Neste capítulo apresentamos as histórias de vida dos quatros participantes que entendem ter vivenciado um percurso terapêutico no contexto ritualístico da ayahuasca. E, dessa forma, para melhor compreensão dos contextos e processos de cada um deles, dividimos esse tópico em duas sessões: tempo de contar e tempo de refletir.
Na primeira delas - Tempo de contar: histórias de ayahuasca, destacamos as histórias de vida dos quatro participantes que contribuíram com a pesquisa. Já na segunda - Tempo de refletir: percursos terapêuticos no universo da ayahuasca, à guisa de reflexão, apresentamos as articulações tecidas entre os percursos terapêuticos vivenciados pelos participantes da pesquisa e as ponderações teóricas desenvolvidas a partir da literatura levantada para este estudo.
Tempo de contar: histórias de ayahuasca
Dentro do nosso roteiro, seguimos agora, com o compartilhar das histórias de vida dos participantes do estudo. Em cada história são identificadas as unidades significativas que dão sentido para este trabalho, assim como, uma síntese compreensiva de cada história, realizadas a partir da interpretação dessas unidades.
Arthur: triste, mas com consciência
“Se perguntarem o que eu sinto pela ayahuasca: é um sentimento de gratidão e amor. Gratidão é o que define a ayahuasca pra mim.”
Esta é uma história de amor e ódio que, sobretudo revela a potência transformadora de conhecer a si mesmo. Arthur é um jovem de 25 anos que não tem muitas lembranças de si que não envolvam sofrimento, dor ou tristeza, mas que depois de muitos transtornos e perturbações, consegue manter a calma diante da vida. A medicina que foi capaz de lhe propiciar isso: “ayahuasca”.
Para contar a história de Arthur, é necessário remontar antes ao caminho de seu pai. Em especial, porque Arthur se define como “igual ao pai”, “quase a mesma pessoa, só que com outra trajetória de vida”.
Assim, vamos falar aqui de “um cara muito determinado que saiu da lama” para se tornar um “médico de reconhecimento internacional na sua área”. Esse é o pai de Arthur. Alguém que “perdeu os pais com cinco anos de idade”, “muito pobre”, “que passou fome” e “trabalhou num canavial” para sobreviver. Passava o dia no canavial e chegando em casa, “estudava sozinho”. Foi assim que “passou em medicina”.
Arthur é fruto de um relacionamento momentâneo “desse cara” com sua mãe, enfermeira. Ele já era casado e fazia residência médica. “Já teve cinco casamentos, mas nunca teve outro filho”. Naquele momento, ainda no seu primeiro casamento, “chegou a cogitar se casar” com a mãe de Arthur, mas ela não sentiu confiança e preferiu criar o filho sozinha. O que também foi um problema na vida “desse cara”, porque o casamento se findou pela descoberta da traição, ao mesmo tempo em que a mãe de Arthur não mais quis seu pai.
“Ele nunca quis ter filhos” e sempre deixou isso bem claro na sua relação com Arthur. Frio e distante tem uns “surtos de amor paterno” de vez enquanto, mas em seguida, “sempre some”, assim o define Arthur: “Uma pessoa muito esclarecida, muito inteligente e muito educada”. “Determinado!”. Esse é o lado da “personalidade do pai” que hoje faz sentido para o garoto destacar.
Sua convivência com o pai só se deu a partir dos oito anos, idade também das primeiras lembranças de Arthur. Não guarda em sua memória nenhuma cena, imagem ou sentimento mais importante até essa etapa da vida. Conheceu o pai “no tribunal, no lugar que ele foi para reconhecer o filho”. Lembra-se bem da cena: “foi no próprio cartório, no juizado”, ele pegou em sua mão e foram andando, “ele perguntou umas coisas” e tomaram um refrigerante. “Foi isso!”.
Por sua vez, o convívio, a partir disso, nunca foi tão próximo. Mantinham contato por e-mails e visitas nas férias, mas “às vezes ele sumia, não respondia”. Parecia mais “uma ideia de pai do que um pai de verdade”. Arthur entende que, ainda assim, recebeu influências importantes dele que integraram sua identidade. Sempre se considerou “muito inteligente e educado”, porém “sozinho”, “frio” e “pouco confiável com as mulheres”, como seu pai. Traiu em praticamente todas as suas relações e isso lhe faz sentir mal. Como o pai, também tem “a mania de achar as pessoas menos inteligentes e inferiores”.
