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In document M a r e og Romsdal (sider 42-45)

É necessário analisar a qualidade das relações que compõem as redes construídas por homens e mulheres. Podemos ponderar que, apesar da maioria das pessoas entrevistadas manter um relacionamento afetivo com alguém e um compromisso de parceria que estamos chamando de casamento, isto não quer dizer que necessariamente as pessoas não prefiram ou desejem um relacionamento descompromissado, sem as obrigações, responsabilidades, divisões e trocas materiais e subjetivas que requer uma relação estável entre duas pessoas; ou seja, têm a rede, mas é de má qualidade.

Uma dimensão indicadora de qualidade é como a conjugalidade se configura. A análise dos discursos dos participantes em relação ao tempo e significado das relações de

conjugalidade levou-nos à construção de três indicadores: Construção, Proximidade e Estabilidade Conjugal.

Esses indicadores foram construídos pela articulação dos discursos com a literatura do ciclo de vida da família (LOPES, 2008; TEVES, 2008; FORTUNATO, 2009). A fase da formação do casal, período que corresponde à criação de uma nova família uma vez que o casal vai diferenciar-se, criando uma autonomia e identidade próprias, sem contudo perder a continuidade relativa às gerações anteriores, é a fase de construção da relação conjugal.

O indicador proximidade conjugal corresponde à fase de construção da intimidade do casal, que se caracteriza pelo apoio emocional (que se refere à preocupação, validação e suporte mútuos), confiança (que pressupõe uma visão positiva do parceiro e da relação, e também expectativas positivas quanto ao futuro da relação), mutualidade (diz respeito à história de vida, sentimentos, pensamentos e comportamentos conjuntos realizados pelo casal) e equilíbrio entre pertença e autonomia e sexualidade. Esta é a etapa de consolidação da relação.

A maturidade emocional do casal, que ocorre após o investimento na relação, acompanhada de um aumento da satisfação conjugal, das interações sexuais e da partilha de interesses e atividades, caracteriza a estabilidade conjugal.

Tabela 11 – Distribuição em % segundo sexo e tempo de relação estável.

Sexo/Tempo Rel. Estável Construção da relação conjugal Proximidade conjugal Estabilidade conjugal TOTAL Feminino 50,0% 36,7% 13,3% 100% Masculino 47,8% 30,4% 21,7% 100% TOTAL 49,1% 34,0% 17,0% 100%

Conforme a tabela 11, a maioria dos participantes da pesquisa se encontra na fase de construção da relação conjugal, é casada, é jovem adulto ou adulto, tem filhos e uma rede de apoio social média. Até agora nenhum dado significativo diferenciou os homens e as mulheres no aspecto da construção da rede de apoio social.

A partir dos discursos sobre o significado de família foram construídos os seguintes indicadores/ temas: estrutura da família (boa ou limitada), conjugalidade (boa ou limitada) e filiação (boa ou limitada).

Tabela 12 – Distribuição em % segundo sexo e significado de família (1ª.opinião).

Sexo/Signif. Família Estrut. Boa Estrut. Limitada Conjug. Boa Conjug. Limitada Filiação Boa Filiação Limitada TOTAL Feminino 75,0% 11,5% 1,9% 1,9% 5,8% 3,9% 100% Masculino 89,3% 7,1% 0,0% 3,6% 0,0% 0,0% 100% TOTAL 80,0% 10,0% 1,3% 2,5% 3,8% 2,5% 100%

Tabela 13 – Distribuição em % segundo sexo e significado das relações familiares (2ª. opinião).

Sexo/Relações

Familiares Estrut. Boa LimitadaEstrut. Limitada Conjug. Filiação Boa LimitadaFiliação TOTAL

Feminino 6,3% 46,9% 3,1% 37,5% 6,3% 100%

Masculino 0,0% 70,0% 0,0% 20,0% 10,0% 100%

TOTAL 4,8% 52,4% 2,4% 33,3% 7,1% 100%

As tabelas 12 e 13 mostram o significado de família e das relações familiares. Em uma visão geral, como um primeiro discurso, o significado da família como estrutura social básica é apontado como bom para homens e mulheres, com conjugalidade limitada; as mulheres citam ainda a filiação como algo bom (tabela 12). Analisando mais profundamente os discursos sobre o significado das relações familiares (na tentativa de ir além do discurso oficial), notamos diferenças nas falas de homens e mulheres (tabela 13). O significado de família como estrutura social continua aparecendo como é bom ter família e as relações de conjugalidade continuam limitadas, mas o que diferencia os homens das mulheres é a filiação. As mulheres consideram boas as relações filiais e os homens quase não citam ou não consideram os filhos em seus discursos. Esta diferença pode estar associada aos papéis desempenhados pela mulher com sua prole (cuidado, proteção e educação), determinados como função social do gênero feminino.

Vale lembrar que o filho é o agente fundador da família. Socialmente, a família só passa a existir quando nasce o filho do casal, refletindo a identidade social da família. Os comportamentos de vinculação nos adultos, quer na vinculação amorosa quer na vinculação aos filhos, são modelos construídos, laços de proximidade e/ou vínculo emocional que se baseiam em dar e receber apoio, em geral conforme os ditames de cada grupo social.

