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3. Methodology

4.1. Main characteristics of paint products

Os problemas ligados ao destino do lixo e aos serviços de limpeza das cidades tornaram-se, ao que tudo indica um desafio crescente às cidades européias medievais desde o final do século IX. Este fator se deve basicamente ao modo de vida dos habitantes das cidades deste período, que praticamente não diferenciavam os costumes da vida rural com os do meio urbano.75 Esta pequena diferenciação da vida no campo com a da cidade, teria agravado a situação da segunda em relação à primeira, em parte isto se deve a um fator como a alta densidade demográfica das cidades em relação ao campo e conseqüentemente uma maior concentração populacional sobre o espaço ocupado. Segundo Arruda:

De modo geral, a população começou a crescer por volta do século XI, alcançando seu máximo no século XIV, quando sobreveio a Peste Negra, que atingiu principalmente a população urbana. As maiores cidades do Ocidente foram: Paris, Milão, Veneza, Florença e Nápoles; o número de habitantes de cada uma nunca deve ter ultrapassado os 100.000. Várias cidades possuíam entre 30.000 e 50.000 habitantes, como é o caso de Londres, Gand, Bruges, Ypres, Lübeck, Colônia, Praga, Ruão, Toulouse, Barcelona, Gênova, Bolonha, Roma e Palermo. Na Espanha muçulmana, Córdova atingiu 900.000 habitantes no século XI.76

O lixo, assim, começaria a entrar em cena na história das cidades como um importante problema a ser solucionado, agravado tanto pelos problemas do aumento populacional, quanto pela pouca diferenciação dos costumes das populações da vida no campo em relação às cidades. Tais problemas acabaram afetando diretamente o saneamento urbano, como podemos ver:

Remover o lixo revelou-se desafio importante de higiene, de difícil solução técnica no período medieval. Não se deve esquecer que nas casas medievais se juntava

74 Referimo-nos aqui àquilo que Ricoeur interpretou como “modo de ser que somos a cada vez” do estudo de

Heidegger sobre o Dasein. Tal interpretação encontra-se no segundo capítulo denominado História e Tempo, da obra de RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007.

75 A este aspecto torna-se essencial ver a obra de THOMPSON, Edward P. Costumes em Comum. São Paulo:

Companhia das Letras, 1998.

muito mais refugos do que em uma casa moderna. O modo de vida na cidade ainda não se afastava muito da vida no campo e, no começo, as casas urbanas se assemelhavam às da aldeia. Além da abundância de refugos, o fato de muitos habitantes criarem quantidade de animais – como porcos, gansos e patos – representava outra causa relevante do aumento da sujeira das ruas [...] Por vezes, a imundice assumia proporções tamanhas que padres não conseguiam oficiar cerimônias e funcionários municipais não podiam comparecer a reuniões.77

Será a partir do século XII, na Europa, que medidas efetivas de controle das sujeiras iriam ganhar forma. As primeiras medidas concentraram-se na pavimentação das ruas de maneira a torná-las limpas e de fácil controle de sua manutenção. Paris teria sido a primeira em 1185, seguida de Praga em 1331, Nurembergue 1368, Basiléia 1387 e Augsburgue 1416.78 A estas medidas que visavam à pavimentação, surge também a obrigatoriedade da construção de um sistema de esgotos e cloacas, pois “não havia rede de esgotos, os detritos eram atirados às ruas, numa vala, por onde escorriam em direção aos limites da cidade; lá se acumulavam à beira dos muros, formando os focos de epidemia que com freqüência assolavam as populações medievais”.79

Ao que tudo indica estas novas construções tinham por objetivo também acabar com os refugos que eram lançados diretamente aos rios. O que não teria se concretizado ao menos na Inglaterra, como bem observa Rosen: “mesmo quando se contrataram limpadores de rua para retirar da cidade entulhos e imundícies, usando-se carroças, os habitantes continuaram a jogar refugos no rio Tamisa.”80 A esta prática de descarte em rios, que normalmente eram utilizados como único meio de abastecimento e consumo de água potável, seguiam-se também as doenças relacionadas direta ou indiretamente a este problema. Uma das principais doenças de caráter infecto-contagioso que afetará grande parte das populações de então, será a chamada cólera-morbo.81

