Refletir sobre epistemologia é uma atitude necessária para a coerência dos trabalhos que se propõem críticos. Para tratar da epistemologia, isto é, de questões a respeito de “como se considera possível gerar conhecimento acerca da realidade social pesquisada; (...) acerca da natureza do conhecimento”, no que tange “aos modos por meio dos quais a realidade social pode ser conhecida, ao que se considera como evidência ou conhecimento das coisas sociais” (RESENDE, 2008, p. 79), necessitamos voltar à ontologia das (redes de) práticas sobre as quais se deseja escrutinar.
O RC oferece uma proposta de observação do mundo social bastante produtiva para pesquisas em ADC, tendo em vista o entendimento da ontologia do mundo social e seus elementos fundamentais. Essa visão ontológica do mundo baseada na teoria crítico-realista entende a realidade social por meio de três estratos: o potencial, o realizado e o empírico. Como explica Resende (2009, pp. 20-21),
O domínio do potencial refere-se ao que quer que exista (...). O potencial refere-se também às estruturas internas e poderes causais dos elementos sociais, isto é, sua capacidade de se comportarem de maneiras particulares, suas tendências e suscetibilidades a certas mudanças. (...) Se o potencial refere-se às estruturas e poderes dos elementos sociais, o realizado refere-se “ao que acontece quando esses poderes são ativados (Sayer, 2000b: 10) (...). O empírico, por fim, é definido como o domínio da experiência, da observação – é aquilo que nós efetivamente observamos dos efeitos das estruturas, das potencialidades e das realizações.
Resende (2009) ainda explica que a proposta de estratificação atende à complexidade da realidade social, visto que não se pode atribuir exclusivamente aos atores sociais as ações diante do mundo social e seus resultados, ou seja, existe a presença de contingências estruturais que, de diversas maneiras, agem de forma patente nessas ações, regulando práticas e contribuindo para os resultados. As estruturas sociais ganham, nessa perspectiva, um enquadre realista, mas crítico, pois é por meio dos eventos sociais (do realizado) que a estrutura pode ser acessada e investigada, dado seu caráter mais tangível (do empírico), ainda que a “distinção entre os domínios do realizado e do empírico (...) impli[que] que nem tudo o que é concretizado em eventos é captado em nossa experiência” (RESENDE, 2009, p. 21): a visão ontológica do mundo engloba os domínios do potencial e do realizado.
O domínio empírico, por sua vez, é categoria epistemológica, que é apreendida como produto do entendimento do aspecto ontológico da realidade social com vistas à produção de conhecimento acerca da natureza do funcionamento do mundo social. Desse modo, pesquisas críticas devem ter alinhados os aspectos ontológicos e epistemológicos do objeto de investigação. Especificamente neste trabalho, que se volta ao estudo crítico do grau de protagonismo de pessoas em situação de rua no jornal Aurora da Rua, torna-se necessária a compreensão dos processos que contribuíram para as questões de vulnerabilidade e invisibilidade sociais relacionadas à população em situação de rua, bem como quais práticas ainda permanecem sustentando essa problemática. Em outras palavras, é uma discussão que leva em conta processos diacrônicos e sincrônicos (os quais têm forte influência no entendimento que se tem acerca do tema), e nisso a presença da reflexão epistemológica serve como aliada para a organização do que se apreendeu do funcionamento de tais processos. Esse conjunto de percepções contribui para a formatação das ações de pesquisa, em outras
palavras, do seu desenho. Assim, antes de selecionar os métodos, é necessário definir de forma clara a ontologia e a epistemologia em relação ao problema a ser investigado; por meio desse entendimento, digamos, ‘macro’ do problema, com vistas a uma metodologia eficiente, “um desenho de pesquisa deve ser produzido no início do processo” (MASON, 2002, p. 24).
