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4.   FORSTÅELSE AV KVALITET

4.2   M ORALSK HOVEDFAKTOR

117 Saint-Exupéry, em O pequeno príncipe.

Figura 28 - Programa Lula – 02 dezembro 1989 – Tempo: 44’12” – 45’15”

Locutor: E o passado de Collor? Veja agora a herança de seu governo em Alagoas. A saúde pública de Alagoas está em estado de coma. Este é o pronto-socorro de Maceió, o único estabelecimento de saúde do Estado que ainda funciona. Veja como estão os outros estabelecimentos: Hospital José Carneiro, fechado; Hospital Portugal Ramalho, fechado; Maternidade Santa Mônica, fechada; Manicômio Judiciário, fechado; Faculdade de Ciências Médicas, fechada. O pronto- socorro resiste, mas está sem condições sanitárias, quase sem nenhum material médico, faltam até seringas e esparadrapos. A maioria dos

médicos pediu demissão por falta de condições de trabalho. É esta a situação da saúde pública em Alagoas depois de 2 anos de governo Collor. Pense bem: é assim que você gostaria de ver a saúde pública do Brasil?

A indignação, neste enunciado, vai se construir como uma espécie de

documentário que revela a fraude da persona do candidato Fernando Collor, construída

como político ideal. Formulada pela combinação do material imagético com a narração do locutor, a estrutura do enunciado favorece o efeito de verdade a partir do foco narrativo – o locutor pode ser compreendido como uma espécie de narrador-observador: na estrutura da narração literária, o narrador-observador (neste caso, o locutor) conhece os fatos e, deste modo, ao interpelar o espectador com o imperativo “Veja”, exime-se da responsabilidade sobre o efeito de indignação, afinal, o locutor só estaria “elencando o real”, facilitando, assim, o conhecimento do eleitor sobre os fatos. Essa é, dentro do enunciado, a estratégia enunciativa que instigaria a indignação por parte do eleitor.

A primeira imagem (do quadrante superior esquerdo da figura 28) se instaura como detentora do poder de revelação da verdade do dizer, quando é introduzida no momento em que o locutor profere o período “E o passado de Collor?”, apresentando um adesivo veicular com os dizeres “Quem Mellou Alagoas não pode Collorir o Brasil”. Ela responde à pergunta do locutor e instaura um paradigma de leitura: Fernando Collor não é o candidato ideal para o país.

A partir daí, o elemento imagético é invocado pelo verbo ver no imperativo: “Veja agora”, “veja como estão” e prenuncia a comprovação da verdade pelo olhar. Porém, é o funcionamento lacunar da imagem que se estabelece na construção da verdade do enunciado.

A primeira imagem representativa do pronto-socorro de Maceió (no quadrante superior direito da figura 28) é, em si mesma, opaca: não há filas, não há tumulto e, por outro lado, tampouco há sinais visíveis de abandono – indícios visuais que promovem efeitos de sentido associados à indignação. A segunda imagem representativa do mesmo pronto-socorro (no quadrante inferior direito da figura 28) dá a ver um corpo senil e indica um atendimento nos corredores da instituição – o que pode promover efeitos que se associam a várias emoções: indignação, tristeza, compaixão. O telespectador/eleitor tem, então, um conjunto de imagens que, juntamente com o verbo proferido pelo locutor “A saúde pública de Alagoas está em estado de coma” – constroem um panorama visual

e instauram um paradigma de leitura que definem o mencionado pronto-socorro de Maceió: a instituição de saúde tem uma situação delicada/difícil.

O que a segunda ocorrência do verbo ver prenuncia, então, na passagem “Veja como estão os outros estabelecimentos”, vai lançar mão deste mesmo panorama visual já instaurado para a construção dos efeitos de sentido da indignação, pois não há imagens comprobatórias da verdade do dizer, ou seja, imagens das instituições de saúde nomeadas pelo locutor e exibidas verbalmente na tela:

Hospital José Carneiro, fechado; Hospital Portugal Ramalho, fechado; Maternidade Santa Mônica, fechada; Manicômio Judiciário, fechado;

Faculdade de Ciências Médicas, fechada.

O verbo ver prenuncia, então, o olhar sobre o próprio verbo, no enquadramento da tela, como prova do mau estado dos referidos estabelecimentos, construindo um efeito de memória visual a partir de uma imagem outra para simbolizar e legitimar a verdade do dizer. A estratégia se apoia no primado da imagem na televisão como efeito de verdade e constrói, sobre um fundo negro, um visível que não se dá a ver, mas que ainda assim, significa. A indignação se constrói, então, por um efeito de memória visual que estabelece o que deve ser visto, sem mostrá-lo efetivamente – o que faz com que o verbo exerça a função de prova da verdade.

Instituída a prova e a legitimidade do dizer verdadeiro, o verbo conclui e sentencia o estado da saúde pública do Brasil pelo advérbio assim: Pense bem: é assim que você gostaria de ver a saúde pública do Brasil?. Do mesmo modo, com a prova e a sentença, instaura-se o medo direcionado ao eleitor/telespectador a partir da transferência da responsabilidade sobre a circunstância descrita: pense bem / você

gostaria de ver. A facilidade com que se consegue instaurar o medo a partir de um

enunciado como este reside no imaginário da época sobre o direito democrático de escolha dos dirigentes políticos, dada a possibilidade de uma escolha equivocada pela

mão dos brasileiros. Trata-se de uma estratégia discursiva que segue, ainda atualmente,

produzindo efeitos de sentido aliados ao medo, (re)atualizada pela memória histórica do

impeachment do então presidente Fernando Collor, em 1992, estabelecido como o

resultado efetivo da escolha equivocada dos eleitores na primeira eleição democrática do país.

Observam-se, no funcionamento deste enunciado, indícios que nos levam a considerar a existência de um regime de visibilidade da época que permite ver ainda que a imagem não se dê a ver. O efeito da atestação e da comprovação da verdade se dá pelo que sugere o dinamismo da sequência televisiva, considerando a premissa de que, pela televisão, vê-se um discurso. A imagem televisiva goza de tamanho estatuto de verdade e autenticidade que ainda que ela não se mostre, ela se faz entender. Pela prerrogativa da dominância da imagem enquanto elemento característico do medium televisivo, faz- se ver e significar o que, efetivamente, não está lá.