4. Dokumentasjon av indikatorer og datakilder
4.5. Målområde 5
Ainda a respeito do relacionamento com Paul Iribe, Chanel relembrou ao amigo Paul Morand (1989) o seguinte: “Minha relação com Iribe foi passional. Como detesto a paixão! Que abominação, que enfermidade mais horrível! Uma pessoa apaixonada é como um atleta, não conhece nem o calor, nem o frio, nem o cansaço; vive para conseguir o impossível.”532 Neste sentido, acredito estar evidenciado,
neste trecho do discurso de Coco Chanel, uma abominação pela dependência afetiva.
Além disso, entendo que a morte de Iribe possa ter evocado em Chanel o sentimento de perda do objeto amoroso, que pode tê-la remetido ao desamparo, que sentiu quando vivenciou a morte da mãe e o abandono paterno.
Os biógrafos referem que Chanel sofreu um forte abalo com a morte de Paul. Conforme ocorrido outras vezes, Coco recorreu às atividades de criação a fim de superar o sofrimento decorrente da morte do cartunista. Por isso, voltou a Paris a fim de criar a coleção de 1936. Ao chegar à cidade, encontrou alguns concorrentes que estavam fazendo inovações na moda. Entre eles, a italiana Elsa Schiaparelli foi a que maior perigo apresentou a ela. Esta concorrência instigou-a ainda mais ao trabalho criativo.
Essa estilista buscou criar túnicas e roupas mais largas a partir da temática egípcia, utilizando influências surrealistas e cubistas. Para isso, contratou Salvador Dalí e Jean Cocteau para comporem as estampas em suas criações. A este respeito Madsen (1992) escreve o seguinte:
Chanel e Schiaparelli não estavam apenas dividindo a mesma clientela, mas estavam também criando ‘escolas’ de moda, e Gabrielle era agora a estilista para mulheres hesitantes e
inseguras. As retraídas, que temiam o mau gosto, vestiam Chanel; as ousadas, seguras e fascinantes divertiam-se com os cílios vermelhos de Schiaparelli, com suas luvas pretas e unhas pintadas de escarlate, com as grossas redes de cabelo sustentando chapéus chatos como panqueca (...).533
Desta forma, com o surgimento de Schiaparelli no cenário das criações de roupas, cria-se diferentes “escolas de moda”, onde Chanel é avaliada pela crítica como criadora de figurinos clássicos, porém sem inovação.
Além da concorrência com Schiaparelli, neste mesmo ano, Chanel enfrentou problemas com as greves de suas funcionárias – que reivindicavam direitos trabalhistas e ameaçaram a confecção da coleção outono-inverno. Madsen (1992) escreve que, a fim de não perder maior espaço para a concorrente – que não tivera grandes problemas para negociar com suas funcionárias –, Chanel optou por recuar e manter a força de trabalho, por meio de acordo.
Conforme escreve Madsen (1992), em 1937, Coco continuou a enfrentar uma forte crise em suas produções. Os jornalistas preferiam ir aos desfiles de Schiaparelli, pois suas criações extravagantes suscitavam muito mais a curiosidade das pessoas do que o ar sóbrio das coleções de Chanel.
A fim de experimentar a novidade e, sobretudo, não permitir que Schiaparelli tomasse seu lugar no mercado, Coco resolveu inovar em sua aparição pública, no início das festividades de 1º. de maio. Madsen (1992) relata que:
Gabrielle aproveitou a abertura de gala e as festas da exposição para cortejar e ser cortejada por fotógrafos e jornalistas. (...) ela chegou à feira com um vestido tão leve que a imprensa se perguntou do que seria feito. A leveza era seu novo tema e lançava um desafio à Schiaparelli.534
Deste modo, é possível pensar que as situações de crise deprimem Chanel – assim como a todos os seres humanos –, porém acredito que o ego de Chanel não é tomado pela pulsão de morte, a força de Eros, prevalecente e entrelaçada com a
533 MADSEN, Axel. Chanel. São Paulo, Martins Fontes, 1992, p.197 534 Idem, p.204
força fálica permitem que ela busque saída pela atividade sublimatória, inovando em suas criações.
Mesmo com a competitividade, as coleções de 1939, tanto de Coco, quanto de Schiaparelli primaram pela simplicidade, já que no campo político, a França vivia um clima de tensão e a população parecia se preocupar menos com inovações. Madsen (1992) escreve, que naquele ano:
A moda de Coco era um gesto grandioso, cheio de jaquetas curtas, bem assentadas, e saias com bolsos, um gesto virtuosístico com uma pitada de nacionalismo, que era mais um tributo ao patriotismo de Iribe do que um reconhecimento da ameaça da guerra.535
Assim, acredito que Chanel comunicou, por meio de suas criações nesta época, o referencial identificatório que constituiu: ao compor uma personagem com uma “pitada de nacionalismo”, se identificava com Paul Iribe, falecido há um ano.
De acordo com Boucher (2010), em História do vestuário no Ocidente: das
origens aos nossos dias, o cenário da moda durante este período foi constituído da
seguinte forma:
A segunda Guerra Mundial, as hostilidades e a ocupação alemã vão impor condições difíceis à alta costura parisiense, que se verá, durante vários anos, isolada de todas as relações com o estrangeiro, mesmo quando seu poder de criação se choca com a escassez dos tecidos e as restrições sofridas por todas as indústrias associadas. É a época de reaproveitamento de tecidos e outros materiais, das solas articuladas, em madeira ou compensadas, em cortiça, mas também dos chapéus feitos de nada, com um jornal amarrotado, uma simples fita e um pouco de tule illusion...536
535 MADSEN, Axel. Chanel. São Paulo, Martins Fontes, 1992, p. 209
536 Tule illusion é o tipo mais comum e barato de tule. BOUCHER, François. História do vestuário no