Prosseguindo na discussão acerca da complexidade de realizar pesquisas que aliem as relações entre linguagem e sociedade e o seu posicionamento nas (redes de) práticas de modo a acessar o nível ontológico e construir uma epistemologia capaz de acessar esse conhecimento (RESENDE, 2009; RAMALHO & RESENDE, 2011), refleti sobre quais métodos seriam mais apropriados para investigar eventos que me permitissem acessar, em termos do diálogo com o RC, o domínio do empírico (que em conjunto com o potencial e o realizado conformam a realidade social). O objetivo de pensar a etapa de construção do
corpus etnográfico teve que ver com a intenção de desenvolver uma análise coerente da representação e da identificação discursivas dos atores sociais em situação de rua no projeto do Aurora da Rua, pois entendo que “em análises é possível reivindicar causas não observáveis (no domínio do potencial, dos poderes causais) para efeitos em eventos (no domínio do realizado) observados empiricamente (no domínio do empírico)” (RESENDE, 2008, p. 87). Desse modo, mais uma vez, podemos visualizar a necessidade de diálogo entre as perspectivas ontológica, epistemológica e metodológica.
Para o desenho de pesquisa – necessário para garantir a coerência das escolhas metodológicas –, foram estabelecidas algumas reflexões acerca da natureza e da aplicabilidade teórica e prática da investigação. As contribuições de Mason (2002) foram muito profícuas na medida em que a autora discute a necessidade de coerência entre as etapas de pesquisa. Quando das orientações de pesquisa, estudamos o texto da autora no sentido de localizar reflexivamente a pesquisa e estruturar as ações que seriam desenvolvidas. Nas leituras e discussões observei que, sendo a pesquisa qualitativa, o processo deveria, segundo a pesquisadora, pautar-se na reflexividade e no aspecto dialógico durante o decorrer das atividades planejadas.
Mason (2002) também chama a atenção para o cuidado na formulação de questões de pesquisa. De acordo com a autora, as questões de pesquisa orientam, por meio da compreensão ontológica, as decisões epistemológicas que norteiam a pesquisa. Como explicam Ramalho e Resende (2011, p. 78), “as respostas às questões epistemológicas precisam ser coerentes com a definição ontológica, e os dois conjuntos de respostas devem ser consistentes”. Assim, as questões de pesquisa são de fundamental importância para pesquisas reflexivas acerca de questões do mundo social, pois, por definirem os métodos selecionados,
“são como uma porta para o campo de pesquisa em estudo. Se as atividades empíricas produzirão ou não respostas, isso dependerá da formulação dessas questões” (FLICK, 2009b, p. 106). Mason (2002, p. 27), na justificação da importância da formulação das questões de pesquisa visando à coerência metodológica, explica que a elaboração reflexiva das questões de pesquisa
ajudará você a começar o processo de fazer escolhas de método e fonte de dados. Isso o/a ajudará a destacar e a eliminar inconsistências relativas, por exemplo, ao que você considera que um método particular pode produzir e que tipos de dados você acha que precisará gerar para acessar as suas questões de pesquisa.
A visita de campo destacou-se como possibilidade de colocar em prática o elaborado nas discussões epistemológicas, pois a observação de como as relações entre atores sociais em situação de rua e as jornalistas envolvidas na produção se dava poderia oferecer uma ótica além da que seria obtida pela análise discursiva dos textos; desse modo, “a necessidade de se ter clara a diferença entre ação e representação de ação em pesquisas discursivas” (RESENDE, 2008, p. 136) também aponta para a necessidade das duas dimensões complementares para um acesso mais amplo da realidade social pesquisada.
As questões de pesquisa foram utilizadas para aliar as duas etapas da pesquisa (documental e trabalho de campo), além de organizar e averiguar sua coerência relacional. As discussões relativas às necessárias relações entre questões de pesquisa, ontologia, epistemologia e metodologia, propostas por Mason (2002) para a pesquisa qualitativa de modo geral e retomadas por Resende (2008) em reflexão específica para a ADC, serviram para esse fim. Assim, foi organizado o planejamento da pesquisa com as questões que a fundamentariam, bem como os critérios para a pesquisa de campo, emergidos, aliás, por meio da sistematização das perspectivas ontológica, epistemológica e metodológica que orientaram a investigação. Para nortear pesquisas qualitativas, Flick (2009a; 2009b) sugere o desenvolvimento de recursos que reforcem o aspecto dialógico característico da pesquisa qualitativa; segundo ele, é decisivo para o sucesso de um projeto ter perguntas de pesquisa claras e formuladas explicitamente, capazes de nortear a coleta/ geração de dados, sua análise e, ainda mais, a decisão do que é menos importante e deve ser deixado de fora do escopo do projeto, garantindo seu foco.
