5. EMPIRISK ANALYSE
5.6 M ODELL 5: Å RSSKIFTEEFFEKT
A partir da observação, constatamos que a sala de aula foi um espaço de uso privilegiado pela professora e obrigatoriamente compartilhado, em demasia, pelas crianças. Julgamos pertinente que as crianças desenhassem, completando a sentença “A minha sala de aula é...”, para compreender como as crianças concebiam esse espaço.
As análises dos desenhos nos permitiram encontrar quatro categorias: elementos estruturais, pessoas, elementos da natureza e outros. A imagem abaixo mostra essas categorias, a quantidade de vezes que foram escolhidas e sua respectiva porcentagem, em relação ao número total de desenhos, 18 (dezoito).
Figura 116 – A minha sala de aula
Fonte: Trabalho de Campo (2015). Org.: Ariadne de Sousa Evangelista (2015).
Os elementos estruturais, diferentemente do primeiro desenho, compareceram em menor número de desenhos, apenas em 8 (44, 44%). No interior desses oito desenhos, encontramos quatro subcategorias: porta, prédio, chão (piso) e tijolo. A tabela abaixo apresenta o número de desenhos em que cada subcategoria aparece.
Tabela 7 – Elementos estruturais da sala de aula
ELEMENTOS ESTRUTURAIS 8 44,44%
Prédio 4 22,22%
Porta 3 16,66%
Chão/piso 2 11,11%
Tijolo 1 5,55%
Fonte: Trabalho de Campo (2015). Org.: Ariadne de Sousa Evangelista (2015).
Acerca da estrutura física, duas crianças representaram, não a sala, mas a escola como casas, outras duas representaram a sala em formato retangular, sem a presença do
telhado. Outras crianças desenharam partes da infraestrutura da sala de aula, como a porta da sala e o chão (piso). Uma criança (5,55%) desenhou um tijolo sendo carregado por um robô.
Figura 117 – A sala de aula Figura 118 – O prédio da sala de aula
Fonte: Homem-Aranha (2015). Fonte: Ben 10 (2015).
Homem-Aranha explica, durante a produção do desenho: Vou desenhar minha bolsa.
Vou fazer a parte de fora.
Vou fazer um mar, perto da escola.
Eu, Matheus (nome fictício), a professora, o sol, a nuvem, o tijolo, o robô carregando o tijolo. (Poema dos desejos, Homem-aranha, 2015)
A categoria “pessoas” se refere à presença de figuras humanas nos desenhos, grupo presente em 11 das ilustrações (61,11%). Evidenciamos a presença de quatro subcategorias: professora, indeterminados, amigos, eu. A tabela abaixo demonstra a incidência de cada subcategoria, no número total de desenhos.
Tabela 8 – Pessoas da sala de aula
PESSOAS 11 61,11%
Professora 7 38,88%
Indeterminados 6 33,33%
Amigos 3 16,66%
Eu 2 11,11%
Fonte: Trabalho de Campo (2015). Org.: Ariadne de Sousa Evangelista (2015).
Nessa solicitação, a professora torna-se a figura que mais comparece nos desenhos das crianças. Do ponto de vista das crianças, a professora está intimamente relacionada com o espaço da sala de aula. Desse modo, notamos que a forma como o espaço e o tempo estão organizados se centra na figura da professora.
Forneiro (1998) e Kramer (2009) asseveram que é papel do professor organizar o espaço escolar, principalmente da sala de aula, mas que isso deve ser feito em função do desenvolvimento global e das necessidades das crianças que formam a turma, além de contar com a participação dessas crianças. Nessa perspectiva, Kramer (2009) enfatiza: “O ambiente da sala deve favorecer a mobilidade e iniciativa das crianças, promovendo a realização de atividades de forma coletiva e organizada, e, simultaneamente, possibilitando a exploração e a descoberta” (KRAMER, 2009, p. 75).
