83 FIG. 1 Área da pesquisa
assinalada em Carta Náutica (Universidade, 2013).
FIG. 2 A área do sítio Depositário da Praia da Preguiça, situada entre o Porto Trapiche e a Bahia Marina vista a partir do mar. Foto: Paulo Bava Camargo.
FIG. 3 A área do sítio Depositário Subaquático do Solar do Unhão vista a partir do mar. Foto: Paulo Bava Camargo.
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um pouco mais especializado, vinculado, pelo menos no caso do Unhão, justamente à exploração de seu potencial náutico. Assim, segundo os supracitados autores:
“Não se pode deixar de aludir ao extenso cais e aos armazéns da propriedade que fazem supor que sua função de maior importância fosse a de recolher e exportar a produção açucareira dos numerosos engenhos existentes no Recôncavo” (Pires; Gomes, 1994, p. 137).
Teríamos então, ali, a continuidade das práticas já desenvolvidas pelo licenciado Baltazar Ferraz em seus balcões de secar açúcar, alocados, como estiveram, logo ali nos limites da Praia da Preguiça, no início daquele mesmo século (Livro Velho, 1945, p. 44). De forma geral, de 1850 em diante a região em foco – Pedreiras, Preguiça, Jaqueira e Unhão – foi dominada por trapiches – além de fábrica de deriva‑ dos de tabaco e do alambique – fenômeno que pode ser observado em diversas fotos tiradas a partir das décadas de 1860 ‑1870, reunidas no relatório original da pesquisa (Universidade, 2013).
A existência desses imensos armazéns à beira mar já se percebia, na costa soteropolitana, desde o princípio do século xvii, no antigo Bairro da Praia (Leal, 2016, p. 81). A sua principal função declarada era estocar mercadorias, mas com as construções de pontes de embarque ligadas a eles havia também a necessidade de minimizar a cara e demorada ação de transbordo de mercadorias das embarcações maiores, oceânicas, para as embarcações de serviço (chatas, canoas ou saveiros), para somente então descarrega ‑las em terra firme. A proliferação dessas edificações, na região de interesse do artigo, na segunda metade do século xix pode ser explicada por diversas razões relativas ao desenvolvimento capitalista, seja no cenário mundial, seja no cenário regional, as quais demandavam necessária diminui‑ ção de custos e de tempo de carga e descarga de bens.
Não é nossa intenção discorrer longamente sobre a economia baiana no século xix, mas alguns aspectos específicos para o entendimento deste contexto em tela devem ser apontados:
‑ O aumento do calado das embarcações, o que fazia com que elas tivessem que fundear cada vez mais afastadas da linha de costa, em zonas mais profundas, aumentando ainda mais o custo com o transbordo e o tempo gasto com a operação, impactando a viagem como um todo;
‑ A já conhecida transferência de capitais do tráfico negreiro para outras áreas de produção, neste caso, para o comércio (Vasconcelos, 2011);
‑ O Código Comercial, de 1850, instrumento que permitiu o estabelecimento de sociedades comer‑ ciais (Baiardi; Saraiva, 2007) voltadas para empreitadas de construção de uma imensa estrutura sobre o mar.
‑ A crescente urbanização e a migração do campo para a cidade, com destaque para os escra‑ vos libertados de suas atividades agrícolas no Recôncavo pela lei de 13 de maio (Fraga Filho, 2009) poderiam ter reforçado a massa de consumidores de bens largamente acumulados nos trapiches.
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‑ A ferrovia Salvador ‑Alagoinhas, trecho da E. F. Bahia ao São Francisco, inaugurada no alvor da década de 1860.
‑ Por fim, como visto em outros locais do país, mas ainda pouco explorado de forma sistemática pela Arqueologia como um fator de peso para a transformação material da sociedade, a moder‑ nização da economia brasileira após a Guerra do Paraguai (1864 ‑1870) (Pedrão, 2002) promoveu a aquisição de títulos do governo (Marcondes, 2002), mas também o investimento em obras de urbanização, comercialização de imóveis e o desenvolvimento do consumo interno.