Com as questões de pesquisa definidas, intentamos dar conta de uma sistematização dos componentes ontológicos que orientariam este trabalho: representações, identificações, práticas e relações sociais. O foco desta investigação foi localizado na observação crítica da presença ou da ausência do protagonismo nas práticas de produção do jornal, e, em caso de
sua existência, se haveria a tensão com o discurso do assistencialismo e/ou fatalismo. O trabalho de campo foi fundamental para a investigação dessas questões nas práticas mesmas da publicação, para além da investigação de sua representação discursiva por meio da análise dos dados documentais. A seguir, apresento as questões que orientaram a realização da pesquisa:
Quadro 3.1 – Questões de pesquisa QUESTÕES DE PESQUISA
1. A representação de atores sociais em situação de rua nos textos publicados no jornal materializa o discurso protagonista ou o discurso assistencialista ou ambos?
2. Como são construídas discursivamente as identidades desses atores sociais?
3. De que forma, nos textos selecionados, identificam-se as pessoas em situação de rua e os/as jornalistas envolvidos/as na produção do jornal Aurora da Rua?
4. Os atores sociais em situação de rua exercem papel protagonista na construção do jornal Aurora da
Rua?
Tendo orientado o método para acessar as representações sobre a situação de rua presentes nos textos selecionados (ver Seção 3.4) e as representações e (auto)identificações dos atores sociais envolvidos na produção do Aurora da Rua nos dados de campo, a pesquisa assumiu contorno explicitado no Quadro 3.2:
Quadro 3.2 – Relações resultantes da reflexão epistemológica ETAPAS DA PESQUISA DIMENSÕES DA PESQUISA QUESTÕES DE PESQUISA COMPONENTES ONTOLÓGICOS MÉTODOS E FONTES ANÁLISE DOCUMENTAL Representação e identificação no ‘street paper’ Aurora
da Rua: análise discursiva crítica de matérias de capa
A representação de atores sociais em situação de rua nos textos publicados no jornal materializa o discurso protagonista ou o discurso
assistencialista ou ambos? Discursos, (auto)identificações discursivas Análise linguístico- discursiva de cinco matérias de capa do Aurora da Rua
De que forma, nos textos selecionados, identificam-se as pessoas em situação de rua e os/as jornalistas envolvidos/as na produção do jornal Aurora
da Rua? Análise linguístico- discursiva de cinco matérias de capa do Aurora da Rua TRABALHO DE CAMPO Representação e (auto)identificação dos atores sociais envolvidos no processo de construção do ‘street
paper’ Aurora da
Rua: vozes dos/as vendedores/as/colabor adores/as e dos/as editores/as
Como são construídas discursivamente as identidades desses atores sociais quando representam sua atuação junto à publicação? (Auto)Identificações e representações discursivas de ações, práticas e relações sociais Grupos focais e entrevistas focalizadas com pessoas em situação de rua e jornalistas que participam do processo nas Práticas e relações sociais nos processos de produção do ‘street
paper’ Aurora da Rua
Atores sociais em situação de rua exercem papel protagonista na construção do jornal Aurora
da Rua?
Ação social, atividades materiais, (redes de) práticas e relações sociais Observação participante, notas de campo oriundas da visita de campo à redação do Aurora da Rua
(Baseado no quadro apresentado em Resende, 2009, pp. 66-7.)
Enfim, o que deve ser observado de modo atento é a coerência da investigação pretendida. Quero dizer, juntamente com Resende (2007; 2009), que um quadro epistemológico bem estruturado – decorrente do efetivo entendimento ontológico – favorece uma metodologia produtiva, harmonizada efetivamente com os objetivos de pesquisa (perseguidos por meio de determinadas estratégias, dos métodos selecionados para se chegar ao fim pretendido). Sobre métodos tratarei na seção que segue.