N. Ano Tipo Facilitador Detalhes da doação Fonte
1 1612 Doação por testamento
André Padilha de
Barros.
“Duas léguas [cerca de 13,2 km] de terra em quadro [13,2 quilômetros quadrados (km²)] correndo no comprimento do Norte e Sul ao longo dos padres da Companhia de Jesus da data que têm nas Cabeceiras de Apassé que chega no comprimento do Rio de Jacuípe, ficando os jesuítas para a banda do Oeste e para as bandas do Leste pede as duas e que é no sertão em partes remotas, que nunca foi cultivada de morador”.
“Livro de Tombo [...]” (1592-1796, p. 150-156). 2 1619 Sesmaria Coroa Portuguesa.
Terreno de uma légua (cerca de 6,6 km) na Terra Nova105, “entre o Rio
Jacuípe e o de Joanes, manda dar a dita légua em quadra ou pela parte do Sul ou poente onde não estiver dada”. No Sítio da Jangada.
“Livro de Tombo [...]” (1592-1796, p. 159).
3 1651 Doação Dona Luiza de Gois, viúva do licenciado106
Diogo Pereira.
“Duas mil braças [cerca de 4,4 km] de terra, nos campos onde chamam Cururipe, termo desta Cidade de Salvador”, “as quais partem com
Agostinho de Oliveira e com Francisco Vieira, com suas águas e matos”.
“Livro Segundo de Tombo [...]”, p. 35-37. 4 1658 Compra João de Barros Cardozo e sua mulher Dona Brites de Lima de Barros.
“Uma fazenda de canas situada na Jacaracanga, termo desta Cidade da Bahia, uma banda com a Fazenda de Agostinho da Costa e da outra banda com a fazenda que foi do Francisco de Oliveira, e por outra parte com a fazenda de Angello de Araújo e da outra com o tanque do Engenho de Cornubuçu”. “Em Jacaracanga, há uma Ermida de Santo Antônio”107.
“Livro de Tombo [...]” (1592-1796, p. 115-124. 5 1670 Posse de bens Frei carmelita Agostinho Sutil.
“Uma sorte de terra na Freguesia de Nossa Senhora do Socorro entre
Manoel Pinheiro e André de Padilha” Segundo de “Livro
Tombo [...]” (1589-1796, p. 58-75).
Quadro 20: Aquisições de terras no Recôncavo pelos carmelitas (1612-1670).
105 Esse local, pouco tempo depois, já era fazenda e engenho de cana-de-açúcar de mesmo nome. Atualmente, o
local dessas terras é a Cidade de Terra Nova-BA, às margens do Rio Pojuca, no Recôncavo, próximo ao Rio Jacuípe.
106 De acordo com o “Diccionario [...]” (1798, Tomo II, p. 22), o verbete “licenciado” significa: “o que nas
Universidades se dá ao aprovado nos Exames de Conclusões magnas, e Exame privado. O sujeito que tem esse grau”.
107 Anos mais tarde, essas terras serão chamadas pelos carmelitas de Sítio de Santo Antônio do Rio das Pedras.
Como esses locais no Recôncavo, mencionados nos documentos citados, são para nós imprecisos, no detalhe do mapa “A Baya de Todos os Santos he o Porto principal [...]”, de João Teixeira Albernaz I (1642), sinalizamos, em vermelho, apenas aqueles que podemos identificar: Jacaracanga (Jacarecanga), Nossa Senhora do Socorro, Passé (Paçé), como, também, a Cidade de Salvador e o convento dos carmelitas (figura 10).
Figura 10: Detalhe do mapa “A Baya de Todos os Santos he o Porto principal e cabeça do Estado do Brasil [...]”, de João Teixeira Albernaz I (1642), com destaque para algumas regiões no Recôncavo onde os carmelitas tinham terras, além do Convento do Carmo na Cidade de Salvador (em vermelho).
Fonte: FBN Digital, disponível em: <http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart64004/cart640 04.jpg>, acesso em: 12 jun. 2013; mapa modificado pela autora.
A região do Recôncavo estava começando a ser ocupada por leigos e religiosos, pois, economicamente, estava se tornando próspera na produção da cana-de-açúcar e do fumo. Sendo assim, percebemos que a quantidade de terras de posse dos carmelitas naquela região atestou o interesse daqueles de se expandirem por mais um local estratégico da Capitania da Bahia de Todos os Santos. Nos documentos, constatamos que, além de interesse religioso, a maioria dos doadores alegou que estava doando as terras no Recôncavo aos carmelitas para que eles pudessem ter algum tipo de renda para a construção do convento deles; assim como os carmelitas alegaram, por exemplo, quando pediram sesmarias à Coroa, que não tinham com o que se sustentar e, para isso, precisavam de terras. Nos dois casos, confirmamos que a expansão pelo Recôncavo tinha um intuito econômico.