É dentro desse mesmo contexto de modernização capitalista que se insere a segunda fase de exploração industrial do Unhão. O funcionamento do Solar como fábrica de derivados do tabaco é rela‑ tivamente bem documentada, representando o início da imigração suíça para o Brasil: a presença deles como grandes investidores na Bahia; como fazendeiros de café; e de cacau, no sul da província (Ribeiro, 2008). A fábrica de rapé – o seu primeiro e mais conhecido produto – operou lá por volta de um século e talvez tenha sido uma das primeiras instalações industriais de rapé do Brasil. A Meuron & Cia, fundada ainda no período colonial (1816) pelo suíço Auguste ‑Fréderic Meuron, só teria ido para o Solar em 1826 ‑1827, época em que ele já teria deixado de funcionar como entreposto de escravos. Nessa data o Solar foi arrendado a Meuron e Antoine Saint Valéry Scheult, sendo que este último, cidadão fran‑ cês, não parecia estar envolvido diretamente com a produção de derivados de tabaco, mas sim com a fabricação de açúcar a partir de máquinas e processos por ele desenvolvidos (Vannucci, 2016, pp.47‑ ‑51).De qualquer forma, no Unhão passou a ser fabricado o rapé Areia Preta, a mais famosa marca do produto no Brasil oitocentista. Tempos depois, a empresa muda de nome – Borel & Cia (Peixoto, 1945) – passando a ser capitaneada por Fréderic Edouard Borel, sobrinho de Meuron (falecido em 1852).
Meuron & Scheult, seguidos por Borel, possuíam diversos negócios – o último, inclusive, tinha uma instalação industrial no Rio de Janeiro, parcialmente situada no hoje conhecido morro do Borel. Assim, não é de se estranhar que a propriedade do Unhão servisse também para outras atividades fabris: sabe ‑se que, em 1853,em uma das dependências do engenho funcionava também um alambi‑ que (Azevedo, 1990). Entretanto, parece que o alambique estava fora do conjunto de edificações rema‑ nescentes, segundo o Mappa Topographica da cidade, feito em c. 1851 por Carlos Augusto Weyll. Quem sabe fosse uma herança das atividades de Scheult, que havia retornado à França e obtido patente de suas invenções em 1836 (Vannucci, 2016, p. 51), um ano antes de sua morte.
Em 1879 a empresa era responsável por metade da produção brasileira de rapé (Olhar, 2008). E por todo o século xix, até as primeiras décadas do século xx a Borel & Cia teve papel de destaque na produção e comercialização de tabaco e derivados(Lloyd; Feldwick, 1913, p. 872 ‑893).
Segundo o IPHAN, a fábrica funcionou no Unhão até 1926. Dois anos mais tarde o Solar passou a servir como trapiche, sendo tombado em 1943 em nível federal.1
Além disso, o Solar do Unhão, até seu restauro e instalação de um Museu, na década de 1960 (1962 ‑1963), serviu também como cortiço e depósito de inflamáveis (Zollinger, 2007). Tal função de
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estoque de combustíveis também foi assumida pelo trapiche do Marinho, onde atualmente está insta‑ lado o restaurante Amado, na Praia da Preguiça [FIG. 2], servindo igualmente como depósito a estrutura onde hoje se encontrado o Porto Trapiche, na mesma praia, mas um pouco mais ao norte, isso pelo menos até o final da década de 1960.
AS P EC T O S T EÓ R I CO S E M E T O D O LÓ G I CO S
Nossa proposta teórico ‑metodológica passa por duas premissas basilares. A primeira é bastante simples e concreta: a pesquisa que deu origem a este artigo foi desenvolvida para uma necessidade de mercado, estabelecida no âmbito do Licenciamento Ambiental. Assim, embora tenhamos realizado escavações de pequeno impacto, fato é que fomos obrigados a realiza ‑las, tendo em vista o certame legal envolvido nesse tipo de trabalho. De outra maneira, talvez elas não tivessem sido feitas, produ‑ zindo resultados potencialmente diferentes, pois teriam sido gerados mais dados – menos densos, talvez – sobre a cota positiva de uma região mais ampla.
A segunda se refere ao tipo de Arqueologia realizada. Podemos defini ‑la como uma Arqueologia das Paisagens Marítimas Urbanas. Muito mais do que um rótulo, essa denominação esclarece os proce‑ dimentos pensados e adotados.
