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O monge suíço que chegou ao então Rio Branco em 1926 é lembrado, ainda hoje,

como o ―padre Makuxi‖, por dois aspectos em particular: a vivência no meio deles ou de

modo semelhante a eles (os índios); e o aprendizado da língua indígena, utilizada na

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De modo geral, as informações aqui levantadas constam de um livro mecanografado, pertencente ao arquivo do Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro, intitulado D. Alcuíno Meyer o.s.b. 1895-1985. Rio de Janeiro, 1985.

catequese, rezas, cantos e no cotidiano. Sobre isto, o próprio Dom Alcuíno fez registro em seu relatório de viagem às regiões serranas, em 1928, em duas passagens bem marcadas: ―Passei quase por pertencer à tribo, só pelo fato de falar alguma coisa da língua indígena (fizeram-me

até a pergunta ingênua se a minha mãe era do Roroima).‖ (MOSTEIRO DE SÃO BENTO,

1985, p. 39). Noutro momento, ciente do potencial que o conhecimento da língua indígena lhe

causava, assim registrou Dom Alcuíno: ―Como falo já bastante bem a gíria macuxi poderei

fazer um trabalho de catequese profícuo. Os índios estão agora muito animados com o

aparecimento do padre macuxi‖. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, P. 63)

Algumas passagens desta e de outras viagens do monge são importantes para buscar compreender as singularidades de sua atuação missionária durante os vinte e dois anos em que permaneceu nesta região. Pouco afeiçoado a permanecer no espaço que reunia as características mais urbanas da época, Dom Alcuíno priorizou as caminhadas em direção às

malocas indígenas, como uma opção afinada com seus propósitos de evangelização. ―Estou

em viagem muito melhor disposto do que em Boa Vista. Ansiosamente espero voltar às

mesmas malocas e visitar outras mais‖. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 36)

A respeito dos modos de evangelização empregados, nota-se que o planejamento para empreender essas grandes viagens se resumia a poucas providências: cercar-se da companhia de dois índios como guias, além de utilizar-se de uma mula para o transporte dos pertences de uso essencial. A caminhada é carregada de sentidos pela busca do sacrifício como algo desejado; em seu relatório, Dom Alcuíno gostava de fazer suas viagens a pé e descalços. Se o despojamento era motivado por razões religiosas, sua postura, por certo, há de ter contribuído para aumentar os níveis de correspondência com a realidade encontrada entre os índios.

Mas ao que parece, o aprendizado da língua indígena foi o aspecto que mais colaborou

para a marca do ―padre Makuxi‖, a considerar pelo que se lê: ―Convenci-me da absoluta

necessidade que o missionário tem de falar a gíria. Não soubesse eu já bastante macuxi, pouco faria nessa viagem, pois não tive intérprete‖. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 38) O conhecimento instrumental da língua indígena ao mesmo tempo em que lhe auxiliava nas

atividades da catequese, lhe proporcionava uma recepção sempre muito favorável: ―Causáva-

lhes visível prazer poderem conversar na gíria, com o padre. Introduzi o costume de fazerem a maior parte das orações em língua macuxi, quando até agora rezavam em português, que bem

Não há registro, nesses relatórios, de objeções indígenas ao trabalho religioso levado por Dom Alcuíno às diferentes malocas 135. ―Os índios, que já estavam informados da vinda do padre, recebiam-nos com demonstração de grande alegria‖. (MOSTEIRO DE SÃO

BENTO, 1985, p. 36) Em outro trecho, consta: ―Em lugares pequenos ficava às vezes só

poucas horas. Quase em toda parte tive o mesmo acolhimento possível. Pude constatar, com prazer, quanto os índios gostam do padre e quão grande é ou pode ser a influência do

missionário sobre essa pobre gente‖. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 36)

As atividades de Dom Alcuíno consistiam, basicamente, de tudo que se fazia à época em matéria de uma catequese voltada a oferecer instruções, rezas, cantos, missas, sacramentos136 e até bênçãos de locais como os cemitérios das malocas, por exemplo.