Mas Arthur também tem sua mãe. Ama sua mãe. “É uma santa”, “zen”, “vai atingir o nirvana qualquer dia”. Assim, o garoto agradece a tolerância da mãe com seus erros e dificuldades. “Amiga e compreensiva”, “sempre cuidadora”, “nunca deixou que nada lhes faltasse”. Também nunca deixou outro homem fazer parte da dinâmica familiar. Teve namorados, mas “nunca se casou”.
Teve outra filha, hoje com 21 anos. Nasceu com “uma doença degenerativa denominada bronquiolite degenerativa crônica, nas quais os brônquios e o pulmão vão se degenerando e, por isso, teve que tirar o lóbulo central de um dos pulmões e fazer um tratamento muito pesado e complexo para se manter viva”. “Sempre foi muito doente”.
E essa é “uma fonte de grande dor” na vida de Arthur, porque “provavelmente (a irmã) não vai viver mais que 30 anos”. “Ela vive a vida normal. Tem um namorado
muito bonito, faz faculdade e sai com as amigas”. “Vive a vida do melhor jeito possível, é uma pessoa feliz”. Quem é mais afetado pela doença são ele e sua mãe que não conseguem lidar com a possibilidade da perda. Ama muito a irmã. “É o orgulho da vida” dele.
Fora a irmã e a mãe, Arthur cresceu em meio aos primos e aos avós maternos. Com a família do pai, o contato é escasso, apenas, em comemorações. Arthur morou em algumas cidades no Brasil antes de ir morar fora do país, aos 10 anos de idade. Lembra que sua mãe foi primeiro e ele ficou um período com o avô, onde teve oportunidade de estreitar os vínculos. “Ele era velho e matuto”, mas era possível ter uma “relação muito boa”. “Não tinha a profundidade sentimental”, mas considera ele seu pai. Seu “símbolo paterno”, “até nas coisas mais triviais como ensinar a capinar”.
Da escola ou dos amigos, enquanto morava no Brasil, Arthur não se recorda de nada. Muito inteligente, sempre gostou de ficar sozinho, “não interagia”. Gostava muito de ler, praticamente “devorava a biblioteca”. “Lia coisas que nem entendia direito” e aprendia “não só o vocabulário”.
Por outro lado, era considerado pela família como uma “criança estranha”, “não se enturmava”, “tinha fixação sobre certas coisas e com os livros”, parecia viver em um “mundo fantástico”. E de fato, o garoto considera que, naquele tempo, é como se ele vivesse “em outro lugar”. “Criava mundos, raças e povos. Não tinha muita conexão com esse mundo”. Com 10 anos “sabia escrever e falar outra língua”, levou apenas “dois meses para aprender”.
Morar no exterior foi “um privilégio”. Considera que isso lhe oportunizou “uma educação que poucos tiveram” e “tem amigos lá até hoje”. Morou fora entre os 10 e 14 anos e nesse período mantinha vínculo forte com o pai. Escreviam-se sempre. O pai
“morria de orgulho” de sua inteligência. Além disso, sempre passava férias com ele no Brasil.
Foi um período intenso e com muitas atividades. Também jogava rúgbi na escola, participava de um projeto de artes e fazia aula de música. “As pessoas que conversava” e se “conectava numa boa” eram seu “professor de música, e o professor do projeto para aprender a fazer arte. Outras crianças não, e todo mundo via isso”. Esse isolamento chamou a atenção da escola e de sua família também. Sua mãe achava que “tinha síndrome de Asperger”. Os professores também lhe chamaram a atenção sobre o comportamento do filho, e então, ela tomou a decisão de levá-lo ao psiquiatra.
Aos 10 anos de idade, Arthur recebeu o diagnóstico de “depressão infantil”. A mãe precisava excluir sua hipótese sobre a possibilidade de o filho ter Asperger, e, além disso, “sempre teve muita fé na medicina”. O filho estava desenvolvendo “um comportamento agressivo e antissocial”. Não gostava de fazer nada que tivesse sido orientado por sua mãe e não gostava de “se conectar com outras crianças”.
