6. Analysa
6.2 Luohteanalysa
O campo religioso brasileiro apresenta um quadro cada vez mais complexo, diversificado e plural. Embora o catolicismo continue sendo a religião majoritária da população brasileira (73,8% segundo o Censo Demográfico de 2000, do IBGE),4 os dados do referido censo permitem constatar o crescimento
expressivo dos evangélicos e dos “sem religião”, os quais atingiram, respectivamente, os índices de 15,4% e 7,35% da população brasileira. Este aumento no índice dos evangélicos é atribuído à expansão do pentecostalismo,
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Ao concluirmos a nossa pesquisa, os dados do Censo Demográfico de 2010 não tinham sido ainda publicados pelo IBGE. Apresentamos dados mais recentes da Pesquisa Datafolha, realizada em 2007, sobre “Os brasileiros e a religião”, na qual essa tendência de diminuição no número de católicos e aumento dos evangélicos é confirmada. Dados desta pesquisa revelam que 64% dos entrevistados se declaram católicos (contra 70% em 2002, 72% em 1998) e que os evangélicos pentecostais somam 17% e os não pentecostais, 5%. Os que se declaram não ter religião ou ser ateus são 7%. A pesquisa do Datafolha é um levantamento por amostragem com abordagem em pontos de fluxo populacional com cotas de sexo e idade e sorteio aleatório dos entrevistados. Foram entrevistadas 44.642 pessoas das regiões Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste. In: Folha de São Paulo, Caderno Especial, 6 de maio de 2007. Também disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u91940.shtml>
que corresponde a 10,4% dos evangélicos, segundo o censo. Esses dados demonstram uma diminuição da porcentagem de católicos (de 83,3% em 1991, para 73,8% em 2000); o aumento da porcentagem dos evangélicos (de 9% em 1991, para 15,4% em 2000) e o aumento dos que se declaram “sem religião” (4,8% em 1991, para 7,3% em 2000). Em relação ao crescimento dos “sem religião”, Teixeira (2005) considera que ele não representa, necessariamente, um fortalecimento do ateísmo, mas é mais a expressão do enfraquecimento das instituições tradicionais produtoras de sentido.
Devido à sua grande diversidade, torna-se extremamente complexo e difícil esboçar o desenho completo do cenário religioso brasileiro. Escrevendo sobre as religiões no Brasil hoje, Carlos Rodrigues Brandão (2004) apresenta uma extensa lista, acompanhada de alguns comentários, das religiões presentes no Brasil. Para termos uma ideia da complexidade desse quadro, citaremos apenas alguns dados do cenário apresentado por Brandão, pois nosso objetivo neste trabalho não é analisar essa questão tão ampla e complexa, mas sim tão somente apontar para a pluralidade e diversidade do universo religioso brasileiro. Em suas pesquisas, Brandão chega à seguinte constatação:
Afora as religiões, confissões e Igrejas tradicionais e mais visíveis, como o cristianismo católico e o evangélico (não pentecostal e pentecostal), o judaísmo, o espiritismo kardecista e outras, é a cada dia mais viva a presença de antigas religiões orientais revisitadas e recém-estabelecidas no Brasil (o budismo em suas diferentes variações seria o melhor exemplo) ao lado de neorreligiões de tradição oriental e, em menor número, ocidental (BRANDÃO,2004:264).
Continuando a sua lista, Brandão distingue as religiões orientais antigas, como o budismo e o xintoísmo, de “outras religiões chegadas há pouco „de fora‟ e que, ao contrário das primeiras, mesclam-se com a vida cotidiana e fazem inúmeros convertidos”, como a Seicho-no-Iê, a Perfect Liberty e a Igreja Messiânica. Ainda no campo das religiões orientais, temos aquelas que chegaram até nós via Estados Unidos da América, dentre estas as mais conhecidas são: a
Fé Bahaí, a Hare Krishna, o Sufismo, a Ananda Marga e a Brahma Kumaris.
Esses nomes são indicadores da pluralidade de neotradições que, ao contrário das tradições antigas, preferem adeptos jovens e mais intelectualizados.
