meio que favorece o desenvolvimento dessa aprendizagem. A existência latente de uma gramática universal permitiria que a criança fizesse supergeneralizações, por exemplo, aplicando a mesma regra ao conjugar o verbo comer - comi - para o verbo fazer – fazi –, mas as impediria de cometer erros que não fossem aceitáveis na língua, ou seja, que não seguissem a mesma regra em situações semelhantes como, por exemplo, utilizar o en para entelefonar. O mesmo ocorreria para as línguas de sinais, mudando apenas o ambiente que desencadearia esse processo (QUADROS; FINGER, 2013; SEESP/MEC, 2006).
As crianças também seguem, segundo essa teoria, etapas semelhantes no processo de aquisição da linguagem, independentemente das comunidades linguísticas das quais fazem parte. Conforme apresenta o Quadro 3, as crianças passam por um período pré-linguístico, a dos balbucios orais e manuais, que não tem uma relação com o ambiente externo, mas apenas com estímulos internos. Quando passam a perceber o meio, a reconhecer o input externo, é que as crianças optarão inconscientemente por uma ou outra forma linguística, a oral ou a manual. A partir daí se iniciará o período linguístico, com a pronúncia de uma única palavra ou a gesticulação de um único sinal até a formulação de sentenças completas por meio da combinação de sujeitos, verbos e objetos (QUADROS; FINGER, 2013).
De acordo com o Quadro 3, quando entram no período linguístico, as crianças ouvintes iniciam com a pronúncia de uma única palavra (que pode ser um verbo, um substantivo, um elemento interrogativo, locativo ou de negação) para representar uma sentença inteira, embora continuem realizando a ação de apontamento para designar algo. Já as crianças surdas, quando entram no estágio de um sinal, param de utilizar o gesto de apontamento, pois passam a compreendê-lo como um elemento da gramática da língua de sinais, e não mais como simples gesticulação (QUADROS; FINGER, 2013).
Crianças surdas que possuem contato com a língua de sinais desde o nascimento e crianças ouvintes apresentam fases semelhantes de aquisição da linguagem. Em ambos os casos as crianças balbuciam em suas línguas nativas e aprendem as primeiras palavras ou sinais por volta de 1 ano, começam a combiná-las(os) por volta dos 2 anos, e expandem seu vocabulário produzindo frases complexas entre os 2,5 a 3 anos de idade. Já as crianças surdas que não possuem contato desde cedo com a língua de sinais podem adquirir a linguagem tardiamente, pois esse processo não ocorre de forma natural, com o input adequado, tendo que recorrer à técnicas de fonoterapias e aparelhos auditivos para aprender a língua oral (LORANDI; CRUZ; SCHERER, 2011).
Quadro 3 – Estágios de aquisição da linguagem em ouvintes e surdos segundo a teoria gerativista
Ouvintes Surdos
Aproximadamente 0 a 14 meses de idade
Balbucio oral e manual produzidos por estímulos internos.
Balbucio oral e manual produzidos por estímulos internos.
Aproximadamente acima de 10 meses de idade
Reconhecimento do input externo. Balbucio sem estrutura de palavras, mas com melodia semelhante à língua materna. Encerram os balbucios manuais.
Reconhecimento do input externo. Encerram os balbucios orais.
Estágio de uma palavra ou um sinal
Aproximadamente 1-2 anos de idade
Produção de uma única palavra (verbo, substantivo, elementos interrogativos, locativos ou de negação) para representar uma sentença inteira.
Continua a ação gestual de apontar para algo.
Ação gestual de apontar para algo desaparece e inicia a fase linguística de reconhecer esta ação como um elemento gramatical.
Estágio de duas palavras ou dois sinais
Aproximadamente acima de 2 anos de idade
Reconhecimento da organização gramatical das palavras de acordo com a estrutura da língua oral utilizada.
Uso de pronomes sem inversão (utilização da 3a pessoa referindo a si mesmo). Combinação de sinais frequentemente reconhecida na seguinte ordem: Sujeito + Verbo, Verbo + Objeto. Mais tarde: Sujeito + Verbo + Objeto.
Uso de pronomes sem inversão (ação de apontar para outra pessoa referindo-se a si mesmo). Estágio das múltiplas
combinações
Aprox. 2 anos:
compreensão de um grupo maior de palavras (frases, orações) e elos conectivos. Aprox. 2,5 a 3 anos: “explosão do vocabulário”. Aprox. 4 anos: produção da voz passiva. A criança consegue explicar o que o adulto não entendeu. Período crítico ou sensível
Aprox. 2,5 a 3 anos: “explosão do vocabulário”, distinção derivacional (exemplo: cadeira e sentar), uso de pronomes apenas para pessoas e objetos presentes. Aprox. 3 a 3,5 anos: concordância verbal com referentes presentes e flexões generalizadas de verbos, semelhante às observadas na língua oral.
Aproximadamente 2 anos de idade à puberdade Crianças privadas da aquisição da primeira ou da segunda língua no período crítico de aquisição da linguagem apresentam dificuldades, sobretudo, com a sintaxe (em nível de estrutura).
Crianças surdas, filhas de pais ouvintes, podem apresentar dificuldades de construção linguística quando expostas tardiamente à língua de sinais. Também apresentam dificuldade em aprender a segunda língua após o período crítico.
Fonte: Adaptado de Quadros e Finger (2013).
Embora não haja evidências de que não se possa aprender uma língua em qualquer momento da vida, os estudos geratistas acreditam que existe um período crítico ou sensível em que o ser humano esteja propício a aprendê-la. Essa etapa se iniciaria por volta dos 2 anos de idade e se encerraria na puberdade, momento em que ficaria mais difícil aprender tanto a primeira, quanto a segunda língua (QUADROS; FINGER, 2013). O problema é que a maior parte dos surdos (cerca de 90%) é filho de pais ouvintes. Além disso, os pais, na maioria dos casos, não são proficientes na língua de sinais (AL-OSAIMI; ALFEDAGUI; ALSUMAIT, 2009; LORANDI; CRUZ; SCHERER, 2011). Como o meio oral, evidentemente, não é natural ao surdo, mesmo que haja uma predisposição para aprender uma língua, sem o input auditivo, a língua oral não se desenvolve por completo, ainda que se utilize de tratamento com fonoaudiólogos e dispositivos auditivos, deixando esta lacuna linguística aos surdos até o seu primeiro contato com a língua de sinais. Essa lacuna, consequentemente, afeta tanto o seu desempenho social quanto escolar, e gera um impacto negativo no seu desenvolvimento psicológico.