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Nosso trabalho está inserido nos pressupostos da pesquisa de viés qualitativo, uma vez que nossa maior preocupação é com o processo de investigação e não com o produto resultante dela. Compõe-se, por um lado, de pesquisa bibliográfica com aprofundamento nas obras já mencionadas e a busca por bibliografia complementar, e, por outro, consiste em estudo de caso de cunho etnográfico. Dado que um de nossos objetivos específicos é analisar

alguns livros infanto-juvenis, observando em que medida texto verbal e não verbal se complementam na construção da história, valer-nos-emos de dados numéricos, cabendo dizer que nossa pesquisa também apresenta alguns aspectos quantitativos.

Ao caracterizarmos a presente investigação como uma pesquisa bibliográfica, a leitura se apresenta como a nossa principal técnica, pois é através dela que nos colocamos em contato com nosso material de estudo, podendo, portanto, identificar as informações e os dados que nele se apresentam. Nesse sentido, Salvador (1986 apud LIMA; MIOTO, 2007) sugere que, para que obtenhamos as informações e/ou dados necessários, o material investigado deve ser lido frequentemente; de acordo com o autor, tais leituras representam diferentes momentos da pesquisa e podem ser caracterizadas como:

a) Leitura de reconhecimento do material bibliográfico – consiste em uma leitura rápida que objetiva localizar e selecionar o material que pode apresentar informações e/ou dados referentes ao tema. (...)

b) Leitura exploratória – também se constitui em uma leitura rápida cujo objetivo é verificar se as informações e/ou dados selecionados interessam de fato para o estudo; (...)

c) Leitura seletiva – procura determinar o material que de fato interessa, relacionando-o diretamente aos objetivos da pesquisa. (...)

d) Leitura reflexiva ou crítica – estudo crítico do material (...)

e) Leitura interpretativa – é o momento mais complexo e tem por objetivo relacionar as idéias expressas na obra com o problema para o qual se busca resposta (...). (LIMA & MIOTO, 2007, p. 41, grifos das autoras)

As leituras anteriormente mencionadas fazem-nos lembrar das três fases do estudo de caso definidas por Nisbet e Watt (1978 apud LÜDKE; ANDRÉ, 2012, p. 21); são elas: fase

exploratória, delimitação do estudo e análise sistemática. De acordo com os autores, a fase

exploratória consiste na definição do objeto de estudo, compreendendo também o momento em que são estabelecidos os contatos iniciais para a entrada em campo; já a delimitação do

estudo refere-se à fase em que o pesquisador delimita o foco da investigação delineando os contornos do estudo, visto que não é possível explorar todos os ângulos de seu objeto; por fim, a análise sistemática, que já aparece na fase exploratória do estudo, é quando o pesquisador junta as informações obtidas e as analisa, podendo também disponibilizá-las aos informantes, para que eles manifestem suas reações sobre a relevância e a acuidade do que é relatado (cf. LÜDKE; ANDRÉ, 2012).

Segundo Merriam (1998 apud BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 89), “O estudo de caso consiste na observação detalhada de um contexto, ou indivíduo, de uma única fonte de documentos ou de um acontecimento específico”. No entanto, Lüdke e André (2012) alertam- nos para o fato de que apesar de o caso estudado ser sempre bem delimitado, uma vez que

seus contornos são cada vez mais bem definidos à medida que o estudo se desenvolve, ele pode se assemelhar a outros estudos sem deixar de ser, ao mesmo tempo, singular. Nesse sentido, os autores afirmam que o caso se destaca por se constituir numa unidade dentro de um sistema mais amplo (GOODE; HATT, 1968 apud LÜDKE; ANDRÉ, 2012, p. 17), de modo que o interesse do pesquisador incide naquilo que ele tem de único, particular.

A seleção de uma amostra do acervo analisado, por sua vez, envolveu o paradigma indiciário que, segundo Ginzburg (1989 apud SANTOS, 2012, p. 67), “tem por base a análise de dados marginais, pistas, traços ou indícios, para os quais ordinariamente não se costuma atribuir tanta importância, mas que revelam a ligação entre o todo e suas partes”. Este método é semelhante ao trabalho de um médico, cujo diagnóstico toma como base os sintomas descritos pelo paciente, ou seja, busca-se compreender/decifrar um fenômeno a partir de seus indícios. Assim sendo, selecionamos algumas obras que chamaram a nossa atenção por parecerem representativas do acervo e que, portanto, acreditamos que nos permitiriam ter uma visão geral do acervo como um todo. É válido destacar, ainda, que o paradigma indiciário não deve ser associado a uma tentativa de adivinhação, pois, conforme Ginzburg (1989 apud SANTOS, 2012) esclarece, o adivinhar se volta para o futuro e o movimento empreendido por este método é o de decifrar, o qual converge para o passado.

Já o cunho etnográfico de nossa pesquisa justifica-se, pois parte da geração dos dados deste estudo se deu a partir do acompanhamento de uma sala de aula de escola da rede pública de ensino. Originada na antropologia, a etnografia é etimologicamente caracterizada como a “escrita de uma etnia outra”, estendendo-se, assim, a tradições, crenças e culturas distantes, tanto física quanto ideologicamente, do modelo ocidental de viver em sociedade (TADDEI, 2012). Ocorre que, atualmente, o termo vem sendo incorporado a outras áreas do conhecimento, fazendo com que o “outro” que está contido em sua caracterização etimológica já não seja necessariamente o estranho, diferente, longínquo; por exemplo: no caso da etnografia em pesquisas educacionais, a investigação geralmente se desenvolve em sala de aula, ambiente bastante familiar para o pesquisador.

De acordo com André (1995, p. 28), um trabalho pode ser caracterizado como do tipo etnográfico em pesquisas educacionais “quando ele faz uso das técnicas que tradicionalmente são associadas à etnografia, ou seja, a observação participante, a entrevista intensiva e a análise de documentos”, das quais a observação participante concerne à interação do pesquisador com a situação estudada, as entrevistas visam aprofundar questões específicas, bem como esclarecer eventuais problemas observados, e os documentos ajudam a completar as informações coletadas através de outras fontes. A fim de demonstrar quando e para que

usar o estudo de caso etnográfico, a autora cita autores como Stake (1995, 1988), Kenny e Grotelueschen (1980) e Merriam (1980), cujas ideias sintetiza concluindo que:

o estudo de caso etnográfico deve ser usado: (1) quando se está interessado numa instância em particular, isto é, numa determinada instituição, numa pessoa ou num específico programa ou currículo; (2) quando se deseja conhecer profundamente essa instância particular em sua complexidade e em sua totalidade; (3) quando se estiver mais interessado naquilo que está ocorrendo e no como está ocorrendo do que nos seus resultados; (4) quando se busca descobrir novas hipóteses teóricas, novas relações, novos conceitos sobre um determinado fenômeno; e (5) quando se quer retratar o dinamismo de uma situação numa forma muito próxima do seu acontecer natural (ANDRÉ, 1995, p. 51-52)

Acreditamos que estes aspectos pontuados pela autora legitimam a caracterização metodológica de nossa pesquisa como um estudo de caso de cunho etnográfico, uma vez que debruçamo-nos sobre uma instância particular – a sala de aula de uma escola municipal do interior paulista – com atenção especial para os livros infanto-juvenis utilizados no âmbito de um programa específico – o PNAIC –, visando observar como estes materiais vêm sendo utilizados, sem a pretensão de julgar em que medida esta forma de utilização tem influenciado ou não na alfabetização das crianças.