Para combater tais enfermidades epidêmicas que se alastravam na Europa durante este período, vários foram os dispositivos adotados para se tentar compreender e evitar tais doenças, dentre estes Czeresnia destaca as práticas de combate à peste negra em 1348:

As práticas que se instituíram para fazer face à peste buscaram, assim, evitar a proximidade e o toque, e, ao mesmo tempo, neutralizar com perfumes e máscaras os

77 ROSEN, op. cit., p.55. 78 Idem, p.56.

79 ARRUDA, op. cit., p.394. 80 ROSEN, op. cit., p.56.

81 Para maiores detalhes quanto à história do cólera, torna-se importante ver a obra de WITTER, Nikelen Acosta.

Males e Epidemias: sofredores, governantes e curadores no sul do Brasil (Rio Grande do Sul, século XIX).

2007. Tese (Doutorado em História) - Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2007.

odores viciados que corrompiam o ar. A corrupção do ar era percebida como fenômeno originário do lixo, das profundezas do solo, de conjunções astrológicas malignas e também dos próprios doentes e cadáveres. A doença se alastrava de um para outro; a participação do ar era fundamental.82

Além desta percepção sobre a doença que se ligava ao meio externo, também foram adotadas medidas públicas para o calçamento de ruas e a construção de sistemas de esgoto, bem como a fiscalização, o controle e a supervisão dos serviços ligados ao sanitarismo das cidades. Além disso, de acordo com a região ou o lugar, eram também nomeados indivíduos públicos para assumir tal compromisso em meio às comunidades, tais indivíduos provinham normalmente de algum tipo de conselho. Segundo Rosen, apesar da variação da nominação no que tange aos cargos públicos neste período - consul (na região da Itália e no sul da França), échevins (norte da França e Países Baixos) e vereadores (na Inglaterra) - tais nomenclaturas consistiam basicamente nas mesmas funções, ou seja, o controle do serviço público.83

Outras formas de se combater tais doenças assentavam-se também na assistência médica através da criação de instituições beneficentes (de início de caráter clerical), que datam do século VIII nos mosteiros medievais, bem como da criação dos primeiros hospitais que datam do século IX, tanto no Ocidente como no Oriente.84

Além dos hospitais havia também as casas de banho, que apesar de possuírem uma função mais atrelada a “teatralização”85, como um espaço de convívio e prazer do que de higiene, podem também ser consideradas como importantes centros de “higiene”, pois chamamos a atenção aqui para o ato em si, e não para sua finalidade ou objetivo. Assim, se as casas de banho não tinham por finalidade principal a limpeza do corpo, indiretamente o ato de entrar em contato com água pode ser revelador de algum tipo de limpeza, mesmo que para os moldes atuais sejam as mais superficiais. Além disso, tais casas de banho eram licenciadas pelas municipalidades como importantes centros de higiene nas cidades e acabariam por ser obrigatoriamente fechadas por volta do século XV, quando do aumento de infecções causadas pela sífilis. A este “cuidado” da limpeza do corpo, chamamos a atenção para uma idéia da possibilidade de extensão da vida matério-corporal sobre o componente terreno, pois na visão

82 CZERESNIA, Dina. Do contágio à transmissão: uma mudança na estrutura perceptiva de apreensão da

epidemia. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, vol. IV, n. 1, mar.-jun. 1997. p.77. Grifo nosso.

83 ROSEN, op. cit., p.65.

84 Os dados aqui são impressionantes, de acordo com Rosen, entre os séculos XII e XV na Inglaterra, instalaram-

se mais de 750 hospitais, sendo que deste total, 216 eram destinados a portadores da lepra. Idem, p.69.

