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Outra das técnicas de coleta de dados assentou na aplicação da prova projectiva temática As Aventuras de Pata-Negra 1 (Corman, 2009) às crianças alvo de

investigação.

Os procedimentos projectivos prevêem que o psiquismo não é directa e imediatamente acessível pela análise do comportamento manifesto. Tendo em conta que os métodos projectivos consistem numa forma característica de escuta da subjectividade individual, em que a partir de uma forma subtil de brincar se alcança conhecimento relativo à subjectividade dos indivíduos (Aiello-Vaisberg, s/d), a aplicação da prova Pata Negra representa uma mais-valia para conhecer a psicologia e complexidade da personalidade das crianças alvo de investigação.

O Pata-Negra é uma técnica que tem como objectivo avaliar, a partir da abordagem psicanalítica, a dinâmica psíquica e da personalidade e os conflitos intrínsecos ao funcionamento mental infantil, em crianças com idades compreendidas entre os 4 anos e os 10 anos de idade. A prova visa explorar a organização dinâmico-estrutural da

1 A prova projectiva temática As Aventuras de Pata-Negra de Louis Corman (2009) será, a partir de

30 personalidade das crianças ao longo dos primeiros estádios de vida, graças ao estabelecimento de relações teórico-metodológicas codificadas entre conteúdos manifestos e conteúdos latentes, analisando quer os mecanismos de defesa da criança, quer as suas vertentes mais instintivas (Corman, 2009). É uma prova que utiliza como material reactivo os estímulos perceptivos, focando-se na concepção do mundo, na caracterização das imagos parentais e figuras de identificação, bem como nas principais angústias inerentes ao desenvolvimento psíquico (angústia de separação), grau das relações fraternas, rivalidade, dinâmica da agressividade versus culpabilidade, dependência versus independência, os afectos e representações sobre si mesma (narcisismo, self e identidade).

Esta prova permite que a criança seleccione, classifique e disponha, espontaneamente, a ordem precisa das suas imagens, sendo a forma como coordena a liberdade de organização de cartões que faculta relevância em termos de análise diagnóstica e prognóstica (Boekholt, 2000). A produção de narrativas que se podem articular, equilibrar ou contradizer, espelhará os enredos de conflitualização inerentes ao funcionamento psíquico de cada criança, bem como os mecanismos que propiciam ou não a sua expressão (Boekholt, 2000). A criança projectará, assim, a sua dinâmica interna, as suas defesas e os seus conflitos, sendo que cada cartão pode reacender enredos conflituais na mesma criança, de forma gradativa e conjunta (Boekholt, 2000).

Quanto ao modo de actuação face a esta técnica, encontra-se descrito no tópico “Procedimentos”.

3.3. Participantes

Os sujeitos desta pesquisa foram três crianças institucionalizadas com idades entre os 5 e os 6 anos que vivem numa instituição de acolhimento, na zona norte do país2 no qual a investigadora dinamizou, no âmbito do seu estágio curricular, sessões de leitura e exploração de contos em pequeno grupo.

31 Falando primeiramente, de um ponto de vista mais amplo, dos métodos qualitativos em Ciências Sociais e Humanas, a técnica de amostragem utilizada no nosso trabalho foi a amostragem não-probabilística. Segundo Malhotra (2001, citado por Oliveira 2011), a amostragem não-probabilística pode conceder estimativas interessantes das características da população, embora não veicule uma apreciação objectiva da exactidão dos resultados amostrais. É um tipo de amostra que confia no julgamento do investigador, sendo que este pode escolher quais são os elementos a serem incluídos na amostra.

Desta forma, a escolha da amostra foi realizada a partir do contacto com as crianças nas sessões em pequeno grupo, o que representa uma circunstância de fácil constituição da amostra. Mas para além disso, o facto de serem crianças ainda muito jovens (5 e 6 anos), é uma condição que confere ao estudo um valor diagnóstico e/ou preventivo.

