4. FORSTÅELSE AV KVALITET
4.3 F YSISK HOVEDFAKTOR
O título deste item busca sintetizar a análise que será apresentada em seguida, chamando a atenção do leitor para a construção de uma narrativa que toca e emociona o eleitor/espectador.
3.3.3.1. Programa 3 – “um pouquinho de dinheiro faz muita diferença” Programa de Lula, do dia 14 de setembro de 2002
Figura 30 - Programa Lula 14 setembro 2002 – Tempo: 58’45” – 1o00’08”
Locutor: Maria tem 28 anos, é separada, mora sozinha e tem uma filha pequena. Joana tem 26, também é separada, também mora sozinha e também tem uma filha pequena. Até aí, a vida das duas se parece. Maria tem um bom emprego, mora num apartamento próprio e tem seu carro. O emprego de Joana não é tão bom, mas Joana é forte e otimista e não reclama da vida. A diferença é quando a filha de Maria e a filha de Joana ficam doentes e precisam de um remédio. Justo no fim do mês, quando Joana não tem mais dinheiro.
Joana: Quanto?
Atendente da farmácia: Cinquenta e um.
Locutor: É exatamente aí que Joana, que é forte e otimista, que anda de ônibus, que mora numa casinha alugada e é feliz, se sente fraca e lamenta da vida.
Apresentador: Existem momentos na vida, que um pouquinho de dinheiro faz muita diferença.
Neste enunciado, observa-se o funcionamento de uma técnica de comunicação bastante utilizada no campo da publicidade: o storytelling (SALMON, 2007). Trata-se de uma espécie de arte de contar histórias ficcionais para transmitir uma mensagem generalizada e contribuir para a venda de um dado produto. A estrutura narrativa do
storytelling é semelhante à estrutura narrativa literária: apresentação, complicação,
clímax e desfecho; há um protagonista, um antagonista, um narrador. A concepção do
storytelling se organiza pelo argumento de que a transmissão da mensagem/informação
é mais eficaz nesse tipo de estrutura narrativa porque se atribuem significados emocionais aos elementos da mensagem dentro de um contexto. Esta nova técnica publicitária esteve intensa e exclusivamente119 presente no programa do candidato Lula
em 2002 – o que nos chamou a atenção para analisá-la. É uma forma de suavização do discurso inflamado geralmente associado à oposição na campanha política eleitoral. E, no caso do enunciado televisivo, a imagem vai se associar diretamente ao verbo, funcionando como ilustração do verbo, ratificando-o.
A verossimilhança na construção do enredo da narrativa, com seus personagens e conflitos, é mais um elemento a favor da eficiência na produção dos efeitos de sentido relacionados às emoções. Observa-se, neste enunciado, a atuação de uma coprotagonista (Maria), personagem que representa a mulher da classe média brasileira, e da protagonista Joana, representante da mulher de classe social mais baixa. Dentro das condições econômicas do país à época, quando a remuneração média de um trabalhador com carteira assinada era de dois salários mínimos e a desigualdade social era tema do cotidiano, não era difícil encontrar, dentre os eleitores, quem se sentisse identificado com as condições da personagem Joana.
A caracterização das duas personagens se associa a um paradigma de leitura em destaque, no início dos anos 2000, sobre o crescimento da participação feminina no
119 Não foram encontrados outros registros com estrutura de storytelling nos demais programas eleitorais
mercado de trabalho e a independência da mulher brasileira120: separada, mora sozinha, é mãe e trabalha fora.
É a partir do desencadeamento do conflito que pode-se observar a potencialidade do efeito da indignação: é quando se pode observar a sobreposição da imagem ao verbo. Quando o verbo profere o dizer do início da complicação narrativa “a diferença é quando a filha de Maria e a filha de Joana ficam doentes e precisam de um remédio. Justo no fim do mês, quando Joana não tem mais dinheiro”, a imagem dá a ver o clímax: Joana não compra o remédio que a filha precisa e deixa a farmácia. A representação que o conjunto enunciativo constrói, dentro da temática da desigualdade social, seria, em si mesma, um indício da emergência dos efeitos de sentido da indignação, porque (re)atualiza uma memória social/visual em evidência na época. Porém, ainda que o verbo não se destaque quanto ao clímax da narrativa, ele orienta a recepção do enunciado e opacifica o que a imagem mostra e que produz efeitos que levariam à compreensão do tema da desigualdade, trazendo para o fio do discurso o substantivo “diferença”: entre as duas personagens há uma diferença de condição econômica. Definir o efeito da indignação como potencial é possível, neste enunciado, porque se trata do encadeamento de imagens em movimento que têm potencial para promover determinados efeitos de sentido, mas, devido à rapidez com que são dadas a ver e ao sincronismo com o verbo, não chegam a se fortalecer e se fixar efetivamente.
O conjunto enunciativo que apresenta o clímax da narrativa, então, faz deslizar o efeito da indignação para o da comoção, do enternecimento, da compaixão, que é reforçada pela presença de um apresentador121 que profere verbalmente o seguinte
período: “Existem momentos na vida, que um pouquinho de dinheiro faz muita diferença.”, numa espécie de apresentação da moral da história, que resume a narrativa e a simplifica para o telespectador/eleitor. Colocando em evidência que a diferença de que se trata na história comovente da personagem Joana é um pouquinho de dinheiro, a estratégia discursiva fortalece o efeito da comoção pelo uso do diminutivo
120 Esse paradigma de leitura é reforçado, também, em outros programas eleitorais, tanto nos de Lula
como nos de outros candidatos. Um exemplo disso é a candidatura de uma mulher – Rita Camata, do PSDB – para o cargo de vice-presidente da República.
121 Que também é o apresentador do programa de Lula, o que faz com que a narrativa seja associada a
pouquinho,sem desqualificar o outro122, e restabelecendo a ligação da narrativa com a
proposta do programa político do candidato Lula – a distribuição de renda.