2.3 Prediction of clinical outcomes
3.2.2 Little’s test for MCAR
À pergunta: quem fala?, responderemos ora pelo indivíduo, ora pela pessoa, ora pelo fundo que dissolve tanto um como outra. “O eu do poeta lírico eleva a voz do fundo do abismo do ser, sua subjetividade é pura
imaginação” (Nietzsche, Nascimento da tragédia, §5). Mas repercute ainda uma última resposta: aquela que recusa tanto o fundo primitivo indiferenciado como as formas do indivíduo e da pessoa e que recusa tanto sua contradição como sua complementaridade. Não, as singularidades não são aprisionadas em indivíduos e pessoas; e muito menos caímos em um fundo indiferenciado, profundidade sem fundo, quando desfazemos o indivíduo e a pessoa. O que é impessoal e pré-individual são as singularidades, livres e nômades. O que é mais profundo do que todo o fundo é a superfície, a pele. Aqui, se forma um novo tipo de
linguagem esotérica, que é para si mesma seu próprio modelo e sua realidade. O tornar-se louco muda de figura quando sobe à superfície, sobre a linha reta do Aion, eternidade; do mesmo modo, o “mim” dissolvido, o Eu fendido, a identidade perdida, quando param de se afundar para liberar, ao contrário, as singularidades de superfície. O não-senso e o sentido acabam com sua relação de
oposição dinâmica, para entrar na co-presença de uma gênese estática, como não-senso da superfície e sentido que desliza sobre ela. O trágico e a ironia dão lugar a um novo valor, o humor. Pois se a ironia é a coextensividade do ser com o indivíduo, ou do Eu com a representação, o humor é a do senso e do não-senso; o humor é a arte das superfícies e das dobras, das singularidades nômades e do ponto aleatório sempre deslocado, a arte da gênese
estática, o saber-fazer do acontecimento puro ou ‘a quarta pessoa do singular’ — suspendendo-se toda significação, designação e manifestação, abolindo-se toda profundidade e altura.”
Gilles Deleuze in Lógica do Sentido, pp.143, 1988.
O homem é o único animal que ri. Também é o único “bicho” ridículo. FREUD destruiu 160 chistes para nos provar que seus meios expressivos são os mesmos que o dos sonhos. E que sua essência está na forma, ou seja, é o modo de dizer que provoca o riso. Assim, classificou os chistes em inocentes ou tendenciosos, sendo que, depois de traduzidos, podiam denotar frases inócuas ou insultos ou obscenida- des. Os inocentes têm um fim em si mesmos e não são os mais engraçados. Rimos para valer na hora do “insulto e da bandalheira”, pois há a liberação de impulsos agressivos e/ou eróticos.
Todo chiste demanda um esforço, uma energia, de compreensão que sobra e, quando ocorre, economiza-se esta energia. Essa poupança repentina, segundo FREUD, extravasa a energia contida ou reprimida no território somático, descarre- gando-se no riso por obra de mecanismos fisiológicos e ontogeneticamente pré- formados. Esse processo ocorre mesmo quando rimos imediatamente e a compre- ensão escapa aos níveis mais imediatos da consciência pela condensação e rapidez com que se dá.
Essa energia tem origem em inibições. Os impulsos agressivos e eróticos são básicos para nossa sobrevivência e são fontes poderosas de energia; mas a civiliza- ção foi criando condicionamentos e restrições (que se opõem à livre manifestação destes impulsos, sem esquecer as atividades e fantasias ligadas a eles), e FREUD supôs, ao constatar que são tremendamente fortes, que para que as inibições fos- sem mantidas, nosso organismo também dispenderia uma energia de contracarga, a qual sobra quando a inibição é levantada.
FREUD, ainda preocupado com a psicogênese do riso, disse que os chistes ou fatos engraçados escondem um reencontro com situações passadas, onde há uma transposição inconsciente que se revela apenas em termos emocionais. Com esta constatação, parece indiscutível a importância da memória no riso.
