1) Quais as dimensões da rede de apoio social utilizadas por homens e mulheres? 2) Homens e mulheres constroem redes de apoio social com laços de proximidade
e/ou vínculo emocional distintos?
3) Homens e mulheres têm e/ou constroem itinerários terapêuticos de maneiras distintas?
4) Homens e mulheres cuidam de si mesmos de maneiras distintas? 5) Homens e mulheres cuidam de outras pessoas de maneiras distintas? 4.3 Metodologia
Figura 9 – Mapa das cidades que compõem a Baixada Santista – SP, identificando os locais de coleta de dados da pesquisa.
Com o intuito de abarcar a diversidade necessária de participantes em busca de respostas aos objetivos deste trabalho, selecionamos vários locais de coleta, como descritos a seguir:
Unidade Saúde da Família do Jardim Castelo (USF), Zona Noroeste – cidade de Santos, SP (Anexo D);
Local Público (praça, praia, salão de beleza, banca de jornal, restaurante etc.) – cidades: Santos e Guarujá. Decidiu-se sair do território da unidade de saúde por ser um local feminilizado22 e que segue o horário de abertura e fechamento preconizado pelos órgãos locais, o que o torna um impeditivo de frequência masculina; como as relações de gênero estão inseridas nos objetivos do estudo, optou-se por coletar sujeitos em locais públicos;
Internet – questionário com questões abertas e fechadas com moradores das cidades que compõem a Baixada Santista. A fim de ampliar a participação masculina na pesquisa, buscou-se parceria com um comércio local que conta com grande número de funcionários homens. O contato e consequente convite para participação foi feito
on line.
Locus de Coleta
A abordagem de situações “proibidas” ou segredos foi uma constante nas entrevistas na Unidade de Saúde da Família, pois as pessoas moram muito próximas da unidade –
22
[...] A organização dos serviços de saúde por meio deste enfoque reforça a ideia de que as mulheres dominam os códigos desse espaço, provocando nos homens usuários a sensação de não pertencimento (MACHIN et al., 2011).
algumas são vizinhas, muitas são parentes, os Agentes Comunitários de Saúde frequentam suas casas, sabem de suas vidas e às vezes conhecem até mesmo detalhes que os entrevistados não gostariam que soubessem. As crianças correm pela unidade, brincam no bebedouro. Faz muito calor “do lado de fora”, e como a Unidade de Saúde da Família é bem nova e tem ar condicionado, trata-se praticamente de um “luxo” em uma cidade praiana tão quente. Em vista disso, a pesquisadora cuidou de criar um ambiente de acolhimento dialógico que evitasse constrangimentos.
Participantes
Critérios de Inclusão:
Domicílio em algum município da Baixada Santista;
Homens e mulheres com idades a partir de 14 anos, segundo determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
O total de participantes da pesquisa foi de 102 usuários do Sistema Público e Privado de Saúde, residentes da Baixada Santista – SP, sendo 69 mulheres e 33 homens. A composição da amostra será descrita no capítulo Resultados.
Instrumentos
Questionário sobre dados sociodemográficos: local da entrevista, usuário de qual equipamento de saúde, cidade, bairro, sexo, idade, escolaridade, profissão e renda; Entrevista semiestruturada (questões abertas e fechadas) como um pré-teste;
Roteiro de Entrevista contendo questões abertas e fechadas para Usuários do Sistema Público de Saúde (ANEXOS E e F), dividido em quatro partes, objetivando:
‒ investigar os entrelaçamentos das vivências das relações familiares em contextos específicos (situações de saúde/ doença) – Rede de Apoio Social;
‒ investigar o processo de busca do usuário até o sistema de saúde local – Itinerários Terapêuticos;
‒ investigar a Prevenção de Doenças e a Promoção de Saúde ou Autocuidado; ‒ investigar a relação do usuário com a Unidade de Saúde Pública que ele e seus
familiares frequentam.