Diante do exposto, concluímos que os carmelitas, nesse primeiro século (1580- 1670), passaram não somente a dominar a região Norte imediata da cidade Salvador no subúrbio dela, como a região do Recôncavo, mais próxima à cidade e aos principais rios que deságuam na Baia de Todos os Santos. Percebemos a influência social daqueles religiosos, pois relacionaram-se com a elite e receberam privilégios dela (leigos abastados, funcionários reais e Coroa Portuguesa). Nos documentos, os processos judiciais sempre favoreciam os carmelitas, que foram ampliando o patrimônio deles através de compra, doação e sesmaria. Os calçados
construíram o convento deles, Sede da Vigararia do Carmo do Estado do Brasil, sendo um pouco mais complexo que o Convento de Olinda, pois tinha no entorno dele: horta, guindaste, Ordem Terceira, entre outros.
Esse processo de aquisição de terras nas áreas periféricas dos núcleos urbanos não era exclusividade dos carmelitas, pois era feito por outras ordens religiosas, sendo comum no Brasil colonial. Assim como em Olinda, a localização periférica do Convento do Carmo e das terras dele também é evidente no caso de Salvador, sendo uma forma no Brasil de ampliar o território das cidades que, na passagem entre os séculos XVI-XVII, estava em pleno crescimento, no caso de Salvador, o crescimento dela estava para além dos muros.
1.2.4 O Convento de São Cristóvão e a região de Sergipe d’El Rei
A atuação dos carmelitas calçados na Cidade de São Cristóvão e na região de Sergipe d’El Rei teve relação com a história da conquista portuguesa naqueles locais. Na segunda metade do século XVI, as terras de Sergipe d’El Rei, como o próprio nome diz, era uma região comprada pela Coroa Portuguesa a fim de expandir o território da Capitania Real da Baia de Todos os Santos e ligar, por terra, essa região à Capitania de Pernambuco108. Para
ilustrar, apresentamos o mapa “Provincie della Baia e di Sergippe”, de Andrea Antonio Orazi (1698)109, representando a Capitania da Baia de Todos os Santos, compreendendo as terras de
Sergipe d’El Rei, e parte da Capitania de Pernambuco, nesse caso, a região das Alagoas (figura 11):
108 “Situada entre os rios Real e S. Francisco, Sergipe era uma parte integrante da Capitania de Francisco Pereira
Coutinho (Bahia), cuja morte fez suceder no direito de posse da capitania seu filho Manoel Pereira Coutinho que [...] teve de cedê-la ao governo, por um contrato, passando as cinquentas léguas [em torno de 330 km] à posse da Coroa. Talvez, por isso e pelo fato de que a conquista de Sergipe fosse efetuada por ordem régia e à custa da Coroa, chamou-se - Sergipe d’El Rei, e por haver já uma localidade chamada Sergipe do Conde [no Recôncavo da Bahia de Todos os Santos]”. (FREIRE, 1995, p. 16).
Figura 11: Mapa “Provincie della Baia e di Sergippe”, de Andrea Antonio Orazi (1698), com as localidades e rios sinalizados.
Fonte: FBN Digital, disponível em: <http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart 1360006/cart1360006.jpg>, acesso em: 1 jun. 2013; mapa modificado pela autora.
Desde o século XVI, a região de Sergipe esteve ligada à Bahia e subalterna a essa, sendo mantidas diversas relações entre as duas regiões durante todo o período colonial, seja no aspecto político, social e religioso. Sergipe fazia parte da Capitania da Bahia de Todos os Santos, tendo somente uma divisão geográfica pelo Rio Real. Parte dos moradores da Cidade de Salvador e do entorno dela, desde o século XVII, manteve relação com moradores de Sergipe ou foram, diretamente, responsáveis por ocupar essa região. Houve uma relação direta dos carmelitas calçados da Cidade de Salvador com os carmelitas que se expandiram e se fixaram em Sergipe.
A partir de 1587, após a morte do Governador-Geral, Manuel Teles Barreto (1523- 1587), na Cidade de Salvador, foi instituído um Governo-Geral com dois representantes: o Provedor-Mor Cristóvão de Barros110 e o Bispo Dom Antônio Barreiros. Nesse período,
Cristóvão de Barros organizou expedições para tentar ocupar, definitivamente, o território de Sergipe, tendo êxito em 1590, fundando a Cidade-Sede de Sergipe d’El Rei, chamada de São
110 “Cristóvão de Barros era filho natural de Antônio Cardoso de Barros, que fora provedor-mor da fazenda, no
tempo de Tomé de Souza. Veio para o Brasil fazendo parte da armada que el Rei mandou a Mem de Sá, chegando no Rio de Janeiro em 1567”. (FREIRE, 1995, p. 20). Não conhecemos a data de seu nascimento e de sua morte.
Cristóvão111. A maior parte das terras de Sergipe foram concedidas, através de sesmarias, a
Cristóvão de Barros, aos parentes dele, principalmente, a seu filho Antônio Cardoso de Barros de Lima, e a outros homens que lutaram na guerra contra os índios que viviam naquela região.