Acredita que a vida deve ter ficado bem pesada para sua mãe nesse momento. “Não conseguia arrumar um emprego legal” e o comportamento do filho “estava se exacerbando”. Era “agressivo, “respondão” e “falava muita coisa pesada”, todos achavam que a mãe era responsável por isso.
Arthur relembra que até aquele momento não se considerava uma “criança estranha”. Essa era a percepção que os outros tinham dele, mas isso não lhe “incomodava”. Tudo mudou com a visita ao psiquiatra. Lembra-se disso com calma, mas com muita raiva.
O menino não tinha conhecimento da consulta. Foi considerando que iria visitar um médico clínico. Naquela época, conta que tudo que a mãe lhe propusesse, ele não se dispunha a fazer. “Rejeitava automaticamente tudo que ela falava”, então, se ela o
chamasse para ir “tomar sorvete”, ele “não iria querer tomar sorvete”. E assim foi com o psiquiatra: quando ela disse sobre a possibilidade de ir a um médico “conversar sobre seu comportamento”, ele disse não. Foi, “enganado”.
Não sabendo para que serviria a consulta, quando chegou lá, teve um “surto de raiva” e chorou muito. Foi uma explosão que não lhe permitiu “ficar na consulta”. Guarda tanta raiva desse momento que ainda se recorda do nome do médico e acredita que essa consulta influenciou sua vida de forma bastante negativa. Assim ele verbaliza: “daquele momento em diante eu nunca mais fui feliz”.
Não se recorda de ter ouvido um diagnóstico do médico, mas dias depois ouviu sua mãe contar a uma amiga que ele “tinha depressão”. “Quando uma criança escuta algo assim da boca de uma pessoa respeitável, um médico ou da sua mãe, marca muito”. Recorda-se que “não sabia o que queria dizer isso na verdade”, mas aos poucos foi “entendendo que era doente”.
E assim, Arthur afirma: “eu me considerei doente pelo resto da minha vida. Eu pensava isso de mim. Isso! Eu era depressivo. Então qualquer coisa que vinha do meu comportamento em relação aos outros era por causa da depressão”.
O garoto explica que ainda hoje não sabe “o que causou essa depressão”, mas o fato de “ter internalizado que era depressivo, foi decisivo para o resto da vida”. E, dessa forma, considera que esse foi um dos motivos de ter tido “uma adolescência trash, bem triste”. “Tinha amigos, tinha tudo, era uma criança normal, fazia esporte, mas passou a se sentir diferente dos outros”. Não conseguia “tirar isso da cabeça”. “Tinha uma disfunção”.
Sua irmã “também tinha uma disfunção de pulmão”, mas “ela conseguia lidar bem com isso”, “levava a vida normalmente, como se isso não existisse”. Ele “não conseguia fazer isso”. Acha que “se não tivesse sabido seria melhor”. Isso afetou muito
a sua “vida social” e “por dentro também”. Ficou “revoltado de saber que tinha algo diferente dos outros”, “que tinha que tomar remédio por uma coisa que estava dentro da cabeça”. “Era muito grilado com os remédios”, “quando tomava, ficava meio sem ação”. Preferia “não tomar”. “Atrapalhava o treino de rúgbi”.
A partir desse momento também começou a frequentar sessões de psicoterapia. Com psicólogo, acredita que conseguiu lidar e entender melhor seus sentimentos e comportamentos, considerando que a psicoterapia o ajudou a fazer amigos. Entende que o psicólogo “foi uma figura positiva” na sua vida. “Ele era bem novo”, mas acha que “serviu como um modelo paterno”. “Conversava coisas com ele que não conversava com a mãe”.
Mas o diagnóstico pesou mesmo na vida de Arthur. Dali em diante, ele conta que suas escolhas só confirmaram que era uma pessoa “triste e esquisita”. E assim, no período em que passou no exterior, teve sua vida marcada pela depressão, pelas sessões de psicoterapia e por poucas amizades. Frequentava a escola e passava férias com pai. Com 15 anos regressou ao Brasil, emancipado.
Conta que a vida no exterior não era fácil. Não conseguia se relacionar bem com a família, e, além disso, havia um estímulo por se “sentir independente”. “Se sentia meio deslocado”, “tinha amigos, mas não tantos” e “em casa era triste por conta da doença da irmã”. Ele queria se “afastar disso”. Chegou ao Brasil e foi morar com o primo. “Ele morava sozinho, em um apartamento que entrava e saía mulheres todos os dias”. Tinha “bebida toda hora”.