Em BERGSON(20), “a vida se apresenta numa certa evolução no tempo e uma
certa complexidade no espaço. No tempo, a vida evolui sem cessar para o envelhe- cimento, sem repetição. No espaço, a vida descobre-se em elementos coexistentes tão solidários entre si, tão feitos uns para os outros, que é impossível que perten- çam, ao mesmo tempo, a dois organismos diferentes”. Se na vida não há repeti- ções ou elementos intercambiáveis, quando irrompe a repetição e o intercâmbio, não há mais vida e sim uma colagem, um mecanismo: é a “trucagem mecânica”, que se manifesta no sujeito da ação através do riso.
Mas FREUD ainda vai adiante e diferencia o chiste, o cômico e o humor. No chiste o riso se dá por meio dum jogo de palavras ou idéias; no cômico, por meio de fatos ou objetos lúdicos, alegres, envolvendo a percepção de algum contraste. No humor a coisa é diferente, pois acontece quando a própria vítima se dá conta do lado engraçado de sua tragédia, diminuindo-lhe a importância. No chiste e no cômico, o riso acontece se não houver ansiedade, tristezas ou dores — no humor, ao contrá- rio, pois quando as emoções dolorosas estão prestes a se manifestar, estas são impedidas. “O homem bem humorado caminha sobre suas próprias dores”, pou- pando os atores da piedade e da autopiedade. Assim, segundo M. GROTJAHN, o humorista tem a estrutura psíquica do masoquista — daquele que se diverte às custas dos outros, o sádico. Isso em teoria, pois na realidade tudo acontece junto e ao mesmo tempo.
E FREUD, ainda não satisfeito com suas explicações a respeito do humor, em 1928 volta ao tema, achando que a poupança emocional não explicava totalmente a sua grandeza; pois este, o humor, não é resignado. É uma alegria triunfante, a vitória do princípio do prazer. Assim, o nosso ego, que sempre procura o prazer, é o segun- do agente; dando as costas à realidade, ele nos satisfaz nas delícias do narcisismo, sentindo-se forte e invulnerável. M. GORTJAHN diz que o humor é livre mas não necessariamente feliz, pois ao triunfar sobre as misérias do mundo, o que ele ganha em termos de tolerância, bondade e segurança íntima, se perde na realidade onde deveria adaptar-se.
E como disse o Barão de Itararé: “Não gosto do eu. Eu é sinônimo de egoísmo. O maior exemplo de egoísmo nos é dado pelos ingleses: as únicas palavras que escrevem com maiúscula são I e God”.
Ai poderia parecer que o humorista é um sujeito insensível e distante da realida- de, mas o que se revela é o contrário disso. Nosso ego clama por atenção todo o tempo e projetamos isso nas desgraças alheias com um comportamento pontuado e moldado pela convenção social, expressando um sentimento artificial, não natural, afetado. O poeta Mário Quintana, que jamais poderia ser chamado de insensível, escreveu certa vez o seguinte: “Qual a essência do cômico? Um homem de perna de pau nos deixa indiferentes, polidamente indiferentes. Mas três homens de perna de pau andando juntos na rua… Não, isso é demais! Por que estás rindo?”, aprovei- tando a citação de SSÓ (vide bibliografia).
Se chamamos o cego de “ceguinho” ou o acidentado de “coitadinho” é para atender à esta demanda do ego que quer ser tratado com seriedade, com essa deferência que, no fundo, é uma (auto)piedade degenerada e desonesta: onde en- contramos este “sentimentalismo” — que é um sentimento falso — não podere- mos levá-lo com demasiada seriedade: rimos dos outros para não rir de nós mesmo, na nossa própria condição. Então, se o humorista é aquele que denuncia este com- portamento falso, desumano e enganoso (o sentimentalismo), se é aquele que cor- ta o barbante da máscara mostrando o sentimento real que está por trás daquilo, e nos mostra o cômico no trágico, e nos revela a sua autopiedade para nos poupar da piedade, como poderia tal percepção do real ser insensível e alienante? Não o é. O humorista tem a coragem de fazer esta revelação da realidade por mais pudicos e polidos que sejam os envolvidos, e, por pior que seja a situação. Ou seja, isto denota coragem, perspicácia e sensibilidade.
Também são comuns os lamentos a respeito do riso não ser ético, podendo ser cruel, repressivo, preconceituoso, etc, e atender a qualquer senhor. Mas esquece- mos que a vida não é ética: como todas as coisas humanas, que grassam pela dubiedade e pela parcialidade, onde não há razão absoluta para ninguém… Estes que reclamam, o fazem através de seus egos ofendidos que querem a verdade só para si, que não se conformam com a imperfeição e a impermanência da realidade, e nem se dão conta de seu brutal preconceito.
