Ilíada, um dos poemas épicos atribuídos a Homero, assim como a Odisseia, narra uma parte da Guerra de Troia, com especial destaque para os feitos heroicos de Aquiles. Ao escolher esse nome para utilizá-lo como pseudônimo dessa participante tive em mente o percurso heroico travado pela jovem de 18 anos, distante de sua cidade natal e disposta a enfrentar os desafios que lhe abririam as portas para a fase adulta, englobando a escolha profissional e o amadurecimento nas relações com novos grupos de amigos. A busca por um nome ligado ao contexto mitológico foi despertada logo na primeira configuração que produziu, quando Ilíada identifica os elementos mapa (Asa) e o redemoinho (Asb) e os associa à figura de Ulisses, o herói que, segundo ela, se lança diante dos desafios, corre perigos, mas não é surpreendido porque se utiliza de seu senso criativo, ou seja, busca estar preparado.
Ilíada chega para o primeiro encontro: percebo-a disposta, porém desconfiada. Essa impressão se confirma ao final dos encontros, quando diz que a princípio desconfiava que uma técnica de pintura poderia ter efeito terapêutico. De tipo mignon, extravasa força em sua maneira de ser. Mesclando sensibilidade, inteligência, timbre de voz moderadamente grave e certa qualidade masculina que pode ser observada na intensidade de suas ações, Ilíada se apresenta. Esse conjunto de características me faz sentir entusiasmado com o processo que se inicia, não somente porque é o primeiro participante da pesquisa, mas principalmente porque sinto que seu processo será intenso e revelador – a impressão que tenho é de que Ilíada é uma potência criativa que está prestes a se revelar.
Minha atenção é despertada pela nomeação do elemento redemoinho (Asb), que é a última forma que produz na primeira configuração (As). A execução desse elemento espiralado culmina com a frustração de Ilíada ao perceber que seus planos de controlar as formas não se aplicam. Intrigado com a localização desse elemento (canto inferior esquerdo), começo a pensar para onde ela vai, já que tocou, de modo involuntário, a região comumente relacionada ao campo do inconsciente. Curiosamente, na configuração seguinte (Bs) aparece no mesmo lugar uma flor (Bsa) que acaba por se desmanchar. Esse fato contribuiu para corroborar minha impressão inicial de que o seu modo intenso de ser toca de modo quase que imediato a instância inconsciente. Desse mesmo ponto nasce o caracol (Csa), que já ocupa quase toda a dimensão da composição e, por fim, o surgimento da ossada de um suposto dinossauro (Esa) disposta na região central, ou seja, de tanto investir acaba por revelar elementos arqueológicos da psique.
No segundo encontro Ilíada traz várias imagens de sonhos e outras associações. Fico admirado com a produção imagética intensa que se processa a partir do primeiro encontro. Se a princípio ficou mais contida, até porque estava conhecendo o processo, neste segundo se mostra ávida a contar o que experienciou. Recebo-a e me ponho a ouvi-la atenciosamente, buscando relacionar essas novas imagens com elementos do processo do dia anterior. Permiti que ela se expressasse livremente, fazendo pontuações, vez por outra, no intuito de ampliar as associações que Ilíada faz. Em nenhum momento intervi no sentido de frear seu processo, pois me parecia claro que, embora intenso, seria capaz de sustentar os desdobramentos dos seus achados. Eu estaria ali, atento, vivenciando cada gesto,
elemento e associação que se configurava e pronto para dar-lhe suporte caso percebesse algum movimento mais brusco. Em relação às imagens dos sonhos, fiquei especialmente impactado com o que se processou dentro da igreja, protagonizado pelas personagens da mulher com a corrente na mão, o homem no sobretudo preto, a cobra e o elefantinho. O fato de o elefantinho morder a cobra e sugar-lhe a força me pareceu condizente com o desejo de Ilíada de conectar-se com seu aspecto masculino, de força. E tão intrigante quanto foi o aparecimento do herói mitológico Thor dentro do contexto bíblico.
