4.1 - Caracterização da instituição.
A instituição de educação infantil pesquisada pertence à rede pública municipal de uma cidade do interior do estado de São Paulo. Funciona desde 1987 e atende cerca de 156 crianças. A escola, assim ela é denominada pelos seus agentes educativos, está situada em um bairro antigo da cidade, onde ainda se encontram muitas casas de madeira. O bairro é considerado de classe média baixa.
Segundo o Projeto Político Pedagógico, a unidade não tem conseguido atender a demanda do bairro, existindo assim uma lista de espera na central de vagas.
Além dos problemas ligados à falta de vagas, no período em que pesquisamos a instituição havia reclamações quanto ao espaço físico. A escola contava com seis salas de aulas. Assim, como eram sete agrupamentos, o Pré-2 ficava, no período da manhã, em uma pequena sala ao lado da diretoria. Era um espaço restrito onde as crianças brincavam e faziam outras atividades sob a supervisão da A.D.I.responsável. Por esse motivo, era o único agrupamento da pré-escola que tinha aulas com a professora durante à tarde.
A instituição também possuía um pátio coberto. Esse era constantemente utilizado pelas crianças e suas educadoras. Meninos e meninas de vários agrupamentos costumavam brincar de rolar pneus ali. Entretanto, quando se reuniam muitas crianças, era comum acontecerem brigas e discussões entre elas.
Nesse pátio aconteciam diversas atividades. Era também utilizado para as festas comemorativas da instituição. Ali os educadores colocavam aparelho de som, punham música e incentivavam as crianças a dançar, fazer exercícios físicos, etc. Outras vezes
tínhamos a impressão de que o local representava cansaço, desconforto, porque nessas horas, víamos as A.D.I.s cansadas, o som alto de música, associado ao choro e gritos de crianças, calor.
A instituição também possuía outros espaços de lazer: um playground, um tanque de areia com uma árvore no centro e uma casinha de concreto. Esta tinha apenas um cômodo, não possuía móveis e nem brinquedos, porém quase sempre estava ocupada pelas crianças em seus horários livres.
A diretoria localizava-se na porta de entrada da escola e era composta por duas salas e em uma delas costumava-se realizar as reuniões de HTPC.
Ao final da coleta de dados, a instituição estava passando por uma reforma. Pretendia-se construir mais salas de aula e uma brinquedoteca. Essas construções, de certo modo, contribuíram para a nossa pesquisa, pois quando iniciamos as entrevistas não sabíamos onde realizá-las. Precisávamos de uma sala tranqüila onde pudéssemos ficar a sós com o entrevistado. Desse modo, uma A.D.I. sugeriu que utilizássemos a futura sala da brinquedoteca, que ainda estava sendo concluída pelos pedreiros.
Assim, pedimos autorização para os pedreiros e fizemos a maioria das entrevistas ali, no horário das HTPCs das educadoras. Isso foi muito importante para a pesquisa, pois agilizou o processo de coleta de dados e permitiu que gravássemos as entrevistas num local silencioso.
Ainda quanto ao espaço físico, podemos exemplificar a estrutura arquitetônica da escola da seguinte forma:
Na parte mais alta (a escola está situada em um terreno acidentado), localizava-se a diretoria, a sala do Pré-2, banheiros, refeitório e lavanderia. Acima da diretoria, estavam construindo mais salas.
No centro da instituição estavam o pátio coberto e a sala do M-2. Havia escadas que davam acesso à parte superior e também às salas do Pré-1, Pré-3, B-1 e B-2 e ao M-1. Esses agrupamentos localizavam-se na parte mais baixa do terreno.
A casinha, o tanque de areia e o playground situavam-se nas extremidades das últimas salas. Já a futura brinquedoteca estava localizada próxima ao tanque de areia.
Cabem ainda alguns esclarecimentos quanto à clientela. Como já mencionamos, a instituição atende 156 crianças de ambos os sexos, com idade entre 0 a 6 anos. Segundo o Projeto Político Pedagógico, a profissão dos pais é bem diversa, mas entre as mães destaca-se a de doméstica. Há também uma parcela significativa de mães desempregadas que devido ao fato da perda do emprego, receiam perder o vínculo com a instituição. Porém o documento afirma que a criança tem o direito de permanecer “em um ambiente propício para o seu desenvolvimento”.
