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Livslang læring og systemer/rutiner/plass i personalpolitikken

O Canal que marca a imagem do mapa do Lagamar certamente não tem seu significado restrito a um resultado da força das águas da natureza. Nas memórias daquelas águas certamente muitos significantes permanecem submersos para aqueles que de longe supõem compreender regras, vivências e aprendizados da vida às margens.

No trecho abaixo do meu diário de campo, escrito no ano de 2005 e citado na minha monografia de graduação, é possível perceber as inquietações e os lampejos de compreensão sobre as peculiaridades dessa parcela do espaço urbano

permeada de códigos próprios.

Ao ultrapassar a fronteira da rua asfaltada que leva ao maior shopping da cidade, pela qual já havia passado inúmeras vezes, me deparei com uma estreita rua onde seus moradores desempenhavam tarefas cotidianas. Os meninos que jogavam bola, a mãe que catava piolho dos cabelos da filha, a senhora que lavava roupa, o menino que tomava banho na calçada que não existia, homens que bebiam e jogavam sinuca no bar da esquina e vários jovens, talvez pouco mais novos que eu, que curtiam o ócio na calçada da Fundação Marcos de Brüin, onde eu acabava de chegar. O mau cheiro do canal causava tanto incômodo quanto ver a quantidade de lixo que se acumulava por entre os aguapés na água. Caixas, latas, garrafas, animais mortos e até mesmo móveis velhos podiam ser vistos no canal. Ao fim da rua pude avistar a ponte que atravessava o canal ligando os dois lados. Essa foi a cena que se repetiu quase todos os dias, por vários meses, com o diferencial de que, pouco tempo depois de minha chegada, algumas pessoas me cumprimentavam, já acostumadas com minha passagem no mesmo horário todos os dias.A ponte que avistei parecia, à primeira vista, somente um meio de transitar pela comunidade com mais facilidade. Ao longo do tempo percebi que a ponte tinha significações que permeavam o imaginário dos jovens do lugar. Aquela travessia construída para driblar um obstáculo natural era também um lugar de conflitos, de limites de passagem e de aventura. Ao compreender as simbologias que a ponte carregava passei a ter o receio da sua travessia. Passar de um lado para o outro poderia significar independência, não envolvimento com rixas locais; mas, ao mesmo tempo, poderia significar, na compreensão dos moradores locais, 'traição', 'caguetagem', 'pilantragem'. (...) o estranhamento com a fala, os hábitos e as regras do lugar me levavam a análise constante dos conceitos construídos pela comunidade e, principalmente, pelos jovens com os quais eu tinha mais contato. (AVELAR, 2007, pp.16-17)

No trecho acima descrevo a experiência do primeiro contato com o lugar e o acesso a significantes antes desconhecidos. A ponte antes vista como simples estratégia física para driblar uma barreira natural passa a ser reconhecida como representativa da fronteira entre jovens moradores de lados opostos do canal. No relato é fácil observar que o medo oscila de acordo com a vivência experimentada: se antes estava presente no simples fato de adentrar em lugar desconhecido, de "experiência distante” (Geertz, 2000), em outro momento se reelabora quando passo a ter a compreensão do significado da travessia da ponte para alguns jovens.

O Lagamar compreende área no entorno do Canal do Tauape com aproximadamente um quilômetro (1 Km). Nos períodos de chuva o Canal é fonte de transtornos, em razão dos alagamentos. Contam os moradores que por conta dos

frequentes alagamentos nos períodos de chuva, a localidade passou a ser chamada "alaga mar". A reprodução dessa expressão na oralidade teria levado o lugar a ser conhecido como Lagamar28. As enchentes sofridas pelos moradores da margem do

Canal eram consideradas nos primórdios da existência daquela ocupação como a grande “ironia” (DIÓGENES, 1991) vivida por aquelas famílias, grande parte delas fugidas da seca do interior do Ceará em meados do século XX.

Mas o canal também é lembrado como fonte de sustento. As lavadeiras de roupa e os pescadores moradores das margens do Canal, naquele tempo ainda Riacho, são lembrados por moradores mais velhos, assim como surgem na fala dos mais jovens que afirmam ter “ouvido falar” desse tempo. O Canal como fonte de vida e de alimento para os primeiros moradores do lugar, da década de 1930 a 195029, é retratado através de um saudosismo, por aqueles que viveram esse tempo e pelos que souberam que um dia o canal foi riacho de água limpa.

A esse saudosismo do tempo em que as dádivas da natureza eram possíveis naquele lugar, se contrasta o momento atual, em que o canal é lugar da poluição e do lixo. No canal se despeja lixo, dos mais diversos tipos, desde embalagens e garrafas, até móveis velhos e animais mortos. Em um período em que visitava o lugar diariamente cheguei a ver durante toda uma semana um cachorro morto em estágio de decomposição naquelas águas. Mas o despejo de lixo no Canal não é feito por uma maioria. As reclamações de muitos moradores giram em torno daqueles que “não se conscientizam”.

Essas reclamações se dirigem inclusive ao poder público e à Companhia de Água e Esgoto do Ceará – CAGECE, pois uma estação de tratamento de esgoto desta Companhia, situada nas proximidades do canal, quando recebe um contingente de esgoto acima da sua capacidade, despeja o “excedente” no Canal antes mesmo do tratamento. Em uma conversa com um morador do bairro durante uma caminhada nas margens do canal escutei a seguinte queixa: “isso que a CAGECE faz é absurdo, eles num tão nem aí, jogam esse esgoto no canal e o mau cheiro fica insuportável, só sabe quem mora aqui.” (Narcélio, 29 anos).

Assim como a condição insalubre propiciada pela vida às margens do Canal,

28 A razão dos constantes alagamentos registrados na história do Lagamar consiste no fato do Riacho Tauape ser interligado ao Rio Cocó, o qual sofre forte influência das marés, o que se intensifica no período de chuvas.

29 Alguns relatos sobre os primeiros moradores das margens do riacho Tauape podem ser encontrados em OLIVEIRA, 2003.

além dos riscos de enchente, inúmeras outras problemáticas atravessam a história desse lugar dividido por um riacho que se tornou passagem de esgoto. As memórias das reivindicações e “lutas” dos primeiros moradores atravessam o tempo e constituem importantes marcos de resistência pela permanência nesse espaço que com o passar das décadas passou a ser cobiçado pela sua localização privilegiada, nas proximidades da área central e das regiões elitizadas da Cidade.