3.2 Material modelling
3.2.1 LS-DYNA Material Models
A história da narrativa mundial de guerra vem de longe, tem a mesma idade das guerras. Afinal, como afirma o sociólogo Raymond Aron, referenciado na introdução deste trabalho, “os homens sempre se mataram”131 e, do mesmo modo, esses homens sempre se preocuparam em registrar tais matanças. Escritores, historiadores, ensaístas, memorialistas, enfim, uns sem-número de narradores, ao longo dos tempos, tiveram esse cuidado. Antes da Grécia antiga, porém, há pouca informação a respeito. Heródoto de Halicarnasso (484 a.C.-425 a.C.), considerado o pai da história ocidental, tem no clássico História, divido em nove volumes, talvez o primeiro relato mundial de guerra. Ele descreveu a expansão militar do Império Persa, a conquista da Grécia e também as derrotas infligidas aos persas, tudo no século V a.C.
As civilizações medievais têm anotações ricas das guerras. Chegam a ser lendárias as histórias das Cruzadas (1096-1270) e do Cavalo de Tróia, na Guerra de Tróia (1300 a.C.-1200 a.C.) e de personagens como Alexandre, o Grande (356 a.C.-323 a.C.), e Júlio César (100 a.C.-44 a.C.). A Guerra do Peloponeso (431 a.C.-404 a.C.), entre as cidades gregas de Atenas e Esparta, seria documentada por Tucídides (460 a.C.- 455 a.C.), testemunha dos combates, em História da Guerra do Peloponeso. O conflito
armado mais longo de que se tem notícia, até hoje, são as Guerras Romano-Persas (92 a.C.-627 d.C.).
No entanto, embora a China tenha inventado o papel ainda em 105 a.C., Werneck Sodré considera que a imprensa, como comunicação de massa, começa somente com a ascensão do capitalismo, e o acesso das massas à informação e ao avanço tecnológico, com a impressão em escala, em meados do século XVIII.132 Por essa razão, aliás, não poderíamos ter informação de qualquer correspondente de guerra nesses períodos remotos de nossa história.
Philip Knightley acentua que a história da correspondência de guerra, enquanto “esforço organizado [de um veículo de comunicação] para contar uma guerra à população civil da pátria empregando os serviços de um repórter civil”, surge na Inglaterra, no início do século XIX.133 O jornal londrino The Times, já extinto, enviou o irlandês William Howard Russell (1820-1907) para a cobertura in loco da Guerra da Crimeia (1853-1856), composta por Grã-Bretanha, França e Turquia versus Rússia. Antes de Russell, assinala o autor de A Primeira Vítima, as experiências estavam pautadas na ‘contratação’ de militares diretamente envolvidos no conflito para, além de guerrear, enviar notícias aos jornaisxxiii – como aconteceu com Winston Churchill na cobertura da Segunda Guerra dos Bôeres, na África do Sul, na virada para o século XX, destacada na seção 3.3.
O ano era 1853 e a Rússia czarista preparava-se para converter parte da Europa em seu domínio, numa expansão imperialista. A Grã-Bretanha, a mais poderosa nação à época, reagiu em favor de manter seu comando junto aos países do continente. Estava conflagrada a Guerra da Crimeia, amplamente apoiada pelos cidadãos britânicos contrários ao autoritarismo do Czar. Knightley recupera os escritos de Mowbray Morris, diretor do The Times, então o mais influente periódico da Europa, sobre a decisão de enviar um repórter para a frente de batalha.
O público espera que tenhamos nossos próprios representantes. E como ele há muito está habituado a procurar no The Times... a verdade sobre todas as coisas, deixamos de corresponder a uma expectativa razoável, quando não oferecemos nada melhor do que matérias de outros jornais, embora autênticas.134
Russel foi para a ilha de Malta, onde ficou por dois meses – fevereiro e março de 1854 – posicionado na retaguarda, até ali sem enviar material jornalístico. Quando
132 Sodré, 1999: 2-3. 133 Knightley, 1978: 8. 134 Idem: 9.
navegou ao lado das tropas para Gallipoli, na costa turca, a partir de 30 de março e, daí, por dois anos seguidamente, aconteceu o marco da correspondência de guerra: a publicação na imprensa do primeiro texto de um repórter enviado especificamente para uma batalha. “De lá, começou a enviar os despachos – sob a forma de cartas para [o
editor do The Times, John] Delane – que o tornariam famoso”, informa K nightley.135 A correspondência, então, inicia a sua história no formato de gênero carta.
