“Dantes o costume em Portugal, nos meses de verão, era tomar ares. Quem fosse gente tinha casa no campo e em chegando o mês de Maio emigrava para a quinta, que era como se chamava a isso, e ia espantar com as modas novas os habitantes tranquilos das circunvizinhanças”71.
Assim escrevia Júlio César Machado, na introdução à obra de Ramalho Ortigão sobre estâncias termais portuguesas. Na verdade, entre nós, a mais arreigada tradição, é a da vilegiatura climática, ligada ao campo, à serra ou à beira-mar, mas num sentido inverso ao que encontramos nos países do norte da Europa. Aqui, procura-se uma estadia para os meses de inverno mais frios, em lugares de clima ameno, dando fama a centros como Nice e Arcachon. Em Portugal, anseia-se por refrescar os verões à sombra do arvoredo, em locais de maior altitude ou junto à brisa do mar.
Este característico veraneio nacional, até ao século XIX, está destinado apenas a uma elite privilegiada, que combina os preceitos da sua classe com os seus interesses de proprietários. A quinta de recreio ou de “fresco”72, termo que define todo um conceito de vilegiatura, só raramente tinha uma função exclusivamente recreativa, “na maior parte dos casos eram os campos de cultura arvense, os prados, as matas, os pomares, tal como os hortos com as suas fontes e tanques de rega, as servidões carrais e acessos às folhas de cultivo, os estábulos e pombais, armações de vinha e outro
71Júlio César Machado, Introdução a Banhos de Caldas e Águas Minerais de Ramalho Ortigão, 1944, s.p. 72
Termo aplicado, por extensão, a toda a propriedade a partir de um elemento comum a estes espaços que era a “casa de fresco”, pequena construção aberta sobre uma superfície de água, como vemos, por exemplo,
equipamento, que eram dispostos e concebidos por forma a obter-se, de par com a produção de bens de consumo, um ambiente repousante para o espírito, pela via de uma composição paisagística daqueles elementos (devidamente tratados) em um conjunto de agradável encanto para a vista e para os outros sentidos”73.
Esta vilegiatura aristocrática, fechada em altos muros tem, provavelmente, uma origem romana, mas foi durante a dominação muçulmana que nasceram os exemplos mais interessantes que chegaram até nós. Na Andaluzia espanhola o exemplar mais célebre é o Generalif, construído em Granada no princípio do século XIII e, em território português, parece legítimo acreditar que terão origem árabe as quintas da Sempre Noiva, Água de Peixes, Vila Viçosa e Valverde, no Alentejo, bem como a da Penha Longa em Sintra74. Nos séculos XVI e XVII, a moda das quintas de recreio adquire grande incremento em Portugal e diversificam-se os locais da sua implantação. Ainda ao sul do Tejo, com exemplos tão importantes como a Bacalhoa, em Azeitão, ou a do Calhariz em Sesimbra, sempre nos arredores de Lisboa, como nos casos maiores de Palhavâ ou de Fronteira, mas também nas terras do norte, com a Quinta de Santa Cruz na Maia, ou as cercas conventuais do Buçaco e de Tibães.
No início do período contemporâneo, finais do século XVIII e princípios do século XIX, é este tipo de vilegiatura que, quase exclusivamente, se pratica em Portugal, quando “a sociedade elegante de Lisboa veraneava no Ribatejo, enchendo de rumor e vida as sumptuosas quintas e palácios da região. Em Vila Franca havia caçadas reais, em Salvaterra touradas de fidalgos. Alhandra era, na época de D. Maria II, um ponto de veraneio muito na moda”75. O mesmo acontecia no norte do país na Quinta da Bacalhoa em Azeitão. (Cf. Ilídio de Araújo, “Quintas de Recreio”, in Bracara Augusta, nº63 (75), 1973, p.324)
73Ilídio de Araújo, “Quintas de Recreio”, in Bracara Augusta, nº63(75), 1973, p.325 74
Idem, p.327
75
quando, sobretudo a partir das reformas do marquês de Pombal, uma nova elite portuense dava brilho ao seu estatuto veraneando nas recém alindadas quintas vinícolas do Douro. Os actores já não são exclusivamente aristocratas, mas o tipo de vilegiatura é rigorosamente o mesmo que, longamente, fora praticado pela nobreza e clero nacionais76. Apesar deste enorme alargamento e difusão, é a vila de Sintra, de tão velhos pergaminhos, que vê reafirmar o seu enorme prestígio, bem como alguns sítios dos concelhos ocidentais de Lisboa, confinantes com o Tejo. Destes últimos assinalamos apenas dois exemplos mais conhecidos. A quinta do marquês de Pombal, em Oeiras, e a Real Quinta de Caxias, ambas do século XVIII. A primeira, foi fundada pelos dois irmãos do