A média salarial das famílias varia de 0 a 3 salários mínimos.
4.2 – Itinerários de pesquisa.
Estudar o tema da disciplina ou dos limites na educação infantil a partir de uma perspectiva dialética implica compartilhar de uma determinada concepção de homem e de ciência. Ou seja, significa abdicar de uma visão de ciência tradicional que consiste em investigar os fatos humanos e sociais de forma mecânica e isolada dos aspectos sócio- culturais.
Assim, ao analisarmos as queixas e concepções de educadores de educação infantil em relação à “agressividade”, à “falta de limites” ou à “indisciplina” dos alunos, buscamos identificar essas questões não através de uma perspectiva individual, localizando as dificuldades na criança, na família ou no professor. Ao contrário, em nossa pesquisa
bibliográfica procuramos estudar como as transformações na educação de crianças pequenas e a própria concepção de infância são engendradas historicamente.
Para compreender o estabelecimento de regras e limites, bem como o conceito de disciplina/indisciplina sob esse olhar sócio–histórico, é necessário investigar como tais conceitos têm sido avaliados desde o surgimento da escolarização formal na modernidade até os nossos dias. Como essas questões estão sendo percebidas pelos educadores atuais? Como elas têm sido trabalhadas ao longo do tempo?
Ao buscarmos obter essa visão de conjunto, inserindo nossa discussão de acordo com uma abordagem mais ampla, vamos nos apropriando gradativamente do pensamento dialético, sendo necessário, portanto, explicitar alguns pressupostos desta tendência metodológica.
Segundo Severino (1992), a tradição dialética tem uma visão radical a respeito da historicidade do real, ou seja, a realidade não é percebida como um conjunto de entidades metafísicas e nem como um conjunto de entidades naturais. Para o autor, a realidade “[...] vai se constituindo num processo histórico resultante, a cada momento, de múltiplas determinações e esse movimento de constituição decorre de forças contraditórias que atuam no interior dessa própria realidade” (p.133).
De acordo com esse referencial, percebemos as práticas sociais sendo modificadas constantemente pelos homens que transformam as relações e as formas de vida. Tomemos nosso objeto de pesquisa, a disciplina e os limites, e perceberemos como essas questões são atravessadas pelo modo como a sociedade se organiza ou como os homens se relacionam num dado momento histórico.
Aquino (1996) cita um texto de 1922 onde estão presentes recomendações a respeito da disciplina dos alunos. As prescrições são bastante rígidas e se resumem basicamente ao controle do corpo e da fala. Aos discentes é determinado manter silêncio
absoluto dentro da sala de aula, andar sem arrastar os pés, evitando também balançar os braços.
Atualmente, se recorrermos à literatura sobre o tema, mais especificamente autores piagetianos, constataremos que as formas (teóricas) de lidar com essas questões são muito diferentes. Autores como Araújo (1996) e Devriès & Zan (1998) sugerem que as regras devem ser estabelecidas em conjunto com os alunos, a relação professor–aluno deve ser caracterizada pelo respeito mútuo e não pelo respeito unilateral e o objetivo maior é possibilitar que o discente alcance autonomia.
Colocamos “teóricas” entre parênteses porque percebemos ao longo de nossa pesquisa bibliográfica que as propostas modificaram-se. Como vimos, atualmente os autores prescrevem que o professor deve ser mais flexível em relação à disciplina, objetivando uma relação professor-aluno simétrica. Todavia, em nossas observações, percebemos que o que tem norteado essa relação na instituição estudada é o confronto constante, sendo que as práticas ligadas à disciplina e aos limites caracterizam-se principalmente pelo uso de castigos e de ameaças ou como denominaram algumas educadoras, pela utilização das “chantagens”.
Essas constatações foram obtidas por meio de uma investigação qualitativa. Segundo Bogdan e Biklen (1994), essa forma de pesquisa possui algumas características básicas que foram adotadas pelo presente trabalho:
1) Tivemos o ambiente natural como fonte de coletas de dados.
2) O material obtido durante o trabalho de campo foi descrito de modo que pudéssemos apreender a realidade investigada. Nossos dados incluem transcrições de entrevistas, notas de campo e documentos da instituição.