Dois momentos de seu relatório são iluminadores em relação à maneira adotada de

evangelizar os indígenas: ―Nas minhas instruções catequéticas, prestava-me insubstituível

serviço um pequeno catecismo ilustrado de toda doutrina, com o auxílio das imagens, as explicações verbais tornavam-se naturalmente muito mais plausíveis‖. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 39) Em outra passagem, de modo similar, Dom Alcuíno revela como os

índios aprendiam as orações e o ―essencial da doutrina‖: ―Eu já quase que não aguentava mais

de tanto recitar, explicar e cantar. Acompanharam-se durante um pedaço do caminho, repetindo uma após outra, o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Credo, para ver se guardavam

alguma coisa na memória‖. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 29)

Essa descrição é rica para se desnaturalizar e se pensar as bases em que foram formadas as práticas religiosas ligadas ao catolicismo nas malocas e a prática das orações nas comunidades indígenas, a tomar como referência, a sequência de rezas ainda hoje adotada pelos indígenas de Maturuca. Diante disso, somos levados a considerar, ainda, a longa cadeia de transmissão a contar, por muitos anos, com a força única e dinâmica da oralidade.

Por mais de uma vez, a maloca Maturuca recebe referência especial no trajeto realizado por Dom Alcuino. Além da menção à Procissão de Domingo de Ramos já assinalada em capítulo anterior, o monge Beneditino refere-se com igual entusiasmo a outras celebrações ali realizadas. Nestas, o gosto pela festa, por cantos e danças, se associa ao rito religioso:

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Nas malocas mais populosas, o monge Beneditino ficava cerca de dois dias; as distâncias, cumpridas a pé, ocupavam longas horas de caminhada e inviabilizam uma estada mais prolongada nas aldeias.

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No relato da viagem feita por Dom Alcuíno Meyer, em 1928, há a seguinte contabilidade: foram cerca de 550 batizados e 150 casamentos de índios. Fora dessa conta estavam os serviços sacramentais realizados a brancos e a quem chamou de ―meio-caboclos‖. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 37)

A festa de Páscoa na maloca do Maturuca, deixou-me a mais grata lembrança. Excusado é dizer da alegria com que os bons índios tomavam parte nestes e noutros atos do culto. Além do serviço religioso propriamente dito, entretínha-os também nas horas vagas, mormente nas noites de luar, com canto profano. Quantas vezes cantei aí o Hino Nacional, o Hino à Bandeira e os mais variados cânticos em português, alemão, francês, italiano, etc., que muitas vezes eles acompanhavam com dança (kreisreigen). Isso era para eles uma alegria extraordinária. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 33)

O ardor no relato mantém estreita combinação com a maneira com que Dom Alcuíno

se referia a mais importante liderança indígena da maloca, o tuxaua Melquiór. ―De todos os

tuxauas, Melquiór (de cerca de 35 a 40 anos) é o melhor; é quem tem mais zelo pela prática da religião, pela oração, etc.; e, segundo me parece, é também ele quem exerce maior influência sobre seus subalternos. É pena que não saiba ler nem escrever, embora bem

instruído‘. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 93)137 .

As impressões de Dom Alcuíno sobre os indígenas, numa região que guarda um traçado geográfico praticamente subposto ao que hoje se denomina de TIRSS, são (por ele

mesmo) registradas: ―De maneira geral, pode dizer-se que os índios macuxi são de boa índole, afáveis, alegres, bastante inteligentes e operosos‖. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p.

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Se havia da parte de Dom Alcuíno uma adjetivação que assegurava qualidades muito positivas aos Makuxi, não havia na mesma intensidade o desenvolvimento de uma visão crítica da realidade que cercava esses índios. No amplo corpo de anotações sobre suas atividades religiosas, poucas vezes se identifica menções às tensões vividas à época. Destaco apenas duas referências que aproximam o ambiente sociocultural das primeiras décadas do século XX com as temáticas que mobilizam ainda hoje as comunidades indígenas de Roraima.