Analisando os discursos referentes a uma conjugalidade limitada, eles podem estar associados ao fato da maioria dos participantes encontrar-se em uma etapa de construção da relação conjugal, daí as dificuldades próprias desse momento de vida que, associadas ao nascimento de filhos, podem tornar a filiação e a construção da parentalidade o foco principal da vida das mulheres, seguindo os ditames sociais para o gênero feminino. Por outro lado, o dado da filiação limitada vem ao encontro de alguns estudos sobre a transição para a parentalidade, demonstrando que ela causa uma diminuição na satisfação conjugal, pois a criança torna-se um foco de esforço por parte dos pais, diante das exigentes funções dos papéis da paternidade e maternidade “perfeitas”.

Tabela 14 – Distribuição em % segundo etapa do ciclo vital e com quem conversa sobre sentimentos (1ª

escolha).

Idade/Com quem conversa sobre Sentimentos Relação de iguais Relação entre gerações

Ninguém Deus TOTAL

Juventude 40,0% 60,0% 0,0% 0,0% 100%

Jovem adulto 50,0% 8,3% 35,4% 6,3% 100%

Adulto 54,8% 11,9% 28,6% 4,8% 100%

Idoso 42,9% 28,6% 14,3% 14,3% 100%

TOTAL 51,0% 13,7% 29,4% 5,9% 100%

Tabela 15 – Distribuição em % segundo sexo e com quem conversa sobre sentimentos (1ª escolha).

Sexo/Com quem conversa sobre Sentimentos Relação de iguais Relação entre gerações

Ninguém Deus TOTAL

Feminino 54,3% 12,9% 25,7% 7,1% 100%

Masculino 43,8% 15,6% 37,5% 3,1% 100%

TOTAL 51,0% 13,7% 29,4% 5,9% 100%

As tabelas 14 e 15 mostram as escolhas para conversar sobre sentimentos. Na juventude (60%) as pessoas escolhidas são aquelas que representam diferentes gerações (pais, filhos ou avós). As outras faixas etárias conversam com as pessoas que indicam uma relação entre iguais, portanto sem assimetria afetiva (companheiro afetivo, irmãos, amigos). No entanto, é significativo o número de pessoas (35% e 28%) que preferem não conversar com ninguém, indicando uma rede de apoio com baixa troca afetiva. Analisando as escolhas entre “quem conversar” com “sexo”, não há diferenças marcantes entre homens e mulheres; permanecem, portanto, as escolhas de pessoas que mantêm relações de igualdade, seguidas de “ninguém”.

Somente 5,9% das pessoas apontam Deus como uma opção para conversar, o que pode se caracterizar como um aspecto importante a ser analisado se comparado ao tamanho da rede de apoio social e ao estado de saúde física e mental. A literatura aponta a religiosidade como um fator que promove o enfrentamento em situações adversas. Talvez a baixa escolha deva-se à condição de se perceberem saudáveis no momento da entrevista. Visto que mais de 50% dos participantes da pesquisa referiram ter alguma religião, entendemos que essa questão deve ser mais bem investigada, pois o sentimento de pertencimento a uma crença religiosa e aos códigos compartilhados nessa esfera, o fato de estarem inseridos em uma denominação religiosa e de acreditarem na proteção e orientação divina, confere-lhes maior autoconfiança na condução de suas ações, no sentimento de pertencimento a uma rede social e em uma visão ampliada de saúde, que incorpora outras dimensões da existência e significado social.

Outra dimensão analisada como indicador da qualidade da rede referiu-se ao cuidador em situações de mal-estar e/ou adoecimento. As categorias construídas foram: família, vizinho, eu mesmo e ninguém.

Tabela 16 – Distribuição em % segundo sexo e cuidador do mal-estar.

Sexo/Cuidador do mal-estar

Família Ninguém Vizinho Eu mesmo TOTAL

Feminino 52,9% 38,6% 5,7% 2,9% 100%

Masculino 62,5% 31,3% 0,0% 6,3% 100%

TOTAL 55,9% 36,3% 3,9% 3,9% 100%

Na tabela 16 aparece a família como o primeiro cuidador da pessoa em situação de mal-estar ou doença: 52,9% das mulheres e 62,5% dos homens, seguido de ninguém (38,6% mulheres e 31,3% homens). É interessante analisar o significado de dizer que ninguém

cuidaria de mim. O processo de não se perceber como cuidador de si está presente nesta fala (que contrasta com as poucas falas de eu cuidador de mim). Esta percepção de cisão entre ações de autocuidado e consciência do cuidado de si precisa ser tratada nos serviços de saúde e nas ações de promoção de saúde.

Por conseguinte, entendemos que os homens e as mulheres constroem redes de apoio social com laços de proximidade e/ou vínculo emocional com poucas diferenças. A variação está na filiação, compondo a rede das mulheres e não dos homens; e nos homens percebendo- se mais como cuidadores de si do que as mulheres. Contudo, é preciso cuidado neste aspecto pois, apesar de existirem diferenças entre homens e mulheres, elas não são significativas. Na

composição da rede de apoio, a família formada por duas a quatro pessoas, pessoas de contato cotidiano no ambiente profissional e os familiares (cônjuges e/ou pais) são as pessoas de referência afetiva para conversar e oferecer cuidado, quando necessário.

Em seguida apresentaremos os dados que respondem à segunda questão norteadora:

homens e mulheres constroem itinerários terapêuticos de maneiras distintas?

In document M a r e og Romsdal (sider 42-45)