Compõem também esse cenário desenhado por Brandão as três religiões mediúnicas e de possessão mais conhecidas e difundidas no Brasil: o espiritismo kardecista, a umbanda e o candomblé. Mas existem outras, como a Casa De Minas, do Maranhão, e o Xangó do Nordeste. Com exceção do kardecismo, todas são de origem afro-brasileira. Lembramos ainda as religiões indígenas e aquelas influenciadas de alguma forma por estas, como o Santo Daime e a União do Vegetal, que têm encontrado seus adeptos entre as “classes mais altas” e culturalmente mais eruditas. Mencionamos ainda aquelas religiões que, embora se declarem confessionalmente cristãs, não se identificam nem com o catolicismo nem com as confissões protestantes e evangélicas: as Testemunhas de Jeová, os Mórmons, os Adventistas do Sétimo Dia.
Estas são apenas algumas das religiões talvez as mais expressivas apresentadas por Brandão na tentativa de mapear o campo religioso brasileiro. Existem, porém, inúmeras formas não institucionais de espiritualidade, de crenças e de expressões religiosas que se configuram nos chamados novos movimentos religiosos, como a Nova Era. Nesse contexto plural e de múltiplas alternativas de filiação religiosa, os processos de dupla filiação religiosa ou dupla pertença, de trânsito e de sincretismo, são comuns na sociedade brasileira.
Ainda segundo Brandão, especialmente nos últimos anos, ocorre no campo religioso brasileiro
uma quase explosiva polissemia religiosa. Ora, se ousarmos pensar as outras dimensões da criação institucional da cultura, como as do campo da política, da arte, ou da ciência, nenhum outro é tão democrática e escancaradamente aberto à adesão de tudo e de todos como a religião […]. O universo religioso brasileiro acelera muito agora o que vinha já multiplicando desde antes, em termos de ofertas de tipos de agências de conversão, de afiliação, ou de usos de serviços de ajuda e salvação. Não apenas multiplicam-se unidades de crença partilhada com conteúdos de imaginários diversos, mas tipos, estilos e estratégias de afiliação, de presença e de vivência através de uma fé (BRANDÃO, 2004:278-279).
Esse quadro de diversidade, contudo, tem suscitado sérios debates, especialmente no meio cristão entre os estudiosos das ciências da religião e da teologia do pluralismo religioso. Cresce o número daqueles que defendem o pluralismo religioso de direito e de princípio, ou seja, defendem o valor, o direito
irredutível e irrevogável da alteridade de cada religião, contra o grupo majoritário daqueles que consideram o pluralismo religioso como uma deficiência a ser superada, ou, pelo menos, tolerada, até que se chegue a uma única religião, considerada como a verdadeira. E esta religião, segundo os adeptos dessa tendência, é o cristianismo. Sobre essa complexa questão, o teólogo e cientista da religião Faustino Teixeira, defensor do pluralismo religioso de direito e de princípio, afirma:
A diversidade religiosa deve ser reconhecida não como expressão da limitação humana ou fruto de uma realidade conjuntural passageira, mas como traço de riqueza e valor. A diferença deve suscitar não o temor, mas a alegria, pois desvela caminhos e horizontes inusitados para a afirmação e crescimento da identidade. A abertura ao pluralismo constitui um imperativo humano e religioso. Trata-se de uma das experiências mais enriquecedoras realizadas pela consciência humana: o reconhecimento do valor da diversidade como traço e riqueza da experiência humana(TEIXEIRA,2005[b]:30).
O sociólogo Wagner Lopes Sanchez, referindo-se ao pluralismo religioso, lembra um dado importante, ou seja, que o pluralismo religioso é um conceito amplo que tem implicações que envolvem relações sociais entre Estado, sociedade civil e atores religiosos. E conclui:
Entendido dessa forma, o conceito de pluralismo religioso vai muito além da noção de diversidade religiosa. Ele refere-se àquelas condições que possibilitam o surgimento de uma estrutura político-legal que reconhece a legitimidade da existência de várias expressões e instituições religiosas e a existência de um Estado que se relaciona em igualdade de condições com todas elas (SANCHEZ, 2010:80).
Como se depreende do quadro aqui apresentado, o cenário religioso brasileiro, caracterizado pela diversidade e pelo pluralismo religioso, passa por vários processos de transformação e reconfiguração, em meio a rupturas e surgimento contínuo de novas expressões de religiosidades, de bricolagens, onde o antigo e o novo se fundem.