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De volta à igreja para dar continuidade à celebração do Domingo de Ramos, uma série de aspectos transitam entre os formatos do catolicismo universal e os elementos de tonalidade própria no quadro da tradição indígena Makuxi.

No interior do templo, o espaço é arejado, as paredes baixas das laterais asseguram uma boa circulação de ar. O piso é de cerâmica, uma escolha, segundo o tuxaua, para diminuir a poeira ou a lama a depender se o tempo é seco ou de chuvas na maloca. No rol dos

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De acordo com Araújo (2006, p. 451-452), a formação de agentes indígenas de saúde se deu por iniciativa das irmãs Consolata, em 1980, por meio do repasse - a um grupo de mulheres indígenas - de orientações básicas para tratar os problemas de gripe, vômito e diarreia. Na atualidade, a atenção à saúde indígena é de responsabilidade da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), criada em 2010, na estrutura do Ministério da Saúde. As unidades contam com o trabalho dos Agentes Indígenas de Saúde (AIS), Agentes Indígenas de Endemias (AIE), Agentes Indígenas de Microscopia (AIM) e Agentes Indígenas de Saneamento (AIS). No posto de saúde em Maturuca - que pertence ao Distrito Sanitário Especial Indígena Leste - são oferecidos atendimentos médicos duas vezes ao mês, com as especialidades de pediatria e clínica médica. Segundo informação da agente indígena de saúde, Joana Pereira, as doenças que mais acometem os índios em sua maloca são gripes, com rápida evolução para cansaços, e diarreias.

elementos acústicos e visuais, tem-se uma caixa de som e dois microfones. Há bancos de madeira e sem encosto e um quadro negro, ao qual está afixado o cartaz da Campanha da Fraternidade114que, em 2011, aludia ao tema ―Fraternidade e a vida no planeta‖. Ao centro, o altar, ornado com ramos, é composto por uma mesa simples de madeira, um pequeno banco e um púlpito em sua lateral. Apenas um crucifixo está centralizado na parede anterior ao altar, ladeado por duas grandes faixas, que trazem a mesma frase, uma em língua makuxi,

―Epatakare Taminawirunkon Ko’manto’tonpe Uisa’ Ta’Pî Jesus ya”, e outra em português,

“Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância‖ (João, 10, 10). Esta última faixa e os demais objetos transportados em procissão ajudam a adornar o altar. Em todo o interior da igreja é possível ver apenas duas pequenas imagens em papel, uma de Nossa Senhora da Consolação (padroeira da missão Consolata) e outra da Sagrada Família.115

Acerca da dimensão celebrativa que teve seguimento no interior da igreja, se observa que a maioria dos aspectos atendeu ao missal romano. Apenas três características trouxeram particularidades a essa etapa da celebração de Ramos: a primeira diz respeito à ornamentação: na parede anterior ao altar um varal formando um meio arco preenchido por pequenas cabaças116 ou poosi (como a elas se referem os indígenas), ampliam a variedade de elementos simbólicos. Segundo relataram algumas mulheres da comunidade, as cabaças ali expostas não integram sentidos ritualísticos como objetos detentores de poder para afastar espíritos e influências negativas. Enquanto as cabaças maiores são usadas nas atividades diárias como recipiente para guardar alimentos, as pequenas podem ser utilizadas como instrumentos sonoros em danças tradicionais, presas ao corpo dos dançarinos para ajudar a produzir sons e a marcar ritmos. Já na exposição da igreja, elas cumprem a função de destacar o artesanato

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Campanha católica, coordenada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), deflagrada anualmente na quarta-feira de cinzas, com o objetivo de despertar a solidariedade de seus fiéis e da sociedade em geral para uma situação em torno da qual se passa a assumir um compromisso pastoral concreto. O tema da Campanha da Fraternidade daquele ano elegia as preocupações com o meio ambiente.

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Quando retornei por ocasião do Natal nesse mesmo ano, a comunidade havia adquirido uma imagem grande em gesso do padroeiro da maloca, o Sagrado Coração de Jesus, que agora compõe o altar; em uma das laterais internas do templo também foi pintada, por um índio da própria comunidade, a imagem do mesmo padroeiro. Segundo o tuxaua, essas ações fazem parte do trabalho de caracterização do templo como ―uma verdadeira igreja católica‖. Nessa direção iconográfica, o tuxaua mobilizou a comunidade e instalou, próximo às celebrações do Natal, uma grande cruz de madeira afixada ao chão defronte a entrada principal da igreja. ―Eu procurei cuidar nisso porque o visitante vinha, admirava a construção e perguntava qual era a nossa religião. Aquilo foi me preocupando, era sinal de que tava faltando uma coisa que dissesse é católica, por isso pensei na cruz‖.

