tectónica de fracturação desempenhou o papel fundamental na rede hidrográfica, que permitiu a incisão dos canais de água. Assim mesmo, as mudanças climáticas asseguraram o desenvolvimento geomorfológico. A rede fluvial controlou a modelação dos interflúvios, criando uma hierarquização fluvial organizada (Rey, 2000).
O território da Serra foi preponderante na fixação das povoações. Face às suas características morfológicas acima referidas, como o acidentado relevo e a grande fracturação geológica, bem visível, a serra estruturou-se e compartimentou-se num rede de vales cujo papel foi decisivo na evolução da ocupação humana e das estruturas económicas serranas (Barros, 2011 & Medeiros, 1984).
Fig. 3 Carta hipsométrica da Serra da Peneda. Projecção de Gauss- Elipsoide
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Ao se fixarem nos planaltos, as populações criaram um conjunto de formas, das quais se evidenciam as rechãs, “verdadeiros patamares, outrora meticulosamente aproveitados e cultivados, hierarquizados por outros, que acomodam as povoações, que, ora condicionam declives muito marcados ora descaem (…) para o vale” (Carvalho, 2006, p.142). É nas zonas de vale que se encontram os terrenos mais abrigados das intempéries propícios ao cultivo, e os lugares de habitação permanente - as aldeias, “percorridos por uma extensa rede hidrográfica, composta por um conjunto de afluentes e subafluentes que de um modo geral, definem longos vales agudos de encostas escarpadas” (Rey, 2000, p.24), que “desenham” a paisagem e enriquecem a flora, com várias espécies de árvores folhosas para proveito da população, e facultam a rega dos campos de cultivo, através de engenhosos sistemas de regadio adquirido pelos camponeses. O modo como se distribuíram os diferentes lugares compreendeu uma adaptação, por parte de grupos de habitantes, que de acordo com o potencial agro-silvo- pastoril dos solos e das formações rochosas, obrigaram à utilização extensiva da lande em complementaridade com a prática da agricultura em parcelas com dimensões reduzidas e maior aptidão agrícola.
Em função destes condicionalismos, observam-se edificações implantadas em patamares a diferentes cotas, habitadas em períodos alternados ao longo do ano, num esforço de rentabilizar ao máximo os solos férteis e as pastagens envolventes. Estes factores garantiram uma dinâmica a nível territorial e de assentamentos, construindo-se um sistema de povoamento agrupado e duplo – o de branda e de habitação permanente.
A fertilidade dos solos condicionou a construção dos aglomerados, no entanto não impediram que os habitantes se projectassem para fora do núcleo principal, à procura de novos terrenos para construção, e ao mesmo explorarem o território, de modo racional e inteligente implementando novas culturas agrícolas.
Proliferaram verdadeiros esquemas territoriais, distintos pelo “tipo de adversidade a ultrapassar” (Carvalho, 2006, p.192) que em comum apresentam um conjunto de interacções, que ao longo dos anos a população foi marcando o território, com espaços de cultivo, de pasto e de habitação, resultando num mesmo tipo de habitat, o agrupado.
A complexidade do território da Serra da Peneda poderá questionar-se do ponto de vista, das diferentes unidades morfológicas que o caracterizam. A estrutura geomorfológica explica-se pela conservação do património e da maturidade que a população teve em racionalizar os recursos que a terra foi fornecendo no decorrer dos tempos. São visíveis nos vales, rios e ribeiros que condicionaram ou favoreceram a implantação de núcleos habitáveis e das parcelas de cultivo e de
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pasto. Como se sabe, a população, face às necessidades físicas e às adversidades do clima e do terreno, implantou-se em pontos estratégicos da serra, sempre próximos aos cursos de água e aos afloramentos de granito, originários das sucessivas erosões provocadas pelas fortes precipitações.
Na serra da Peneda verificam-se duas distintas situações, atendendo às peculiaridades do meio geográfico onde se localizam os aglomerados.
A população fixou-se nos vales a mais de 400 metros, que contam com vários talvegues, o que demonstra inteligência por parte da população na selecção de áreas amplas e com solo produtivo. Em todos os vales ocupados pelos aglomerados encontram-se porções de solo arável utilizado para as culturas do milho e pastagens, associados aos lugares de habitação permanente. A população como forma de se organizar distribui-se conforme a aptidão dos solos, ocupando a massa construída sempre uma pequena parte em relação aos campos. Os campos de cultivo como forma de se adaptarem ao declive, foram construídos em sucessivos patamares - os socalcos, designados assim, por se assemelharem a plataformas, que de espaço a espaço, originam degraus que rematam em muros de terra, que suportam toda a estrutura. Também os trajectos do rio Peneda e Pomba contribuíram, de certo modo, na distribuição dos lugares, tanto os de extensa área instalados nas cotas entre os 600 e os 770 metros, como os instalados nos planaltos entre os 900 e 1300 metros.