7.1 Monolithic Glass
7.1.2 Elastic response
Laguna
Em A Retirada da Laguna, Taunay oferece uma estratégia textual para o leitor situar-se temporal e espacialmente no decorrer da narrativa. Diferentemente de Da Cunha, que expõe no início o lugar e a data de onde despacha suas correspondências de guerra, Taunay traz, no alto de todos os 21 capítulos do livro, tópicos-resumos das ações contadas no âmbito daquele capítulo.
Aqui, apresentamos a íntegra desses ‘tópicos-resumos’, capítulo a capítulo, e, em seguida, interpretamos tais sintetizes para o formato de texto corrido, evidenciando o grau elevado de factualidade com que Taunay constrói a trama.
Tópicos-resumos dos 21 capítulos, na íntegra
Capítulo 1: Formação de um corpo de exército incumbido de atuar, pelo norte, no alto Paraguai – Distâncias e dificuldades de organização.
Capítulo 2: Miranda – Partida da coluna – De Miranda a Nioaque.
Capítulo 3: Nioaque – O coronel Carlos de Moraes Camisão – O guia José Francisco Lopes.
Capítulo 4: Marcha para a fronteira do Paraguai – Conselho de guerra.
Capítulo 5: Reconhecimento – Alerta falso – Retorno de prisioneiros que escaparam ao inimigo – O guia Lopes e seu filho – Avante!
Capítulo 6: Em marcha – Disposição da coluna – Visão da fronteira.
Capítulo 7: Passagem do Apa – Primeira escaramuça – Ocupação da Machorra.
Capítulo 8: Ocupação de Bela Vista – Os paraguaios devastam tudo ao redor da coluna – Tentativa de negociação – Fracasso da tentativa – Escassez de víveres – Marcha para Laguna.
Capítulo 9: Ordem de marcha e formatura do corpo expedicionário – O mascate italiano – O comandante Gonçalves – Assalto e tomada do acampamento paraguaio da Laguna. Capítulo 10: Contramarcha sobre o Apa-Mi – Escaramuças e combates com a cavalaria paraguaia, que cerca totalmente o corpo do exército.
Capítulo 11: Alarme falso – Últimas ilusões – O tenente Victor Batista – Passagem do Apa – Retorno ao território brasileiro.
Capítulo 12: Vigoroso ataque do inimigo – Este é repelido, mas o gado se dispersa com o barulho do combate – Cenas do campo de batalha – A preta Ana – O ferido paraguaio – Os víveres vão faltar.
Capítulo 13: Deliberação sobre o caminho a seguir – Primeiro incêndio no campo. Capítulo 14: Prossegue a marcha – O inimigo toma a dianteira – Novo sacrifício de bagagens – Faltam víveres – Incêndios e temporais no campo – Escaramuças incessantes.
Capítulo 15: Incerteza sobre o caminho a seguir – Novo incêndio, novo ataque dos paraguaios – O inimigo é repelido – Penúria da coluna – Reencontrado o caminho – Passagem do rio das Cruzes – A marcha é retomada – Outra travessia de rio – A fome se manifesta – As mulheres que seguem a coluna.
Capítulo 16: Breve lampejo de esperança – A cólera – Reaparece o inimigo – Continuam os incêndios – Recrudesce a cólera – Um recurso: os palmitos – Terrível passagem de um brejo – O tenente Santos Sousa – Bivaque; conseguimos acender o fogo.
Capítulo 17: Chegada aos limites da propriedade do guia Lopes – Passagem do Prata – O inimigo acompanha-nos sempre, mas ataca sem vigor – Devastação da cólera – Perplexidades do coronel Camisão – Abandonamos os doentes – A separação – O tenente-coronel Juvêncio e o coronel Camisão são contaminados – Morte do filho de Lopes – Continua a marcha – Chegada à fazenda Jardim; Lopes morre de cólera – Seu túmulo.
Capítulo 18: Chegada às margens do Miranda – O inimigo não se aproxima, para evitar o contágio da cólera – De início o Miranda não dá passagem – Entretanto, alguns homens o atravessam a nado e trazem a boa notícia da existência de um grande laranjal repleto de frutas maduras – O corpo de caçadores recebe ordem para tentar a passagem – São bem-sucedidos – Morte do tenente-coronel Juvêncio – Morte do coronel Camisão – É substituído no comando por J. T. Gonçalves – Estabelece-se um vaivém no rio – Chegam laranjas em abundância – Seu efeito benéfico sobre esfaimados e coléricos. Capítulo 19: Renasce a esperança – Restabelece-se a disciplina – Passagem do Miranda – Os canhões – Ainda o inimigo – Tomamos deles alguns bois, que são de grande serventia – Marcha forçada – Andamos sete léguas! – Canindé.
Capítulo 20: Marcha para Nioaque, apenas duas léguas à frente – O inimigo continua rondando a coluna – O mascate italiano Saraco.