Por outro lado, trata-se do primeiro desenho em que não aparece nenhum familiar, é como se a família não estivesse associada à sala de aula. Contudo, nessa escola, os responsáveis têm acesso livre às salas de aula, buscando seus filhos em sua porta. Oliveira et al. (2012) ressaltam, baseados na Revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação Infantil (BRASIL, 2009), que a instituição deve “[...] garantir espaços e tempos
para o diálogo com as famílias, integrando-as no projeto curricular pensado para os seus filhos” (OLIVEIRA et al., 2012, p. 78).
Figura 119 – A professora e as crianças Figura 120 – Todos da escola
Fonte: Reinaldo (2015). Fonte: Lucas (2015).
O número da presença de amigos e do indivíduo “eu” diminui significativamente, enquanto cresce o número de seres com características generalizantes: crianças, meninos e meninas. Nossa hipótese é que as crianças compreendem a sala de aula como um espaço em que as amizades e a individualidade “encolhem”, por serem menos valorizadas.
Mesmo que a sala de aula seja um espaço fechado e que a maioria das crianças tenha desenhado elementos que se encontram no interior desse espaço, os elementos da natureza comparecem em 12 desenhos (66,66%).37 A tabela abaixo traz o número de ilustrações em que as subcategorias foram desenhadas e suas respectivas porcentagens.
Tabela 9 – Elementos da natureza relativos a sala de aula ELEMENTOS DA NATUREZA 12 66,66% Sol 7 38,88% Nuvem 6 33,33% Flor 3 16,66% Formiga 2 11,11% Grama 1 5,55% Mar 1 5,55% Joaninha 1 5,55% Chuva 1 5,55% Bicho 1 5,55% Árvore 1 5,55%
Fonte: Trabalho de Campo (2015). Org.: Ariadne de Sousa Evangelista (2015).
Os elementos que compõem o céu (sol, nuvem, chuva) foram os mais ilustrados, fato relacionado à visibilidade externa, haja vista que as janelas da sala são altas, possibilitando que as crianças vejam apenas o céu, do interior da sala de aula.
Os animais presentes são apenas insetos, demonstrando que as crianças percebem que os únicos animais que adentram a sala são eles. Novamente, as crianças apontam a necessidade e o desejo de contato com a natureza, inclusive no interior da sala de aula.
Figura 121 – As nuvens e o sol Figura 122 – Os insetos
Fonte: Belinha (2015). Fonte: Power Ranger (2015).
Enquanto desenhava, Power Ranger relata:
Vou fazer a porta e uma bola. Fiz uma formiga na porta. Já terminei.
Caminho de formiga, um bicho correndo atrás dela. (Poema dos
Carvalho (1998) defende que os ambientes infantis devem promover identidade pessoal, desenvolvimento de competência, oportunidade para movimentos corporais, estimulação dos sentidos, sensação de segurança e confiança, oportunidade para o contato social e privacidade. Ao tratar do aspecto de estimulação dos sentidos, ressalta que a participação da natureza, nesse processo, é de extrema relevância:
A natureza apresenta várias situações que estimulam os nossos sentidos, tais como: brisas que trazem odores diferentes, o som de um riacho, o balanço de folhas e flores. É importante que as crianças também tenham seus sentidos estimulados. Para isso, podemos desenvolver atividades em espaços externos. Nos espaços internos, podemos colocar vasos com plantas e flores, janelas que permitam iluminação natural, entrada de sol, visão do céu, de árvores e passarinhos. (CARVALHO, 1998, p. 150).
A categoria “outros” foi a mais representada nos desenhos da sala de aula, sendo encontrada em 15 desenhos (83,33%). Diversos tipos de materiais e mobiliários que estão presentes no interior da sala de aula foram desenhados pelas crianças, listados e categorizados.38 Foram encontrados 39 itens, agrupados em cinco subcategorias: brinquedos, elementos de uso individual, mobiliários, recurso visual, materiais didáticos. A tabela abaixo mostra, primeiramente, o número de itens desenhados no interior das ilustrações. Posteriormente, exibe o número de desenhos em que cada categoria se fez presente. As porcentagens são igualmente expostas nessa perspectiva, tendo sido a primeira calculada sobre o número total dos itens, trinta e nove; a segunda foi calculada sobre o número total dos desenhos, dezoito.