3.4. Procedimentos

Tendo em conta que a investigadora conhece a instituição de acolhimento, em virtude de ser o local do seu estágio curricular, a própria, em colaboração com a sua supervisora de estágio, fizeram uma pré-selecção das crianças que poderiam ser alvo de estudo.

O nosso estudo iniciou-se após o responsável pela autorização da participação das crianças assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (cf. Anexo I). Para além disso, os procedimentos a levar a cabo no nosso estudo tiveram em consideração os direitos à liberdade, acesso ao acto de brincar e convívio social entre crianças, tal como aliás promulgados na Declaração Universal dos Direitos da Criança em 1959, pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. O nosso estudo respeitou, portanto, os direitos da criança, designadamente, o usufruto de intervenções de natureza lúdica, que mobilizam a sua subjectividade e criatividade, não sendo invasivas nem directivas, bem como a aplicação de estratégias de intervenção zelosas dos seus direitos.

32 3.4.1. Sessões de grupo com histórias infantis

Como já referido, o estudo centrou-se na técnica de observação nas sessões de leitura e exploração de contos em pequeno grupo, para além da prova já abordada no item anterior.

A técnica da observação (participante) incidiu nas sessões de leitura e exploração de contos em pequeno grupo, que se realizaram semanalmente. Estas sessões tiveram um carácter psico-educativo e socioeducativo e visaram, sobretudo, através de histórias infantis, favorecer o contacto com valores e afectos essenciais para a sua formação pessoal e humana, exteriorizar emoções e estimular a imaginação e concomitantemente interiorizar regras e limites (integração entre fantasia e realidade), promover a relação com o outro através do diálogo e partilha da experiência. Em suma, foi uma actividade socioeducativa que contribuiu para a estruturação da personalidade da criança, pela conciliação ou compromisso entre princípio do prazer e princípio da realidade.

O material de intervenção, de natureza lúdica e simbólica, consistiu em histórias infantis que potenciam múltiplos significados e sentidos e que estimulam a fantasia, a imaginação, a alegria, o deleite, a descontracção, além de promover valores sociais, como o respeito, o sentido de justiça, a empatia e a amizade, o compromisso, a igualdade, entre outros. Os contos funcionaram como um brinquedo, como um jogo propício à emoção e estímulo da imaginação. As histórias seleccionadas envolveram autores da Literatura Infantil, como os populares contos de fadas, de Charles Perrault ou dos irmãos Grimm, ou histórias infantis de autores mais recentes e contemporâneos como Maurice Sendak, Suzy Lee, José Eduardo Agualusa, Franclim Neto, António Torrado, entre outros.

Com base nestas sessões, realizaram-se registos, em forma de um diário de campo, relativos a todas as observações e intervenções ocorridas de forma sequencial por parte das crianças em cada sessão (interacções entre as criança e a observadora ao longo da narrativa de cada conto; reacções e verbalizações sobre os contos; e actividades a seguir ao conto, como por exemplo realização de desenhos ou pequenas dramatizações...).

Estes registos foram realizados no momento seguinte às sessões de leitura e exploração de contos, de forma a possibilitar uma descrição o mais fidedigna possível e

33 com o maior número de detalhes possível. Para além disso, também se perspectivou a sequência ao longo das sessões, para analisar as linhas de evolução do grupo e em particular de cada criança no contexto do grupo. Esta perspectiva permitiu perceber indicadores do comportamento de cada criança ao longo do tempo, e desse modo, quanto ao seu processo de desenvolvimento psíquico e global.

No âmbito mais abrangente das metodologias qualitativas das ciências humanas, Bogdan e Biklen (1994) referem o diário de campo como sendo a descrição por escrito do que o investigador ouve, vê, experiencia e pensa. No fundo, é uma descrição pormenorizada e pessoal sobre aquilo que se observa. Este diário de campo permitirá uma melhor percepção, análise e reflexão sobre o comportamento verbal e não-verbal das crianças.

3.4.2. Enquadramento da observação e análise de sessões de grupo com