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4.4 Luftfart

Como anunciamos na Introdução, o período investigado corresponde ao primeiro ano de estágio na Licenciatura em Matemática da UFLA – 2009. Então, o primeiro desafio encontrado foi conseguir estabelecer parcerias com as escolas de Educação Básica da rede pública de Lavras. Na cidade, havia um curso de Licenciatura em Matemática, oferecido por uma instituição particular, que não conseguiu abrir mais turmas quando passou a funcionar o curso da UFLA, em 2007 – isso significa que, até esse período, os estagiários da área de Matemática que existiam na cidade eram oriundos somente daquela Instituição. O fato de o

outro curso ter fechado é mais um dos indícios já levantados nos fóruns de Licenciatura em Matemática que apontam que, partir daí, a formação inicial de professores tem ficado a cargo das universidades públicas, invertendo, naquela região, o que antes ocorria, o fato de as universidades particulares formarem cerca de 90% desses profissionais.

A estratégia inicial era a de que a primeira abordagem às escolas fosse feita diretamente pelo orientador de estágio, procurando demonstrar haver um compromisso efetivo da Universidade com aquela prática e para ter a oportunidade de explicar qual era a proposta que pretendíamos desenvolver junto à escola para o estágio. Esse não deixa de ser um aspecto político, considerando o termo como sinônimo de negociação e tentativa de convencimento, a ser exercido pelo formador de professores.

A recepção nas escolas, por parte da direção e dos professores, de modo geral, pode ser descrita por meio de duas palavras: desconfiança e descrédito. Até aquele momento, o estágio nas escolas era uma prática totalmente sem sentido, inexistente do ponto de vista da iniciação à docência. Há relatos de que essa prática não trazia contribuição alguma às escolas; pelo contrário, trazia incômodo e conflitos45.

Ao chegar às escolas46 pedíamos para falar com alguma pessoa da direção e depois solicitávamos uma conversa com os professores que lecionavam a disciplina de Matemática no Ensino Fundamental. Por trabalhar naquele momento apenas em escolas que atendiam ao Ensino Fundamental, foi possível estabelecer vínculos, tanto com escolas municipais quanto com escolas da rede estadual – no caso do Ensino Médio, apenas a rede estadual e algumas escolas particulares atendiam a esta modalidade da Educação Básica.

Nos gestores, era perceptível certa apreensão e incômodo, quando se dizia que o assunto era o estágio supervisionado. Segundo o relato de um dos gestores, os estagiários que passaram por ali, até aquele momento, procuravam a escola por iniciativa própria e, sem uma proposta clara de trabalho mais ativo, sua ação na escola resumia-se à observação e registro do que o professor fazia dentro da sala de aula e isso causava uma impressão ruim aos professores que se sentiam, em geral, avaliados todo o tempo. Não se sabia ao certo o que os estagiários escreviam ali, mas a percepção era que, na maioria das vezes, se fazia um julgamento das ações do professor na sala de aula, sem que o observador tivesse, ao menos, vivenciado qualquer situação semelhante.

45 Relatos registrados no diário de campo do pesquisador.

46 No ano de 2009, os estágios foram realizados em 7 escolas, visto que em determinadas escolas havia mais de

uma equipe de estágio – embora com supervisores diferentes. Contudo, outras escolas foram visitadas pelo orientador de estágio para que se pudesse iniciar uma aproximação e uma parceria para os períodos de estágio que ainda estavam por vir.

Em alguns casos, conta outro gestor, os estagiários assumiam um papel passivo na sala de aula, em relação ao trabalho docente, e ativo incitando os estudantes a fazer “bagunça” durante as aulas. Outra coisa que incomodava os gestores era o fato de a aula de qualquer disciplina servir para validar o estágio em Matemática47, o que é uma contradição, visto que muitas vezes eles próprios pediam aos estagiários para substituir o professor em aulas que não eram de Matemática. Situações como essas ferem o disposto no Parecer CNE/CP 28/2001, em que o estágio supervisionado

é um momento de formação profissional do formando seja pelo exercício direto in loco, seja pela presença participativa em ambientes próprios de atividades daquela área profissional, sob a responsabilidade de um profissional já habilitado. Ele não é uma atividade facultativa sendo uma das condições para a obtenção da respectiva licença. Não se trata de uma atividade avulsa que angarie recursos para a sobrevivência do estudante ou que se aproveite dele como mão-de-obra barata e disfarçada. Ele é necessário como momento de preparação próxima em uma unidade de ensino. (BRASIL, 2001, p. 10)

Em um primeiro contato com os professores das escolas com que estabelecemos contato, ouvimos um pouco das suas percepções, expectativas e necessidades para, então, apresentarmos nossa proposta de trabalho. Os professores diziam que não estavam dispostos a receber estagiários que só ficassem observando as aulas e que gostariam que estes pudessem ajudar a desenvolver estratégias para superar certas dificuldades que seus alunos apresentavam, isto é, que contribuíssem para o ensino e a consolidação de alguns conceitos.48 Isso nos deixou bastante à vontade, pois a proposta que apresentamos a cada professor contemplava exatamente essas expectativas.