Não cabe, neste espaço, um desenvolvimento tão exaustivo desse conceito, resultado de uma intrincada tessitura científica (para ter ‑se um exemplo do desenvolvimento de Paisagens portuárias, que são essencialmente ligadas ao meio urbano, ver Blot, 2003). De forma sucinta, nossa abordagem de Arqueologia não busca simplesmente o estudo da cultura material do passado, mas sim as formas materiais de poder e de representação do poder. Essas estruturas de poder são disseminadas, em um determinado espaço, ao longo do tempo, compondo, atualmente, um mosaico diacrônico de paisagens pretéritas constituindo a paisagem por nós perceptível. O fato de ser uma paisagem marítima urbana é uma simples escolha pessoal pela afinidade com o tema, mas guarda implicações intelectuais mais profundas. Trabalhar com o mar e a cidade envolve entender algo que talvez seja melhor traduzido, de início, pela arte: um pintor habilidoso é aquele que se destaca por não criar linhas demasiado duras no ponto de encontro entre a terra e a água. Assim, de forma análoga, um arqueólogo marítimo urbano depende de sua capacidade de entendimento da urdidura entre a cidade e a água, construída na zona intermarés a partir tanto de usos difusos e intermitentes, literalmente ao sabor da maré, quanto de seus usos ostensivos, radicalmente transformadores e cerceadores, como os cais e demais estruturas e edificações portuárias. É, ao fim e ao cabo, uma efetiva Arqueologia do Poder, pois a aproximação da cidade da água gera o gradativo loteamento das fachadas marítimas ou fluvio ‑marítimas, restringindo o fluxo da população em geral, entre terra e água.
E abaixo do espelho d’água estão depositados vestígios móveis dessas paisagens, a saber, os restos de embarcações, nos sítios de naufrágio e aquilo que sobrou da faina, da festa e da vida comum de marinheiros e trabalhadores portuários, nos sítios depositários. Em razão disso, a Arqueologia
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subaquática surge como instrumento oportuno para decifrar as antigas pontes flutuantes e seus operadores, elos de ligação entre civilizações e cidades distantes.
Desse modo, levando em conta a caracterização histórica e arqueológica da área onde estão loca‑ lizados os sítios Praia da Preguiça e Solar do Unhão, observam ‑se paisagens náuticas remanescentes da Salvador colonial e imperial entranhadas sem espessas camadas de aterro que foram sendo sobrepos‑ tas conforme a evolução urbana da cidade, acentuada de forma intensa no período republicano. Ambos os sítios são remanescentes materiais do sistema produtivo responsável pela manufatura, transporte e comercialização de mercadorias. Portanto realizar a etapa de resgate sobre esses dois sítios permitiu avaliar aspectos da consolidação do modo de produção capitalista na Bahia do século xix, questão que suscita discussões importantes para a caracterização da economia e da sociedade baiana contemporânea.
Na pesquisa arqueológica no Solar do Unhão, a despeito da comprovada antiguidade do lugar, os vestígios de cultura material nos mantiveram do século xix fabril para o presente, representado de forma peculiar por grandes quantidades de roupas, tecidos, tapetes e carpetes. Retirada essa curiosa camada contemporânea, foi ‑nos permitido realizar uma intervenção direta num sítio submerso depo‑ sitário (Rambelli, 2002, com referências anteriores), tipo de sítio arqueológico que, não raro, é rele‑ gado a um segundo plano em razão de sua complexidade, dimensões e do grande fascínio monumen‑ tal, midiático e sinestésico que exercem os sítios arqueológicos de naufrágio na opinião pública e nos arqueólogos também.
Como consequência, buscou ‑se identificar os locais dos vestígios materiais não enterrados e diretamente relacionados ao sistema produtivo de mercadorias, para então a partir dessas evidências, estabelecer sistemas de escavação e de coleta de amostras que permitissem o entendimento dos contextos arqueológicos.
Em primeiro lugar, seguindo premissas de pesquisa colocadas há muito tempo (Bava ‑ ‑de ‑Camargo, 2017, com referências anteriores) foi realizado um cadastramento das estruturas, equi‑ pamentos e edificações relacionadas aos sítios, bem como foram levados em conta os trabalhos realiza‑ dos nas etapas arqueológicas anteriores e suas indicações de continuidade de pesquisa (Universidade, 2010), para em seguida iniciarmos os trabalhos arqueológicos de coleta e escavação através de regis‑ tros controlados. Seguem nas linhas abaixo o desenvolvimento das atividades de resgate.