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE individual (ANEXO G); Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE grupal (ANEXO H). As entrevistas podem ser vistas como conversas com finalidade e se caracterizam pela forma de organização. Neste estudo utilizamos a entrevista semiestruturada, que combina perguntas abertas e fechadas, em que o entrevistado tem a possibilidade de discorrer sobre o tema em questão sem se prender à indagação formulada. A entrevista semiestruturada fornece dados que constituem uma representação da realidade: ideias, crenças, maneira de pensar; opiniões, sentimentos, modos de sentir; maneiras de atuar; condutas; projeções para o futuro; razões conscientes ou inconscientes de determinadas atitudes e comportamentos (MINAYO, 2007, p. 263)
Procedimentos de coleta
O desenrolar do trabalho de coleta envolveu diferentes etapas e atores ao longo do processo:
a) pactuação com a Secretaria Municipal de Saúde de Santos: após planejamento da pesquisa fez-se o encaminhamento necessário para cumprimento das obrigações éticas com a universidade e com a prefeitura do município. Foi obtida a aprovação institucional e o consentimento para início da coleta de dados, tendo a Secretaria indicado a Unidade Básica de Saúde/UEF que estaria disponível para participação; b) fase exploratória: visita à Unidade de Saúde indicada pela Secretaria Municipal de
Saúde de Santos e familiarização da pesquisadora com local e atores. Esta etapa envolveu imersão em campo por meio de observação etnográfica;
c) pré-teste: necessário à adequação do instrumento de coleta de dados, que não havia sido aplicado anteriormente em populações. O roteiro de entrevista abarcava um número muito grande de questões que, embora parecessem desgastantes aos respondentes, revelaram-se muito instigantes aos olhos dos pesquisadores, e por isso difíceis de ser descartadas;
d) reelaboração do roteiro de entrevista: após o pré-teste, sentiu-se necessidade de reformular as questões; algumas foram retiradas por serem repetitivas ou não
estimulantes, ou mesmo por não estarem de acordo com o objetivo proposto. Esta etapa exigiu um retorno aos fundamentos teóricos da psicologia sócio-histórica para questionamento das ideias evidenciadas anteriormente e reformulação das questões. A pesquisadora construiu, então, uma nova aproximação com o objeto (proveniente da fase exploratória), que foi negado mas não excluído, encontrou outros limites e elaborou novas perspectivas.
e) etapas da coleta:
‒ entrevistas presenciais: os dias de coleta foram aleatórios, circunstanciais e ocasionais. A pesquisadora fez contatos diretos, verbais e informais, com pessoas que estavam na Unidade de Saúde da Família ou em situação de trabalho, descanso ou lazer. Os presentes eram convidados a participar e, em caso positivo, assinavam o TCLE, iniciando-se então o processo dialógico a partir do roteiro de entrevista. As entrevistas presenciais eram gravadas em áudio;
‒ questionários on line: foi feito um primeiro contato via e-mail com os proprietários de uma concessionária de motos da Baixada Santista, para explicação dos objetivos da pesquisa e do critério de escolha da empresa, que foi o de contar com funcionários homens e mulheres maiores de 18 anos, usuários do Sistema Público e Privado de Saúde, moradores das várias cidades que compõem a Baixada Santista e que não estavam em condição de doença (visto que estavam trabalhando e tendo em mente que a empresa segue todos os critérios exigidos pelas leis trabalhistas); ademais, a empresa disponibiliza aos funcionários computadores e rede wi-fi nos horários “fora” do expediente de trabalho. Os proprietários aprovaram a distribuição dos convites aos funcionários, para participação da pesquisa via web; se desejassem, os funcionários poderiam respondê-lo no local de trabalho, “fora” do horário do expediente. Os convites foram enviados para os e-mails dos 275 funcionários registrados, cadastrados na empresa. Os sujeitos que se dispuseram a participar enviaram as respostas dos questionários para o e-mail do Grupo de pesquisa Lessex;
Quadro 2 – Síntese do processo de coleta de dados. Período da coleta de dados Local de Coleta de dados Coleta de
dados Participantes Total
19/4/2011 USF Jardim Castelo Zona Noroeste Santos – SP
Observação
Etnográfica (4h) --- --- De 20 a
28/4/2011
USF Jardim Castelo Zona Noroeste Santos – SP Pré-teste do instrumento de coleta de dados 12 mulheres e 3 homens 15 De 28/4 a 16/06/2011
USF Jardim Castelo Zona Noroeste Santos – SP Aplicação das entrevistas semiestruturadas 23 mulheres e 1 homem 24 De 2/8 a 15/11/2011 Local Público Santos e Guarujá – SP Aplicação das entrevistas semiestruturadas 10 mulheres e 5 homens 15 De 1/12/2011 a
1/3/2012 Internet – via web Baixada Santista
Envio das entrevistas por meio de e-mails cadastrados (via web)
24 mulheres e
24 homens 48 102 Fonte: elaborado pela autora.