A experiência de Russell na Guerra da Crimeia provocou uma reviravolta nas tropas britânicas, despreparadas para enfrentar a refrega, o que ocasionaria a substituição de todo o comando maior. O correspondente cobriu ainda inúmeras guerras, entre elas, a Guerra Civil Norte-Americana (1861-1865) e a Comuna de Paris (1871). Eis um trecho do calor de uma das cartas de Russell a Delane, publicada em 14 de novembro de 1854. A missiva dá conta da superioridade russa, que venceu um combate contra a cavalaria britânica com sangrentos disparos de canhões, em apenas 20 minutos:
Às onze e dez, nossa Brigada de Cavalaria avançou... Passou veloz e orgulhosamente, resplandecendo ao sol matinal com todo o orgulho e esplendor da guerra... À distância de 1.200 metros, toda a linha do inimigo vomitou, por trinta bocas de ferro, uma torrente de fumaça e chamas. O arremesso foi assinalado por lacunas imediatas em nossas fileiras, homens e cavalos mortos, corcéis fugindo feridos ou sem cavaleiros através da planície. [...] Nós os vimos cavalgar adiante e voltar, depois de romper uma coluna de russos e dispersá-los como farelo, quando o fogo de flanco das baterias sobre a colina os arrasou. Homens feridos e cavalarianos desmontados que fugiam em nossa direção, contaram a triste história... Às onze e trinta minutos, nem um só soldado britânico, exceto os mortos e agonizantes, sobrara diante dos canhões moscovitas.136
Russel, como ele próprio dizia, foi o “pai infeliz de uma tribo sem sorte”, pioneiro da correspondência de guerra ao redor do mundo. 137 Mas não se sabe ao certo quem foi o fundador do ofício no Brasil. Alguns pesquisadores apontam a cobertura da Guerra do Paraguai, como sendo a nossa Guerra da Crimeia para a correspondência, como veremos na seção 4.3.3. Seja quem for, Hamilton Ribeiro, quando questionado em discussões acadêmicas, defende, superficial e abstratamente, que não há tradição de correspondência de guerra entre os brasileiros por duas razões:
Eu respondo, sem blasonar muita serenidade, que jornalismo de guerra depende de no país haver guerra, e haver jornalismo. Por graça do destino, somos um país quase sem guerra, e quanto a jornalismo, não é também que tenhamos muito...138
135 Idem: 12.
136 Russel apud Knightley, 1978: 7. 137 Russel apud Knightley, 1978: 8. 138 Ribeiro, 2005: 108.
De fato, a observação de Hamilton Ribeiro de que há pouco jornalismo por aqui pode ser explicada pela demora na edição do primeiro jornal brasileiro e, além disso, pela qualidade que deixava muito a desejar. Sodré cita a Acta Diurna, periódico dos antigos romanos, datado de 59 a.C., como uma espécie de primeiro jornal do planeta, porém de pouca tiragem e penetração, qualificando-a como “a transmissão de notícias nas tribos primitivas”.139 Embora trate o início da imprensa a partir da Revolução Industrial, o historiador chama a atenção para o caso de o The Times, já em 1814, ter começado a rodar seus exemplares em máquinas a vapor.
Enquanto isso, o Brasil, ainda colônia de Portugal, inaugurou seu jornal apenas em 1° de junho de 1808, com o lançamento do Correio Braziliense. Em português, aquela folha era redigida, editada e impressa na Inglaterra, ingressando em terras brasileiras clandestinamente. “O Correio era uma brochura de mais de cem páginas, geralmente 140, de capa azul-escuro, mensal, doutrinário muito mais do que informativo”, registra Sodré.140 Seu fundador, Hipólito da Costa, explica:
Resolvi lançar esta publicação na capital inglesa dada a dificuldade de publicar obras periódicas no Brasil, já pela censura prévia, já pelos perigos a que os redatores se exporiam, falando livremente das ações dos homens poderosos.141
Três meses mais tarde, em 10 de setembro de 1808, surgia o primeiro jornal impresso no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro. Segundo Sodré, se a inserção do
Correio Braziliense na imprensa daqui já é “discutível”, a Gazeta era denominada de “arremedo de jornal”: “Um pobre papel impresso, preocupado quase que tão-somente com o que se passava na Europa, de quatro páginas, poucas vezes mais, semanal de início, trissemanal depois”. Em realidade, um jornal oficial da Coroa Portuguesa no Brasil.142
No entanto, quando Hamilton Ribeiro justifica a carência de correspondência pelo fato de o Brasil ser um “país quase sem guerra”, talvez a memória do jornalista tenha levado em conta a Constituição brasileira de 1988, que prevê em seu preâmbulo a “defesa da paz”, e não as páginas manchadas de sangue de nossa história. Aliás, a Carta Magna almeja tempos futuros de “paz” – a palavra é repetida 14 vezes. No capítulo dos
Princípios Fundamentais, o artigo 4° estabelece que as relações internacionais do Brasil sejam regidas, entre outras, pela “não-intervenção” e pela “solução pacífica dos
139 Sodré, 1999: 2-3. 140 Idem: 22.
141 Costa apud Sodré, 1999: 20. 142 Sodré, 1999: 19-20.
conflitos”. Todavia, a bandeira branca evocada pelo texto constitucional não guarda relação direta com a formação e o desenvolvimento da nação brasileira, como veremos na seção 4.2.
Desse modo, a fim de contextualizar a análise ligeira de Hamilton Ribeiro, faz- se relevante recuperarmos um pouco os escritos sobre a história do Brasil desde a chegada dos dez navios e três caravelas portuguesas do capitão-mor Pedro Álvares Cabral ao litoral da Bahia, em 22 de abril de 1500xxiv. Ao estudarmos a trajetória das narrativas sobre conflitos armados brasileiros, pinçando alguns aqui e acolá, destacamos, em especial, a variedade de formatos de gênero possíveis sobre a guerra, todos precursores da correspondência de guerra como conhecemos hoje. Correspondência que se desenvolveria mais adiante com o surgimento e a evolução dos jornais na segunda metade do século XIX.