A aquisição de livros eletrônicos tem muitas características próprias, diferentes da compra de livros impressos. Além disso, a compra de livros eletrônicos para bibliotecas é diferente da compra para pessoas físicas.
2.5.1 Comércio do livro eletrônico
A comercialização de livros eletrônicos tem muitas diferenças quando comparada à comercialização de livros impressos. Primeiro porque ao comprar um livro impresso a pessoa possui o objeto, pode carregar consigo, ele é físico e palpável. Já na compra de um livro eletrônico é feito o download de um arquivo para um dispositivo, seja ele um computador, um celular, um aparelho leitor de livros eletrônicos ou qualquer outro dispositivo. Nesse caso não é possível tocar o livro. Existe a possibilidade de acessá-lo de qualquer lugar, bastando apenas abrir a página do vendedor, onde todas as suas aquisições estarão disponíveis para download.
Se o livro físico é molhado ou perdido não é possível recuperá-lo. Mas no caso do livro eletrônico, se o computador onde ele estava é danificado, perdido ou roubado, basta fazer um novo download para recuperar o livro igual ao que era antes.
Devido às características do livro eletrônico, o mercado editorial exerce controle muito maior sobre eles (REIS; ROZADOS, 2014). O livro eletrônico não pertence ao comprador, que não possui controle sobre o produto adquirido. Quando o livro é eletrônico, ele pode apenas ser acessado nos aparelhos e programas autorizados pelo vendedor. Isso ocorre devido às proteções eletrônicas conhecidas como DRM (Digital Rights Management) que vêm embutidas no arquivo que contém o livro, permitindo o controle do seu uso.
É possível quebrar essa proteção, o que pode ser considerado um crime, mas as leis sobre crimes digitais não são claras. Mas, por regra, tudo o que pode ou não ser feito com um livro eletrônico é controlado pelo vendedor. Como exemplos podemos citar o número de dispositivos que podem ter acesso ao livro, a quantidade de páginas que podem ser impressas etc.
Esse controle pode chegar a extremos, e um caso real foi quando em julho de 2009 a Amazon apagou o livro “1984” de George Orwell dos aparelhos Kindle dos usuários, pois a editora que vendeu a edição eletrônica não possuía autorização do autor para vender o livro (PROCÓPIO, 2010 apud REIS; ROZADOS, 2014). Os compradores receberam seu dinheiro de volta, mas ficaram sem o livro. Isso prova o controle do vendedor sobre o conteúdo adquirido. Os livros já estavam nos aparelhos e foram removidos sem o consentimento dos compradores.
No Brasil, os livros eletrônicos são comercializados pelo mercado editorial desde 2009 (REIS; ROZADOS, 2014). Em 2012 a Apple e o Google Play abriram suas lojas virtuais no país.
Uma das vantagens inerentes ao livro eletrônico é que ele permite a auto publicação. Assim, os autores não são mais completamente dependentes das editoras para lançar seu trabalho. Pequenos autores que não seriam muito divulgados pelas editoras podem publicar seus livros por conta própria, associados a grandes empresas ou não, e podem ter uma porcentagem de lucro muito maior por cada exemplar vendido.
Algumas empresas oferecem auxílio a esses autores na publicação e comercialização de seus livros. A empresa Simplíssimo anuncia que os autores podem publicar com eles recebendo 70% de lucro. A Amazon também oferece um serviço de auto publicação.
Outra vantagem do comércio de livros eletrônicos é a rapidez para a publicação, já que ele necessita apenas do tempo necessário para edição, pois não há impressão e o envio é imediato.
2.5.2 Desenvolvimento de coleções eletrônicas
O desenvolvimento de coleções é parte importante dos processos de uma biblioteca, pois decide e determina o que deve ou não fazer parte do seu acervo. Fazem parte do desenvolvimento de coleções a seleção, a aquisição por compra, permuta ou doação e o descarte e desbastamento de itens do acervo. A política de desenvolvimento de coleções é um documento norteador que ajuda na tomada de decisão nesse processo. É importante que esse processo seja organizado para que não haja desperdício dos recursos da biblioteca como a verba para compra. E, em caso de doação, os gastos com o processamento e armazenamento do material.