AS P E S Q U I SAS N O U N H ÃO : N O F U N D O M A R I N H O , A H I S T Ó R I A D E U M A I N D Ú S T R I A
O Sítio Depositário Solar do Unhão [FIGS. 4 ‑13] foi localizado durante a fase de Prospecção (Universidade, 2010) com base nos vestígios materiais identificados na superfície do fundo mari‑ nho, principalmente no entorno da edificação, tombada em nível federal e estadual. E nessa etapa de pesquisa arqueológica detectou ‑se que o sítio submerso poderia ser eventualmente impactado de forma indireta pelas obras da Bahia Marina.
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Diferente da situação observada na pesquisa do sítio da Praia da Preguiça, o trabalho de resgate foi realizado na maré de quadratura, ou seja, aquela que se forma nas fases da lua quarto crescente ou quarto minguante (neste caso, crescente). Essa maré possui menor amplitude entre os picos da vazante e da enchente, o que causa menor agitação do mar, diminuindo a quantidade de sedimentos em suspensão e melhorando a visibilidade das águas.
Em razão das dimensões do sítio submerso e do recorte teórico ‑metodologico da pesquisa, nessa fase de resgate optou ‑se por identificar potenciais bolsões de material arqueológico no subfundo mari‑ nho, notadamente aqueles que seriam relacionados às atividades náuticas e de carga e descarga de mercadorias vindas para e provenientes do Solar. Pareceu ‑nos o melhor meio para atingir esse objetivo a realização de escavações numa área fronteira ao guindaste oitocentista do Solar [FIGS. 4 e 5], indicador material claro da movimentação portuária ocorrida naquele local, a exemplo do que já foi averiguado em investigação similar em Cananéia, litoral sul do estado de São Paulo (Bava ‑de ‑Camargo, 2009).
A partir das coordenadas do guindaste (24L 551945 8564716, datum WGS 84) [FIGS. 6 e 7], a equipe posicionou a embarcação de pesquisa por volta de 80m de distância do muro do Solar, na direção oeste, buscando profundidades ao redor de 5m, calado suficiente para o fundeio de curta duração de embarcações de médio porte e de barcaças de transbordo de mercadorias, as quais faziam as trocas comerciais com a fábrica de rapé instalada no Unhão, entre a segunda metade do século xix e as primeiras décadas do século seguinte.
Para a escavação das sondagens foi utilizada uma sugadora impulsionadas por água sob pressão (Nautical, 1998; Rambelli, 2002, dentre outros), e foram estabelecidos seis triângulos equiláteros de 5 m no fundo marinho, a partir das coordenadas 24L 551879 8564766, dentro dos quais se desenvol‑ veriam as atividades de escavação e de registros [FIGS. 8 e 9] das estruturas depositadas em superfície e aquelas enterradas. Desse modo, buscou ‑se entender as camadas de deposição dos sedimentos e dos vestígios arqueológicos a partir de duas sondagens que compunham uma semelhante caracteri‑ zação estratigráfica.
Na Sondagem 1, a primeira camada se estendia da superfície até os 90 cm de profundidade. Embora a camada tenha se apresentado um tanto alterada com a presença de lixo contemporâneo, o sedimento de areia fina a média, com restos faunísticos esparsos, apresentou partículas negras, as quais se iden‑ tificou, posteriormente, como provenientes de carvão vegetal e pequenos pedaços de carval mine‑ ral. Este último, como veio a se comprovar depois, provinha da carga soçobrada das embarcações que demandavam o Solar do Unhão, assunto que será tratado linhas mais adiante. Entre os 70 e 90 cm, os vestígios contemporâneos tendiam a desaparecer e a partir dos 90 cm, começava a segunda camada. Essa se caracterizou por um aumento da quantidade de ossos e carvão, com aparente predominio do carvão mineral, evidenciado por fragmentos de maiores dimensões. Em razão do constante colapso das paredes da sondagem, não foi possível escavar mais fundo, alcançando até os 160cm de profundidade.A Sondagem 2 apresentou a mesma tendência da composição das camadas e só foi escavada até os 90 cm de profundidade devido à impossibilidade de escoramento razoável de seus perfis.
