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1. General introduction

2.4 Main results and discussion

No segundo artigo desta questão 27, Tomás vai se dedicar às relações entre as Pessoas divinas do Pai e do Filho; historicamente, este é um tema importante na querela arianista, o que nos mostra uma continuidade com o artigo anterior. A processão do Filho a partir do Pai é

41 ita secundum actionem quae manet in ipso agente, attenditur processio quaedam ad intra (ST I, q. 27, a. 1,

49 chamada “geração”. A doutrina do Verbo gerado está fundamentada nos textos bíblicos atribuídos ao Apóstolo João (Jo 1, 1.14; 1 Jo 1, 1; Ap 19, 13); para explicitar esta fundamentação, Tomás opera uma notável modificação na antropologia de Aristóteles; para este, a operação imanente do intelecto e da vontade, não produz nada (como se pode ver no livro da theta da Metafísica, 8 (1050 a 23-b 2); Tomás irá interpretar Aristóteles à luz da herança agostiniana, a fim de reconhecer a produção de um termo imanente na atividade da inteligência e do amor. A fim de evitar o erro do arianismo, ele coloca em primeiro plano não a noção de “geração” (comunicação de uma natureza ao engendrado), mas a processão intelectual do Verbo, que permite compreender uma ação imanente e um termo consubstancial a seu princípio de unidade (cf. EMERY, 2004, p. 75.77).

Este nome, geração, irá levantar questões, afinal uma ideia primeira que se possa ter sobre esta realidade é a de uma mudança; ora, em Deus não há uma passagem da potência para o ato; além disso, envolve também uma ideia de matéria, estranha à simplicidade de Deus, sobre a qual Tomás refletiu na questão 342. É esta, assim, a primeira objeção que se nos apresenta no artigo: “Com efeito, a geração é a mudança do não-ser para o ser, oposta à corrupção; e o sujeito de ambas é a matéria. Ora, nada disso convém a Deus. Logo não pode haver geração em Deus” (ST I, q. 27, a. 2, 1). Neste artigo, as objeções marcadamente se baseiam no que se disse sobre a unidade de Deus. Na terceira argumentação inicial, por exemplo, recorda-se que “o ser de tudo o que é gerado é um ser recebido” (Esse ergo

cuiuslibet geniti est esse receptum - ST I, q. 27, a. 2, 3), e se nenhum ser que é recebido é subsistente por si, não cabe em Deus uma geração43.

A condição de Primeiro Princípio do universo implica neste Princípio uma processão imanente, posto que ela supõe nele um plano da obra, um plano, um verbo procedente do pensamento do Princípio. Poderemos provar, a partir do próprio texto de Tomás, que o Primeiro Princípio causa pelo seu pensamento e pelo seu poder (cf. ST I, q. 19, a. 4).

A necessidade absoluta de que em toda intelecção conatural criada se produza esta palavra interior, ou verbo do entendimento, o comprova Tomás de Aquino: somente se as coisas, objetos distintos de nosso entendimento, tivessem por si mesmas o modo de ser

42“É impossível haver em Deus alguma matéria. Primeiro, porque a matéria é o que está em potência. Já se demonstrou que Deus é ato puro, nele não existindo nada de potencial. Impossível, por conseguinte, que Deus seja composto de matéria e de forma” (ST I, q. 3, a. 2, respondeo).

43 “Portanto, é necessário afirmar a existência de algo necessário por si mesmo, que não encontra alhures a causa de sua necessidade, mas que é causa da necessidade para os outros: o que todos chamam Deus” (ST I, q. 2, a. 3, respondeo – Tertia via).

50 recebido pela palavra interior, seria desnecessário o verbo da mente. No entanto, nenhum objeto finito goza desta propriedade (cf. BAC, 2010, p. 36).

