3.2 Hochschild homology of logarithmic algebras
3.2.1 A long exact sequence
Para responder ao desafio de cons- truir agroecossistemas produtivos, sus-
tentáveis e saudáveis, capazes de suprir as necessidades humanas e de recupe- rar e conservar a natureza para as ge- rações atuais e futuras, o caminho é o fortalecimento da agricultura campo- nesa, o que só é possível com o apoio da ciência da agroecologia.
É claro que muitos agroecossiste- mas manejados pela agricultura cam- ponesa estão subordinados à lógica do agronegócio, e apresentam muitos dos problemas descritos acima.1 A simpli-
ficação dos agroecossistemas gerada pela expansão do enfoque técnico- científico da Revolução Verde entre os camponeses é uma das principais causas da crise vivenciada pela agri- cultura camponesa no Brasil. Também nesses casos, a agroecologia faz parte da busca por rotas de saída da lógica do agronegócio.
No entanto, espalhados pelo país, existem agroecossistemas tradicionais construídos pela agricultura camponesa que guardam muitas semelhanças com os ecossistemas naturais dos lugares e que têm enorme potencial para avançar rapidamente nos processos de transição agroecológica. Aliás, nos últimos anos, fruto de intenso processo de mobiliza- ção social e experimentação participa- tiva, muitos e muitos agroecossistemas têm sido desenhados e manejados se- gundo os princípios da agroecologia, já dando respostas ao desafio de produzir com fartura e conservar a natureza.
Interessa, portanto, aplicar o con- ceito de agroecossistema à realidade da agricultura camponesa no Brasil. É isso o que veremos a seguir. Na defi- nição de Gliessman, “um agroecossis- tema é um local de produção agrícola compreendido como um ecossistema” (2000, p. 61). Compreender o local de produção como um sistema é uma
proposta de análise e intervenção muito diferente do enfoque técnico- científico convencional, que vê o solo como suporte físico para as plantas e enxerga os cultivos, mas não as in- terações ecológicas, muito menos as relações sociais e econômicas que se processam nos agroecossistemas.
O estabelecimento dos limites físi- cos desse “local de produção agrícola” é arbitrário. Organizações que atuam há mais de vinte anos desenvolvendo diag- nósticos participativos de agroecos- sistemas costumam trabalhar com os limites das comunidades rurais, sendo elas entendidas como um conjunto de agroecossistemas. Os limites dos agroecossistemas podem ser um esta- belecimento agrícola, um lote de assen- tamento ou uma propriedade de uma família agricultora. O estabelecimento dos limites pressupõe o entendimento da relação dos agroecossistemas com o “ambiente externo”, ou seja, os merca- dos e as instituições.
Na análise dos agroecossistemas, é preciso dar centralidade ao trabalho da família, pois é ela que desenha e mane- ja os agroecossistemas, em cooperação com outras famílias ou até mesmo re- correndo a trabalhos externos. Muitas vezes os agroecossistemas das famílias extrapolam os limites físicos de uma propriedade familiar ou de um lote de assentamento, pois há outras áreas às quais as famílias têm acesso – locais de uso comunitário, rios, lagos, açudes, áreas de mata nativa onde é praticado o agroextrativismo, pastos de uso co- mum, entre outras.
É importante perceber que o agroe- cossistema tem uma ecologia que pode ser analisada à luz dos ecossistemas na- turais do lugar; mas também engloba um conjunto de relações sociais e econômi-
cas. Diferentemente dos ecossistemas não manejados, os agroecossistemas têm a função de gerar produtos para os se- res humanos. E, para as famílias agri- cultoras, é do agroecossistema que é obtida renda monetária.
Almeida (2001) elenca certos atri- butos dos agroecossistemas que devem ser objeto de atenção quando se quer promover níveis crescentes de susten- tabilidade da agricultura camponesa por meio da aplicação dos princípios da agroecologia, atributos que a agri- cultura camponesa, em sua estratégia de reprodução econômica, sempre perseguiu:
produtividade: a capacidade do •
agroecossistema de prover o nível adequado de bens, serviços e retor- no econômico aos agricultores num período determinado de tempo; estabilidade: capacidade do sistema •
de manter um estado de equilíbrio dinâmico estável, ou seja, de manter ou aumentar, em condições normais, a produtividade do sistema ao longo do tempo;
flexibilidade (ou adaptabilidade): •
capacidade do sistema de manter ou encontrar novos níveis de equilí- brio – continuar sendo produtivo – diante de mudanças de longo prazo nas condições econômicas, biofísi- cas, sociais, técnicas etc.;
resiliência (ou capacidade de recu- •
peração): capacidade do sistema produtivo de absorver os efeitos de perturbações graves (secas, inunda- ções, quebras de colheita, elevação de custos etc.), retornando ao es- tado de equilíbrio ou mantendo o potencial produtivo;
equidade: capacidade do agroecos- •
sistema de gerir de forma justa sua força produtiva (material e imate- rial), distribuindo equilibradamente os custos e benefícios da produtivi- dade em todos os campos das rela- ções sociais em que se insere; inclui divisão social e técnica do trabalho familiar, relações de gênero e de ge- ração, relações com os processos so- ciopolíticos e serviços ambientais; autonomia: capacidade do sis- •
tema de regular e controlar suas relações com o exterior (bancos, empresas de insumos, atacadistas, agroindústria, atravessadores etc.); inclui os processos de organização social e de tomada de decisões, e a capacidade para definir interna- mente as estratégias de reprodução econômica e técnica, os objetivos, as prioridades, a identidade e os valo- res do sistema.