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No intuito de evidenciar o contexto de deposição de vestigios de embarcações, decidu ‑se conti‑ nuar as buscas naquele setor do sítio através de diversas varreduras do fundo marinho, por meio de cabos guia e carretilhas orientadas por bússolas em direção ao Solar. E num ponto distante a 9 m de onde estavam posicionadas as sondagens, foi localizado um vestígio de madeira; um fragmento de peça estrutural de uma embarcação, depositada sobre o fundo marinho e parcialmente enterrada. Apesar de separados por menos de uma dezena de metros, o local da madeira revelou uma estratigra‑ fia bastante diferente, muito mais preservada que no local da triangulação.
Imediatamente abaixo dela foram identificadas dezesseis rochas, sendo pelo menos sete delas poitas de embarcação, estando pelo menos quatro delas ainda com seus cabos de piaçava amarrados
[FIGS. 11 ‑13]. Elas indicavam que aquele local havia sido largamente utilizado para o fundeio, o que fica evidente pelo número de poitas localizadas em uma área de escavação rasa – não mais de 50 cm de profundidade, no ponto mais fundo – com dimensões não superiores a 6 × 3 m, mas também pelo fato de algumas dessas antigas poitas estarem umas sobre as outras. Acredita ‑se que a menor perturba‑ ção de estratificação da camada inicial nesse ponto tenha ocorrido justamente pelo acumulo das poitas de pedra, as quais permitiram proteger os vestígios e os sedimentos da dinâmica marinha.
A explicação para esse cenário arqueológico desvelado pela escavação subaquática foi obtida com a observação diacrônica das paisagens marítimas daquele espaço, através de imagens antigas, a exemplo do que também foi feito para o sítio da Praia da Preguiça (Universidade, 2013).
FIG. 4 Pesquisas arqueológicas realizadas defronte ao Solar do Unhão (ao fundo).
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Da antiguidade do Solar do Unhão, não se duvida. É um exemplar antiquíssimo de engenho urbano, remanescente do século xvi. Há, por certo, evidências materiais referentes ao período colonial. Entretanto, as diversas camadas de tempo materializadas naquelas paisagens são condicionadas por todas as transformações, sendo que as influências mais recentes são aquelas potencialmente com maior poder modificador. Assim, o restauro do Solar, nos anos 1960 e sua transformação em museu impôs uma interessante concretude ao conjunto: seu passado fabril relativamente recente não foi apagado. Pelo contrário, foi incorporado ao Museu de Arte Moderna.
E é esse passado industrial, oitocentista que formou algumas das paisagens acumuladas no Unhão e entorno. Desse modo, como premissa de uma pesquisa de Arqueologia das Paisagens Aquáticas Urbanas, para abordarmos a ocupação quinhentista ou seiscentista da Preguiça, da Pedreira, da Jaqueira, ou do Unhão, ao fim e ao cabo teríamos que necessariamente explicar, em primeiro lugar, a
FIG. 5 O solar do Unhão, visto a partir do quebra ‑mar Sul da Bahia Marina. No lado direito, a embarcação de pesquisa sobre o sítio.
FIGS. 6 e 7 Foto das engrenagens remanescentes do guindaste manual ainda do Solar do Unhão.
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grande quantidade de material derivado dos séculos mais recentes, para então enveredar pelos relati‑ vamente escassos vestígios legados pelos primeiros conquistadores/ colonizadores euro ‑africanos. Não é possível entender o colonial, período mais recuado que, invariavelmente, tem grande apelo à sociedade, sem compreender o que existe de concreto por sobre essa camada colonial de ocupação. Em simultâneo à percepção arqueológica, também não podemos ignorar o que aconteceu, em termos de História, depois do 7 de setembro... ou do 2 de julho, no Unhão, pois o complexo continuou sendo ocupado e transformado.
Todos esses vestígios do Solar do Unhão e entorno submerso, a exemplo do que acontece na Praia da Preguiça, são remanescentes de paisagens que não são criações exclusivas da segunda metade do século xix, mas que se impõem a partir desse momento. Trapiches, pontes de embarque, fábricas à beira mar e depósitos de combustíveis são edificações e estruturas com presença marcante na cena portuária FIGS. 12 e 13 Vestígios das
poitas com restos de cabo e piaçava.
FIGS. 8 e 9 Remoção do