Para poder afirmar a geração no seio da substância divina, Tomás necessitará distinguir dois modos de compreensão deste termo; é a isso que se dedicará, essencialmente, no corpo deste artigo segundo. Num primeiro sentido, compreende-se geração “em um sentido geral a tudo o que se gera ou corrompe. Neste caso, geração significa a mudança do não-ser para o ser” (ST I, q. 27, a. 2, respondeo). Um outro uso para tal palavra vem a significar “a origem que um ser vivo tem de seu princípio vivo conjunto. Chama-se propriamente de nascimento” (ST I, q. 27, a. 2, respondeo). No entanto, Tomás nota que nem todo ser vivente, que procede de outro vivente a ele unido, é qualificado de gerado; dir-se-á que alguns seres, assim, procedem sub ratio (sob o aspecto) de semelhança, como o pelo ou o cabelo, “que não têm razão [ratio] de geração e filiação” (ST I, q. 27, a. 2, respondeo)44. No

presente texto o exemplo que Tomás dá dos vermes compreendidos como gerados nos animais, que compreende, com as condições que lhe davam a ciência em sua época. A ratio que implica a palavra geração no segundo sentido, o de nascimento, exige “semelhança na natureza da mesma espécie, como o ser humano procede do ser humano, e o cavalo do cavalo” (ST I, q. 27, a. 2, respondeo).

Nos seres animados, ou, dizendo de outro modo, nas criaturas, o ato de vida, chamado geração, incluirá estes dois sentidos. É interessante observarmos a nota e presente neste artigo, na edição brasileira, que faz o seguinte esclarecimento: “O que caracteriza a geração como ato próprio do vivente é que o gerado resulta de quem gera, é produzido a partir dele mesmo, “de sua substância”, não por transformação, de maneira exterior. É, por si, uma comunicação da vida, não a fabricação de um ser vivo”. Como lemos em Emery: Dans le cas

de Dieu, explique saint Thomas, la génération exclut le passage du non-être à l’être, mais elle conserve la raison analogique propre aux vivants (EMERY, 2004, p. 78).

A partir destas bases, pode, no último parágrafo do respondeo do artigo, afirmar Tomás, utilizando os elementos esclarecidos neste item, e voltando ao que concluiu no artigo anterior, que a processão em Deus se dá de modo interno, a exemplo do intelecto:

É assim, portanto, que a processão do verbo em Deus realiza a razão de geração. O verbo, com efeito, procede pelo modo de atividade inteligível, que é uma operação de vida; e de um princípio conjunto, nós o vimos; e por razão de semelhança, porque à concepção do intelecto é a semelhança da coisa conhecida; e ele subsiste na mesma natureza, pois, em Deus conhecer e ser é o mesmo, como acima foi

44 Observe-se, na tradução de ratio, que a simples tradução por razão não é suficiente; pensamos que, neste caso, poderíamos ser mais exatos ao traduzir ratio por “príncio constituivo”, ou “razão formal”.

51 demonstrado. Eis porque a processão do verbo, em Deus, chama-se geração, e o verbo que procede se chama Filho (ST I, q. 27, a. 2, respondeo).

Nos seres humanos, o conhecer não é a substância do intelecto, como o é em Deus. Tomás se preocupa, na resposta à segunda objeção, comparando o conhecimento humano ao ser divino, em esclarecer ainda mais a noção de geração divina que apresentou. Assim, ali argumentará que o verbo que procede em nós pela operação inteligível não tem a mesma natureza que seu princípio. Logo, nela não se verificará própria e claramente a razão de geração. No entanto, o conhecer divino é a substância mesma do que conhece (não há acidentes no mistério divino); por isso, o verbo irá proceder como um subsistente da mesma natureza. Por essa razão, será chamado, propriamente de Filho (cf. ST I, q. 27, a. 2, ad

secundum). Tomás ainda recorda, neste mesmo artigo, que, por isso, a Bíblia utilizará, para

significar a processão divina noções próprias à geração dos viventes, como concepção e parto. Tal argumentação está de acordo com a teoria do conhecimento de Tomás de Aquino45, quando afirma que, no intelecto daquele que conhece passa a existir uma ideia ou conceito semelhante a algo conhecido. No entanto, não há uma identidade de natureza deste conhecimento com o próprio conhecedor, nem com o conhecido em seu ser como coisa, senão teríamos confusão entre o conhecido e o cognoscente. Bem diferente é o conhecimento que o Pai possui do Filho. Neste sentido, reportamo-nos à nota h da edição brasileira da Summa

Theologiae, nesta questão: “Em Deus, o ser inteligível, ou intencional, é idêntico ao ser real (cf. supra I, q. 14, a. 4). Recebendo do Pai comunicação desse ser, o Verbo, como ele, é Deus, e essa comunicação é uma geração autêntica, ainda que misteriosa”, isto é, não sabemos o que é em sua natureza própria.