5 Reliability analysis of the Hardanger Bridge
6.1 Load calibration
A compreensão nunca é captação de um estado de coisas isolado, objetivado simplesmente por meio de determinado sujeito, mas é resultado de um pertencer a uma tradição que se aprofunda, isto é, a um diálogo a partir do qual o dito recebe sentido. Compreender é participar de um sentido, numa tradição, numa conversa. Para Gadamer, em última análise, toda sentença é uma resposta a uma pergunta. Compreensão é, por isso, uma mediação entre os conceitos que constituem o universo do outro e o próprio pensamento.115
A compreensão e a linguagem, portanto, enquanto existenciais do Dasein, nunca podem ser postas como objetos do qual se apodera a consciência humana. Não há consciência sem uma compreensão prévia que a torna possível, assim como não há razão que se realize para fora da linguagem.
3.2.1.1 O círculo hermenêutico e o pré conceito como condição da compreensão
Por estar condicionada aos pré:conceitos e pré:juízos que lhe tornam possível, a compreensão implica sempre em uma projeção dos sentidos possíveis dos textos que se lhe apresentam. Formam:se, assim, expectativas de significações, pautadas pelas compreensões prévias de que é dotado o intérprete.
114 GADAMER, Hans:Georg. Verdad y Método I. Tradução: Ana Agud Aparicio y Rafael de
Agapito. 5. ed. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1993, p. 353.
115 OLIVEIRA, Manfredo Araújo de.
Reviravolta Lingüístico$Pragmática na Filosofia Contemporânea.3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006, p. 235.
E são justamente tais pré:compreensões as condições de possibilidade das novas interpretações.
Já vimos que a razão não está posta para fora da facticidade em que está lançada a presença humana. Tampouco o objeto existe como um algo:em:si a ser apreendido pela consciência do intérprete. Se o Dasein não pode superar sua própria facticidade, ele está necessariamente vinculado aos costumes e tradições que codeterminam sua experiência de mundo. Contra o mito do dado, Heidegger já demonstrou que toda ontologia é hermenêutica e que o sujeito e objeto só se revelam na presença. Por esse exato motivo é que o filósofo vai afirmar que
A interpretação de algo como algo funda:se, essencialmente, numa posição prévia, visão prévia e concepção prévia. A interpretação nunca é apreensão de um dado preliminar, isenta de pressuposições. Se a concreção da interpretação, no sentido da interpretação textual exata, se compraz em se basear nisso que “está” no texto, aquilo que, de imediato, apresenta como estando no texto nada mais é do que a opinião prévia, indiscutida e supostamente evidente do intérprete.116
A ideia da circularidade da compreensão volta a ser trabalhada por Gadamer, que restabelece o conceito originário de preconceito para nomeá:lo condição de possibilidade de toda e qualquer compreensão. Os pré:conceitos117
116HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009, p. 211:212.
117Em nosso trabalho, preferimos a expressão pré$conceito ao termo usual preconceito,
exatamente como forma de se exaltar o significado primário que lhe resgata Gadamer. Sobre a análise histórica e a conotação atual do termo, afirma o autor: “somente na Aufklärung que o conceito do preconceito recebeu o matiz negativo que agora possui. Em si mesmo, ‘preconceito’ (Vorurteil) quer dizer um juízo (Urteil) que se forma antes do exame definitivo de todos os momentos determinantes segundo a coisa em questão. No procedimento da jurisprudência um preconceito é uma pré:decisão jurídica, antes de ser baixada uma sentença definitiva. Para aquele que participa da disputa judicial, um preconceito desse tipo representa evidentemente uma redução de suas chances. Por isso, préjudice, em francês, tal como praeiudicium, significa também simplesmente prejuízo, desvantagem, dano. Não obstante, essa negatividade é apenas secundária. A consequência negativa repousa justamente na validez positiva, no valor prejudicial de uma pré:decisão, tal qual o de qualquer precedente. (GADAMER, Hans:Georg. Verdad y Método I. Tradução: Ana Agud Aparicio y Rafael de Agapito. 5. ed. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1993, p. 360).
nada mais são do que os juízos prévios que fazemos do mundo, os quais nos chegam pela linguagem enquanto tradição. Há uma visão prévia e uma concepção prévia que tornam possíveis o ter, o conceber e o ver. É por meio do entendimento prévio do que seja mundo que dizemos o mundo. Isso não significa, em absoluto, que os pré:conceitos não possam ser questionados. Mas o questionamento mesmo exige a posição prévia de um conceito.
Herdamos um entendimento tácito de mundo, o qual não é posto à prova a todo instante, pois do contrário a comunicação – e a compreensão – não se tornaria possível. Ao travarmos um diálogo ou analisarmos um enunciado, não nos perguntamos pelo significado específico de cada um dos termos empregados. Esse entendimento pré:afirmativo é o que permite a compreensão.
