A Teoria das Necessidades Básicas foi desenvolvida no âmbito da psicologia humanista, inicialmente descrita num trabalho de Henry Murray que remonta ao ano de 1938 (Murray, 1938). Na década de 70 a teoria foi abandonada, colocando-se em causa as experiências de Maslow (1943, 1954). Para Maslow as necessidades do indivíduo estavam hierarquizadas em níveis, desde as necessidades mais elementares até às necessidades mais elevadas (Rennie, 2007). Para o autor, estas necessidades eram universais e consistiam nas necessidades fisiológicas (mais internas), seguidas das necessidades de segurança, de convívio social e de auto-estima, e por último a necessidade de auto-realização (mais externa). Uma vez satisfeita uma necessidade, o sujeito deslocava a sua satisfação para outro nível. A necessidade fisiológica constituía a sobrevivência da pessoa, incluindo a alimentação, o sono e a necessidade de protecção por exemplo. A nível social, Maslow (1954) descreve o sujeito numa perspectiva da necessidade de afecto e aceitação social. A necessidade de auto-estima envolvia o sentimento de aprovação social, de
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respeito e estatuto social, bem como necessidade de autoconfiança e autonomia. A última necessidade, a de auto-realização compreendia a possibilidade da pessoa realizar o seu potencial e estar continuadamente a desenvolver-se.
De acordo ainda com esta hierarquização de necessidades, se uma necessidade não era satisfeita por algum motivo, o sujeito vivenciava frustração, falta de interesse pelas tarefas, resistência às modificações e insegurança. Esta condição poderia no entanto, ser alterada pela compensação da necessidade do nível superior. A motivação é vista como algo estanque agrupada em níveis e não como um sistema motivacional, onde os diferentes níveis coexistem em simultâneo.
A utilidade de uma ferramenta acerca das necessidades deve-se ao facto, de estas oferecerem uma compreensão para a adaptação e desempenho do sujeito, ao mesmo tempo são preditivas do bem-estar e desenvolvimento da personalidade (Knee, Lonsbary, Canevello & Patrick, 2005; Sheldon & Elliot, 1999).
Para a TAD as necessidades nos domínios fisiológicos e psicológicos são universais, inatas e essenciais; se satisfeitas conduzem à saúde, caso contrário contribuem para o surgimento de doença (Ryan & Frederick, 1997; Vallerand, 2007). De salientar, que apesar de o processo ser universal, o meio pelo qual são satisfeitas variam com a idade, género e cultura (Deci & Ryan, 2002). Embora a cultura contribua para diferenças no grau de valorização da tarefa, a relação entre comportamento e necessidade de satisfação das necessidades é semelhante entre os indivíduos. Consistente com isto, num estudo entre culturas (Americana e Russa) analisou-se a relação entre suporte autónomo e avaliação do bem-estar. Os resultados demonstraram que os estudantes estabeleciam uma relação directa entre estas duas variáveis, ou seja, maior suporte autónomo implicava melhor bem-estar, e vice-versa (Chirkov & Ryan, 2001). Ainda na comparação entre culturas, Chirkov, Ryan e Wellnes (2005), mostraram uma relação directa entre autonomia e bem-estar, em estudantes Canadenses e Brasileiros.
Assim, nesta teoria as necessidades básicas são referidas como: a necessidade de competência, a necessidade de autonomia e a necessidade de suporte (Ryan & Deci, 2006). Nesta abordagem, as três necessidades
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aparecem em simultâneo e influenciam-se mutuamente. Por exemplo, um contexto social que promove a competência mas não o suporte contribuirá, para um baixo bem-estar. E se esse contexto for palco de conflitos poderá colaborar para surgimento de patologia (Ryan, 1995; Ryan, Deci, Grolnick & LaGuardia, 2006). A competência indica o grau de confiança do sujeito em atingir um objectivo estabelecido. O conceito de autonomia, não é o mesmo que independência. Refere-se sim, ao sentimento de valorização de uma actividade e na sua capacidade de executá-la. O suporte remete para a necessidade de ter uma relação positiva e segura com terceiros.
As investigações nas necessidades básicas têm-se concentrado não só no estudo das três componentes, mas também na associação destas com o estabelecimento de objectivos e na procura do bem-estar. Mais especificamente, procura-se perceber se existem variações das necessidades básicas a nível diário e se estas são preditivas do bem-estar (Deci & Ryan, 2002). Por outro lado, tenta-se também entender qual o papel dos objectivos no sentimento de bem-estar, colocando-se a hipótese de os objectivos só propiciarem bem-estar se coincidirem com as necessidades básicas do sujeito (Reis, Sheldon, Gable, Roscoe & Ryan, 2000). Isto sugere, que as três necessidades não são imutáveis ao longo da vida, pois o sujeito vai sempre estabelecendo novos objectivos com base nas circunstâncias do momento (obstáculos, exigências ou reforço positivo) dentro de um contexto cultural.
No estudo das necessidades básicas, aparece o conceito de ambição associado ao bem-estar e aos objectivos. Os autores (Kasser & Ryan, 1996) postulam, que existem duas formas de ambição; uma intrínseca ao sujeito e outra extrínseca. A primeira origina satisfação directa das necessidades básicas. Relaciona-se com valores de crescimento pessoal, autonomia e pertença à comunidade. A segunda é uma forma indirecta de obter satisfação das necessidades básicas; através de sucesso financeiro, e de elevado estatuto social (Kasser, 2002). Subsequentemente, o conteúdo da tarefa é mais importante do que a acção de perseguir objectivos. De facto, os estudos revelam, que a ambição intrínseca e os objectivos intrínsecos estavam relacionados com melhor bem-estar (Sheldon & Kasser, 1998). Por outro lado, o tipo de relação (suporte) também influencia o tipo de ambição; pais com estilos de suporte controlado induzem crianças com estilos comportamentais
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extrínsecos, onde as necessidades básicas são colmatadas por ambições extrínsecas (Williams, Cox, Hedberg, & Deci, 2000).
Em suma, a Teoria das Necessidades Básicas admite que para existir crescimento pessoal devem existir uma série de condições pré-satisfeitas. Estas são a necessidade de competência, de autonomia e de suporte. Embora existam diferenças culturais em relação ao grau de satisfação, estas necessidades são universais e influenciam o bem-estar e o tipo de ambição expresso no sujeito.