E mais, aqueles que consideram o humor uma arte menor não têm noção do rigor necessário para se fazer uma piada, a qual, às vezes, depende de uma só palavra, no lugar exato e com naturalidade, para extrair a risada do receptor da mensagem! Por- tanto, não alinhemos a seriedade à falta do riso, não tem nada a ver. Os que criticam, com certeza o fazem por temor de que seu próprio ridículo seja revelado.
* * *
Parece que o humor, por sua natureza intrinsecamente libertária e anarquista, floresce magnificamente quanto publicado sob censura e repressão. A burla e a farsa são fatores de incentivo para o humorista — e a repressão também. Longe de classificá-lo como masoquista, poderíamos dizer que ele se sente atiçado pelo que é proibido, velado ou escondido.
Analogamente, o novo sempre surge negando o velho. O velho sempre tem por algoz a novidade. Poderíamos dizer que o humor favorece o novo na medida em que lhe é simpático, pois tem essa característica de ser descomprometido com a totali- dade, “com o sentimento mais amplo e profundo” — tudo em favor do riso. E por isso mesmo, não poderá ser levado à sério em relação ao novo: o humor sempre será parcial e superficial para este mandato engajado, embora lhe seja muito útil em suas aparições efêmeras e pontuais. Ou seja, é mais um meio; nunca um fim.
Também é de se pensar que o humor, enquanto linguagem, não é capaz de criar o novo. Referimo-nos aqui ao novo em termos perceptivos, é claro, pois neste pla- no, o desconhecido é imperceptível, irreconhecível, não identificável. Todas as lin- guagens são, formalmente, uma organização de signos sob determinada convenção social, por isso compreensível e acessível a todos membros da sociedade em ques- tão. No humor muito mais, pois, além do consenso convencionado, este depende fortemente da memória e da referência. Ou seja, o “novo engajado” traz a estranhe- za e não tem objetivos humorísticos, a não ser quando ataca e diminui o velho, o estabelecido.
Entretanto, as formas do humor e de se fazer humor são revolucionadas pelas mudanças e pela evolução das mentalidades através do tempo, dentro do discurso específico e instituído de cada segmento social, dominante ou dominado.
O que é tido como novo na plano da linguagem é muitas vezes uma reorganiza- ção deste conjunto de signos e/ou de propostas de alterações da convenção social estabelecida. O humor tem trânsito livre e descompromissado nesta seara, poden- do trazer o novo na forma de brincadeira, chacota ou paródia; funcionando como instrumento de crítica e autocrítica, mas nunca como o veículo principal das mudan- ças — podendo, entretanto, ser o seu laboratório. Enquanto a arte destrói o discurso corrente para introduzir o novo discurso engajado, no humor reafirma-se a mentali- dade social daquele momento histórico ao destruir, parodiar e/ou criticar o próprio discurso corrente ou mesmo da novidade — dominante ou dominado — naquele momento histórico específico.
Com isso poderíamos supor que o humor é uma linguagem rasa — um instru- mento, uma figura de linguagem sem profundidade —, não fosse outro componen- te fundamental para seu engajamento, como veremos abaixo em relação ao nosso tema.
A “era Barão” é contemporânea à introdução da comunicação de massa, do rádio e da televisão; o que ampliou e muito a influência do jornalismo sobre a opinião pública, e também a responsabilidade de seus profissionais.
Não é que não exista humor raso e entorpecedor, alienante: existe aos montes. Na concepção de Aporelly, este “humor entorpecente” também é um parasita da consciência: para ele, o verdadeiro humor tem um componente imprescindível, que é a verdade, a elucidação do ridículo que já se é, que já está.
Para o Barão, que não se considerava humorista mas um “faz-tudo”, todos somos humoristas. E, nesse sentido, o humor pode até ser trágico em suas revela- ções do óbvio.