Capítulo 21: Nioaque – Decepção: foi a vila pilhada, incendiada e quase destruída pelos paraguaios – Infernal ardil de guerra – O inimigo desaparece definitivamente – Retorno tranquilo do corpo do exército – Ordem do dia sobre esta campanha de 35 dias.
Em 1° de janeiro de 1867, o coronel Camisão assumiu o comando. Antes tinha ocupado o posto o coronel Manoel Pedro Drago, que manteria a tropa por dois meses em Campinas, São Paulo, e, sendo cobrado a avançar com a expedição, chegou a ir para Uberaba, Minas Gerais, e recebeu ordens de retornar imediatamente à Corte, assumindo então o coronel José Antônio da Fonseca Galvão, que faleceria às febres antes de chegar a Miranda, Mato Grosso. Em Miranda, a coluna ficou 113 dias, ou seja, de 17 de setembro de 1866 a 11 de janeiro de 1867. Tinha, então, 1,6 mil homens. Rumou para Nioaque, 210 quilômetros a sudoeste de Miranda. Chegou a a Nioaque em 24 de janeiro de 1867, também já desocupada de paraguaios.
A coluna partiu de Nioaque, a 25 de fevereiro de 1867, sem saber para qual destino, já tendo integrado o guia Lopes. No dia 26, em Canindé; no dia 27, em Desbarrancado, seguia rumo à fronteira. No dia 2 de março, marchou para o rio Feio. No dia 4, chegou a uma vila de nome Miranda, a 80 quilômetros a sudoeste de Nioaque. No dia 25, após decisão de avançar, chegou a Retiro, localidade recentemente abandonada pelos paraguaios, mais 52 quilômetros de distância.
A 17 de abril avistou a fronteira, separada pelo rio Apa. No dia 19, o primeiro frente a frente com a tropa inimiga. No dia 20, marchou pela margem direita do Apa, com objetivo de chegar à fazenda Machorra, ocupada pelos paraguaios em território brasileiro, a uma légua e um quarto antes do forte de Belo Vista, construído a frente, na margem do país adversário. No dia 21, transpôs a fronteira e conquistou o forte de Bela Vista. Após tentativa frustrada de negociar a rendição inimiga, a tropa, já sem víveres, decidiu rumar para a fazenda Laguna, na esperança de encontrar víveres, no final de abril.
A 31 de abril e 1° de maio deu-se a marcha até Laguna, acampamento paraguaio. No dia 6 de maio, a decisão de recuar estava tomada, porém Camisão atacou o acampamento paraguaio adiante para demonstrar que a ‘contramarcha’ não se dava pela superioridade inimiga. No dia 8, seria iniciado o recuo. No dia 9, retornou ao forte Bela Vista, dentro de dois dias já estava em território nacional, rumo à Machorra. No dia 11, o combate mais importante da retirada (‘à baioneta’ e contra a cavalaria).
A tropa estava agora a 20 léguas da colônia de Miranda e, mais dez, de Nioaque, onde teriam abastecimento de gado. Os cálculos apontaram marcha de 15 dias para esse objetivo, no atual ritmo. Mas o guia Lopes propôs uma mudança de rota, via fazenda Jardim, que teria ainda mantimentos (laranjas), a três dias de viagem a sudoeste de Nioaque. Nos dias 14 e 15 de maio, a marcha seguiu para a fazenda Jardim, enfrentando
sufocantes incêndios provocados pelos paraguaios. Nos dias 17, 18 e 19, deram prosseguimento à marcha e atravessaram o rio das Cruzes, já famintos, sedentos e exaustos. Conseguiriam marchar ainda entre os dias 20 e 24, porém com muitas dificuldades, adicionada por outra: a cólera chegou à coluna Camisão.
Daí até o dia 27 de maio, continuaram o percurso, bem lentamente, como se fosse uma marcha de zumbis, tamanho era o número de coléricos. O comandado decidiria pelo abandono dos coléricos para ‘salvar’ a expedição. O coronel Camisão e seu substituto, o tenente-coronel Juvêncio, foram atacados pela doença. Ainda assim, chegaram às imediações da fazenda Jardim, às margens do rio Miranda. Nos dias 28 e 29, não marchariam, diante da impossibilidade de atravessar o cheio rio. Alguns homens do exército, bons de nado, conseguiram chegar à outra margem e trouxeram abundância de frutos dos laranjais da fazenda Jardim. Morrem os comandantes e as laranjas servem de ‘cura’ para a maioria dos coléricos.
Nos dias 30 de maio e 1° e 2 de junho, atravessaram o rio, já alimentados, e marcharam vigorosamente rumo a Nioaque. Nos dias 3 e 4, seguiram marchando, transpondo o rio Canindé e ficando a duas léguas de distância de Nioaque. No dia 5, chegaram a Nioaque, incendiada pelos paraguaios, e, no dia seguinte, partiram para o porto Canuto, no rio Aquidauana, onde pousaram seguros no dia 11 de junho de 1867.