4. Dokumentasjon av indikatorer og datakilder
4.1. Målområde 1
Por meio de Maud M., Chanel conheceu Etienne Balsan, um oficial militar da cavalaria francesa, de família rica do setor têxtil, que criava cavalos e comprou um castelo no interior da França. Quando se conheceram, Gabrielle tinha 22 anos e ele, 24.
Tanto na biografia escrita por Madsen (1992), quanto por Haedrich (1988), encontra-se a afirmação de que Balsan pagou um aborto a Chanel e, desde então, tornou-se o seu “protetor”. Aliás, levanta-se a suspeita de que este aborto realizado na juventude é que pode tê-la tornado estéril por toda a vida.
461 VAUGHAN, Hal. Dormindo com o inimigo: a guerra secreta de Coco Chanel. São Paulo:
Companhia das Letras, 2011, p. 22.
462 Nas biografias de Chanel encontra-se que a irmã mais velha, Julie, casara-se com um homem rico
que a abandonou quando ficou grávida (talvez possa ser levantada a correlação entre o destino amoroso de Julie e o de Jeanne, mãe de Chanel).
Balsan tinha uma amante que sustentava, Emilienne d’Alençon, que ficou enciumada quando Chanel foi morar com ele em seu castelo chamado Royallieu. Assim, como d’Alençon, Gabrielle era vista como uma demi monde, isto é, uma mulher não respeitada, que queria adquirir status social pela via do casamento. A este respeito, Charles-Roux (2007) escreve que o pensamento vigente da sociedade da época era o seguinte:
(...) uma bela desconhecida podia fazer um homem apaixonar- se a ponto de oferecer-lhe respeito através do casamento. Que horror! Casar com uma desconhecida que não tinha fortuna, nem família, nem costureiro...Uma aventureira que fazia as próprias roupas e fabricava também seus chapéus.463
Por meio dos biógrafos, é possível notar que Chanel estava marcada, diante da alta sociedade parisiense, como uma mulher pobre, sem sobrenome ou dinheiro: que lhe serviriam de autorização para fazer parte da aristocracia. Compreendo que Chanel tenha encontrado, portanto, na união com Balsan uma forma de ascensão social; além disso, a presença de Emiliene d’Alençon pode ter funcionado como um auxílio a mais para as tentativas de destaque de Gabrielle, pois pode tê-la convidado à rivalidade com a figura feminina – característica comum das relações triangulares estabelecidas na histeria.
No tempo em que esteve com Etienne, Gabrielle aprendeu hipismo e passou a freqüentar corridas de cavalo, onde era hostilizada pelas mulheres da alta sociedade, como Chanel mesma declara: “todo mundo ria de me ver vestida assim, mas foi a causa do meu sucesso. Eu não me parecia com ninguém. (...) Eu fiz uma espécie de revolução por acaso, por sorte.”464
Assim, as mulheres – e também os homens – da aristocracia francesa, sabiam reconhecer em Chanel a marca da diferença social; porém, esta distinção não lhe permitiu afetar a auto-estima, mas ao contrário, possibilitou-lhe utilizar este destaque como veículo de comunicação com os sujeitos da alta sociedade.
Isto porque, Gabrielle Chanel pareceu aproveitar a exposição de concubina de Balsan, nas corridas de cavalos, para desfilar suas criações de roupas e,
463 CHARLES-ROUX, Edmonde. A era Chanel. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p. 56 464 HAEDRICH, Marcel. Coco Chanel. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p. 56-7
principalmente, de chapéus. Acerca disto, ela destaca que as mulheres de alta sociedade: “(...) queriam, acima de tudo, saber quem fazia meus chapéus. Eu comprava na Galeria Lafayette um chapéu-coco465 e punha qualquer coisa em cima. Comecei comprando seis, depois foram doze.”466
De acordo com o entendimento de Janet Wallach (1999), Chanel não apenas conquistou a atenção das mulheres a sua volta, mas também conseguiu seduzir Balsan, pois: “suas respostas rápidas, que faziam com que ela mantivesse conversas inteligentes, e sua destreza na arte de montar tão bem quanto qualquer homem agradavam Balsan (...).”467 Assim, Gabrielle conseguia, diante de Balsan,
sobressair-se na relação de rivalidade com Emiliene d’Alençon. Além disso, a biógrafa comenta que, nos eventos sociais:
(...) ela sabia se fazer notar, vestindo-se de forma diferente de todas as outras. Sabendo que seu corpo pequeno desaparecia sob a moda exagerada da época, Chanel exibia o pescoço comprido e o corpo esbelto ao usar as roupas simples que ela mesma fazia, além de pedir emprestado aos amigos camisas, gravatas, paletós e culotes.468
Neste sentido, entendo que a estada no castelo Royallieu, bem como os eventos sociais, possibilitaram à jovem Gabrielle, observar o que, nas roupas e acessórios, marcavam a diferença sexual. Ao compor seus figurinos, tentava minimizar esta diferença, porém de modo a integrá-la. Isto é, não havia, nas criações de Chanel, uma transformação de uma mulher em um homem, mas sim, a criação de um vestuário feminino com algumas características masculinas, haja vista a descrição de Wallach (acima), que destaca que Chanel exibia o pescoço comprido e esbelto, porém pedia emprestado algumas peças de roupas a seus amigos.