Ao pensar as criações humorísticas em todas as mídias (escrito, desenhado, no teatro, no cinema, na mímica, combinando texto e imagem no suporte gráfico, na música, etc), percebemos que a organização dos signos nas diversas linguagens, quando se trata de humor, estão sujeitas à um discurso sempre permeado por mui- tos acidentes, figuras de linguagem e outros artifícios que quebram o hábito e o ritmo “normal” (convencionado socialmente) daquele discurso. A novidade é mais um destes artifícios do humor para cumprir seu objetivo básico: arrancar a gargalha- da do “freguês”. Mais uma vez, ela é meio, e não fim.
Resumindo, inferimos que não é possível falar seriamente de humor no Brasil se não temos esta referência, o que torna o Barão um autor fundamental para o estudo do humor brasileiro, para a imprensa (conteúdo e plástica) e para algumas explica- ções da cultura brasileira no século XX.
Ao tomarmos contato com este tesouro inestimável que é a obra de Aparício Torelly, percebemos a profundidade deste trabalho: antes do clima “ingratidão é apenas falta de memória” dos anos 80, agora pregamos outra frase do hilário fidal- go-de-araque: “ Triste não é mudar de idéia. Triste é não ter idéias para mudar”.
E como diria o Zé Simão (Folha), “quem fica parado é poste”. E o Barão — não é que ele está em movimento ou no movimento — ele é o próprio movimento! E vamos em frente que atrás vem gente…
* * *
Aporelly foi o nosso maior humorista e provavelmente o mais original. Seu traba- lho fluia naturalmente a partir de sua enorme criatividade, sem nunca ir contra suas convicções. Este equilíbrio e esta coerência através do tempo revelaram uma visão de mundo e da vida profundamente otimistas, e que, além de preservá-lo das op- ções maniqueistas (como disse Houaiss), ainda o livrou da veia fácil do cinismo.
Investiu contra tudo que classificava como “ignorância” e esclarecia que, como os provérbios, o humor fala apenas “metades” da verdade. Assim, criticou os hu- moristas como tendo uma influência “muito levemente benéfica e bastante entor- pecente” sobre o povo (ou opinião pública).
Para ele, todos os seres humanos são humoristas, mas ele mesmo não gostaria de ser um “humorista entorpecente”. Segundo sua definição, o papel do humorista é mostrar a verdade e procurava seguir este princípio o mais fielmente possível: “O humorista é um conhecedor da natureza (humana)(…) Um humorista sério chega a ser trágico. É um dialeta (…) E como utilizam esta arma? Destacando as contradi- ções dos adversários e reduzindo-os a nada” (In entrevista para a Revista Manchete, Rio, 18/09/1965).
Dentro de suas concepções, de certa forma, promovia aqueles a quem admira- va, que eram seus “ídolos”: Bernard Shaw, Mark Twain, Johnathan Swift, Lima Barreto. Em comum, todos foram importantes críticos da sociedade de seu tempo e tiveram alguma forma de participação política.
O Barão sempre evitou a acomodação e os apelos que o dinheiro poderia lhe trazer se submetesse sua criatividade a objetivos mais comerciais, mas manteve-se fiel às suas convicções pessoais até o fim da vida, deixando também como herança longas fichas nos arquivos policiais.
Mas não perdia o amigo, nem a piada — por maior que fosse a miséria pela qual estava passando, a bondade e a sabedoria estariam acima de tudo no trato com o semelhante, deixando bem claro que, a despeito de qualquer posição política, o ser humano era o núcleo das suas preocupações.
Por sua própria personalidade, a obra de Aporelly permanece dispersa e espalha- da pela imprensa ao longo de 50 anos da vida brasileira. Seus trabalhos faziam pre- cipuamente referência a fatos e personagens do momento, por ser ele um humoris- ta e também autor de imprensa — searas de criações conjunturais e efêmeras. Mas, ele mesmo nunca quis organizar suas memórias ou antologias.
Amante da vida, nunca um outro humorista confundiu tão completamente a sua obra com a sua vida pessoal, desde que a excêntrica figura do Barão de Itararé, ao dobrar uma esquina, encontrou o cidadão Aparício Torelly: os dois se fundiam numa só pessoa, numa só vida; livre, criativa e brincalhona. Uma de suas máximas apenas o confirma: “o que se leva desta vida é a vida que a gente leva”.