O primeiro contato de Arthur com o mundo dos psicoativos foi ainda com 14 anos, em uma viagem com o time de rúgbi. Estava com uns amigos que “compraram haxixe e fumaram depois”. A sensação “foi boa”, “de prazer e afeto por estar com os
amigos”. Depois disso, houve um envolvimento mais substancial e frequente com o mundo das drogas, especialmente, quando regressou ao Brasil.
Dos 15 aos 18 anos, as drogas fizeram parte cotidianamente da vida de Arthur, lhe trazendo muitos prazeres, mas também muitos problemas. Não tinha mais dificuldade para “ter amigos”. As drogas lhe proporcionaram muitos “prazeres de adolescente”, ele relata. “Saía com mulheres mais velhas”, “viajava”, “participava de vários shows”, mas o fato é que nunca deixou de se “sentir triste”. Quando voltou ao Brasil, se “sentia um lixo”.
“Drogas e brigas” eram seu cotidiano. “Tinha uma ganguezinha”, “uma galerinha que saía e quebrava os lugares, pichava muros e roubava”. Começou a “usar cocaína nessa época”. E sobre esse momento de sua vida, Arthur reconhece mesmo é que “era um moleque bem confuso”, “não sabia quem era”.
A adolescência batia à porta e ele “não conseguia lidar com a intensidade das mudanças”. Hoje ele sabe que é “bissexual”, gosta e aceita bem isso. Mas naquela época, não conseguia entender. Sabia que “era ansioso, um pouco depressivo, que não gostava de estar com pessoas, que era sentimental e não conseguia aguentar a intensidade dos sentimentos”.
“Teve muitos problemas com isso”. “Tinha ataques de ansiedade” e se “batia”. Acha que a depressão podia ser porque se “sentia um pouco atraído pelo coleguinha”. “Quando estava no ensino médio isso era impensável, se alguém soubesse que era homossexual lhe batiam”.
Perdeu a virgindade aos 16 anos, episódio que também lhe marcou por uma grande perda, um amigo “morreu por tiro”. Conheceu “ele na infância, antes de ir morar fora”. Voltou e “se toparam de novo”. Jogavam “muita sinuca”, iam “ver jogos de
futebol”, “andavam juntos” e “fumavam um baseado”, mas “ele arrumou briga com uma pessoa do setor”. “Um marginal que morreu dois anos mais tarde na cadeia”.
Lembra que na hora do tiro não estavam juntos. Foi na rua de sua avó, por volta das duas horas da manhã. Escutou uns tiros, quando vieram e lhe chamaram. Estava lá o amigo, “morto”. “Foi difícil”, relata Arthur. Até hoje não aceita e tem “muita raiva”. “Se o marginal não tivesse morrido teria uma vontade grande de matar”. “Depois disso ficou tudo pior no sentido existencial profundo. Foi aí que atacou tudo”.
Recorda com pesar que foi nessa data também a primeira vez que “transou”. Todos tinham ido para o velório e ele ficou com a namorada, por estar sem carona. Aproveitaram o momento e dormiram juntos. No outro dia, foram para o enterro. “Bem de adolescente mesmo”. “Num momento de dor, de luto” eles ficaram. Não se relembra muito bem, “cronologicamente é difícil”, tem dificuldade inclusive de “lembrar do rosto da namorada e do amigo”. Sabe que “fazia o segundo ano do ensino médio” e que nesse período também foi expulso do colégio.
Foi expulso porque lhe pegaram com “outro colega fumando um baseado”, mas isso não lhe causou nenhum sentimento de desconforto. Entrou para uma escola na semana seguinte e continuou os estudos. O difícil foi suportar a reação do pai. Pessoalmente, não acredita que foi “algo grave”, não teve “vergonha”. “O que pegou mesmo foi a reação do pai”. Achou que “ele iria ficar” do seu “lado”, “ligar”.
Sua mãe ficou do seu lado, mas soube que usava cocaína e outros tipos de drogas. Sempre pensou que fosse apenas maconha. “Ela veio para o Brasil” e conversaram. “Falou que fumava muito também quando era nova”, só ponderou que não deveria ter feito isso na escola, “mas que a coisa em si não era tão negativa”.
