A razão deste contributo na pesquisa foi o conhecimento e registro do início da inclusão digital na esfera tecnológica em Portugal com as pessoas com deficiência visual e para isso, contamos com a colaboração de António Manuel Silva, 52 anos, licenciado em Ciência da Informação, assistente técnico no Gabinete de Apoio ao
28 http://www.cidadeacessivel.com
29Como descreve o artigo em http://atarde.uol.com.br/cidadaoreporter/materias/1561086-a-tarde-
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Estudante com Necessidades Educativas Especiais da Universidade do Porto – SAED. Silva ficou cego desde 1991 e trabalha desde 1997 no apoio à estudantes com deficiência30.
Inicialmente este serviço de apoio funcionava apenas na Faculdade de Letras e era destinado a estudantes com deficiência da visão e nesse período o SAED, dava seus primeiros passos com a iniciativa de um grupo de estudantes e da atual coordenadora Dra Alice Ribeiro, onde criou-se o gabinete de apoio, com uma sala equipada (financiado pela Fundação Gulbenkian) com o que tinha de atual em material informático para uso das pessoas com deficiência visual.
Entretanto, com o surgimento de estudantes com outras deficiências na Universidade do Porto - UP, os apoios estenderam-se a outras faculdades e com o aparecimento de estudantes com mobilidade reduzida foi uma consequência na melhoria da acessibilidade física dos edifícios da UP, alguns construídos de novo e outros remodelados. Atualmente é crescente o número de estudantes com deficiências físicas e sensoriais, embora o número de estudantes com deficiência visual tenha vindo a decrescer ano após ano segundo as estatísticas da UP e segundo o assistente técnico desse departamento, tem-se constatado que só um número muito reduzido de estudantes que terminam o 12º ano e entram no ensino superior.
O Gabinete de apoio ao Estudante com Necessidades Educativas Especiais da Universidade do Porto - GAENEE-UP (anteriormente SAED-UP) tem vindo a adaptar- se aos desafios que surgem com as necessidades de apoio a estudantes com características tão diferentes: dislexia, deficiência auditiva, visual, motora, e do foro psicológico. Estes novos desafios passam por desenvolver mecanismos de apoio tutorial e de terceira pessoa, intérpretes de língua gestual, produção em formatos e suportes alternativos, bem como a adaptação de tecnologias de apoio alternativas, para estudantes com mobilidade muito reduzida.
Atualmente, o GAENEE-UP, embora esteja sediado na Faculdade de Letras, por razões históricas e de proximidade com vários recursos acadêmicos, pertence à estrutura da Reitoria e a Universidade do Porto não se concentra apenas em um único espaço físico, mas espalha-se pela cidade do Porto em várias faculdades, num
30 Conforme entrevista realizada a António Silva, durante o mês de outubro de 2015, nas instalações
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conjunto de três polos universitários. Como consequência desta dispersão física, existe um representante do GAENEE em cada unidade orgânica.
António Manuel Silva tem estado no estabelecimento praticamente desde o início tendo acompanhado a evolução do serviço, quer na sua dimensão física, quer na evolução tecnológica. Ressalta, que no início ainda se trabalhava em MS-Dos, com o Hal, um software de leitura de tela (ecrã) fabricado pela Dolphine, processadores de texto e um OCR (software de reconhecimento ótico de caracteres), tudo em MS-Dos desde o início de 1997. Considera-se responsável pela evolução tecnológica do serviço, isto a benesse de uma curiosidade por tudo que é novo, principalmente quando o assunto é tecnologia
Entretanto foram evoluindo, acompanhando os lançamentos e tecnologias mais recentes e vieram os terminais braille, o Windows, os leitores de tela para este sistema operativo, entre outros. Também foram os primeiros utilizadores em Portugal do leitor de tela, Jaws, que se tornaria referência junto a formação dos estudantes/utilizadores, porque naquela época os computadores eram poucos e muito caros. Nas escolas não se ensinava informática, de forma que os estudantes cegos, quando chegavam ao ensino superior, muitas vezes, nem conheciam um teclado de computador e muitos deles queriam levar a tradicional máquina de escrever braille, Perkins, para as aulas. Segundo António Silva (2015), esta vertente do serviço de apoio foi muito gratificante como servidor da instituição e para os estudantes e utilizadores externos que aprenderam os rudimentos da informática e aponta com bastante orgulho as pessoas que passaram pela sua cadeira “atualmente os estudantes já chegam ao ensino superior com bases satisfatórias em informática. Resta, assim, a formação em programas muito específicos ou resolução de problemas e dúvidas pontuais”.
Com a alteração do paradigma pelo qual se regeu este serviço de apoio, principalmente na parte tecnológica, António Manuel Silva teve de fazer mais coisas e, por consequência, aprender mais coisas, participando também no projeto “BAES” (Biblioteca Aberta do Ensino Superior), “Projeto Daisy”, produção de conteúdos acessíveis, “PLACES” (Plataforma de acessibilidade para produção de documentos acessíveis), criação e gestão do site do “GTAEDES” (Gabinete de Trabalho para o Apoio do Estudante com Deficiência no Ensino Superior) entre outros.