85 Teatralização é a palavra utilizada por Vigarello para descrever a finalidade e os objetivos do banho durante a

Idade Média: “A finalidade principal é o jogo, ou mesmo a transgressão, a água é essencialmente festiva. O que significa que a lavagem não é a verdadeira razão do banho”. VIGARELLO, Georges. O Limpo e o Sujo: a Higiene do Corpo desde a Idade Média. LISBOA: Editorial Fragmentos, 1985.

do historiador George Rosen isso pode indicar que:

O homem medieval cuidava de seu corpo muito mais do que se imagina. Embora em geral se considerasse vã a existência terrena, e existisse a crença na punição, ou na salvação, no outro mundo; havia também a convicção de que, seguindo-se um regime correto, poder-se-ia estender a vida até três vintenas e mais dez anos.86

A esse “regime correto” que se refere o historiador, originou-se toda uma literatura fundamentada sobre fontes clássicas (principalmente sobre a Hipocrática). Tais fontes eram utilizadas praticamente como guia obrigatório nas ordens monásticas, regulando sobre a conduta de higiene pessoal no interior dos mosteiros. Do século XII ao XV escreveu-se um grande número destes livros, em latim ou em várias línguas vernaculares.87 Destacamos entre estas obras um pequeno trecho de um dos mais antigos regulamentos encontrados sobre saúde sanitária, escrito provavelmente pela chamada Escola de Salerno.88 Este regulamento data do século XII e aborda em forma de verso os chamados quatuor humoribus corporis em latim, ou em italiano quattro temperamenti:

Somente de quatro humores superiores São compostos os corpos humanos: O hipocondríaco, o bilioso, O sanguíneo e o fleumático; Os quais se quer que correspondam Terra, fogo, ar e água.89

Por força de todos estes empreendimentos no que tange aos problemas de origem sanitária, bem como um elemento ligado a saúde pública, os homens do medievo não podem, ou pelo menos não deveriam ser vistos como meras marionetes de um teatro cuja manipulação caberia única e exclusivamente a uma força teo-divina, onde tal poder delimitaria tanto o

86 ROSEN, op. cit., p. 69. 87 Idem.

88 VERGER, op. cit., p.146-151.

89 REGIMEN Sanitatis Salarni. Milano: [s.n.], s/d. Capo LXXXV, p.67. O trecho foi traduzido do italiano para o

português por Carolina Etcheverry. Em Língua Italiana temos: Sol di quattro umor soprani / Son composti i corpi umani: / L’ipocondrico, il bilioso, / Il sanguigno ed il flemmatoso; / Cui si vuol, che corrisponda / Terra, fuoco, aere ed onda. Segundo Etcheverry, “Na teoria dos humores, os quatro são geralmente traduzidos para o português como sanguíneo, colérico (que chamam de bilioso no poema), melancólico (que chamam de hipocondríaco) e fleumático.” Além disso, o termo “soprani” pode ser entendido também como superiores “no sentido de serem importantes, quase divinos”. De acordo com a observação de Sant‟Anna, Hipócrates considerava que: “o corpo constituído por humores tendia a permanecer em equilíbrio. A doença era traduzida em termos exceção natural, como se ela fosse um desequilíbrio que pudesse ser curado pela própria natureza. Em suma, a natureza afirmava-se como sendo capaz de encontrar, por ela mesma, as vias e os meios.” SANT‟ANNA, Denise Bernuzzi de. É possível realizar uma história do corpo? In: SOARES, Carmen Lúcia (Org.). Corpo e História. 3.ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2006. p.7.

pensamento, como o meio prático da ação na vida cotidiana.90 Além disso, Jacques Le Goff alerta-nos para algumas construções que eram realizadas sob a intervenção das coletividades urbanas:

