• No results found

Conforme discutido na Seção 3.1, as questões de pesquisa foram determinantes para o direcionamento apropriado das ações concernentes à investigação. Nesta seção, as questões serão relacionadas aos objetos de análise e aos métodos descritos anteriormente, também em 3.1.

Vinculado ao grupo de pesquisa 'Mobilização, direitos e cidadania: ação, representação e identificação no discurso', este trabalho faz parte de um projeto de pesquisa integrado, intitulado 'Publicações em língua portuguesa sobre população em situação de rua: análise de discurso crítica', que, como explica Resende (2010), tem o objetivo de 10

investigar as cinco publicações localizadas, em língua portuguesa, voltadas para a abordagem específica da população em situação de rua. São elas: a revista Ocas, de São Paulo, também distribuída no Rio de Janeiro; o jornal O Trecheiro, de São

10 O projeto “Publicações em língua portuguesa sobre população em situação de rua: análise de discurso crítica” recebeu apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF), Edital 3/2010, Processo 2010/00090-1 e foi aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Ciências Humanas (CEP-IH) da Universidade de Brasília em 5 de julho de 2010. O projeto foi laureado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES/UC), no âmbito do ‘Prêmio Jovens Investigadores’, em 2011. Participam do projeto, além de mim, a professora Viviane de Melo Resende (PPGL/UnB) e o professor Fábio Henrique Pereira (PPGJOR/UnB), e as mestrandas María del Pilar Tobar Acosta e Andreia Alves dos Santos.

Paulo; o jornal Boca de Rua, de Porto Alegre; o jornal Aurora da Rua, de Salvador; e a revista Cais, de Lisboa, também distribuída em diversas cidades portuguesas, a exemplo de Porto e Coimbra. (RESENDE, 2010, p. 2).

A pesquisa referente ao street paper soteropolitano ficou sob a minha responsabilidade, e assim se tornou meu projeto de mestrado. As discussões iniciais se deram por meio do reconhecimento da publicação, do contexto em que ela se desenvolvia e de seu modus

operandi. Uma vez que partimos dos pressupostos teórico-metodológicos da ADC, e tendo textos da publicação como objeto de investigação, foi necessário estabelecer critérios para a seleção dos textos que comporiam o corpus documental da pesquisa. Decidimos que seriam consideradas as matérias de capa das últimas cinco edições publicadas em 2011, tendo em vista alguns aspectos que diferenciavam tais textos dos demais. As reportagens de capa do

Aurora da Rua são textos que exigem efetivamente o trabalho coletivo da equipe, pois as demais editorias se mostram mais isoladas na sua construção.11 Além da assinatura ‘texto coletivo’ que as caracteriza, as matérias de capa são resultado concreto das reuniões de pauta e das oficinas de texto (momentos de compartilhamento entre pessoas em situação de rua com os/as editores/as e colaboradores/as) e notoriamente destacadas como a etapa mais importante do jornal. Percebi, assim, que o Aurora da Rua se caracteriza pelo conteúdo sintético de informação, tendo a matéria de capa o diferencial de ser desenvolvida em duas páginas. Nas demais oito páginas totais do periódico, as seções são distribuídas de modo que apenas as seções ‘Diversos da rua’ e ‘Brilho da Aurora’ (as quais contêm entrevistas e perfis de atores sociais com trajetória de rua, respectivamente) ocupam uma página inteira; as demais (‘Editorial’, ‘Cartas da rua’ e ‘Código de conduta’; ‘Aurora notícias’ e ‘Deus na Rua’; ‘Arte Rua’ e ‘Tirinhas da Rua’ ‘dividem’ o espaço diagramático).

O corpus documental compreendeu, assim, as seguintes matérias de capa do jornal

Aurora da Rua:

Quadro 3.5 – Matérias de capa selecionadas para o corpus documental

11 No caso, em relação a um trabalho desenvolvido por partes do grupo; por exemplo, as jornalistas organizam e atuam nas entrevistas (‘Diversos da rua’), e as ilustrações (‘Tirinhas da Rua’) e os perfis de pessoas em situação de rua (‘Brilho da Aurora’) são realizados por colaboradores/as – com um ilustrador específico e um ator social em situação de rua, respectivamente.