Referem-se outras atividades fora do serviço de apoio, mas que, resultando da curiosidade e gosto pela aprendizagem, tiveram importância determinante na
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disseminação do conhecimento entre as pessoas com deficiência visual. Da curiosidade pela Internet, um novo e fantástico meio de comunicação que estava em expansão, resultou o primeiro web site em língua portuguesa dedicado à deficiência visual.
Em 1999 nasceu, fruto da colaboração de uma outra pessoa cega, Daniel Serra, o portal “lerparaver” (www.lerparaver.com) que rapidamente se tornou em uma referência para quem tem deficiência da visão ou quer saber mais a respeito dela. Ainda hoje é o maior site em língua portuguesa dedicado a este assunto, quer em número de utilizadores registrados, quer em número de page views. Em 2007 foi considerado um serviço de utilidade pública e recebeu um financiamento do “POSC” (Programa Operacional Sociedade do Conhecimento), para a sua restruturação.
O portal foi uma referência para vários outros projetos web que vieram depois, com destaque para o Brasil. O “Lerparaver” tinha um detalhe importante: era acessível e surgiu ainda na época onde os leitores de tela, e os browsers, estavam em uma fase pouco mais que embrionária e em que o conteúdo web acessível era escasso, sendo o portal feito por cegos e para cegos e muitos dos conceitos de acessibilidade usados no início estavam errados, mas era a percepção deles (cegos) de como deveria ser um site acessível.
Note-se que foi, segundo nosso entrevistado, na mesma época que o W3C (World Wide Web Consortium) começou a manifestar preocupações com os standards web e as guide lines para o desenho de sites acessíveis. Portanto, e mais uma vez, esse polo foi pioneiro mesmo não tendo referências mas seguindo o caminho da acessibilidade.
Durante muitos anos o “Lerparaver” foi a página de entrada de muitos utilizadores cegos, quer em Portugal quer no Brasil. Era a sua fonte de informação, formação e distração, numa altura em que muito pouco conteúdo web era acessível e em que a experiência de navegação com leitores de tela era pouco eficiente.
A acessibilidade web começou a melhorar com o surgimento do software “Jaws for Windows”, mais concretamente a sua versão 3.7, em 2002 e com a lenta aplicação dos standards do W3C.
Outra das caraterísticas interessantes do portal é (ainda hoje) a sua interação com os utilizadores, pois, sempre se assumiu como colaborativo. Os utilizadores contribuem com os mais diversos tipos de conteúdo para o enriquecimento do site. O
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portal entrou na sua fase de decadência quando a web se democratizou e quando surgiram novas plataformas de acesso com melhoria nas acessibilidades dos sites e com a evolução dos browsers e leitores de tela para um estado muito avançado.
Atualmente é muito mais simples aceder aos conteúdos online sem ter de passar pelo “filtro” do “Lerparaver”. Com o slogan “Uma janela para o mundo”, o posicionamento ideal ocorrerá quando os visitantes abrirem esta janela e passarem a olhar definitivamente para o mundo, diversificando os seus interesses.
Apesar de todos os avanços, hoje em dia, os cegos ainda têm bastante dificuldade em usar muitos dos recursos da web, segundo António Silva, como licitar um objeto num site de leilões, fazer uma compra online, pagar com cartão, aceder ao home banking, reservar uma viagem ou um restaurante, consultar preços, e outras ações são tarefas das quais este grupo de usuários passa. Não é por falta de recursos, pois atualmente a aquisição de um computador é perfeitamente acessível e existem leitores de tela gratuitos, o problema central não está na capacidade de aquisição mas na formação para o uso do sistema.
Neste cenário real, o smartphone foi uma boa notícia, sendo um objeto de interesse e inclusão social, facilitando o acesso a diversas funcionalidades e serviços presentes na plataforma web que se integram agora em aplicações desenvolvidas para os dispositivos móveis, tornando-se mais simples e acessíveis.
Aproveitando o surgimento do E-mail como meio de comunicação e das recentes listas de discussão, António Silva criou, em 1998, a “Querersaber”, a primeira lista dedicada ao uso da informática por pessoas com deficiência visual em Portugal. Com mais de 600 membros e um significativo fluxo de mensagens, tornando-se um marco importante na formação dos seus utilizadores, numa área inexplorada e sem grandes referências. Observar o percurso de António Silva leva a indagar sobre a proveniência da sua formação que lhe permitiu percorrer este caminho por uma área nova de atuação. Todavia, no inicio dos anos 90 a formação, cursos, licenciaturas ou documentação na área eram praticamente inexistente. A procura constante de responder a como, o quê e porquê foi a alavanca do seu pioneirismo que se estendeu muito para além da sua entrada no serviço de apoio.
Ainda hoje não se pode dizer que exista uma formação devidamente estruturada e de qualidade, de forma a criar e preparar os futuros formadores,
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portanto, o autodidatismo, a curiosidade e a persistência têm sido a chave para as consecuções de António Silva.
Em alguns projetos extra da Universidade do Porto, contou também com a colaboração de outro autodidata, Daniel Serra, que na época era estudante de Gestão, na Faculdade de Economia, e era utilizador do gabinete que existia na Faculdade de Letras. Para António Manuel Silva, o verbo “partilha” é muito importante: a vida é uma eterna partilha que nos faz sentir felizes por repartirmos com os outros o que aprendemos, o que sabemos e o que descobrimos. Não perdemos nada com isso, não ficamos mais pobres, pelo contrário, damos e recebemos.