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makuxi, ou seja, a ornamentação com poosi é uma forma visual discreta de trazer para o ato litúrgico cristão expressões do contexto cultural da vida desses indígenas.

Figura 21 – Ornamentação do interior da igreja

Fonte: Vângela Morais

O segundo aspecto foi a substituição do incenso comumente usado em missas solenes da Igreja Católica (como forma de reverência e oração elevadas a Deus) pela defumação com o maruai, uma espécie de rezina extraída de árvores da região usada no cotidiano para espantar carapanãs117, mas também utilizada pelos índios mais idosos em rituais para afastar os maus espíritos118. Logo após a entrada na igreja dos que participaram da marcha religiosa pela aldeia, dona Mariza, uma senhora da comunidade, espalha em direção à assembleia, ao sacerdote e ao altar a fumaça do maruai, que exala de uma pequena panela de barro. O aroma

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Mosquitos sugadores de sangue conhecidos em outras regiões do Brasil como muriçocas, pernilongos, sovelas ou mosquitos-prego. Esses são os nomes populares dados a insetos da ordem Diptera, família Culicidae, gênero Anopheles. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/para- site/siteantigo/Imagensatlas/Athropoda/Culex.htm>. Acesso em: 06 set. 2012.

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é suave, assim como os movimentos corporais daquela senhora. Segurando com as duas mãos a pequena panela, dona Mariza eleva os braços ora para a esquerda ora para a direita, enquanto gira o corpo levemente e pronuncia uma mensagem/oração em seu ritual. Segundo

Tereza, ―Ela pede proteção a Deus, que os espíritos bom fique do nosso lado, que nada de ruim aconteça pra nós, nosso povo. É isso.‖ Tereza ainda explica que essa benção com o

incenso do maruai geralmente é feita por pessoas mais velhas, porque são elas que dominam a língua makuxi. Em seu entendimento, para efeitos tradicionais, não faria sentido espalhar a fumaça e pronunciar a oração em outra língua.

O terceiro aspecto já havia se revelado durante a procissão de Ramos, por meio da tradução em língua nativa de alguns momentos inseridos no ato litúrgico. A oração do Pai Nosso e um canto em makuxi expressaram esse esforço de articulação da celebração católica com o contexto cultural indígena.

A benção proferida pelo padre como ato a compor os ritos de encerramento da missa não dispersa os presentes. Pelo contrário, o que se observa é um comportamento atento dos indígenas e uma mudança de protagonismo, uma vez que o presidente da celebração religiosa retira as vestes sacerdotais e se insere na assembleia, ao tempo em que o tuxaua e outras lideranças assumem o lugar de destaque no altar, dando início, ali mesmo, a uma reunião com a comunidade.

O tuxaua apresenta alguns esclarecimentos de interesse geral, atendo-se especialmente sobre sua recente viagem a Boa Vista, ao justificar sua ausência em função de problemas de saúde. Na sequência, ele informa sobre minha presença, reitera o processo que resultou na aprovação do meu pedido de pesquisa e solicita que eu mesma exponha as razões de estar ali. No final, fui orientada a dizer qual o tempo de permanência na maloca seria necessário para fazer meu trabalho naquela visita, a fim de que a assembleia ali mesmo decidisse se o prazo pretendido seria autorizado ou não.119 Com a proximidade da hora do almoço, o tuxaua encerra aquele encontro e todos seguem para suas casas. Novamente, busquei Tereza.

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Nas três vezes que estive em Maturuca, repeti essa cerimônia, recebendo da comunidade o aval para com eles estar. Naquela primeira visita, o tempo acordado foi de uma semana. Nas visitas que se sucederam, fui autorizada a me demorar mais; se não alonguei minha permanência foi por impedimentos pessoais e não por veto da comunidade.

3 BENEDITINOS E CONSOLATINOS: NOTAS SOBRE A EVANGELIZAÇÃO