Basicamente, em nosso discurso, solicitávamos aos professores que os estagiários não ficassem somente observando na sala de aula – argumentávamos que não havíamos pensado em observação, participação e regência como momentos estanques –, mas que eles, professores, pudessem pensar em uma dinâmica de participação dos estagiários no desenvolvimento da aula; ainda manifestamos nossa intenção de que os estagiários participassem, também, de outros momentos da atividade docente, sobretudo na elaboração/planejamento da aula e em sua avaliação. Reiteramos a importância de se estabelecer um diálogo sistemático entre os estagiários e professores para que a proposta de trabalho pudesse ter andamento dentro das expectativas apresentadas por ambas as partes.

47 Relatos registrados no diário de campo do pesquisador. 48 Relatos registrados no diário de campo do pesquisador.

Com os estudantes da licenciatura (estagiários) as orientações iniciais foram no sentido de esses se portarem com muito respeito ao professor que os estava recebendo e com os estudantes da Escola Básica com quem iriam interagir. Colocamos a questão do respeito como algo que vai desde uma postura ativa e propositiva – sem sobrepor a autoridade do professor em sala de aula – até princípios mais básicos de vestimentas adequadas e de higiene pessoal. Além disso, tentamos firmar nosso compromisso com a escola pública, já que éramos provenientes de uma instituição pública – e embora isso não significasse dizer que nossos estágios eram realizados somente em escolas públicas, deixávamos claro que essas eram nossas prioridades.

O próximo passo foi apresentar os estagiários aos professores e gestores nas escolas, ao invés de, simplesmente, serem a elas encaminhados. Isto é, os estagiários foram apresentados ao diretor e ao seu supervisor da escola – professor da Escola Básica – pelo orientador de estágio. Em uma reunião com esses sujeitos, procuramos combinar as condições de ambas as partes – universidade e escola – para desenvolver uma parceria que tivesse condições mínimas de participar de um trabalho (com)partilhado.

Apesar dos avanços percebidos por meio das pesquisas com relação à forma de conceber a atividade de estágio, os sentimentos desencadeados por práticas como aquelas que foram relatadas por supervisores e gestores – ainda muito comuns em diversas regiões do nosso país – se coadunam com as denúncias e constatações apresentadas ao longo deste trabalho, especialmente na introdução e no capítulo 2, onde apontamos algumas mazelas do estágio e denúncias de práticas estéreis desse espaço de formação no currículo das licenciaturas, o que nos motivou a pensar o estágio a partir de da ideia de trabalho (com)partilhado.

A negociação é um fator importante tanto no início quanto no andamento das atividades de estágio, pois se trata de um processo em que estão envolvidas diferentes culturas e interesses. Nesse sentido, para os sujeitos que constituem o cotidiano escolar, o formador de professor e seus estagiários são vistos como alguém “de fora” que, temporária e pontualmente, irá agir/interagir naquela realidade, o que provoca uma postura cautelosa de ambas as partes (COCHRAN-SMITH; LYTLE, 2002).

Para oferecer uma melhor compreensão do que estamos denominando trabalho compartilhado é preciso fazer uma breve descrição de como se estruturou o estágio supervisionado da Licenciatura em Matemática da UFLA , segundo o planejamento e as ações do formador. As atividades do estágio foram organizadas de modo que candidatos a professor pudessem pensar em alternativas teórico-metodológicas e/ou didático-pedagógicas para o

ensino de conceitos matemáticos, segundo as necessidades de aprendizagem observadas junto ao professor-colaborador , ou supervisor do estágio. Após se discutir com o professor sobre essas necessidades, prosseguimos com:

(i) Planejamento: é um momento de planejamento coletivo49 das ações ou atividades

dentro de uma previsão organizacional e temporal. No contexto, a orientação era avaliar de que tipo de ação pedagógica se lançaria mão, segundo as intencionalidades acordadas no grupo, podendo ser: uma proposta de introdução e desenvolvimento de um conceito matemático – através da resolução de um problema (ONUCHIC e ALLEVATO, 2004; GTERP, 2008), por exemplo; ou a abordagem ou investigação de um conceito a partir de uma atividade orientadora de ensino, percebendo-a como uma ação formadora no trabalho compartilhado e para os alunos com os quais esta seria desenvolvida (MOURA, 2001); ou, ainda, uma proposta de intervenção que abordasse ou procurasse retomar conceitos que ainda não haviam sido apropriados ou consolidados com os alunos. Contudo, essas perspectivas ou abordagens do saber fazer matemático não precisam estar desconectadas no momento da ação. Observamos, também, que o uso de recursos computacionais, jogos, materiais manipuláveis e outros, podem estar implícitos nessas ações, visto que a utilização desses recursos precisava estar sempre orientada por uma atividade, pois consideramos que pode haver atividade sem a utilização de recursos (textual), mas não deve haver a utilização de recursos sem a atividade.

(ii) Ação: momento em que se ajudava o professor no desenvolvimento de suas aulas incluindo as atividades planejadas conjuntamente. Esse momento tem um responsável pela condução dos trabalhos; é aquele a cargo de quem fica a apresentação da proposta de aula para a turma e de explicar em linhas gerais o que será desenvolvido com o intuito de colocar a turma em atividade – essa figura pode ser a do professor-colaborador ou de um dos estagiários durante a regência; e todos, estagiários e professor, atuam fortemente no momento em que a atividade está ocorrendo interagindo com os alunos nos grupos ou individualmente, assumindo uma postura de mediador na aprendizagem. A orientação era a de que buscassem desenvolver um trabalho que privilegiasse a exploração, a investigação, o desenvolvimento da argumentação e validação das afirmações/conjecturas

49 Esse coletivo refere-se ao trabalho dos estagiários em conjunto com o supervisor e em alguns casos com a

apresentadas; que levassem em conta o envolvimento do estudante na construção do seu próprio conhecimento, priorizando a comunicação de ideias, os processos de socialização ou negociação de significados como precursores da sistematização que deveriam fazer a partir das ideias surgidas, da intencionalidade e dos objetivos da atividade. Havia uma compreensão de que a possibilidade de se trabalhar com uma “equipe de professores” em sala de aula tornava mais viável o trabalho em grupos, pois – desde que se esteja igualmente preparado e acordado quando da dinâmica de mediação e intervenção – se consegue desencadear, monitorar e intervir melhor nas discussões geradas nos grupos.

(iii) Avaliação: é o momento de avaliar o aprendizado dos estudantes nas aulas desenvolvidas, avaliar o trabalho realizado pelo grupo durante as aulas e avaliar ou refletir sobre as situações de ensino mais significativas para o grupo no aprendizado da docência. Em cada grupo procurávamos organizar e estruturar o material de análise, o qual era constituído pelos registros dos estudantes durante a atividade e pelo registro de campo dos membros do grupo. Vale observar que nem todos os supervisores faziam tais registros.

Tanto os momentos de planejamento quanto os momentos de avaliação, deveriam ser também momentos de reflexão e investigação alimentados pelo momento da ação. Por essa perspectiva o que ocorre é um tipo de investigação no sentido de instrumentalização para a prática, quando nos grupos de trabalho no estágio existe a necessidade de compreender melhor os fundamentos de certas estratégias metodológicas de ensino e de processos de análise e avaliação das ideias mobilizadas no contexto da ação; ou mesmo uma reflexão sobre como os aspectos teóricos estudados durante a licenciatura ou em outros momentos de formação se constituem, permeiam ou se transformam no contexto da prática docente.

Por fim, todo esse movimento de elaboração conceitual culmina em uma situação de geração e socialização de conhecimento por meio da produção de narrativas ou de relato de experiências para serem apresentados em eventos, em alguns casos. A questão do artigo científico depende do nível de apropriação conceitual que se teve nos estudos ou nas investigações e do nível de elaboração teórica que se consegue imprimir na produção das narrativas.

As narrativas têm se apresentado como um instrumento significativo para uma reflexão mais aprofundada da prática docente, sobretudo pela necessidade de se elaborar

melhor o pensamento e fazer uma reflexão teórica sobre determinados aspectos que são vivenciados na escola.

Em síntese, houve a intenção de criar um espaço para propiciar a problematização das questões vivenciadas no âmbito da licenciatura e da prática docente, pois entendemos que o estágio deve ser também uma atividade significativa para o professor-supervisor. A ideia era que ocorresse um trabalho compartilhado e dialogado, durante todo o processo que envolve uma aula.