A língua de sinais pode ser considerada uma língua natural porque tem suas origens na espontaneidade da interação entre os surdos, assim como a língua oral que nasceu da interação entre os ouvintes. Ela é capaz de expressar qualquer conceito, sendo ele descritivo, concreto, emocional ou abstrato (AMORIM, 2012; QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2009). Apesar de alguns sinais serem de natureza motivada ou icônica, por manterem uma certa similaridade com os objetos que representam, a maioria é de natureza arbitrária, não mantendo qualquer relação com o seu significado. Assim como as palavras, os sinais também são convencionalizados e, por isso, podem ser atribuídos a conceitos abstratos (QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2009; PIVETTA et al., 2013).
Muitas pessoas acreditam que a língua de sinais é uma derivação da comunicação espontânea de gestos dos ouvintes, e por isso, seria mais fácil de aprender. No entanto, se a língua de sinais fosse limitada aos gestos, ela não daria conta de comunicar questões abstratas, nem de entrar no nível de detalhamento necessário para explicar determinados assuntos. Ao contrário, a língua de sinais é tão complexa quanto a língua oral e também necessita de anos de dedicação para ser aprendida (QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2009). Além disso, se não fosse arbitrária não apresentaria diferença entre a língua de sinais de um país e outro.
Embora as línguas de sinais sejam convencionalizadas assim como as orais, elas guardam entre si poucas semelhanças. Enquanto a língua oral é marcada pela linearidade, uma vez que cada fonema é percebido em uma sequência, a língua de sinais é reproduzida simultaneamente, pois é possível articular paralelamente o movimento e a posição das mãos, as expressões faciais, o movimento da cabeça e a postura do corpo. No entanto, apesar de não representar-se em sequência, a língua de sinais não é um todo indivisível, capaz de ser desmembrada e estudada em relação à fonologia, à morfologia e à sintaxe. O primeiro pesquisador a analisar a estrutura da língua de sinais foi Stokoe, em 1960. (AMORIM, 2012; BRITO, 2012; QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2009).
Em relação à fonologia, percebeu-se que os sinais são compostos de unidades mínimas ou parâmetros, tais como: a configuração de mãos (CM), a locação (L) (ou pontos de articulação) e o movimento (M) (Figura 11). Na Libras, a configuração das mãos pode ser realizada com a mão dominante (a direita, para destros, ou a esquerda, para canhotos) ou com as duas mãos. Pode ainda permanecer a mesma configuração
durante o movimento do sinal, ou pode modificar-se. As locações são os espaços corporais onde o sinal é realizado, podendo ser na região do tronco, dos braços, do rosto, do espaço neutro e da frente. Já o movimento pode envolver muitas formas e direções, como movimentos internos da mão, movimento do pulso e movimentos de direção espacial (QUADROS; KARNOPP, 2004; QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2009; ROSA, 2008).
Figura 11 – Unidades mínimas ou parâmetros: configuração de mãos (CM), locação (L) e movimento (M)
Fonte: Quadros e Karnopp, 2004.
Quanto à morfologia, que é o estudo da estrutura interna das palavras, as línguas de sinais (LS) guardam grande similaridade entre si. A concordância verbal (verbos com concordância) para pessoa e número do sujeito e o sistema de construção de classificadores são os aspectos centrais relacionados à morfologia (QUADROS; PIZZIO; REZENDE, 2009). A morfologia é utilizada também para “descrever características como gênero, grau, indicação de tempo, negação e a datilologia nas LS. A datilologia é utilizada na pronúncia de nomes ou quando não existe o sinal correspondente na LS, onde a palavra é soletrada utilizando sinais manuais que remetem ao alfabeto da língua oral” (BRITO, 2012, p. 64).
Por último, a sintaxe é responsável pelas inter-relações entre os elementos da frase, pela combinação de sentenças, pelo estudo dos verbos e dos pronomes pessoais realizados em sinais (BRITO, 2012). Na Libras, a ordem e a relação entre as palavras e os termos da oração normalmente são estruturadas segundo a ordem: Sujeito, Verbo, Objeto (SVO). No entanto,
o estudo das relações estruturais e combinação de sentenças ainda não foi finalizado e não está completo (ROSA, 2008).
Como se pode perceber, a língua de sinais é uma língua que apresenta uma estrutura gramatical tão complexa como qualquer outra. Embora não tenha a tradição do registro escrito, a língua de sinais pode ser representada iconograficamente, preservando suas características visuoespaciais (BRITO, 2012), uma vez que existe uma lógica interna capaz de organizá-la em sentenças e frases. Assim como a língua oral é capaz de representar suas unidades sonoras por meio da escrita, a língua de sinais também possui uma escrita capaz de representar suas unidades gestuais, que é a escrita de sinais.
