Ao se trabalhar com a técnica expressiva “Paisagem psíquica”, um conceito a ser elucidado é o da projeção. Para tal, se fará uma referência ao Teste de Rorschach, que é considerado um teste projetivo. O interesse de se discorrer sobre esse teste se assenta em dois motivos: 1) a aproximação do desenvolvimento desse teste com a psicologia analítica e, 2) o recurso utilizado para sensibilização são os cartões com as manchas cujas configurações são abstratas.
Jung ([1921] 2011b) credita a Freud o achado de considerar a projeção como um fato deslocado e localizado no exterior, ou seja, relaciona-se ao fato de o sujeito expulsar de si e localizar no outro algo que desconhece ou recusa em si próprio, como sentimento, desejos. Pontua também que a pessoa passa a censurar no outro aquilo que não reconhece em si e, assim, pode se relacionar com o objeto externo (Jung, [1918] 2011g). Neste último caso, as pinturas e o impacto que causam na pessoa que a produziu podem cumprir esse papel.
Von Franz (1993) refere que ambos relacionaram a projeção com as experiências da infância, mas que Jung tomou um rumo diferente na compreensão do fenômeno. Para a autora, o foco de Jung estava na relação com o objeto exterior, ou seja, com a projeção inconsciente de um conteúdo psíquico sobre um determinado objeto que possui alguma característica da propriedade projetada. A projeção pode ser descrita em termos daquele que a envia e daquele que a recebe: o primeiro corre o risco de “perder a alma” (p. 262), ao passo que o segundo pode sentir-se possuído pela projeção. É salutar que as projeções sejam retiradas no intuito de se dar um passo no processo de conscientização e progresso nas relações humanas.
Em Tipos psicológicos, Jung ([1921] 2011b) faz uma aproximação do fenômeno da projeção tomando como referência o estudo sobre os termos empatia e abstração de Worringer (1997). A partir desses termos, faz referência às atitudes da
consciência: extroversão e introversão, respectivamente. Para Jung ([1921] 2011b) tanto a função da empatia quanto da abstração levam à criação de formas artísticas bem como propiciam o conhecimento do objeto. No entanto, esse objeto para o abstrativo tem grande poder e por isso o aterroriza, enquanto que o empatizante funde-se com ele. Na visão de Thackrey (1999), essa aproximação é de caráter negativo, pois Jung alia o estado psicológico do artista e seus conflitos interno e externo como uma forma de escapismo.
Em um segundo momento Jung ([1921] 2011b) aproxima a função da abstração com a de participação mística e a empatizante com a identificação mística. A mudança de ponto de vista ocorre ao se dar conta de que a projeção é algo que acontece, não existindo a priori, como parece ser o entendimento de Worringer (1997) sobre empatia e abstração: “os conteúdos inconscientes são idênticos ao objeto e fazem com que este pareça sem vida e sem alma, por isso a empatia é necessária ao conhecimento da essência do objeto” (Jung, [1921] 2011b, p. 565). Von Franz (1993) refere que a identificação arcaica, como o próprio termo sugere, está relacionada com a condição original de indiferenciação entre os mundos interno e externo, sujeito e objeto. Pode-se considerar então que por essa razão Jung tenha aproximado o empatizante da identificação mística.
No texto “A psicologia da transferência”, Jung ([1946] 2011q) destaca a equivalência, em alemão, dos termos projeção (Projektion) e transferência (Übertragung), além do caráter espontâneo e terapêutico da transferência. Procura, nesse texto, explicar o fenômeno da transferência analogamente à imagem do matrimônio alquímico e suas várias etapas. Entende que a projeção pode agir em direção ao objeto (elemento exterior), na medida em que a pessoa não tem discernimento em relação à sua sombra, entorpecendo a consciência.
Na obra Mysterium Coniunctionis, Jung ([1955-56] 2011m, par. 107) retoma o tema da projeção, agora estabelecendo uma relação entre a imaginação ativa e a alquimia: “as projeções dos alquimistas não são outra coisa senão conteúdos inconscientes a aparecer na matéria”. Nesses termos, há uma conexão entre os conteúdos internos e a projeção nas imagens externas criadas por meio dos recursos que o alquimista dispõe (elementos naturais). Em relação à presente pesquisa, são os recursos expressivos que viabilizam a materialização das imagens
interiores. Em ambos os casos, a forma que o inconsciente adquire, e por isso pode ser confrontado, exerce um efeito na consciência. Em outro momento, Jung ([1944] 2011j) postula que a função da projeção inconsciente sobre a matéria em busca do tesouro a ser alcançado, interpenetrando-se consciente e inconsciente, condiz com o processo de individuação.
A aproximação do Teste de Rorschach e suas manchas abstratas com a psicologia analítica pode ser descrita por estudos como o de Kopler et al. (1954), por tratar-se de uma das primeiras tentativas de criar uma ponte com a psicologia analítica; o de Brawer e Spiegelman (1964), que procura verificar se é possível correlacionar a tipologia de Rorschach com a de Jung, e especialmente o de McCully (1976, 1987), que discorre sobre uma visão arquetípica na interpretação das manchas de tinta. Independentemente de Rorschach ter sido ou não influenciado por Jung, uma vez que foram contemporâneos, McCully (1987) refere que ambos tinham os mesmos interesses em descobrir a natureza humana por meio do material subjetivo. Já Jung declara que não o conhecia pessoalmente, embora tivesse conhecimento do teste e sabia de sua eficácia quando o intuito é saber como o inconsciente funciona (McGuire e Hull, 1977).