Mas o pai, não só não ficou do seu lado, como também deixou de falar com ele por dois anos. Arthur escrevia e-mail, cartas, queria o contato, mas o pai não se
manifestava. Hoje em dia Arthur percebe que se sentiu “muito triste e muito arrasado”. Nem mesmo quando ia visitar a família do pai conseguia vê-lo. Quando Arthur ia, ele fazia questão de não estar lá.
A relação com o pai, a morte do amigo, o conflito com a sexualidade, tudo isso junto: “foi a época que mais afundei na cocaína”, afirma Arthur. Sempre usou de tudo: “papel, bala, mas essas drogas a grande verdade é que a maioria não vicia”. “Você vai se divertir ali e para de usar, noventa por cento das drogas são assim”, mas “tem algumas drogas que não são assim”.
Para Arthur, “a cocaína foi muito pesada”. Ainda se lembra de que sua primeira vez “foi muito ruim”. Estava em uma trance “se sentindo deslocado, mas querendo ficar com uma menininha”. Sem saber como agir, ficou se “sentido meio sozinho e quando entrou a onda da cocaína ficou bom”, “mas 20 minutos depois não era mais”.
“É um estimulante”, “meio assim”. Arthur não consegue explicar muito bem. “É uma coisa que te deixa muito pilhado, se sentindo muito bem, só que tem uma ressaca que bate quase que na mesma hora, meia hora, uma hora depois. Aí começa um pensamento: Nossa! Estou sozinho! O que estou fazendo?”.
Foi isso que aconteceu com ele nessa festa. “Queria ir embora, por causa da experiência, mas o primo que estava junto não quis”. Saia muito com seu primo e foi ele que lhe apresentou tudo: “mulheres, cocaína, LSD, bala. Tudo!”. Era traficante também. O primo vendia e Arthur “era a pessoa que passava de um lugar para o outro”. Também ia “cobrar quando as pessoas não pagavam”.
Relata que machucou “muita gente”. Não chegou “a matar ninguém, mas quase”. “Tem muita gente que passa pela cocaína, cheira, gasta dinheiro e tal e acabou”. Agora, com ele “foi pesado”, reflete. Entrou naquele mundo de verdade, “vendia quilos e quilos”. “Mexia com o comércio. É um negócio, mas também queria usar”. “Não tem
outra palavra para descrever, é uma treta constante, você acorda nela e vai dormir nela, porque tem dinheiro envolvido e é uma coisa proibida”.
“O pó é a droga do super-homem”. “Você fica feliz, se sentindo bem, se sentindo poderoso. Você pode fazer tudo que você quiser”. “A onda do pó é você querer sempre mais”. E era esse poder, esse sentimento de fazer tudo o que quisesse que dava a coragem para Arthur de entrar na casa das pessoas e cobrar a dívida, da forma que era necessário fazer, com intimidação e violência.
Sabe que se tornou “dependente”. Nesse tempo, “não conseguia passar três dias que fossem sem cheirar”. Gastou “muito dinheiro”, “muito tempo”, machucou “muita gente” e sabe que “poderia ter sido pior”. Chegou a “roubar a própria família para usar”. Reflete que “a pessoa que está na ânsia de usar, não pensa o que vai acontecer depois, ou logo em seguida. Ela pensa no momento em que ela quer se satisfazer dessa necessidade”. E sobre si, diz: “eu sentia dor nas juntas, no pulso, no pé, a cabeça doía, não dormia, ficava irritado, mais do que irritado, era uma dependência física”.
Conclui que, para ele, a cocaína era uma forma de deixar de sentir. “É na verdade a droga para engarrafar os sentimentos”. “Diferente do LSD, por exemplo, que você sente um leque de coisas, tristes e alegres, com cocaína não é do mesmo jeito sempre”. “É tipo um cimento, que vai te fechando por dentro”. E para um garoto cheio de conflitos como Arthur, isso era “necessário”. Não podia sentir, porque isso sempre significava ir de encontro com a tristeza, com a solidão e com os tantos conflitos que ele vivia.
Foram tantas histórias tristes que viveu sob o efeito de cocaína que é difícil se perdoar, ele reflete. Um dos episódios mais marcantes, ainda nessa fase dos 16 anos, foi