3.4.1 A escrita de sinais
Existem diferentes tipos de notações da escrita de sinais, tais como: Stokoe, François Neve, HamNoSys, D’Sign de Paul Jouison, ELiS e o SignWriting. A Stokoe foi criada com objetivos mais científicos e não para a comunicação dos surdos em geral. É marcada pela linearidade e pelos elementos do alfabeto latino. Dela se originou a François Neve, que além de ser mais completa, também difere pela verticalidade da escrita em colunas, no sentido de cima para baixo. A HamNoSys também se originou baseada na escrita Stokoe, herdando a linearidade e os objetivos científicos, e evoluiu na tentativa de ser incorporada à informática, porém a representação de expressões não-manuais é limitada. A D’Sign de Paul Jouis é um sistema muito elaborado, que visa ser uma escrita autêntica, mas seu criador faleceu antes que o método pudesse ser inteiramente explicado. A ELiS, por sua vez, é uma notação de escrita linear, que registra, horizontalmente, da esquerda para a direita, e nesta ordem: a configuração da mão, a orientação da palma, o ponto de articulação e o movimento (que contém as expressões não-manuais). A acumulação desses parâmetros dá a simultaneidade presente no sinal. Esse sistema, no entanto, foi criado recentemente por uma pesquisadora brasileira, Mariângela Estelita, e por isso ainda não se popularizou. Por fim, o SignWritting, é uma estrutura não-linear, que também utiliza a configuração da mão, o movimento, o ponto de articulação, a orientação da mão, além das expressões não manuais (BRITO, 2012; ESTELITA, 2010; LAPOLLI, 2014; STUMPF, 2005). Um exemplo de cada uma dessas notações pode ser visto na Figura 12.
Das notações existentes, uma das mais utilizadas no Brasil é a SignWritting. Essa escrita foi criada em 1974, por Valerie Sutton, por conta da necessidade de registrar os movimentos de dança. O sistema possui cerca de 900 símbolos, mas nem todos são indispensáveis para a compreensão de uma sentença em língua de sinais e servem apenas para conferir mais precisão aos símbolos gestuais. O SignWritting passou por uma refomulação entre 1986 a 1996, que alterou a escrita da forma receptiva (quem vê o sinalizador) para a forma expressiva (quem sinaliza). Outra alteração importante foi a substituição da disposição linear de representação das características do sinal para a forma de empilhamento, passando a organizar os elementos dentro de um triângulo ideal ou pilha (STUMPF, 2005).
A composição do sinal em SignWritting se dá por meio de quatro sílabas: 1) configuração de mãos; 2) movimento; 3) posição/configuração final das mãoes; 4) localização, expressões faciais, da cabeça e do corpo. Cada sílaba contém símbolos que correspondem a movimentos ocorridos simultaneamente. A sequência de soletragem não é linear da esquerda para a direita, mas sim de acordo com a ordem das sílabas. A escrita pode ser uma figura completa do corpo humano (utilizada com aprendizes) (Figura 13a), um misto de figura mais símbolos, que formam uma unidade visual (padrão) (Figura 13b) ou simplificada, que é uma escrita sem alguns símbolos, a fim de facilitar a escrita à mão (Figura 13c) (BRITO, 2012; SUTTON, 2008).
Figura 12 – Exemplos de escritas de sinais
Exemplo da escrita Stokoe
(Asas de águia)
(Open newspaper)
Exemplo da escrita HamNoSys
Exemplo da escrita D’Sign de Paul Jouison
Exemplo da escrita ELiS
(Hino nacional)
Exemplo da escrita SignWritting
Figura 13 – Maneiras de escrever em SignWrittign
(a) (b) (c)
Fonte: Sutton (2008)
No Brasil, as primeiras pesquisas com o sistema SignWritting iniciaram em 1996. De 1996 a 2006, um projeto de pesquisa intitulado SignNet elaborou um editor informatizado para a escrita SingWritting, batizado de SW-Edit10. Em 2001, com o lançamento do Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira, o SignWritting ganhou ainda mais força. Mais tarde vieram outras publicações como o Novo Deit-Libras: Novo Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira, e também a criação do curso de Graduação em Letras/Licenciatura com habilitação em Língua Brasileira de Sinais na UFSC, em 2006, que incluiu em seu currículo a escrita em SignWritting (LAPOLLI, 2014).
O sistema SignWritting representa uma forma de fortalecer a cultura surda, registrar a sua história e literatura e, além disso, um modo de inserir o surdo na sociedade, sem deixá-lo à margem da produção intelectual desenvolvida e registrada apenas na escrita da língua oral. No entanto, embora haja uma tendência na padronização do SignWritting, ele ainda não se popularizou entre os surdos, necessitando que o seu uso seja concomitante com vídeos em língua de sinais.