Outro elemento que me chamou a atenção é a relação com a água. Ilíada traz imagens desse elemento a partir de memórias e sonhos, inclusive da experiência de afogamento quando criança. Em especial quando identificou um elemento boiando e quando, ao retirar o excesso de água surge a baleia (Efc); sinto como se estivesse fazendo um processo de depuração. Nessa altura já estamos no terceiro encontro e, aliando esse fato ao aparecimento do osso (Esa) na configuração da superfície, gera-se uma grande tensão. Nesse momento identifico contratransferência de minha parte. Mesmo após a produção, Ilíada se queixa de que precisa extravasar mais. A princípio me surpreendi pela voracidade demonstrada por ela em querer se expressar mais e, ao mesmo tempo, fiquei preocupado em não quebrar o protocolo da pesquisa. Em meus pensamentos se instalaram as seguintes questões: a) seria interessante dispor de mais uma bacia branca para que Ilíada pudesse se expressar? Essa questão gerou um apontamento: a bacia que se utiliza é retangular e por isso pensei que, para a sistematização da técnica, poderia prover bacias de vários tamanhos que seriam utilizadas em conformidade com a intensidade de expressão que venha a perceber em cada pessoa; b) não seria prudente averiguar se ela está em condições de elaborar suas próprias demandas? Optei por essa postura ao perceber que ao final do encontro Ilíada poderia dar vazão aos seus anseios de forma criativa, como fazer uma caminhada, como ela mesma havia sugerido. Assim se processou e no encontro seguinte sentia-se visivelmente mais relaxada – praticou caminhada por intermitentes três horas.
Ilíada chega para o quarto e último encontro bem relaxada. Curiosamente não se lembrou de nenhum sonho, o que parece refletir que sua intensa movimentação psíquica encontrou um canal de escoamento – o esporte. Como diz: “Esses dois
últimos dias eu fiquei bem agitada […] explosiva e agora tranquilizou [...], bastante”. O fato de depositar o gesso praticamente de uma só vez no centro da bacia durante a preparação da última configuração despertou em mim a sensação de que realmente a opção por deixá-la encontrar a seu modo uma maneira de dar vazão a suas tensões foi acertada. O depósito do gesso na região central representou o assentamento, a organização que abriria espaço para o conjunto de elementos ziguezagueantes que compuseram essa configuração (Fs).
Sempre que se dispensa a água para dar lugar à configuração que fica submersa há um misto de expectativa e surpresa. De todas, a Configuração Ff foi sem dúvida a mais paradigmática. Inundada por uma imensidão de vermelho, laranja e amarelo, ambos, Ilíada e eu, ficamos atônitos quando essa configuração se revelou. A explosão de cores assentadas sobre a placa de gesso que teve origem a partir da proliferação de cores e zigue-zagues na superfície (Fs) me pareceu a constatação de um processo de libertação, de fluência das sensações, dos sentimentos que Ilíada vinha tentando controlar. Ao final do encontro, quando perguntei a ela que nome daria para a técnica, ela a nomeia como “dissolução de imagem”. Interessante ela aplicar esse nome para a técnica porque na verdade reflete seu próprio processo de dissolver o antigo para dar lugar ao novo. De fato, são os desafios que estão à frente, como na jornada de Ulisses: ele não sabe o que o aguarda, mas é preciso estar preparado.
Tempos depois entrei em contato com Ilíada com o intuito de enviar a transcrição e os registros fotográficos das configurações. Perguntei se estava tudo bem e ela disse que havia trancado o curso na faculdade. Curioso para saber se havia alguma relação com o processo pelo qual passou, ela confirmou que sim. Informou que o processo a fez refletir sobre o quanto tinha mudado em relação ao fato de ter de se sustentar longe da família e que talvez o curso não correspondesse exatamente às suas expectativas profissionais. Senti certo regozijo ao perceber que de algum modo propiciei a ela uma oportunidade de se conhecer melhor.
Se a aventura é o viver a vida em sua intensidade, o mapa que lhe serviu como primeiro momento de onde partiram suas indagações passa a ser reconstruído mediante ações criativas – sua jornada continua entre questionamentos, desafios,
encontros, plenitudes. Assim como o mito não morre, a jornada de Ilíada está apenas começando.