primeiro marquês de Pombal, a quem se deve também a construção do palácio, com planta e direcção de obras de Carlos Mardel (c.1695-1763?)77. O paço de Caxias, pertença da casa do Infantado, é de modestas dimensões, e teve a sua obra iniciada por D. Francisco, filho de D. Pedro II. Após a sua morte, foi ordenada a sua conclusão pelo infante D.Pedro, mais tarde rei através do seu casamento com D.Maria I. Desde então, o palácio foi temporariamente habitado pelos reis de Portugal até D.Luís. As duas combinam, segundo a velha tradição, espaços de produção (sobretudo pomar e vinha) com os espaços de “regalo” com os seus magníficos jardins, cascatas, pavilhões, etc.. É nesta vertente que a quinta de Caxias é uma das mais famosas do seu género em Portugal, e a descrição que dela faz Vilhena Barbosa78 é, de certa forma, o resumo destes espaços obrigatórios em qualquer quinta de recreio:
“A parte recreativa da quinta, apesar de estar plantada no gosto antigo, que obrigava a natureza e a arte a sujeitarem-se às regras da symetria, ainda
76
“Seriam os maus ares, os cheiros pestilentos ou o ruído , alguns dos factores que condicionaram estas mudanças, determinantes a partir do liberalismo no arranque do lazer, acompanhando a renovação das elites e a populização dos seus hábitos.”;in Luís Paulo Saldanha Martins, Lazer, Férias e Turismo na organização do espaço no Noroeste de Portugal, 1993, p.58
77
Engenheiro-arquitecto em Portugal desde 1733, nomeado arquitecto dos Paços Reais em 1747. Com Eugénio dos Santos é responsável pelo plano de urbanização da baixa de Lisboa e principais edificações a construir, após o terramoto de 1755
assim é bella. O jardim principal, e a sua soberba cascata, apresentam uma perspectiva cheia de belleza e majestade. O jardim é, sem dúvida, um dos maiores que há no paiz, e talvez nenhum outro o eguale em extensão. Cercam-no em parte, por dois lados, altas paredes de verdura, sempre mui bem tosquiada, com vários nichos a espaços guarnecidos de estátuas. Adornam-lhe o centro cinco lagos de mármore, se bem estamos lembrados, e no fundo ergue-se, em toda a largura do jardim, a formosa cascata com as suas galerias lateraes, que dá celebridade a esta quinta (...). Eleva-se a cascata a grande altura, rematando em pavilhão oitavado, com três janellas e uma porta, todas de vidraça”79.
Ao longo do século XVIII, e ainda nos princípios do século XIX, vemos multiplicarem-se estas quintas de recreio e, muitas delas, escolherem terrenos à beira-mar, por vezes servindo de embrião a futuras estâncias balneares, como as quintas do Viana, no Estoril e a do Bispo, na Granja.
O final de Setecentos e primeira metade de Oitocentos trouxeram à Serra de Sintra, uma atenção renovada para este tipo de vilegiatura tradicional. Do último quartel do século XVIII, são ainda duas importantes obras neste contexto. A primeira é o Palácio de Seteais, encomenda do contratador de diamantes e cônsul holandês, pertencente ao círculo do marquês de Pombal, Daniel de Gildemeester, com projecto neoclássico do arquitecto José da Costa e Silva (1747-1819)80 e começado a construir em 1783. Magnificamente implantado, dominando a paisagem da serra e da costa marítima, foi acrescentado com uma fachada cenograficamente simétrica à original e um arco triunfal, em 1802, quando já pertencia ao 5º marquês de Marialva. O segundo, é o primeiro Palácio de Monserrate,
78
Archivo Pitoresco, p.379
79
Note-se a referência ao jardim ao “gosto antigo”, ou seja, o modelo clássico, “à francesa”, valorizando-se o traçado “moderno”, “à inglesa”, com desenho menos rigoroso, mais “natural”, introduzido pela primeira vez em Portugal, em Sintra. O modelo, porém, já existia desde a primeira metade do século XVIII, quando Lord Burlington (e os seus arquitectos) o imaginaram para a sua Chiswick House (Landscape Garden)
construído por Devisme em estilo neogótico, nos mesmos anos oitenta do século XVIII. Por volta de 1820, estava em ruínas por abandono e, em 1856, é comprado por Francis Cook, negociante de tecidos britânico que promoveu a sua reconstrução. Encomenda um projecto ao arquitecto vitoriano James Knowles Jr. (1831-1908)81 e, entre 1863 e 1865, construiu- se o novo edifício com gosto marcadamente oriental, certamente inspirado no pavilhão real de Brigthon segundo John Nash. Mais ainda que o palácio, importa realçar o belíssimo jardim romântico, também de “invenção” inglesa que enquadra da melhor maneira as fantasias da arquitectura.