f) pactuação com os gestores envolvidos: o projeto foi encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da PUCSP e à Prefeitura Municipal de Santos. O Projeto de Pesquisa “Relações de Gênero e Itinerários Terapêuticos: a transversalidade com a adesão ao autocuidado em saúde”, do qual este estudo é um subprojeto, recebeu aprovação pelo CEP da PUCSP sob protocolo no 351/2010 (ANEXO I). Fez-se então contato com o Secretário Municipal de Saúde do Município de Santos23, que encaminhou o projeto ao responsável pelo setor de Pesquisas do Comitê de Ética da Secretaria Municipal de Saúde, que por sua vez orientou sobre os trâmites do processo de encaminhamento da pesquisa. Em seguida, foi aprovado o projeto de pesquisa específico para a região da Baixada Santista, pelo CEP da SMS de Santos. Foi-nos então entregue uma carta de encaminhamento autorizando a entrada da pesquisadora no campo escolhido pela Chefia do Departamento das Coordenadorias das Unidades de Saúde da Baixada Santista, USF Jardim Castelo24 – Zona Noroeste (ANEXO J).
g) coleta de dados: as pessoas que aceitaram participar da pesquisa assinaram o TCLE. Ficou acordado que se eventualmente, durante as entrevistas, a pesquisadora notasse algum tipo de sofrimento gerado pelo diálogo construído no
23 Disponível em: <[email protected]>. 24 Disponível em: <[email protected]>.
evento, o participante seria acolhido e encaminhado para o devido cuidado na USF.
Procedimentos de análise
A análise dos dados teve caráter quantiqualitativo, por meio de estratégias múltiplas, o que implicou em um processo diversificado para o manuseio de todos os dados obtidos nos diferentes locais de coleta, como especificado a seguir:
a) transcrição das entrevistas semiestruturadas gravadas em áudio; leitura e releitura atenta do material; organização dos dados em determinada ordem, permitindo uma visão geral do campo já investigado;
b) leitura horizontal e exaustiva dos relatos das entrevistas, buscando anotar cada detalhe que parecesse interessante ou que chamasse atenção, e procurando detectar coerência entre as informações e a teoria da Psicologia Sócio-histórica;
c) organização das categorias analíticas: cuidado, autocuidado; rede de apoio e itinerários terapêuticos. Isto implicou na retomada da literatura em relação aos aspectos que dialogavam com os discursos obtidos;
d) inserção dos discursos analisados segundo os quadros acima no programa computacional Sphinx Brasil25, ferramenta que permite realização de análises quantitativas e qualitativas e possibilita a publicação de questionários (coleta) e relatórios (análise) via web;
e) para fins de análise dos conglomerados (clusters), foi utilizado o programa computacional SPSS (Social Package for Social Sciences), específico para análise quantitativa, visando detectar tendências gerais que pudessem orientar ou complementar a análise qualitativa.
A análise de conglomerados (clusters) ou agrupamentos é uma denominação genérica para um vasto grupo de técnicas que podem ser utilizadas para a criação de uma classificação. Esses procedimentos formam empiricamente clusters ou grupos de objetos fortemente similares, e a análise dos conglomerados agrupa indivíduos ou objetos em clusters de tal forma que os objetos que partilham um mesmo cluster portam mais semelhanças entre si do
que em relação a outros clusters. É neste sentido que o principal objetivo da análise de conglomerados é o de agrupar casos a partir de determinadas características que os tornam similares. Para tanto, a análise de conglomerados procura não só minimizar a variância dentro do grupo (within group variance), mas também maximizar a variância entre os grupos (between group variance). A análise de cluster tem sua origem na psicologia, e consiste em técnicas multivariadas cujo principal objetivo é o agrupamento de objetos a partir de suas características, procurando identificar subgrupos homogêneos de casos na população. Em síntese, fica claro que o principal objetivo dessa técnica é o de agrupar casos de acordo com o seu grau de semelhança. A lógica subjacente à análise de clusters é similar à da análise fatorial. Os casos são agrupados de acordo com o grau de proximidade recíproca, o que a literatura denomina distância/ similaridade. Existem diferentes formas de estimar quão distantes/ próximas são as observações. Em geral, procura-se garantir o máximo de homogeneidade dentro do cluster, ao mesmo tempo em que se maximiza a heterogeneidade entre os grupos. Como é inviável maximizar duas variáveis simultaneamente, espera-se encontrar uma solução que otimize essa relação. Assim, é importante entender a variância do conglomerado, que corresponde a um grupo de variáveis que representam as características utilizadas para comparar os objetos na análise de cluster (FIGUEIREDO FILHO; SILVA JUNIOR; ROCHA, 2012).
Os clusters foram obtidos a partir da listagem de todas as respostas dos participantes (questões abertas – discurso, e questões fechadas) que nos permitiu responder às hipóteses norteadoras do estudo.