A primeira gira em torno do cenário de prometido conflito sobre o uso das terras envolvendo os grandes fazendeiros (aqui personalizado em Adolfo Brasil) e os indígenas, no contexto monocultural do gado, ao passo em que se destaca ainda a visão tutelar dos índios

dispensada pela Igreja Católica. ―Adolfo Brasil mandou um aviso aos índios para que

cercassem bem as suas roças. Isso é muito fácil de dizer e mandar, mas como é que os índios poderão cercar suas roças se não dispõem de arame farpado e os Srs. Fazendeiros, a começar pelo prefeito, não lhes dão arame? Só o Governo intervindo. Em viagens anteriores, tive eu

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Ainda hoje, o tuxaua Melquiór é orgulhosamente lembrado em conversas com os índios de Maturuca. O tuxaua Djacir Melquior fez referência, durante o período da pesquisa de campo deste trabalho, que ele era um herdeiro de uma tradição política, marcada pela atuação do tuxaua Melquiór, que era seu tataravô.

ensejo de ouvir constantes queixas dos índios, bem como dos civilizados, acerca desse assunto‖. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 87)

A segunda anotação aponta, em 1936, para o problema do alcoolismo que avançava sobre as comunidades indígenas na medida em que se intensificavam os contatos com não índios.

Em locais de reuniões de mineiros, como este, facilmente dão-se desordens, devido ao uso da cachaça. Ainda há poucas semanas, um preto de nome José Maria de Matos, quase quebrou a cabeça do tuxaua Alexandre do Contã, deixando-o em mísero estado. Estavam ambos com a cabeça aquecida pelo álcool, e pouco faltou para que resultasse a morte da vítima. Aconselho aos civilizados a não fornecerem bebidas alcoólicas aos índios. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 77)

Nas duas referências, o tom conciliatório e a orientação que não desciam às raízes dos problemas evidenciam um modelo de evangelização ocupado com as questões transcendentes e com a ampliação do nível de aceitação do catolicismo pelos índios. Agindo assim, o trabalho missionário acabava por fortalecer as estruturas existentes, como avaliou a própria Igreja Católica em texto oficial sobre as conclusões da Conferência de Puebla, em 1979:

―Muitas vezes, as virtudes teologais foram apresentadas numa perspectiva assistencialista,

aptas a serem manipuladas ideologicamente pelos opressores, uma vez que a finalidade delas

consistia em fortalecer os pobres para que pudessem suportar as injustiças presentes‖.

(EVANGELIZAÇÃO..., 1979, p. 64)

Por outro lado, há, na experiência deixada por Dom Alcuíno, um campo aberto de investigação que põe em destaque as características culturais do povo Makuxi, a tomar em conta a coleta de mais de uma centena de narrativas míticas organizadas pelo monge Beneditino quando do seu retorno ao mosteiro do Rio de Janeiro, em 1948.

Acerca das razões para a mudança da ordem missionária na região, algumas passagens de relatórios e cartas entre Dom Alcuíno Meyer e outros missionários apontam para a ocorrência de dois aspectos em particular: as diferenças de visões no interior da própria Igreja, entre as ordens, seus carismas e seus modelos de evangelização; e as crises econômicas que acompanharam a missão Beneditina138. Sobre isso, escreveu Dom Alcuíno Meyer:

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Os argumentos das crises financeiras justificaram a ocorrência de dois marcos divisórios na missão Beneditina: a separação da missão do Rio Branco da Abadia do Rio de Janeiro, pelo ônus que a primeira acarretava a esta última, que passou a ser mantida em 1929 por toda a Congregação Beneditina do Brasil; e a entrega da missão, por Dom Arquiabade Plácido Staeb, em novembro de 1948, ao Instituto dos Missionários da Consolata.