O palácio da Pena, que marca definitivamente a escolha de Sintra como local de vilegiatura romântica por excelência, começa a sua história quando, em 1839, D. Fernando, rei consorte de D. Maria II, comprou as ruínas do convento manuelino de Nossa Senhora da Pena com os respectivos terrenos envolventes. Em 1840 começou-se a obra segundo desenho do engenheiro barão Ludwig von Eschwege, sob indicações directas do próprio rei e a colaboração de Possidónio da Silva (1806-1896)82 e Demetrio Cinatti (1808-1879)83. O resultado é um palácio acastelado onde se combinam, com arrojo, elementos portugueses – neogóticos e neomanuelinos, e orientais – neomuçulmanos e indianos, que se insere harmoniosamente no ambiente
80
Estudou e praticou em Itália de 1769 a 1780 e entre os seus projectos mais importantes importantes estão: o novo edifício do Erário Régio, de 1789, nunca concluído, o teatro de S. Carlos, em 1792, e com Fabri (1761-1807) o novo palácio real para a Ajuda
81 Filho do também arquitecto James Thomas Knowles, Sem. (1806-84) com ele foi responsável pelos
projectos do Grosvenor Hotel e Victoria Station, em Londres. Da sua exclusiva autoria contam-se os projectos de Cedars Estate (1860) e Park Town Estate (1863-66), ambos em Londres (cf. Dictionary of Architecture, Oxford, 1999, p.363)
82 Estudou em Lisboa, em Paris (1824-28) com Charles Perier, e em Roma (1829-30). Regressa a Paris
onde trabalha nas obras das Tulherias e do Palais Royal. Já em Portugal, definitivamente, ganha o concurso para adaptação do Palácio de S. Bento a Parlamento; é nomeado “Arquitecto da Casa Real”, colaborando no projecto da Pena e na remodelação do P. das Necessidades (1844-46); preocupou-se com a formação profissional dos arquitectos e dedicou-se à arqueologia tendo sido um dos fundadores da «Associação dos Arquitectos e Arqueólogos Portugueses» (1863) e do Museu do Carmo (Cf. J. M. Pedreirinha, Dicionário de Arquitectos, 1994, pp. 222-223)
83
Estudou em Milão e trabalhou como cenógrafo em Lyon; veio para Portugal em 1836 para trabalhar nos cenários de S. Carlos; como arquitecto, esteve ligado a uma série de palacetes neoclássicos que projectou e decorou; foi autor de decorações famosas como as que se fizeram no Rossio pelo casamento de D. Luís mas o seu nome é mais lembrado pelas obras dos Jerónimos que, relizadas em colaboração com Rambois (também cenógrafo), acabaram em 1878 com a derrocada de uma das torres (Cf. Idem.p.85-86)
natural. Aqui também se deu a maior atenção ao parque envolvente, mais uma vez da responsabilidade directa do rei consorte, encomendando plantas e árvores exóticas, construindo fontes, pavilhões e sítios para gozar o panorama. Directamente ligado a D. Fernando, está também a construção do
chalet da condessa d’Edla, segunda esposa morganática do rei, e que este
mandou construir dentro de perímetro do parque da Pena. Pequena casa de gosto “romântico-revivalista em que troncos de árvores imaginárias, feitos de cortiça tal como no Convento dos Capuchos, animam os alçados e conferem à pequena casa de habitação um prospecto mimoso e acolhedor”84. O gosto romântico presente na Pena e, logo a seguir, no segundo palácio de Monserrate, como vimos, reflectir-se-á um pouco por todo o país, mas é Sintra, “pelas invulgares potencialidades naturais do éden byroniano, que irá acolher as peças de melhor aprumo, num conjunto de palacetes, villas e quintas enquadradas com felicidade no espírito do local”85. Um exemplo precoce, é o edifício neomourisco da quinta do Relógio, encomendado pelo capitalista Pinto da Fonseca, por volta de 1860, ao arquitecto António Tomás da Fonseca (1822/23-1894), junto à estrada de Seteais, com o seu átrio de arcada e portais arabizantes, num edifício de um só piso. Mais tardia e também mais feliz, é a obra do arquitecto Giuseppe Cinatti no palácio Valenças, à entrada da vila velha, com clara influência italiana, e que hoje alberga a Biblioteca Municipal de Sintra. Ou ainda, o palacete Biester, no caminho da Pena, com o seu perfil neogótico, desenhado nos anos oitenta pelo arquitecto José Luís Monteiro (1848-1942) e onde também se devem apreciar os magníficos jardins. A viragem para o século XX, embora seja de desenvolvimento urbano com a expansão do novo bairro da Estefânia, destinado à burguesia, é também de declínio para a vilegiatura aristocrática que, cada vez mais, troca as quintas pela praia,
84
Vítor Serrão, Sintra, 1989, p.68
85
atraída sobretudo por Cascais e Monte Estoril, locais preferidos do veraneio da corte.