Foi assim que Gabrielle, segundo alguns biógrafos consideram, deu início à primeira fase de suas criações como estilista, reconhecida como: a fase de montaria.
465 Chapéu-
coco ou melon: “chapéu de homem com copa redonda e de altura mediana. Após a Guerra de 1914-18, com o abandono da cartola no cotidiano, o coco torna-se o chapéu elegante, exceto para cerimônias. O ator Charles Chaplin cobriu com ele seu Carlitos, de modo que agora ele lembra esse personagem (...).” In: BOUCHER, François. História do vestuário no Ocidente: das origens aos nossos dias. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p. 460.
466 HAEDRICH, Marcel. Coco Chanel. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p. 57 467 WALLACH, Janet. Chanel
– Seu estilo e sua vida. São Paulo: Mandarim, 1999, p. 28-9
Nesta fase, ela buscou adaptar roupas de montaria masculina, que eram mais confortáveis, ao corpo feminino. Neste período, não houve grande revolução em suas criações, Chanel começou a adaptação pelos acessórios masculinos que passaram compor o figurino feminino.
Na figura a seguir, há um interessante retrato de 1907, em que Chanel estava em um grupo de cavalgadores, amigos de Balsan. Charles-Roux (2007) escreve acerca desta figura o seguinte: “a ousadia da gravata borboleta contrasta uma espécie de simplicidade masculina com os colarinhos de pregas à Henrique II que ainda afogam o pescoço das outras amazonas.”469
Gabrielle Chanel em montaria, em 1907, é a segunda da direita para a esquerda470. Ela está ao lado de Etienne Balsan (o primeiro, à direita).
469 CHARLES-ROUX, Edmonde. A era Chanel. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p. 54
470 Figura extraída de: CHARLES-ROUX, Edmonde. A era Chanel. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p.
É possível observar que Gabrielle, neste período inicial de suas criações interessa-se pela integração entre feminilidade e masculinidade e a via de comunicação deste desejo integrador com o meio externo é a vestimenta. Neste momento, ela inicia pelos acessórios que marcam a diferença sexual (como por exemplo, a gravata borboleta que se insere ao figurino de amazona).
Apesar de observar os acessórios que compunham os figurinos masculino e feminino – até então, bem delimitados pela cultura européia do início do século XX – e compô-los em eventos sociais, Chanel dedicava-se, nesta época, fundamentalmente, à criação de chapéus. Este objeto, usado tanto por homens quanto por mulheres, era também um objeto que delineava bem as diferenças entre os sexos (como mostra a foto anterior) e também as diferenças sociais.
Gabrielle, ao operar sua criatividade sobre este item do vestuário que protege a cabeça de condições adversas, primou pela simplicidade, pela minimização das diferenças sexuais, passando a compor, a partir de chapéus-coco (mais simples do que os comumente utilizados), modelos que agradaram as mulheres das mais altas classes da sociedade parisiense. O peso dos chapéus usados pelas mulheres da época evidenciava, a meu ver, o “peso” do destino feminino, um certo calvário pela saída feminina. Chanel, ao minimizar a diferença, também propôs um destino mais “leve” às mulheres.
Enquanto se dedicava a criação de chapéus e com a valorização de seu trabalho, Chanel, que estava com 25 anos, passou a almejar abrir uma loja, além de se preocupar com o seu futuro, como escreve Madsen (1992):
[Ela]471não queria ser como as outras mulheres, eternamente
dependente dos homens, de seus apetites, de seus caprichos, de seu dinheiro. O que aconteceria com ela quando Etienne encontrasse outra Emilienne d’Alençon? A questão de seu futuro a preocupava.472
Em busca de sua independência financeira, Gabrielle pediu a Etienne que lhe ajudasse a abrir uma loja de chapéus, para que ela transformasse suas criações em
471 Colchetes meus
profissão. Balsan não a ajudou, pois argumentava que criar chapéus era um passatempo e, além disso, opinava que uma mulher não deveria trabalhar.
Porém, Gabrielle continuou a cultivar o ideal de levar adiante o ofício que fora de sua mãe, avó e também de sua tia, porém, ainda voltado, preponderantemente, aos chapéus. Além disso, a loja lhe permitiria obter a almejada independência dos homens, situação não conquistada por sua mãe, Jeanne.