3) Nossos objetivos consistiram em conhecer as concepções das educadoras e desvelar a complexidade do cotidiano de uma instituição de educação infantil, tendo como
foco, as questões relativas aos limites e à disciplina. Esses objetivos estão de acordo com as características dos estudos qualitativos, pois, segundo Bogdan e Biklen (1994), para esses modos de investigação é fundamental apreender as diferentes perspectivas dos participantes.
4) Não pretendíamos confirmar hipóteses previamente estabelecidas, nossas conclusões foram tecidas à medida que fomos realizando a pesquisa.
Além dessas características qualitativas, nossa pesquisa também pode ser considerada um estudo de caso etnográfico.
Decidimos optar pelo formato do estudo de caso porque desejávamos investigar as práticas educativas de uma instituição de educação infantil, pois pretendíamos conhecer seu cotidiano e as concepções particulares de seus educadores. Desse modo, procuramos apreender os diferentes pontos de vista desses agentes educativos, utilizando técnicas associadas à etnografia: observação participante, entrevista intensiva e análise de
documentos (ANDRÉ, 1995).
É importante frisar que dentro da pesquisa do tipo etnográfico o pesquisador possui um grau de interação com seu objeto de estudo tendo, portanto, um papel essencial na coleta e análise dos dados. Segundo Sato e Souza (2001), a convivência prolongada com a instituição pesquisada é uma estratégia importante.
Assim, durante o período de coleta de dados, procuramos nos familiarizar com a escola, convivendo com as diversas pessoas que faziam parte daquele cotidiano.
Utilizamos também um Diário de Campo, um caderno no qual procurávamos registrar nossos sentimentos e impressões, bem como a rotina da instituição, o dia-a-dia das educadoras, as relações interpessoais, sem perder de vista nosso objeto de pesquisa.
Foi muito importante delimitar nosso espaço ali dentro. Durante as observações, a instituição nos delegou diferentes papéis: psicóloga, estagiária, mãe. Algumas
vezes fomos apresentadas às crianças como pessoas que iriam anotar tudo o que elas fizessem de errado. Demorou um certo tempo para que compreendessem que, naquele local, éramos apenas pesquisadora.
Tura (2003, p.195) afirma que, concomitantemente à familiaridade que o pesquisador deve ter com a realidade investigada, é muito importante a capacidade de estranhamento, compreendida como a habilidade “[...] de se surpreender com o que parece corriqueiro [...]”.
Ou seja, questionar aquilo que está cristalizado, naturalizado pela instituição é um exercício investigativo fundamental. Bogdan e Biklen (1994, 49) complementam que:
A abordagem qualitativa exige que o mundo seja examinado com a ideia de que nada é trivial, que tudo tem potencial para constituir uma pista que nos permita estabelecer uma compreensão mais esclarecedora do nosso objecto de estudo.
Dessa forma, acreditamos que a investigação qualitativa vai ao encontro de nosso referencial teórico, a perspectiva dialética. De acordo com Frigotto (2000, p.77), “Romper com o modo de pensar dominante ou com a ideologia dominante é, pois, condição necessária para instaurar-se um método dialético de investigação”. Isto é, baseando-nos nesse
referencial, buscamos em todo o processo de pesquisa questionar as ideologias ou as concepções que ocultam a realidade.
É esse pensamento crítico, que leva em conta as contradições e os conflitos da realidade, que oferece os contornos para o nosso trabalho realizado em uma instituição pública de educação infantil. Ou seja, pesquisamos uma instituição em particular, uma unidade que foi apreendida dentro de um determinado contexto histórico e social.
Os agentes educativos participantes de nossa pesquisa foram os trabalhadores que atuam nos dois níveis da educação infantil: a creche e a pré–escola. Ou seja, escolhemos uma instituição do interior paulista que possui sete agrupamentos (Berçário-1,
Berçário-2, Maternal-1, Maternal-2, Pré-1, Pré-2 e Pré-3), nos quais realizamos observações do tipo participante durante o período de um ano. As educadoras que atuam diretamente com as crianças são denominadas de A.D.I. (auxiliar do desenvolvimento infantil) e professora. Esta atua somente na pré-escola e fica meio-período (quatro horas) na escola; por sua vez, a A.D.I. trabalha nos dois níveis, atuando na instituição em período integral. Ao todo são cerca de 23 educadoras.