Na verdade, apesar de, para o século XIX, Sintra possuir dos melhores hotéis e hospedarias86, sobretudo frequentados pela nova burguesia endinheirada, a velha estrutura de um “sítio de quintas” não propiciava o tipo de lazer, em espaços mais públicos e mais democráticos, que o liberalismo impunha. Em 1906, um artigo da Ilustração Portuguesa, intitulado “Sintra – Vilegiatura da Nobreza”, dá-nos claramente esta dimensão:
“Com a saída de sua majestade a Rainha do Castelo da Pena, grande parte dessa população elegante, que há três meses está animando com os seus raouts, as suas garden-parties e os seus pic-nics a formosa vila de Sintra, principia a acudir a Cascais e aos Estoris. Dentro de poucos dias a vilegiatura da corte transfere-se definitivamente para a beira-mar (...) a Lisboa heráldica de S.Carlos e das recepções de gala passará para a paisagem africana do litoral, para entre a poeira do Monte Estoril, em frente à toalha de águas cintilantes, (...) que desde a fortaleza de S.Julião da
Barra se desdobra até à cidadela, num arco de círculo imenso, emoldurado de povoações de luxo e de recreio.
A essas duas paisagens diferentes corresponde um modo de vida diverso. Sintra é um centro de reunião tradicionalmente exclusivista. (...) A centenária vila ficou sempre aristocrática, através os tempos e as revoluções. Sintra é ainda hoje, com raras excepções, apanágio de uma casta. (...) Sintra é, hereditariamente, uma propriedade particular: a propriedade de uma classe. A vida de Sintra é ainda uma vida senhorial, uma vida de quinta, ao abrigo de muros heráldicos. (...) Em Cascais nada resta que lembre o passado. (...) esta grande família mundana, que habita Sintra de Julho a Setembro, dando-se o luxo de um exclusivismo que está longe de manter
86
logo a seguir em Cascais, essa pequena sociedade elegante e formalista, que faz escola de boas maneiras, não é, a bem dizer, uma nata fidalga, que se retrai à convivência do intruso com receio de desmerecer na sua nobreza inacessível. A nobreza, hoje, é mais de educação que de sangue. As sociedades privilegiadas são hoje aglomerações heterogéneas, onde há um pouco de tudo: do fidalgo e do banqueiro, do grande senhor e do parvenu, do janota e do político. (...) Sintra conservou-se, pela sua natureza topográfica, uma vilegiatura de proprietários. Os seus hotéis dão apenas de almoçar aos lisboetas nos domingos e quase só hospedam ingleses. Não há uma praia, um parque, um casino, um club, que favoreça a reunião de elementos estranhos (...) Sintra, como mais parte alguma – a não ser talvez na pretenciosa Granja, onde se reúne um simulacro de grande sociedade, no fundo inofensivamente burguesa, - presta-se, pelo seu regime de propriedade, a essa selecção, impossível de obter hoje em dia pela imposição de preconceitos declaradamente aristocráticos (...) e de que faria parte integrante a ligação eléctrica com os Cascais fluorescente e animado dos bailes, dos concertos e da jogatina. (...) Seria necessário banir as famílias das suas propriedades, entregar a quinta do Duque aos croupiers, o palácio de Seteais a um empresário (etc.) para fazer de Sintra uma colmeia cosmopolita de jouisseurs: espécie de Mónaco de que os Estoris e Cascais seriam a Nice dos gran-duques e dos ingleses, das rainhas destronadas e dos aventureiros”87.