Manchete Edição e mês de publicação

“Fonte de sobrevivência” Edição nº 24, de fevereiro/março de 2011

“Rua, o meu ambiente” Edição nº 25, de abril/maio de 2011

“Semeadores de Auroras” Edição nº 26, de junho/julho de 2011

“ESTOU em situação de rua” Edição nº 27, de agosto/setembro de 2011

Percebo que as matérias de capa da publicação de rua traziam a característica de aprofundamento de um tema, focalizando uma questão que se harmonizava com as outras seções do jornal – diferentemente daquelas que se encaixavam mais na proposta de notícia, ou seja, de cunho mais informativo. Posteriormente, constatei que as matérias de capa eram produto de procedimentos jornalísticos investigativos (como, por exemplo, o deslocamento até as fontes, fotografias originais etc.), o que as caracteriza como reportagens.

A distinção entre reportagem e notícia me parece interessante para entender o processo de produção da matéria de capa como aquele que demandava o maior esforço do grupo editorial – em segundo lugar vêm as entrevistas da seção ‘Brilho da Rua’. Percebo que, nas conceituações da teoria jornalística consultadas, a ideia de reportagem é de modo recorrente contraposta à de notícia, a qual é vista como “rompimento ou mudança na ocorrência normal dos fatos, pressupõe apresentação bem mais sintética e fragmentária” (LAGE, 2008, p. 113).

Os textos das matérias de capa foram o primeiro material a ser analisado com o arcabouço teórico-prático da ADC e das categorias emergentes indutivamente dos dados. Realizadas as análises do corpus documental, procedemos à segunda etapa do trabalho analítico, relativa ao material resultante do trabalho de campo. Após a gravação das interações em áudio, procedi às transcrições; em seguida, fiz três leituras do material registrado (uma mais superficial e duas às quais dediquei atenção especial). A primeira leitura foi para a revisão estrutural; na segunda leitura, observei os trechos que se reportavam de forma mais direta e esclarecedora à questão correspondente ao tópico lançado; na terceira leitura, fiz destaques dos trechos em cores diferentes, indicativas de cada questão. As marcações serviram para auxiliar a organização apresentada no Capítulo 5

Para encerrar este capítulo, observo que o desenho metodológico da pesquisa e sua implementação foram os maiores desafios para a investigação do protagonismo da pessoa em situação de rua no periódico Aurora da Rua. Posso mencionar que as dificuldades se dividiram, mormente, em dois momentos: o do desenho da pesquisa e o da implementação do que foi organizado, ou seja, a ida a campo. Explico. O primeiro momento, referente ao desenho de pesquisa, envolveu um processo (não tão tranquilo para mim) de revisão teórica, baseada nas discussões com a minha orientadora; essas primeiras interações focalizavam uma estruturação metodológica coerente que pudesse concretizar as reflexões epistemológicas. Essa triagem para o acesso aos dados necessários para a investigação das questões de pesquisa preencheu boa parte dos momentos iniciais da investigação. O segundo momento consolidou- se por dificuldades de outras naturezas, concentradas no movimento naturalmente complexo da passagem da teoria à prática. Apesar do auxílio desde o início por parte dos/as

colaboradores/as, acessar locais e situações de cunho tão pessoal e com eles/as gerar conhecimento útil socialmente sem a reprodução de uma conduta ‘extrativista’ foi, sem dúvida, uma atividade assaz complexa, mas inerente a pesquisas de atenção social.

Ciente de que, dados os objetivos da pesquisa e as estratégias para geração de dados, “os dados gerados em campo [por meio de entrevistas] serão úteis para a análise de representações da ação, da atividade material, das relações sociais, mas não para a análise da ação social em si” (RESENDE, 2008, p. 83, acréscimos meus), observo que eles assumem um aspecto complementar, mas importante para a proximidade com aspectos concretos da rede de práticas que compõem o objeto de pesquisa. Penso, assim, que ter estado no Aurora da Rua e, uma vez lá, ter negociado com os atores sociais partícipes do processo as estratégias criticamente discutidas, de fato contribuiu para a construção de um trabalho comprometido com a possibilidade de mudança social.