Ouço amiúde que a Ordem de São Bento não é mais capaz de evangelizar, o que é hoje apanágio das Congregações modernas. Vários insucessos, desde meio século, parecem dar razão a essa tese. Mas o verdadeiro motivo é que, em geral, as missões das Congregações modernas são mais vigorosamente sustentadas em homens e numerário pelas casas-mães. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 48)

Em abril de 1948, oito meses antes de ser oficializada a transferência para a Missão Consolata, Dom Antonio Salvini, antigo missionário do Rio Branco, escrevia do Mosteiro de Campos (Rio de Janeiro) uma carta a Dom Alcuíno Meyer, cujo conteúdo cumpria a função de prenunciar o desfecho da missão Beneditina no território de Roraima.

Já deve estar a par das notícias que correm a respeito da missão do Rio Branco. Ao que parece, os abades resolveram passar a missão a outra Congregação e soube que no mosteiro do Rio chegou o novo superior da Itália para tratar do assunto. Que lástima! Que vergonha para nossa congregação! Tantos trabalhos, tantos sacrifícios e mortes, e agora que tudo está em melhores condições passar a outras mãos o fruto de tantos esforços. Como se os nossos mosteiros não tivessem meios nem gente para continuar a obra. Sem conhecerem sequer o lugar, deitam por cima a pedra sepulcral ‗hic jacet‘. A mentalidade da nova geração, meu caro, é toda diferente [...] dizem que não temos a vida litúrgica, nem o espírito das cerimônias. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 134)

Com a transferência da Ordem, Dom Alcuíno Meyer passou a viver no mosteiro da Bahia e de lá outras cartas expressaram uma miscelânea de sentimentos que vão da melancolia dos tempos de missão no Rio Branco ao ressentimento em relação aos que entregaram a missão a outra ordem, passando ainda pela conformação espiritual. Entre o desânimo e a serenidade monástica, Dom Alcuíno Meyer assim classificou as mudanças pelas quais passou, a partir de sua nova ocupação como tipógrafo no mosteiro da Bahia:

Lá, em plena selva ou na solidão e extensão das savanas, gozando dos atrativos incomparáveis da natureza [...] aqui, socado entre muros e paredes grossas e as precárias bonitezas da tal de civilização! Sim, que diferença radical! E, não obstante, vivo aqui satisfeito, como nem ousara esperar. É que Deus ajuda e oferece conveniente compensação na vida espiritual mais intensa e no trabalho mais metódico. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 141)

Sete anos após a saída dos beneditinos do território do Rio Branco, Dom Alcuíno Meyer escreve ao Arquiabade, seu superior, para felicitá-lo sobre o jubileu de prata abacial139. A carta guarda singularidades exatamente por expressar ressentimentos que traduzem o clima de tensão e de conflito presentes no processo de transferências entre as ordens missionárias:

V. Paternidade não ignora que eu não sou dos súditos que lhe são mais afeiçoados. Basta dizer que ainda não consegui superar de todo certos ressentimentos. Anteriormente foram bem mais pronunciados. Todavia, qualquer coisa deles ainda persiste. E não obstante o que acabo de dizer, meus votos festivos são sinceros. Não é de hoje que tanto mais rezo por V. Paternidade, quanto mais se fazem sentir tais

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ressentimentos, pois sei também quais meus deveres cristãos e quais os meios sobrenaturais para vencer complexos ou fenômenos semelhantes. (MOSTEIRO DE SÃO BENTO, 1985, p. 144)

Dom Alcuíno faleceu aos 90 anos e bem antes disso passou a manifestar o reconhecimento do trabalho dos missionários da Consolata, julgando ―acertada‖ a mudança das ordens católicas em Roraima, por terem os Consolatinos mais recursos para construirem a missão junto aos índios.