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Machine learning methods

2.2 Machine learning

2.2.1 Machine learning methods

M. T. Antunes1, 2, A. V. Mazo3 e P. Legoinha2

1 Academia das Ciências de Lisboa, R. da Academia das Ciências, 19, 1249-122 Lisboa. [email protected]

2 CICEGe, Dep. Ciências da Terra, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Uiversidade Nova de Lisboa, 2829-516 Caparica. Portugal. [email protected]

3 Museo Nacional de Ciencias Naturales (CSIC), José Gutiérrez Abascal, 2, 28006 Madrid. Espanha. [email protected]

Resumo: O achado de um dente de mastodonte, cf. Tetralophodon longirostris, em depósitos marinhos expostos na praia de Penedo Norte, na Península de Setúbal, permitiu datação rigorosa. Provém da camada 8 do corte, parte basal da sequência deposicional T1; data do início do Tortoniano, ca. de 11.6 Ma, com base em foraminíferos planctónicos (zona N14) e em 87Sr/86Sr e K/Ar. O dente de mastodonte parece pertencer a Tetralophodon longirostris, espécie conhecida em Portugal em depósitos continentais da primeira parte do Miocénico superior.

Palavras-chave: Mastodonte, depósitos marinhos, Tortoniano, Miocénico superior, Portugal.

Abstract: A mastodon tooth (cf. Tetralophodon longirostris) was collected in marine deposits exposed at

Penedo Norte beach section in the Setúbal Peninsula. This finding allowed its accurate dating. It was found in bed 8 of this section, T1 depositional sequence that dates from basal Tortonian, ca. 11.6 Ma after N14 planctonic forams and 87Sr/86Sr and K/Ar ages. The concerned tooth seems to belong to

Tetralophodon longirostris, a species already known in Portugal in continental deposits from the first part of Upper Miocene.

Key-words: Mastodon, marine deposits, Tortonian, Upper Miocene, Portugal.

INTRODUÇÃO

Em Março de 2010, o Sr. José Vicente Ventura, a quem muito agradecemos, ofereceu a M.T.A. um fóssil por ele recolhido havia uns 5 anos (ca. de 2005) num bloco caído no sopé da arriba da Praia do Penedo Norte, a Norte do Cabo Espichel, na Península de Setúbal.

Provinha de meia-encosta. Segundo disse José Ventura, o resto do bloco terá entretanto sido destruído pelo mar.

Exame preliminar mostrou que se tratava de um fragmento de dente de mastodonte. A julgar por restos de ganga de areia fina, cinzenta, um tanto consolidada, podem ser estas as características essenciais do depósito fossilífero.

Nas imediações da praia estão expostas camadas sedimentares, quase invariavelmente marinhas, do Miocénico e do Pliocénico. Enquadram-se na parte sudoeste da região vestibular da Bacia do Tejo (Lisboa e Península de Setúbal).

A série é conhecida na totalidade. Não seria tecnicamente possível conseguir melhores datações, dadas conjuntamente por foraminíferos planctónicos e por isótopos (Sr, K-Ar). Ainda que restos de mamíferos terrestres tenham sido obtidos, a sua ocorrência é verdadeiramente excepcional.

Pela peça, em si e pelo que representa, e pela possibilidade ímpar de chegar a uma datação particularmente rigorosa, o seu estudo foi considerado prioritário. Estamos, também, perante uma rara oportunidade de aproximar escalas cronostratigráficas marinhas e continentais.

ENQUADRAMENTO ESTRATIGRÁFICO E CRONOLÓGICO

A ocorrência do fóssil situa-se no afloramento exposto na praia do Penedo Norte. O fóssil foi extraído de um arenito de grão médio, conglomerático, rico de glauconite e com fragmentos de crostas fosfáticas. Deu fósseis, entre os quais pectinídeos, equinídeos, restos de peixes e ossos de cetáceos. Provavelmente, corresponde a um nível de condensação relacionado com uma elevação do nível do mar (Fig. 1, camada 8). A idade 87Sr/86Sr determinada a partir de uma concha pectinídeo desta mesma camada é de 11.5 a 13 Ma, enquanto que a idade radiométrica K/Ar da glauconite da camada 9 (Fig. 1) foi de 10.95±0.25 Ma. As margas imediatamente sobrepostas (Fig. 1, camada 10) contêm

Globorotalia cf. menardii, G. mayeri,

Neogloboquadrina continuosa, Globorotalia scitula, Globigerina druryi. Não foi encontrado

Globigerinoides subquadratus. Aquela associação foi

correlacionada com N14 (Legoinha, 2001).