A Cidade de São Cristóvão, a partir de 1590, mudou algumas vezes de local. A primeira localização foi entre o Rio Poxim e o Rio Cotinguiba112. Entretanto, os moradores não
se sentiam seguros na região, uma vez que poderia ocorrer alguma invasão inimiga113. Sendo
assim, entre 1595-1603, mudaram a cidade para uma região que ficava no Rio Vaza-Barris, mas ainda não foi o local definitivo onde hoje se encontra a Cidade de São Cristóvão114. A última
transferência da cidade foi entre 1607 para uma área próxima, em um afluente do Rio Vaza- Barris, chamado Paramopama115.
A fundação da Cidade de São Cristóvão, de certa forma, está, diretamente, relacionada à presença dos primeiros carmelitas naquela região. No “Livro de Várias Notícias [...]” (1796, p. 24 e p. 107), afirmou-se que o Convento do Carmo de São Cristóvão foi fundado nessa cidade por volta de 1600116. Mas sabemos que, nesse ano, a cidade ainda não estava no
111 “O Rei Felipe II fez, por merecimento, doação a Cristóvão de Barros das terras por ele conquistadas, com a
condição de as repartir pelos colonos que bem melhor lhe parecessem, e de ali fundar povoações num prazo fixado por El-Rei. Dentro dessa atribuição, o conquistador concedeu ao seu filho, Antônio Cardoso de Barros, a primeira sesmaria que possuía 10 léguas [cerca de 66 km] de extensão na costa, indo do Rio Sergipe ao São Francisco”. (NUNES, 2006, p. 33).
112 “É opinião de quase todos os historiadores, principalmente, Varnhagen, que é muito claro na localização da
primeira povoação de Sergipe, que ela foi situada sobre um istmo, onde perto do mar faz barra o Rio Poxim no Cotinguiba e junto ficava edificado o forte”. (FREIRE, 1977, p. 84).
113 “Foi resolvido, pois, pelos poderes competentes e de acordo com a opinião do povo, em presença do
desembargador Gaspar de Figueiredo Homem, a mudança da cidade para o novo lugar, em 1595 ou 1596. Em setembro de 1603, o conselho da capitania pede doação de terra ao capitão-mor Tomé da Rocha, que, pela segunda vez administra Sergipe, e, neste documento, alega-se a mudança da cidade, no tempo acima indicado. [...] Efetuada a mudança da cidade e transferidos o forte e a igreja [Matriz, chamada de Nossa Senhora da Vitória], o capitão manda apregoar a ordem, para os habitantes edificarem casas”. (FREIRE, 1977, p. 89-90). Destacamos que, nos dois primeiros séculos de colonização no Brasil, os portugueses viviam sob o medo de ataques constantes de índios e de outros povos como os franceses e holandeses, mas também nativos. Então pensavam em fundar povoações seguras. Prova disso é a Cidade de Salvador, que, desde o início de sua construção, foi murada, fundada em local elevado e possuía diversas fortificações em seu entorno.
114 Silva (2010, p. 61) afirma que: “Só no século XVII, a cartografia localiza a ‘povoação nova a que chamam a
Cidade de São Cristóvão”.
115 “Outra transferência ainda ocorreria em 1607 para o local onde hoje se encontra a cidade, quatro léguas [cerca
de 26, 4 km] a dentro da enseada do Vaza-Barris, na confluência que faz com o Paramopama. Essa localização permitia aos habitantes ficarem ‘mais perto de suas fazendas’, ‘sendo a pior eleição, por quanto no Vaza-Barris que tem pior barra’”. (NUNES, 2006, p. 34-35).
116 Em nenhum outro autor que escreve sobre os carmelitas em Sergipe colonial (WERMERS, 1963, por exemplo)
existe a referência exata da fundação do Convento do Carmo de São Cristóvão. Também não localizamos nos arquivos do Carmo no Brasil ou até mesmo no próprio Convento de São Cristóvão, Livro de Tombo ou algum documento que comprove a data exata da fundação e a aquisição do terreno para construção do convento inicial. Sabemos que uma pequena parte da documentação, isto é, raros documentos sobre o Convento do Carmo de São Cristóvão foram transferidos para o AC-Santo Elias em Belo Horizonte-BH no século XX. Acreditamos que a maior parte dos documentos daquele convento encontra-se em acervos particulares em Sergipe, pois encontramos
local definitivo dela, sendo fixada somente em 1607. É provável que os carmelitas calçados só tenham chegado a partir de 1608, ano em que foi instituída a Freguesia da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Vitória117. Com base nos documentos, temos pelos menos duas hipóteses
sobre o Convento do Carmo em São Cristóvão.
A primeira hipótese aponta para uma possível chegada dos carmelitas calçados em um morro no arrabalde da Cidade de São Cristóvão, onde havia uma Capela de São Gonçalo, da mesma forma que havia acontecido com os carmelitas em Olinda e em Salvador. Localizamos alguns indícios retirados de documentos diversos (quadro 21):