A génese da vilegiatura contemporânea, de que traçámos um breve resumo, exige ainda algumas considerações sobre o fenómeno nos termos que aqui mais nos interessam, ou seja, da arquitectura e do urbanismo. A praia ou, mais correctamente, o banho de mar, modifica os seus contornos ao longo do tempo, começando por responder a uma procura exclusivamente terapêutica, em Brighton ainda na segunda metade do século XVIII e em Dieppe no princípio do século XIX, para, a pouco e pouco, se transformar num sítio de lazer, de distracção, de verdadeira vilegiatura contemporânea. Nessa evolução definem-se modelos, hierarquizam-se espaços e criam-se regras de vivência que são comuns a todos os países capitalistas. Neste contexto convém dizer que, se os ingleses criaram a moda dos banhos de mar e lhe deram as suas primeiras cartas de nobreza, são, no entanto, as estâncias francesas que mais influência terão na arquitectura e no urbanismo balneares do continente. Quando se começa a frequentar Brighton, o grande exemplo de vilegiatura é a magnífica cidade de Bath, onde o rigor e a disciplina da arquitectura neoclássica são os traços dominantes. Esta tradição marca o carácter das novas estâncias balneares inglesas da costa sul que, apesar de um novo vocabulário, privilegiam as extensas alamedas de fachadas homogéneas, um grande racionalismo no traçado dos arruamentos, deixando para segundo plano o exótico e o pitoresco, apesar do exemplo maior do Pavilhão Real de Nash. Mas toda a regra tem excepção e, depois de uma série de estâncias de mar, que se desenvolveram à imagem e
semelhança de Brighton, com a sua avenida marginal de fachadas contínuas, os seus “squares” e os seus “crescents”, aparece Bournemouth, onde o traçado aproveita de forma pitoresca os acidentes do terreno, onde a frente de mar praticamente não existe e em que as moradias isoladas, no meio de jardins, predominam, procurando alguma originalidade de soluções e permitindo-se algum exotismo67. Em França, e aqui devemos tomar em consideração os dois centros mais importantes, por um lado Biarritz na costa atlântica, por outro as praias da Normandia de Dieppe a Deauville, os modelos são mais flexíveis e as soluções mais variadas. De forma geral, combinam espaços de maior monumentalidade, geralmente de traçado axial, onde se concentram os edifícios de maior importância, com zonas residenciais, onde prevalece um traçado sinuoso e onde se espalham as moradias unifamiliares. Os planos inteiramente regulares são raros e aparecem unicamente quando o terreno a isso quase exige, como em Deauville, que já vimos, ou em Cabourg, com um plano irradiante organizado a partir da praça do “Grand Hôtel”, sobre a praia. No entanto, é curioso verificar que, no caso de Deauville, estas arejadas e modernas avenidas rectas não cativaram os frequentadores da sua vizinha e rival Trouville, aos quais se destinavam. Só no início do século XX, com a construção do novo casino, e, depois de construídos os dois grandes hotéis, Normandy e Royal, Deauville conseguiu chamar a si o “tout monde” europeu e afirmar-se como a grande estância da moda em França. A propósito destes novos hotéis de Deauville, devemos lembrar que eles pertencem a uma terceira geração deste equipamento, os chamados “palaces”, modelo criado em 1898, por César Ritz em Paris, visando um maior conforto que os antecedentes “Grands Hôtels” e introduzindo, pela primeira vez, a casa de banho em todos os quartos. Por outro lado, mesmo
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Os modelos originais, vindos do séc. XVIII, privilegiam a “tribo” aristocrata; Bournemouth pretende responder aos anseios da nova ideologia burguesa em que a casa é um espaço de intimidade familiar quase sagrado
quando existem fachadas de mar, nem sempre são ocupadas por uma avenida e não possuem fachadas contínuas. O mais comum, principalmente na Normandia, onde o mar não é ameaçador, é estes terrenos, imediatamente contíguos ao areal, serem loteados para a construção de casas particulares, geralmente com acesso directo à praia. Nestes casos, o passeio, a “promenade”, é praticado no próprio areal, com as características pranchas de madeira, e isto, apesar da “Promenade des Anglais” em Nice.
Estas diferenças de tradição, no entanto, são secundárias, relativamente a um conjunto de elementos comuns a todos os sítios de vilegiatura oitocentista, participando aqui também as termas e estâncias climáticas. A contaminação dos modelos, qualquer que seja a sua origem geográfica ou a sua vocação principal, está, desde logo, presente na própria terminologia. Podemos dividir esses elementos, embora artificialmente, nas suas duas vertentes, urbanística e arquitectónica. No primeiro caso, a ideia que preside, à partida, é a de modernidade, “telle qu’elle s’exprime et est lue principalement dans le Paris haussmannien (‘axes’, ‘places’, ‘promenades’, ‘Bois’, ‘Boulevards’, ‘allées’, etc.), dans les villes anglaises avec leurs ‘squares’, ‘crescents’, ‘parades’ ou ‘piers’ en bord de mer”68. Em Inglaterra a “promenade” é quase constante, assim como em França, é obrigatório o “jardin anglais”, ou mesmo o “pier”, como em Trouville, que aqui se chama “jetée” e é sempre de madeira. Quanto à arquitectura, encontramos também aspectos que são comuns: o cuidado na escolha de modelos para os equipamentos mais significativos (edifícios balneares, hotéis, casinos), o carácter experimental do desenho arquitectónico, principalmente visível nas casas particulares, onde a influência das exposições universais é importantíssima, bem como a preferência pelo pitoresco, pela variedade, numa autêntica “boulimie de styles et de complicités géographiques ou historiques: néo-classiques, néo-babylonien, néo-égyptien, néo-flamand,
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néo-vénitien, exotique, vernaculaire, néo-normand”69, aspecto revelador de uma mentalidade e de uma cultura arquitectónica caracteristicamente oitocentistas e que se mostra mais universal.
Por último, ainda um factor, comum a todos os locais de vilegiatura, nos parece importante assinalar. Se as transformações socio-económicas, e até políticas, são fundamentais para explicar a evolução das estâncias balneares, outro tanto é preciso dizer da melhoria dos transportes e das vias de acesso que ao longo do século XIX se realizaram. Antes da chegada do automóvel, a grande revolução foi levada a cabo pelo caminho de ferro e o alargamento progressivo das vias ferroviárias70. Todas as estâncias balneares sofreram a sua influência benéfica, conhecendo um novo desenvolvimento, ou aparecendo no “mapa”, a partir de então. Por outro lado, o novo meio de transporte preferencial, obrigou a um novo arranjo urbano, a partir do edifício da estação que, em muitos casos, definiu por muito tempo a lógica do seu funcionamento.
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Villes d’Eaux en France, op.cit., p.9
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Em 1848 nem a Bretanha, nem o Sudoeste nem o Midi, estão ligados a Paris pelo caminho-de-ferro. Só com Napoleão III a França se cobre de linhas em todo o território. Os franceses, de todos os níveis, terão, então, aprendido a viajar. A proporção daqueles que tinham visitado Paris ou tinham visto o mar, ínfima até 1870, será várias vezes multiplicada. (Cf. Jean des Cars et Pierre Pinon, Paris-Haussmann, 1991, pp.44 a 50)