Tabela 10 – Outros elementos que se destacam na sala de aula
OUTROS ITENS % DESENHOS %
Brinquedos 13 33,33% 9 50%
Individuais 11 28,20% 9 50%
Mobiliários 7 17,94% 5 27,77%
Recurso visual 4 10,25% 3 16,66%
Materiais didáticos 4 10,25% 4 22,22%
Fonte: Trabalho de Campo (2015). Org.: Ariadne de Sousa Evangelista (2015).
Agrupamos, na categoria “brinquedos”, além dos objetos de brincar, os utensílios que armazenam os mesmos, como, por exemplo, as caixas e os cestos. Os brinquedos são encontrados em metade dos desenhos e, entre os brinquedos mais mencionados, está a bola,
38Exceto o bebedouro, porque é localizado no exterior da sala de aula, e da área do livro, porque não se constitui
mencionada em 4 desenhos (22,22%). Nossa hipótese é que o desejo de brincar no interior da sala de aula é intenso, nas crianças.
Figura 123 – A mochila e a bola Figura 124 – Os cestos de brinquedos
Fonte: Superman (2015).
Fonte: Thor (2015).
As crianças indicam a necessidade e o desejo de brincar no interior da sala de aula. Conforme Kishimoto (2000), os brinquedos têm dois usos distintos nas instituições de Educação Infantil: o brincar livre e a aquisição de conteúdo escolar. Na ilustração, as crianças valorizam os brinquedos que permitem brincadeiras livres, como, por exemplo, bolas, carrinhos, robôs, peças de montar. Porém, a pesquisa realizada por Kishimoto (2000), com professores de crianças entre 4 e 6 anos de idade, demonstrou que “[o]s brinquedos e materiais destinados as atividades simbólicas, de construção e socialização das crianças, são os menos privilegiados [...]” (KISHIMOTO, 2000, p. 233).
A constatação da autora procede em relação à sala da turma observada, haja vista que os brinquedos simbólicos são os que estão em piores condições, ficam acessíveis e há curtos períodos de utilização. Em contraposição, Oliveira et al. (2012) mencionam, baseando-se nas na Revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais (BRASIL, 2009), que os projetos político- pedagógicos das instituições de Educação Infantil devem “[...] compreender a brincadeira como atividade fundamental nessa fase do desenvolvimento e criar condições para que as crianças brinquem diariamente [...]” (OLIVEIRA et al., 2012, p. 76).
Elementos de uso individual também foram desenhados pela metade das crianças. Consideramos elementos de uso individual as bolsas, as quais foram desenhadas por oito crianças (44,44%); os sapatos, desenhados por duas crianças (11,11%) e o copo, desenhado por uma criança (5,55%).
Figura 125 – O sapato Figura 126 – A mochila e os carrinhos
Fonte: Homem de Ferro (2015). Fonte: Super Wink (2015).
A ênfase dada pelas crianças aos elementos de uso individual demonstra a necessidade e o desejo das mesmas em relação a sua identidade pessoal. Em espaços de uso coletivo, como a escola, é comum que, no cotidiano, a maioria das ações seja planejada para o grupo e, consequentemente, os utensílios para a materialização delas são de natureza comunitária.
A formação da identidade pessoal pode ser estimulada através do arranjo espacial, da decoração e dos materiais. À medida que o professor garante áreas no interior da sala de aula, as quais possibilitem diferentes agrupamentos, como propõe Forneiro (1998) – em duplas, trios, quartetos, inclusive isolamento – pode assegurar um espaço de privacidade das crianças. Agostinho (2004) constatou, em sua pesquisa, que as crianças anseiam por esses espaços íntimos.