O essencial neste humorista notável é que ele tem condições de sobreviver à sua época. Sem esquecer da natureza libertária do humorismo, este recebeu a pre- ciosa colaboração da criatividade, do talento e da cultura de Aporelly para desabro- char plenamente num criador engajado e antecipador de fórmulas. Ademais, o hu- mor do Barão sempre se mobilizou para, de modo conseqüente, combater a auto- mistificação da ideologia dominante. E esse momento decisivo de emancipação, processo pelo qual estamos passando e participando, é permeado o tempo todo pela memória, pela história.
Como disse KONDER (op.cit.), “se relegamos o Barão ao esquecimento, esta- mos subtraindo o valor do tempo por ele vivido — estamos subtraindo do futuro o que houve no passado. Abdicar de nossa memória é abdicar do próprio aprendizado, é entregar o pescoço a quem quer nos enforcar. E, lembrando o Barão em suas aventuras pela crítica musical… ‘a forca é o pior dos instrumentos de corda’”.
Em 1945, A Manha incendeia o último ato de Getúlio ao anunciar em manchete
“Há qualquer coisa no ar além dos aviões de carreira”. Mesmo com toda fama e respeito adquiridos, Aporelly não deu paz aos políticos conservadores e integralis- tas; e também a seus algozes no Estado Novo: A Manha ressurgia ali como o retra-
to fiel dos ridículos da brasilidade… E isso era estendido aos mais variados assun- tos, sem “exclusivismo temático”. Sempre contornado por molduras diversas, o Barão nunca deixou de ser um humorista visceralmente político, sendo considerado pelos de seu tempo como um escritor espetacular.
Em 1946, a popularidade do Barão é impressionante e seus chistes correm de boca em boca, espalhando gargalhadas pelo país inteiro. Esses comentários eram repetidos e circulavam; influindo na consciência das pessoas, “alertando para aquilo que havia de falso na vida política brasileira”. Algumas de suas frases foram incorpo- radas ao repertório coloquial do brasileiro e atualmente povoam o automatismo da fala sem sua referência autoral. Não por esquecimento, mas pelas próprias caracte- rísticas de suas criações (como vimos acima), e também pela ausência de uma história que ainda precisa ser descoberta, escrita, estudada e divulgada.
O PCB aproveitou-se desta fama e lançou o Barão para vereador em janeiro de 1947. Eleito, foi um vereador operoso e honesto, sempre lutando pelas camadas mais desfavorecidas da sociedade. Sempre fiel aos seus ideais, trucidou os adver- sários e ainda fez, com muito talento, a autocrítica do asceticismo exigido pela mili- tância do PCB. Tudo com muito humor. Com a cassação do Partidão e do mandato de seus representantes no verão de 1948, termina assim, emocionado, seu discur- so de despedida da vereança: “…deixo a vida pública para entrar na privada”.
O suicídio de Getúlio em 1954 comove a nação — e as classes dominantes controlam a crise, assegurando a transição. Com enfado face a eclética e domesti- cada cena política nacional, o Barão declara: “Este mundo é redondo mas está fican- do chato”!
Aparentemente, estas brincadeiras do Barão, jogos de palavras ou velhos pro- vérbios não passavam de “piruetas lúdicas” sem maiores conseqüências. Porém, ao submeter fórmulas consagradas a deformações que nos surpreendem, Aporelly recria um clima de liberdade anterior à cristalização da linguagem, provocando um questionamento de hábitos, dos aspectos convencionais da nossa expressão. E isso não era restrito às suas frases: a parceria com Guevara fez dos trabalhos do Barão verdadeiros ensaios de artes plásticas e gráfica, preparando e desenvolvendo os estilos e técnicas adequados à nova linguagem requerida pelos novos meios de comunicação de massa e pela nova imprensa “telegráfica”.
Uma das funções mais importantes do humorismo talvez seja a capacidade que este tem de questionar o inaltêntico na própria linguagem. Ao contrário da poesia, o humorismo recusa a cumplicidade, renuncia ao esforço de compreensão do homem como um todo e pode lidar com aspectos isolados de seu caráter, tratando-os com escandalosa desenvoltura. E são a estas torções a que o Barão submetia os temas, os provérbios, sua “piruetas lúdicas” com expressões consagradas, as brincadeiras lingüísticas e afins: um pequeno terremoto que sacode a poeira do nosso pensa- mento articulado, e disponibiliza na nossa consciência a apreensão despreconceitu- osa do que surge de novo na realidade.