Aqueduto, poços, canais, chafarizes, todos os trabalhos e obras destinados a garantir o abastecimento de água das cidades e o escoamento das águas cabem também em grande parte aos senhores, aos estabelecimentos eclesiásticos e, eventualmente, a particulares. Mas ainda aqui se assiste às intervenções da coletividade urbana. Em Provins, por exemplo, em 1273, o prefeito René Acorre introduz intra muros canos de água nas casas e ruas. Em 1283, a cidade solicita ao rei o direito de instalar por conta própria quatro novas fontes e em 1292 negocia o direito de fazer passar por vinhas canalizações destinadas à alimentação dessas fontes.91

Além disso, tais conhecimentos eram derivados também em alguns casos, de tradições que perpassavam o tempo, podendo ser encontrados inclusive em cidades cuja história remete-nos ao período da antiguidade. Assim, a obra de Hipócrates sem dúvida será um componente de distensão da aplicação de um conhecimento, mesmo sendo um conhecimento em constante readequação no que tange aos aspectos do saneamento.92

A ação empreendida no trabalho de pavimentação das ruas, construções de sistemas de esgotos, criações de hospitais, casas de higiene corporal, regimentos de saúde sanitária, assistência médica e criações de cargos administrativos específicos para o trato com os assuntos que dizem respeito ao sanitarismo e ao saneamento das cidades, podem demonstrar o quanto estes indivíduos eram ativos no que tange a preocupação direta sobre um aspecto da vida urbana, ou seja, a saúde coletiva.93 De acordo com Rosen:

Ao examinarmos os numerosos empreendimentos da Saúde Pública medieval – os esforços para lidar com os problemas sanitários da vida urbana, para criar medidas administrativas (como a quarentena), para criar o hospital e oferecer cuidados médicos e assistência social – impossível não reconhecer a magnitude dessa façanha. Essas tentativas de criar um sistema racional de higiene pública se distinguem ainda mais se lembrarmos que tiveram lugar em um mundo de superstições abundantes e

90Chamamos a atenção aqui para critica que Lovejoy fez as terminologias em “ismos”, como elementos que

podem simplificar e delimitar a possibilidade de um possível conhecimento, que foge a dadas verificações. Para maiores detalhes, ver: LOVEJOY, op. cit., p.13-31.

91 LE GOFF, Jacques. O apogeu da cidade medieval. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p.112. Grifo do autor. 92 Por ser este desdobramento do pensamento hipocrático muito importante para o saneamento na história das

cidades, ele é um elemento central que pode ser observado ao longo de toda esta dissertação.

93 No que diz respeito a esta preocupação, ela é mais nítida quando trata-se em falar do surgimento da

quarentena, entre os séculos XIII e XIV. Tal prática ocorreu basicamente na tentativa de controlar o alastramento da chamada peste negra sobre a Europa. Esta prática, entretanto, possui uma história anterior, ligada ao ato de isolar indivíduos com lepra do restante dos habitantes das cidades. Assim, este ato de isolar pode ser visto tanto como um ato de exclusão dos indivíduos do seio comum em sociedade, como um ato de preocupação de indivíduos (individual ou coletivamente) diante uma possibilidade de completa exposição frente a uma doença ainda pouco conhecida.

em que muito de conhecimento científico necessário para enfrentar os problemas de saúde estava ausente. Revela-se mais significativo ainda, do ângulo histórico, o desenvolvimento de padrões de pensamento e de prática em cujo interior a Saúde Pública mover-se-ia nos dois séculos e meio seguintes.94

Os dois séculos e meio seguintes a que se refere o historiador, cobrem o período que vai de 1500 a 1750, terceira etapa de um recorte do modelo quadripartite francês, denominado de Idade Moderna. Momento este onde talvez as influências do Renascimento, das descobertas marítimas e do nascimento do Sistema Capitalista, seja o pano de fundo mais importante, principalmente para a história da Europa. Articular este momento específico da história com o desenvolvimento das idéias e das práticas perante a limpeza e o saneamento público nas cidades, torna-se uma tarefa a que nos propomos realizar a seguir.