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Participation and Indigenous Self-Government in Guatemala

4.4 Local Government, Community Law, and Local

Essas funções produtivas realizadas pela mulher não são consideradas como um trabalho. Logo, o homem desempenha o papel masculino de prover a família e, por isso é o “chefe da família”. Sua responsabilidade está no espaço público e no da produção - o rio. Por um lado, retifica-se a consideração do trabalho da mulher como um complemento ao trabalho do homem/marido, mas ao mesmo tempo, o homem/marido também “ajuda” a mulher em seu trabalho, com a condição de uma produção considerável de peixe. Assim, “limpar” e “filetar” o peixe é uma atividade realizada preferencialmente pela mulher, embora seja comum a família reunir-se para realizar coletivamente as tarefas. Esta lógica pode ser constatada nos relatos abaixo:

“Quando dá pouco são as mulheres que fazem, não é? Limpa o

peixe, prepara o filé, arruma o peixe. E quando dá bastante a gente tem que ajudar, e ajuda, não é? Chega do rio e vai ajudar a limpar o peixe". (Manoel, 61 anos, Ibiaí/MG)

“Aqui nos serviços de casa, não, não ajudam com nada, é muito

difícil. O velhinho, de vez em quando, ajuda com algumas coisinhas. Ele molha as plantas para mim, vai lá nas galinhas, põe água. Algumas coisinhas ele faz. Mas o outro não ajuda com nada. O trabalho do filé é de nós mesmas, nós que ficamos aqui o dia inteiro desde quando eles trazem o peixe [...] e aí a gente limpa e faz até o último filezinho” (Tereza, 56 anos, São Gonçalo

do Abaeté, Bairro Beira Rio).

Quando eu chego do rio, eu tomo banho e vou descansar [...] não ajudo porque têm as meninas que fazem as coisas em casa, tem a mulher que cozinha, lava, passa e limpa os peixes”.

(Amadeu, 54 anos, Pirapora-MG).

No entanto, para todas as mulheres e homens é quase impossível fugir das identidades construídas socialmente e fomentadas (criada e recriadas) sob um modelo de família ideal, onde a divisão de papeis é bem demarcada, bem como os saberes, praticas e os espaços.

Nesse trabalho encontramos algumas mulheres que extrapolaram as prescrições de esposa/mãe nas quais suas atividades deveriam ser fundamentalmente aquelas relacionadas ao lar e a família. Rosa, 43 anos e Maria das Saudades, 47 anos, são algumas dessas mulheres que, devido à falta da figura masculina, assumida como para provedora do lar, por não ter se feito presente na sua vida familiar impulsionou não só a elas como todos os outros membros (filhos e irmãos) buscarem saídas para a manutenção do espaço doméstico. Rosa e Maria das Saudades são, entre as mulheres entrevistadas, algumas das poucas que realizavam integralmente a mesma rotina de pesca que os homens em geral têm:

“Eu não tinha hora para ir para o rio. Porque pescador é assim,

não tem horas para ir para o rio! Eu ia de manhã, de tarde, à noite, de madrugada. Quando era solteira ia para casa com minha mãe, que morava em um rancho as margens do rio. Depois que casei, pescava e ia embora para casa” (Rosa, 43

“Eu pesco muito, mas não tenho material, barco, rede, não tenho

mais nada. Todo dia tenho que emprestar o material de alguém, mas mesmo assim eu tenho que ir para o rio todos os dias porque se não como vou sustentar 12 filhos sozinha não é mesmo? Hoje eu também tive que lavar a roupa dos outros para sustentar os filhos [...] não, meu marido não ajuda com nada, não dá pensão [...] eu que trabalho, vou para o rio, lavo roupa e sustento eles todos” (Maria das Saudades, 47 anos, Barra do

Guaicuí/ Várzea da Palma-MG).

Algumas mulheres pescadoras, sem deixar de lado as obrigações socialmente naturalizadas, criaram ‘canais de escape’ que lhes possibilitaram a liberdade de exercerem aquilo que gostam. De certa forma todas, sem exceção, guardam espaços de convívio único nos quais desfrutam de suas individualidades. Isso explica o gosto demonstrado pelas mulheres pelo trabalho da pesca. A atividade realizada no rio e em contato com a natureza não se repete nas mesmas condições, sendo que ela tem satisfação em realizá-la; conforme demonstram nas narrativas:

“É um trabalho que a gente peleja, tomba o barco [...] É difícil!

A gente passa muita coisa. Em casa é difícil demais e no rio também, mas a gente tem que agüentar. O meu lazer é mexer com as minhas plantinhas e ir para o rio. Eu sentei aqui para conversar com o você, mas eu não sento não, eu não paro não, mas às seis horas da tarde eu já estou deitada". (Ana, 48 anos,

Ibiaí-MG).

“Eu vou ao rio, pesco, limpo o peixe, lavo, limpo a casa e vou

vender os peixes. A gente pesca de rede, de tarrafa, de anzol, qualquer coisa e o que me mandarem fazer no rio eu faço, eu jogo tarrafa, pesco de rede, qualquer tipo de pescaria porque é uma coisa que eu gosto demais e acho que não largo mais não, vou ficar pescando até Deus levar a gente” (Chica, 44 anos,

Ibiaí-MG)

“Eu pesco e faço meu serviço doméstico, toda a minha vida eu

fiz. Minha filha me ajuda, mas sou quem lava a roupa e faz a comida. Quando eles eram pequeninos, eu não pescava tanto, ficava por conta deles. Pescava pouco. Conforme eles foram crescendo voltei a cair nesse rio! Esse rio é minha paixão, gosto demais dele! Gosto demais! [...] O rio representa tudo. Muito bom! A paisagem, eu gosto muito de pescar, eu gosto muito do rio [...] Quando está dentro do rio é bom demais, a gente fica

alegre, esquece os problemas, torna-se uma distração, ainda mais pela minha depressão [...]Agora minha irmã veio de Belo Horizonte para cá, veio de mudança. Ai a gente vai para o rio conversa, brinca, conta historias”. (Rosa, 43 anos, Beira Rio -

São Gonçalo do Abaeté).

“Eu fico em casa cuidando da obrigação: é fogão, é tanque, é

arrumando casa, é tudo. E desde menina quando eu morava com minha mãe que eu tomo conta da casa e faço tudo isso até hoje. O serviço de casa é mais cansativo porque você trabalha o dia inteiro e não rende nada, mas a pescaria você descansa a cabeça e você tira o dinheiro de lá”. (Cristiane, 52 anos,

Pirapora).

Nas fotos a seguir, observa-se o rio como espaço de lazer e convívio pessoal:

Foto 73: Pescadora profissional realizando a