Agroecossistemas camponeses, de- senhados segundo os princípios da agroecologia, buscam relações de maior autonomia com o ambiente econômico externo, seja garantindo diversidade de produção para auto- consumo – e, portanto, gerando ren- da não monetária –, seja evitando ou minimizando o consumo de insumos e equipamentos industriais – tratores, equipamentos de irrigação, fertilizan- tes, sementes comerciais e agrotó- xicos –,seja buscando diversificar os mercados para os produtos agrícolas gerados nos agroecossistemas, priori- zando os mercados locais e evitando, sempre que possível, relações de su- bordinação aos mercados capitalistas. O enfoque agroecológico também propõe a construção de relações so- ciais nos agroecossistemas pautadas em
noções como cooperação, solidarieda- de e promoção da participação livre das mulheres e dos jovens, além de promo- ver o resgate e aprimoramento do pa- trimônio cultural dos agricultores.
A essência da estratégia agroeco- lógica está justamente na valorização das funções ecológicas que a biodiver- sidade (planejada e associada) cumpre na regeneração da fertilidade e na ma- nutenção da sanidade dos agroecos- sistemas para que eles se mantenham indefinidamente produtivos (Petersen, Weid e Fernandes, 2009).
Para desenhar agroecossistemas produtivos, saudáveis e sustentáveis, os ecossistemas naturais de cada local são a principal referência. A biodiversidade deve ser estimulada nos agroecossiste- mas, de tal forma que espécies nativas es- tejam presentes e cumpram não apenas funções ecológicas – conservação das águas, produção de biomassa, quebra- ventos, estabelecimento de microclimas, refúgio para a biodiversidade –, mas também funções econômicas, criando produtos para o autoconsumo das famílias e para a geração de renda monetária – alimentos, madeira, lenha, água para beber, plantas medicinais, artesanato. Plantas e animais domes- ticados cultivados ou criados no local também devem ser espécies adaptadas às condições ecológicas locais. A biodi- versidade também é promovida ao se- rem priorizadas variedades de plantas e raças animais com base genética ampla e adaptadas localmente, e pela utiliza- ção dos policutivos, diversificação de forrageiras e sistemas agroflorestais.
O uso de fertilizantes sintéticos deve ser evitado ao máximo. Para tal, é necessário adotar práticas de recu- peração e incremento da fertilidade dos agroecossistemas que atuem posi-
tivamente na ciclagem dos nutrientes, como não realizar queimadas e não dei- xar os solos descobertos, evitando-se o revolvimento excessivo; inserir plantas adubadeiras capazes de fixar nitrogênio atmosférico, e aumentar a disponibili- dade de outros nutrientes; aproveitar o esterco dos animais para cultivos e pastagens; aproveitar a biomassa pro- duzida localmente para alimentação dos animais; utilizar podas e restos de cultura para estimular a vida dos solos; e inserir árvores nos sistemas.
A segurança hídrica deve ser bus- cada de forma a aumentar a fertilida- de e a sanidade dos agroecossistemas. Devem ser adotadas práticas de con- servação das águas, como a proteção de nascentes e cursos d’água e a esto- cagem de água para os períodos mais secos do ano. A biodiversidade atua positivamente na regulação dos ciclos das águas internamente aos agroe- cossistemas, pois evita que as chuvas atinjam diretamente os solos, permite armazenar água na biomassa viva e na matéria orgânica em decomposição e, por causa das diferentes profundidades das raízes, minimiza o desvio da água para os lençóis subterrâneos.
A aplicação dos princípios da agro- ecologia ao desenho e manejo de agro- ecossistemas possibilita que se alcance maior sanidade dos cultivos e animais e maior equilíbrio entre populações de organismos espontâneos. Com isso, a necessidade de controle artificial de in- setos, fungos e outros organismos es- pontâneos que podem causar prejuízos econômicos é bastante reduzida. O uso de agrotóxicos deve ser eliminado com- pletamente. O controle de organismos espontâneos é feito através de agentes biológicos, produtos naturais feitos à base de plantas, armadilhas luminosas,
catações manuais, podas e outros mé- todos que não agridam a natureza.