O sentido antecipado, na atividade interpretativa, pode resultar em que seja ele refutado, revisado ou mesmo confirmado. Daí o caráter projetivo da interpretação: “o círculo hermenêutico é a projeção interpretativa do Dasein sobre o mundo na forma de projetos individuais, das atividades e da pré: estrutura de fundo que informa os projetos e está em constante movimento com eles.”118
Assim ocorre quando lemos um texto. Segundo Gadamer,119
el que intenta comprender un texto hace siempre un proyecto. Anticipa un sentido original del conjunto una vez que aparece un primer sentido en el texto. Este primer sentido se manifiesta a su vez porque leemos ya el con ciertas expectativas sobre un determinado sentido. La comprensión del texto consiste en la elaboración del proyecto, siempre sujeto a revisión como resultado de una profundización del sentido.
118 LAWN, Chris. Compreender Gadamer. Tradução: Hélio Magri Filho. Petrópolis, RJ: Vozes,
2007, p. 81.
119 GADAMER, Hans:Georg. Verdad y Método II. Tradução: Manuel Olasagasti. Salamanca:
O intérprete, ao se deparar com um texto, prelineia o sentido do todo. E assim o faz porque o seu ato de leitura é feito a partir de perspectivas e expectativas acerca desse sentido. A elaboração desse projeto prévio é a busca da compreensão, e tal projeto está invariavelmente sujeito à contingência das opiniões prévias.120
Nessa circularidade, os pré:conceitos indispensáveis à compreensão não estão em ordem a serem previamente verificados pelo intérprete. É no processo hermenêutico que ele se pergunta pela validade dos pré:conceitos que dão fundamento à própria compreensão:
Face ao que nos diz outra pessoa ou texto, quando um
preconceito se torna questionável, não quer dizer
consequentemente que ele seja simplesmente deixado de lado e que o outro ou o diferente venha a substituí:lo imediatamente em sua validez. [\] Na verdade, o preconceito próprio só entra realmente em jogo na medida em que já está metido nele. É só na medida em que ele próprio entra em jogo que pode apreender a pretensão de verdade do outro, possibilitando que também ele entre em jogo.121
Como pondera Luiz Rohden122, o círculo hermenêutico pode ser concebido como um “enquanto instaurador de sentido”, pois o sentido não é jamais definitivo, mas um projeto, precipuamente porque “cada revisão do projeto pode desembocar em um novo projeto de sentido, onde outros projetos em questão podem contribuir conjuntamente a uma reelaboração até fixar com mais clareza a unidade do sentido”. Os pré:conceitos que se revelam
120GADAMER, Hans:Georg. Verdad y Método II. Tradução: Manuel Olasagasti. Salamanca:
Ediciones Sígueme, 1992, p. 356.
121GADAMER, Hans:Georg. Verdade e Método. Tradução de Flávio Paulo Meurer. 10. ed.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 396.
122ROHDEN, Luis. Hermenêutica Filosófica: entre a linguagem da experiência e a experiência da
inadequados, nesse processo contínuo, podem e devem ser substituídos por conceitos mais adequados.
Gadamer chama a atenção para o fato de que a tarefa hermenêutica não pode resultar no emprego arbitrário das opiniões prévias, como se o texto fosse uma tábula rasa cujo conteúdo estaria sujeito ao nosso alvitre. É imprescindível que se reconheça a alteridade do texto, pois só assim ele nos poderia dizer algo. O compreender o mundo linguisticamente determina o nosso ser e denuncia nossa finitude, de modo que a consciência do indivíduo não é critério exclusivo para medir seu ser. O homem constitui:se e experiencia:se no modo de ser da linguagem, pois esta “sempre nos ultrapassa, p. e., no sentido da palavra falada que visa, no encontro com o outro, a algo para além do dito: abre um horizonte de sentido não pré: pensável, in:determinado, que dá sempre o que pensar.”123
Assim concebido o processo hermenêutico, poderemos nos dar conta e exercer o mínimo de controle sobre nossas opiniões prévias. Não se trata, pois, de assegurar a tradição que nos chega a partir do texto, mas de clarificar os preconceitos não percebidos que, “com seu domínio, nos tornam surdos para a coisa de que nos fala a tradição.”124
Isso não quer significar que o círculo, porém, seja objetivo, e tampouco subjetivo, mas decorre do jogo no qual se dá o intercâmbio entre o movimento da tradição e o movimento do intérprete. A antecipação de sentido, pela qual se pauta nossa compreensão, não é um ato de pura subjetividade;
123 ROHDEN, Luis. Hermenêutica Filosófica: entre a linguagem da experiência e a experiência da
linguagem. São Leopoldo, RS: Unisinos, 2003, p. 226.
eis que se delineia a partir da comunhão que nos une à tradição.125 Essa relação com a tradição não é um algo estanque, inerte, mas está sempre em constante formação, porque o nosso estar:em:relação com a tradição se realiza na medida em que compreendemos. E a compreensão, enquanto como um modo de ser:no:mundo, é existencial da presença. Por isso, o próprio acontecer da tradição se estabelece a partir de nós mesmos.126