As manchas que compõem os cartões de Rorschach são configurações abstratas desenvolvidas contemporaneamente ao movimento da arte abstrata na Europa do início do século XX. Pires (1986) pontua que além do interesse de Rorschach pelo teste de associação destacava-se sua habilidade pelo desenho e conhecimento dos estudos do final do século XIX sobre as pinturas dos doentes mentais. Esses cartões (em número de 10), que fazem parte de um procedimento psicodiagnóstico, foram publicados pela primeira vez em 1921, mesmo ano da publicação de Tipos psicológicos. Cada um desses cartões possui manchas de tinta e eram apresentados para pacientes e pessoas comuns e, a partir dos dados coletados, Rorschach definiu um procedimento psicológico com enfoque objetivo tendo como parâmetros a amostragem, codificação e delineamento de inferências individuais (Weiner, 2000). Uma revisão completa desse estudo tem destacado pontos controversos desse procedimento, mas principalmente de sua validade (Meyer e Viglione, 2008).
Além desse foco objetivo, com o tempo a perspectiva psicanalítica estabeleceu um olhar mais subjetivo despertado por essas manchas, ressaltando o papel da fantasia ao fornecer “informações importantes e relevantes do ponto de vista pessoal, independentemente de qualquer aspecto objetivo do estímulo” (Weiner, 2000, p. 17), considerando-se por isso o papel da projeção e da ambiguidade como participantes desse processo. Sobre a projeção, Weiner (2000, p. 19) acrescenta que esta pode variar “dependendo da riqueza da área da fantasia do sujeito e de sua tendência a revelar seus conteúdos com facilidade”, na medida em que se mesclam aspectos objetivos e subjetivos. Em relação à ambiguidade, o autor destaca a relação entre estrutura e ambiguidade, na medida em que quanto mais “claro for o campo do estímulo, menor oportunidade haverá para que os observadores o percebam de modo idiossincrático, e menor a probabilidade de que favoreça a formação de impressões baseadas na projeção” (Weiner, 2000, p. 20), ou seja, as manchas de tinta propiciam certa estrutura – e é nesse ponto que McCully vai se assentar para referi-las a imagens de fundo arquetípico.
McCully (1987, p. 18) se interessa pelas manchas de tinta de Rorschach, pois por meio delas é possível estudar o psiquismo, ou seja, sugere “que as manchas de tinta são capazes de ativar os centros psíquicos porque a estrutura das manchas talvez não seja diferente da natureza da estrutura do próprio psiquismo”. Postula que a experiência que esse teste provoca no sujeito se aproxima da do homem de tempos antigos e, por isso, remete que algumas configurações oriundas das manchas de tinta são familiares a imagens paleolíticas. Del Río (2009) postula que essas imagens alimentam o símbolo e conectam o homem com suas origens.
A experiência proporcionada pelas manchas de tinta do Rorschach ativa o que McCully (1976, p. 68) chama de “ato criativo” e ressalta a relação entre as forças coletivas no homem e a função criativa postulada por Jung ([1921] 2011b; [1931] 2011p). Nesse ato criativo há a ativação das parcelas individual e coletiva e, diante de uma mancha de tinta que não tenha uma aparência usual (configuração abstrata), entram em ação as origens criativas do sujeito alimentadas pela instância coletiva. Para McCully (1987, p. 21), o poder arquetípico é “a fonte original da criatividade” e está de acordo com a perspectiva da psicologia analítica em relação à arte, levando- se em consideração fatores individuais e coletivos, como pontua Méndez (2010). Em outros termos, como as manchas não trazem a objetividade das figuras e sim
abstrações, é acionada na pessoa o “ato criativo” que funciona como um modo de co-criação no sentido de dar-lhes significados.
Arnheim (1997b), ao considerar a ambiguidade das manchas, conforme já havia pontuado Weiner (2000), leva em consideração que estas também devem ser tratadas como entidades perceptuais compostas de elementos como forma, tamanho, proporção, cor, entre outros, por serem capazes de despertar projeções. Assim, o estudo das projeções deve ser alinhavado ao das configurações plásticas.
Embora McCully (1987, p. 22) considere que “as manchas do Rorschach estimulam a formação de símbolos e propiciam uma forma de registrá-los”, não entra no mérito da abstração em si. Seu interesse está na verificação da possível conexão entre uma forma espontânea – a mancha de tinta – e o impacto que ela causa na pessoa que a contempla, além da possibilidade que seu método traz de compreender as culturas remotas (McCully, 1976). A relação com a abstração se estabelece primordialmente pela conexão entre a arte do homem de tempos primitivos e a expansão da arte abstrata, ou seja, suas ideias estão sintonizadas com os eventos marcantes ocorridos entre final do século XIX e início do XX.
Esses apontamentos são pertinentes ao estudo da técnica expressiva “Paisagem psíquica” na medida em que a pessoa faz associações diante das configurações plásticas produzidas, podendo-se observar o fenômeno da projeção, uma vez que a abstração também sugere a instauração de novas realidades – como pontuado por Jaffé (1995) e Vicens (1979) – como possibilidade de construção a partir do que se vê nas configurações.
Como a técnica expressiva envolve um processo de pintura, é pertinente mostrar a relação de Jung com esse tipo de expressão e de sua apreensão enquanto símbolo, do contato que estabeleceu com imagens pintadas e que remontam à sua infância, com as de seus pacientes e as que produziu na fase adulta.