Durante as observações procuramos realizar, sempre que foi possível,
entrevistas não-estruturadas, que não foram planejadas e ocorreram em meio a conversas
informais. Isto é, no contato com as educadoras, surgiram situações em que foi possível estabelecer um diálogo interessante para o nosso estudo, conversas que nos auxiliaram a compreender a cultura da escola e fizeram-nos refletir sobre a presente temática.
Tura (2003), baseando-se em Bogdan e Biklen, afirma que essa forma de proceder durante as observações é importante:
Bogdan e Biklen (1994) descrevem este procedimento, assemelhado a uma conversa entre amigos, como um processo importante de coleta de dados, que deve ser facilitado pela escolha de uma boa oportunidade e de um bom interlocutor (p.198).
Além dessas entrevistas não-estruturadas, que foram sendo realizadas durante as sessões de observação, realizamos entrevistas semi-estruturadas com uma educadora de cada agrupamento e também com a diretora da instituição. Esse tipo de entrevista deve ser planejado previamente; assim utilizamos um roteiro semi-estruturado. Isso não significa que durante os diálogos não tenham sido acrescentadas outras questões que juntamente com o roteiro permitiam esclarecer a perspectiva do entrevistado e aprofundar a nossa temática.
As entrevistas semi-estruturadas foram gravadas e transcritas na íntegra, enquanto que as não-estruturadas foram registradas em nosso Diário de Campo. Ou seja, as últimas foram analisadas conjuntamente com as observações da instituição.
Além das educadoras, a instituição também conta com outros trabalhadores (dentre eles, cinco são do sexo masculino): 1 secretário, 3 cozinheiras, 3 vigias, 4 serviços gerais, 1 porteira e uma merendeira readaptada. Com essas pessoas não realizamos entrevistas semi-estruturadas, embora isso não signifique que suas falas e pontos de vista não foram considerados. Ou seja, esses atores sociais foram escutados por meio das conversas informais ou entrevistas não-estruturadas.
Outro aspecto que gostaríamos de esclarecer é que as entrevistas semi- estruturadas foram realizadas tendo por base o formato da entrevista de história oral, cujo objetivo é apreender a experiência e visão de mundo do entrevistado, respeitando seu ritmo e estilo de vida. Esse tipo de entrevista caracteriza-se também por um diálogo franco e sincero, sendo concebida enquanto relação, de caráter único e totalizado. Segundo Alberti (1990, p.69):
É por isso que dizemos que a qualidade da entrevista, das informações obtidas e das declarações, associações e opiniões emitidas pelo entrevistado, depende estreitamente do tipo de relação estabelecida entre as partes.
Quanto à análise dos dados, construímos “núcleos de significação do
discurso”.Essa forma de organização dos dados é descrita por Aguiar (2001, p.139) como um
importante recurso que auxilia o pesquisador a desvelar a realidade. Trata-se de uma forma de trabalho coerente com a perspectiva da psicologia sócio-histórica, que estabelece como ponto de partida, a fala do sujeito.
Desse modo, baseando-nos em Aguiar, organizamos os núcleos de acordo com os temas/conteúdos/questões centrais que apareceram nas falas e práticas dos participantes da pesquisa. Nesse sentido, construímos esses núcleos levando em conta três situações:
- a constância com que os temas apareceram em nossas observações e entrevistas;
- as questões e assuntos que mais mobilizaram as pessoas envolvidas com o nosso trabalho;
- as questões não abordadas pelas pessoas, mas que, devido a sua importância para os nossos objetivos, foram transformadas em núcleos, tais como: concepção de infância, funções da educação infantil, concepção de limites/disciplina.
A análise dos documentos seguiu as mesmas orientações que as observações e as entrevistas. Ou seja, para interpretarmos os documentos, levamos em conta os nossos objetivos de pesquisa e os temas mais recorrentes no texto.
Optamos por investigar os documentos técnicos da instituição que norteiam as ações educativas: o Projeto Político Pedagógico e as Diretrizes Pedagógicas. Essa escolha visou complementar as informações obtidas por meio das observações e das entrevistas, possibilitando oferecer um retrato mais completo da instituição pesquisada.