Uma questão que costuma preocupar os bibliotecários de aquisição é a decisão sobre a necessidade de duplicação do material, ou seja, se é necessário comprar a versão eletrônica e a impressa do mesmo material. Para ajudar nessa decisão, alguns pontos precisam ser avaliados. Se há período de embargo, a versão impressa é lançada antes da versão eletrônica. Quando não há embargo, o contrário pode ser verdade. É preciso analisar a urgência na utilização do material. O livro impresso só pode ser utilizado por um usuário de cada vez, enquanto o livro eletrônico, dependendo da modalidade de aquisição, pode ser lido por um número ilimitado de pessoas. Com a compra dos exemplares impressos pode ser mais fácil preservar as edições anteriores, já que elas não serão substituídas automaticamente pelas atuais como pode ocorrer com o exemplar eletrônico. Outra forma de driblar isso é se a própria biblioteca mantiver as cópias eletrônicas de todas as edições (DOUCETTE; LEWONTIN, 2012).
A aquisição “é o processo de localizar e adquirir materiais previamente identificados pelo processo de desenvolvimento de coleções” (GREGORY, 2011, p. 81, tradução nossa).
Um fator complicador para a aquisição de livros eletrônicos está no fato de que suas duas etapas, localização e compra, são difíceis. A localização é dificultada, pois os bibliotecários ainda não conhecem os vendedores. Além disso, as diferenças entre a compra a partir de agregadores, editoras e distribuidores ainda não é clara, principalmente por não ser comparável à compra de livros impressos.
O processo de compra dos livros eletrônicos envolve inúmeros fatores novos e decisões que não eram necessárias para a compra de livros impressos. Por exemplo, para comprar um livro eletrônico é necessário decidir se ele será utilizado por um usuário de cada vez ou por um número ilimitado de pessoas, e isso afeta o preço final do produto. A decisão do tempo que o usuário pode ficar com um livro que antes era parte da política de empréstimo da biblioteca agora deve ser feita no momento da aquisição, o que pode gerar confusão no processo.
Sobre o departamento de aquisições, Wilkinson e Lewis (2003 apud GREGORY, 2011, p. 81, tradução nossa) dizem que ele:
é responsável por obter o material que os usuários necessitam, no formato mais apropriado e da maneira mais eficiente. Formatos e métodos podem mudar, mas a responsabilidade e as funções de aquisição de materiais de biblioteca continuam sendo o coração do departamento de aquisições.
Assim, o setor de aquisições busca adquirir o que a política de desenvolvimento de coleções decidir que é necessário para a biblioteca. E essa aquisição deve ser feita da maneira mais vantajosa para os usuários da biblioteca, o que inclui a compra de materiais em diversos formatos.
Sobre o que deve ser comprado, a necessidade e a urgência dos usuários foi definida em poucas palavras por Daniel Melcher (1971 apud GREGORY, 2011, p. 81, tradução nossa): “eles querem o que eles querem, agora”.
Isso mostra o imediatismo da necessidade informacional, que já estava presente em 1971 (que é o mesmo ano em que surgiram os livros eletrônicos) e agora é muito maior, pois a velocidade e a facilidade com que as pessoas acessam a informação cresceram muito. E os usuários buscam ver em suas bibliotecas as mesmas tecnologias e facilidades de acesso que utilizam em seu dia-a-dia, através dos seus aparelhos eletrônicos.
Gregory (2011) afirma que os recursos de uma biblioteca podem ser divididos em três categorias:
1. Aqueles que a biblioteca possui.
2. Aqueles dos quais a biblioteca possui a licença.
3. Aqueles que são acessados eletronicamente pela biblioteca ou pelos usuários.
Os materiais que a biblioteca possui chegaram a ela por compra, troca ou foram obtidos de forma gratuita. Independente de como esses materiais chegaram, eles são de posse da biblioteca e estão sob seu controle, dentro dos limites impostos pela lei de direito autoral (GREGORY, 2011).