FIGURA 1. Corte do Penedo Norte: biostratigrafia de

foraminíferos planctónicos, sequências deposicionais e datações (in Legoinha 2008).

Estas camadas constituem a parte basal da sequência deposicional T1 (vide Figura 4, in Legoinha, 2008) da Bacia do Baixo Tejo (Antunes et al., 2000; Legoinha, 2001; Legoinha, 2008). Mais acima, a sequência é constituída por areias argilosas finas, micáceas, com níveis de concreções carbonatadas; deu uma associação de foraminíferos planctónicos atribuída a N15. Conjugando os dados biostratigráficos referentes aos foraminíferos planctónicos com datações isotópicas, a sequência deposicional T1 tem início em N14 (Tortoniano inferior, 11,6 Ma; ICS 2009) e atinge N15. Pode, deste modo, ser correlacionada com a elevação do nível do mar e o máximo eustático do ciclo de 3ª ordem TB3.1.

Na região de Lisboa, a sequência deposicional T1 engloba as unidades litostratigráficas VIc e VIIa (Cotter, 1956). Começa por biocalcarenitos grosseiros

ricos de moluscos de grande tamanho (VIc), que passam a arenitos amarelados finos (VIIa). A idade isotópica 87Sr/86Sr de uma concha de pectinídeo proveniente de biocalcarenitos da unidade VIc é de 11.6 (+2, - 0.6) Ma (Legoinha, 2001). Esta sequência sobrepõe-se em disconformidade a arenitos fluviais/deltaicos (unidade litostratigráfica VIb) datada do Serravalliano, relacionados com a fase regressiva da prévia sequência deposicional S2 (vide Figura 4, in Cunha et al., 2009).

Em suma, a idade do dente de mastodonte é, muito aproximadamente, de uns 11.6 Ma, início do Tortoniano.

DENTE DE MASTODONTE

A peça (Figs. 2, 3 e 4) é aproximadamente a metade distal de um molar inferior esquerdo, presumivelmente o 2º (menos provavelmente o 1º). Conserva a coroa, com ténues vestígios de abrasão no ponto mais elevado do penúltimo lófido. As raízes não estariam completamente formadas, o que deve ter contribuído para a sua perda. Pertenceu a um indivíduo que morreu antes da plena maturidade.

A peça revela abundância de cemento, o que não condiz com as observações no numeroso material de Lisboa, mais antigo (fins do Miocénico inferior aos primeiros tempos do Miocénico médio), onde o cemento ocorre, em bastantes casos, em dentes com acentuados vestígios de uso - mas é escasso. Contudo, a presença de cemento deve ser avaliada com prudência, pois pode verificar-se em bastantes G.

angustidens, ainda que não seja uma característica

geral desta espécie.

Acresce que a altura dos elementos da coroa excede nitidamente a dos homólogos dos Gomphotherium de Lisboa. Por tudo isto e pela maior separação do talão relativamente ao último lófido, e deste para o penúltimo, parece representar uma forma mais evolucionada e mais moderna que as homólogas de Lisboa; portanto, de idade post-Langhiano, se apenas considerássemos os caracteres do dente, mas é óbvio que dispomos de melhor informação cronológica (ver acima).

Para a sua identificação foi tida em conta a morfologia das colinas do molar, com tubérculos bunodontes bastante elevados e distanciados entre si, bem como o grau de individualização e a altura do talão. Quanto às dimensões, foi comparada a largura do fragmento, que corresponde à largura máxima do dente, com as larguras máximas dos M2 inferiores de

Gomphotherium angustidens do Langhiano Vb (dados

de A. Mazo), já que não dispomos em Portugal de dados acerca deste taxon de idades mais recentes. Verifica-se que a largura do molar de Penedo é significativamente maior que a largura média desta população (61,5 mm, n=38).

FIGURA 2. Fragmento (cerca da metade distal) de 2º (1º?) molar inferior esquerdo de mastodonte, sem raízes conservadas nem vestígios evidentes de abrasão: cf. Tetralophodon longirostris, vista oclusal. Praia do Penedo Norte (Península de Setúbal), camada 8 do corte, base do Tortoniano, sequência deposicional T1, aproximadamente 11.6 Ma.

FIGURA 3. Idem, idem, vista externa (labial). Notar

a altura dos lófidos (penúltimo e último) e do talão.

FIGURA 4. Idem, idem, vista interna (lingual).

Cemento em quantidade importante.