A decoração também permite que se trabalhe a identidade pessoal e social das crianças. Forneiro (1998), ao mencionar como critério de organização a pluralidade, reitera a relevância de trabalhar as diferenças físicas, sociais e culturais das crianças. No caráter prático, esse aspecto pode ser trabalhado em um cartaz com as fotos do grupo, de seus familiares ou com recortes de revistas que enfatizem as semelhanças e diferenças. As exposições dos trabalhos das crianças, individuais e coletivos, correspondem igualmente às suas marcas no espaço, tornando-o mais íntimo.
Os objetos de uso individual e autônomo, como o gancho para pôr a bolsa, os copos, os cadernos, os estojos, tudo isso trabalha com a individualidade, de maneira que é importante não só a presença, mas a acessibilidade desses, no interior da sala de aula. Em acréscimo, as crianças devem ser autorizadas a trazer objetos de casa.
Nessa turma, existe o “dia do brinquedo”; as crianças parecem apreciar esse momento, se mostram alegres ao compartilharem os brinquedos trazidos de casa. Porém,
existem alguns pais ou responsáveis que se esquecem de enviar o brinquedo e não é permitido que as crianças levem em outro dia, atitude que, em nossa opinião, deve ser revista. Carvalho (1998, p. 149) discute sobre a identidade na creche:
O fato de a creche fazer um trabalho que permite as crianças deixarem suas marcas promove essa ligação afetiva das crianças com a creche. É por isso que é importante permitir à criança trazer seus objetos. Isso deixa a sala da creche mais pessoal, aconchegante. E dá ao educador a chance de trabalhar o saber dividir, a cooperação com as crianças. Isso pode ajudá-las a desenvolver sua individualidade e, consequentemente, sua identidade.
Os mobiliários mencionados foram os armários, desenhados por quatro crianças (22,22%); as mesas, desenhadas por duas crianças (11,11%); e a cadeira, desenhada por uma criança (5,55%).
Figura 127 – O armário e as caixas
Fonte: Ana Júlia (2015)
Ao descrever seu desenho, Ana Júlia afirma ter ilustrado “[o] armário, as caixas
sobre o armário, a prô e a flor lá fora.” (Poema dos desejos, Ana Júlia, 2015). A presença do
armário embutido é forte na sala de aula, por causa da sua extensão.
O recurso visual se refere à lousa, que foi representada no desenho de três crianças (16,66%), enquanto o recurso audiovisual remete à televisão, desenhada apenas uma vez (5,55%).
Figura 128 – A televisão e as almofadas Figura 129 – A lousa
Fonte: Bia (2015) Fonte: Anna (2015)
Os materiais didáticos compareceram em quatro desenhos (22,22%) e se relacionam às caixas sobre o armário, ao tapete, ao caderno e às almofadas; cada um foi representado apenas em um dos desenhos (5,55%). Rapunzel relatou ter desenhado “[p]ara sentar um
monte de gente (tapete), criança, bolsas.” (Poema dos desejos, Rapunzel, 2015). Figura 130 – O caderno e as “coisas” da sala Figura 131 – O tapete
Fonte: Elsa (2015) Fonte: Rapunzel (2015)
Neste tópico, expomos as análises feitas dos desenhos confeccionados pelas crianças, no intuito de compreender sua concepção em relação à escola. Podemos constatar que a maioria das crianças concebe a escola como lugar. Também entendemos que existem espaços na escola que são mais apreciados que outros, geralmente os espaços onde as crianças têm mais liberdade. Por fim, as crianças demonstraram a necessidade e o desejo das brincadeiras, do contato com a natureza, indicando a importância de elementos que garantem sua identidade pessoal, no interior da sala de aula, e dos parceiros, nas brincadeiras. No
próximo item, vamos nos dedicar a compreender os desejos das crianças quanto ao espaço escolar como um todo e à idealização da sala de aula.