Os materiais licenciados ou alugados pela biblioteca estão fisicamente sob seu controle por um tempo limitado, e são obtidos por um acordo contratual com o dono do material (GREGORY, 2011).
Os materiais acessados pela biblioteca são aqueles que envolvem a compra do direito de leitura (e às vezes download ou impressão) por intermédio de um agregador (GREGORY, 2011).
A já arraigada cultura de propriedade do material influencia o processo de compra de tal maneira que às vezes a biblioteca faz acordos com termos que não são vantajosos, especialmente pelo alto custo para compra dos itens (GREGORY, 2011).
Os bibliotecários de aquisição devem ter cuidado ao considerar o impacto das restrições de licença no uso futuro das coleções (SCHAFFNER, 2001 apud GREGORY, 2011). Um exemplo disso é que na compra de um pacote a biblioteca frequentemente deve pagar por itens menos interessantes para poder ter o que ela realmente deseja (GREGORY, 2011). Também existem restrições inesperadas que são conhecidas e aplicadas apenas depois da compra, sem conhecimento prévio do comprador, e que já foram tidas como legais pela justiça (GREGORY, 2011).
Na compra de livros eletrônicos seu preço inclui taxas e direitos autorais, e o material muitas vezes não pertence à biblioteca, o que gera uma perda de controle (GREGORY, 2011). Algumas bibliotecas usam a verba do desenvolvimento de coleções para licenciar esses materiais. Outras exigem que os usuários paguem algumas ou todas as taxas. Todas essas características criam um elemento de incerteza sobre qual parte do orçamento deve ser destinada para compras e para custos com o acesso eletrônico (GREGORY, 2011).
Acesso versus posse
Alguns autores discutem a diferença entre possuir apenas o direito ao acesso em contraposição à posse do material. Tammaro e Salarelli (2008) defendem o equilíbrio entre a coleção local, adequada às necessidades de informação mais frequentes dos usuários, e a coleção remota. Reed Scott (1989 apud TAMMARO; SALARELLI, 2008) previu que a criação da coleção deixaria de ser um processo estático de aquisição de recursos para um processo dinâmico, que se preocupa em prover o acesso à informação.
As primeiras bibliotecas digitais obedeciam à regra do “conteúdo acima de tudo”, mas aos poucos o foco foi deslocado para os serviços, construindo uma infraestrutura para acesso integrado a recursos digitais distribuídos (TAMMARO; SALARELLI, 2008).
Para ilustrar melhor as diferenças entre o desenvolvimento de coleções impressas e eletrônicas o quadro 1 compara as duas modalidades:
Quadro 1 – Diferenças na compra de livros impressos e eletrônicos
IMPRESSO ELETRÔNICOS
O livro chega à biblioteca por meio de compra, doação ou permuta
O livro chega à biblioteca por compra (pago, por meio de vários modelos), o autor cede o direito de acesso para a biblioteca (teses e dissertações), a obra é de domínio público ou a obra é de acesso livre (ex.: Creative Commons)
O livro é comprado O livro pode ser comprado com acesso perpétuo, assinado por um ano ou alugado apenas para um empréstimo (completo ou por capítulos)
O livro comprado pertence fisicamente à
biblioteca O arquivo digital pode ficar na plataforma do vendedor ou na biblioteca em um HD, CD, DVD ou em um servidor próprio
O conteúdo vem no suporte físico e é de fácil acesso
O conteúdo tem suporte digital, pode ter vários formatos (epub, pdf) e necessita de um suporte adicional para acesso (computador, tablet,
smartphone ou eReader)
O processo de compra e processamento do material é lento, por isso ele demora a chegar nas mãos do leitor
Logo após a compra o livro já está disponível
A biblioteca compra edições novas e continua possuindo as antigas
As edições mais recentes podem substituir as antigas automaticamente, e a biblioteca perde acesso às edições anteriores
O livro possui um preço determinado O livro pode ser mais barato que a edição impressa ou pode custar várias vezes mais A biblioteca gera as suas próprias
estatísticas de uso através do software de