Seria tentador estabelecer comparações com um M2 inferior proveniente de um nível mais elevado da série em Lisboa, o “Helveciano” VIc, colhido outrora a SW da Pirâmide do

Desterro, na Quinta de Vale Formoso; o seu comprimento é de 125.2 mm, a largura de 64.2 mm e a altura, reduzida por desgaste médio, de 42.2 mm. No entanto, um de nós (M.T.A) verificou a presença de vestígios de ganga de biocalcarenito marinho, pelo que parece tratar- se tão só de um fóssil re-depositado, proveniente certamente de antigos afloramentos do Vb. É, portanto, mais antigo do que o depósito, e sem significado em termos de comparação com o mastodonte do Penedo, cuja idade é sensivelmente a mesma do VIc.

Esta largura também foi comparada com a dos M2 de Gomphotherium angustidens (Cuvier

1825) e Tetralophodon longirostris (Kaup 1835) do Miocénico médio (biozonas MN5 a MN 7/8) e do princípio do Miocénico superior (biozona MN 9) de Espanha (dados de A. Mazo), o que parece permitir atribuir a T.

longirostris o dente de Penedo.

Em Portugal, Tetralophodon longirostris foi identificado com segurança (Antunes e Mazo, 1983) em Carvalhal Novo (níveis médio e superior de Azambujeira), Valverde (perto de Azambuja) e Vale de Matança (Zbyszewski, 1951). Incisivos inferiores de grande tamanho, recuperados em Portas do Sol (Santarém) e atribuídos por Zbyszewski a T. longirostris,

estariam provavelmente relacionados, segundo Antunes e Mazo (1983), com os que Schlesinger denominou “Mastodon grandincisivus”.

CONCLUSÕES

Pela 1ª vez foi encontrado um resto de mastodonte em depósitos marinhos da Bacia do Baixo Tejo, na área da Península de Setúbal (camada 8 do Corte do Penedo Norte, parte basal da sequência deposicional T1), o que permite datação rigorosa.

Os depósitos em causa estão datados do início do Tortoniano, ca. de 11.6 Ma, com base em foraminíferos planctónicos (N14) e datações

87

Sr/86Sr e K/Ar.

O dente de mastodonte é reconhecido como cf. Tetralophodon longirostris, espécie já conhecida em Portugal em depósitos continentais da primeira parte do Miocénico superior.

AGRADECIMENTOS

Proyecto “Respuesta al cambio climático: evolución ecología y biogeografía de artiodáctilos y proboscideos durante el óptimo climático y crisis del Aragoniense y Vallesiense”. Ministerio de Educación y

Ciencia, España, dirigido por J. van der Made./ Museo Nacional de Ciencias Naturales (A. Mazo).

REFERÊNCIAS

Antunes, M.T., Legoinha, P., Cunha, P. e Pais, J. (2000): High resolution stratigraphy and Miocene facies correlation in Lisbon and Setúbal Peninsula (Lower Tagus basin, Portugal). Ciências da Terra (UNL), 14: 183-190.

http://www.cienciasdaterra.com/index.php/ vol/article/view/197

Antunes, M. T. e Mazo, A. V. (1983): Quelques mastodontes miocènes du Portugal.

Ciências da Terra (UNL), Lisboa, 7: 115-

128.

http://www.cienciasdaterra.com/index.php/ vol/article/view/86

Cotter, J.B. (1956): O Miocénico marinho de Lisboa. Com. Serv. Geol. Portugal, Lisboa, XXXVI: 1-170.

Cunha, P. P., Pais, J. e Legoinha, P. (2009): Evolução geológica de Portugal continental durante o Cenozóico - sedimentação aluvial e marinha numa margem continental passiva (Ibéria ocidental). En: 6º Simposio

sobre el Margen Ibérico Atlántico MIA09:

xi-xx, Oviedo.

http://run.unl.pt/handle/10362/2351

Legoinha, P. (2001): Biostratigrafia de foraminíferos do Miocénico de Portugal (Bacia do Baixo Tejo e Algarve). Tesis

Doctoral, Univ. Nova de Lisboa, 238 pp.

http://run.unl.pt/handle/10362/1865

Legoinha, P. (2008): The Serravallian-Tortonian boundary in the Lower Tagus Basin (Portugal) and the new GSSP of the Tortonian Stage. e-Terra, 6 (1): 10 p.

http://metododirecto.pt/ojs/index.php/e- terra

Zbyszewski, G. (1951): «Tetralophodon

longirostris» de Vale de Matança (Alcácer

do Sal). Comunicações dos Serviços

Geológicos de Portugal, Lisboa, XXXII, 1ª

Los macromamíferos del yacimiento del Pleistoceno Superior de Prado Vargas