Realcemos, para já, apenas três aspectos: a ausência de parque público, as estruturas hoteleiras ultrapassadas pelas modernas unidades que apareciam no Monte Estoril e a inexistência de casino. Três elementos fundamentais para a animação cosmopolita de qualquer sítio de vilegiatura e que, em Sintra, jamais tiveram lugar, ou só muito tardiamente como é o caso
87
do casino, construído entre 1922 e 1924, com projecto de Norte Júnior (1878-1962), na avenida principal do novo bairro burguês da Estefânia.
As características sui generis de Sintra como estância de vilegiatura, continuando, afinal, uma tradição que vinha de outras épocas, e não obstante a inegável importância que tem para o século XIX, não produziu nenhum modelo urbano ou qualquer exemplo de equipamento importantes para as estâncias que veremos nascer na segunda metade do século. O único contributo, este de assinalável relevo, é o das casas particulares (e alguns dos seus jardins), sobretudo as construídas depois da Pena.
Mesmo preterida em favor da praia e da sua maior animação, no final do século XIX e princípios do século XX, Sintra viu ainda construírem-se casas particulares de algum valor arquitectónico. Para o exemplificar, basta citarmos o palacete Regaleira, encomenda do capitalista Carvalho Monteiro88 ao arquitecto-cenógrafo Luigi Manini (1848-1936)89, com a sua decoração neomanuelina, ou ainda, as obras de Raul Lino (1879-1974), donde se destacam a “Casa do Cipreste”, construída em 1912 para si próprio e a “Casa dos Penedos”, de 1922, ambas magníficos exemplares da arquitectura “nacionalizada” defendida pelo seu autor.
A vilegiatura climática em Portugal, teve ainda um centro importante internacionalmente, e muito precoce, na Ilha da Madeira que “foi a primeira região do Mundo onde houve turismo viajando no alto mar, quando no século XV se iniciaram estas viagens com minúsculas embarcações – barineis e caravelas – que transportavam vinho e açúcar da Madeira para Inglaterra e outros países europeus e regressavam com mercadorias para serem transaccionadas na Ilha”90. Estes estrangeiros aproveitavam as
88
Erudito e bibliófilo (especialmente de Camões), era mais conhecido por “Monteiro dos Milhões”
89
Veio para Lisboa, em 1879, suceder a Cinatti como cenógrafo do Teatro S. Carlos. Fez trbalhos de decoração importantes como no Palácio Foz, no Teatro S. João do Porto e no Pav. Português da Exposição de 1900, em Paris. Como arquitecto, e também com gosto neomanuelino, é autor do Palace-Hotel do Buçaco (1888-1907) onde trabalhou com Nicola Bigaglia (J. M. Pedreirinha, op. cit., p.160)
90
viagens comerciais para visitar a Ilha e gozar a amenidade do seu clima, inicialmente sobretudo no verão, mas descobrindo um “turismo atlântico que se desenvolveu gradual e progressivamente até aos nossos dias”91. Alguns forasteiros, cativados pelas belezas do lugar, e acreditando nas suas potencialidades económicas, instalaram-se permanentemente na Madeira, o que explica a existência de uma numerosa colónia britânica, flamenga e alemã. Nos finais do século XVIII e princípios do XIX, o comércio do vinho da Madeira92 conheceu uma grande expansão e, em 183693, com a fundação da Associação Comercial do Funchal, vieram para a Ilha novas e importantes companhias inglesas. Estes interesses comerciais, aliados à intensificação das viagens transatlânticas94, permitiram que a Madeira se tornasse um destino predilecto para a vilegiatura climática (nos meses mais frios) e também sanatorial. Até 1836 o alojamento destes hóspedes sazonais era feito em residências particulares95 mas, em 1867, já o Funchal contava com sete hospedarias de 1ª ordem96 e pelo menos outras cinco de categoria mais modesta. Destes primeiros hotéis da Madeira alguns fizeram história como o Holloway, instalado numa “bella casa e quinta de recreio na Camacha”97 e, sobretudo, o Reid, cujo primeiro edifício foi construído em 1836, na Rua do Carmo, logo seguido de um outro volumoso imóvel situado na Rua Direita98. Instalado, mais tarde, no magnífico sítio que hoje ocupa,