Extrema e diretamente vinculada ao ator local, a identidade é uma expressão que liga o homem a seu território e dá a este o sentido que revelara Santos (1996), do espaço cujo conteúdo é formado por objetos e pela ação do indivíduo.
O espaço local deixa de ser apenas paisagem para conter teor político, o ambiente de expressão dos acordos e conflitos que marcam a vida em sociedade. Nele, estão presentes os vestígios do passado, a história dos homens, seus trabalhos e suas crenças, de onde se extrai a memória coletiva que dá sentido à relação entre o passado, o presente e o projeto de futuro, sendo, jamais, um espaço neutro. Arregimenta-se a suposição de que a volta ao passado pela memória permite o local reconhecer-se em uma história, a sua história (AROCENA, 2002).
Como variável de análise, a identidade local destaca-se no estudo do desenvolvimento local por ajudar a formar uma referência do processo histórico desenrolado no território. Esse conteúdo identitário deve sinalizar, ao menos, os traços e mecanismos de socialização dos indivíduos e grupos que tiveram incidência decisiva no processo de desenvolvimento local.
Ter uma identidade local significa reconhecer-se em uma história coletiva, pois, como afirma Arocena (2004, p. 38), todos os componentes desta identidade somente se explicam se perceber a existência de uma história vivente em cada um dos habitantes da sociedade local. No entanto, destaca, que todo este processo de reconhecimento do indivíduo na história não
tem sentido algum se finda apenas em fins nostálgicos, de resgate ao passado. Assim, só teria sua potencialidade afirmada quando a força desta carga histórica provoca interrogadores sobre o presente e o projeto. Ou seja, a identidade se afirma como alavanca do desenvolvimento somente quando leva à descoberta de possibilidades de agir, uma ação que se torna real quando o indivíduo ou grupo reconhecem a si mesmos como capazes de contribuir para sua comunidade.
Embora possíveis, diante das várias discussões precedentes nesta tese sobre a modernidade, toda essa potencialidade de agir por estímulo a uma identidade local esvazia sua força. A modernidade parece varrer as territorialidades com estímulos a atitudes fortemente conservadoras, não só sufocando como também homogeneizando os costumes, hábitos e modos de conduta de cada localidade.
Falta ainda dizer que Arocena (2004) vem observando que nestes processos de constituição da identidade do ator local a experimentação aparece como etapa necessária. Segundo ele (idem, p. 38), novos atores locais têm agido como verdadeiros inovadores, modificando hábitos, modos de vida e formas produtivas por mobilizar as mentalidades locais para atreverem-se a levar adiante experiências arriscadas; onde os fracassos parciais e a remoção de obstáculos se confundem com a história da própria caminhada.
Em síntese, o processo de constituição da identidade local pode manifestar tanto uma identidade promotora do desenvolvimento como ser apenas nostálgica.
5.1.2.1 Identidade como alavanca do desenvolvimento
Sendo uma das dimensões chave do desenvolvimento, as características principais desta identidade, segundo Arocena (idem, p. 39), reúnem o passado, o presente e o projeto em uma única realidade interiorizada pelo conjunto dos membros da sociedade. Além disso, são desenrolados em uma realidade cultural na qual se valoriza a inovação, o trabalho e a produção e que assinalam a diferença e a especificidade, pois assim assumem e situam-se em relação a outras diferenças e especificidades.
5.1.2.2 Identidade local de extrema debilidade
Neste caso, a vida em uma determinada sociedade não foi capaz de gerar processos sociais suficientes para formar uma identidade coletiva local. Essa não é a única forma de se manifestar essa condição, pois a sociedade pode até ter tido alguma identidade local em um determinado momento de sua história, mas experimentado uma deterioração da mesma e ainda o desaparecimento das referências identitárias ocorridas. Neste último caso, podem ter se esvaído ao serem postas em questionamentos por algum processo histórico. Segundo Arocena (2004), faltam a esses grupos o reconhecimento de si e o do outro, como atores que formam as referências próprias do local. As Ações modernizantes implementadas podem gerar esse tipo de vácuo identitário, como na organização de transformações produtivas que levam a novos fenômenos e comportamentos. Condições que podem gerar um rompimento com aquilo que expressava a vida anterior, supostamente ultrapassada e desconexa com a nova dinâmica. Mesmo que um novo processo de formação de identidade logre êxito, isso não ocorre imediatamente, gerando um momento de crise de identidade e uma ausência de referências para a articulação necessária a um desenvolvimento mais articulado e agregador dos diversos setores da administração da sociedade local. Nos momentos de nítida carência de referências a uma identidade local, é possível que ela esteja em construção, no entanto, a evolução pode ser ainda mais lenta nos casos em que a população não tem nenhuma história ou referências comuns que os aproximem. Esse é o caso de Arocena (2004), das populações que não têm suas raízes no território que hoje ocupam, pois suas histórias pessoais e coletivas estão relacionadas aos territórios que abandonaram, como ocorre nas periferias e favelas de grandes cidades.
5.1.2.3 Identidade nostálgica
Por outro lado, por ser comum a várias comunidades terem conhecido tempos anteriores melhores que os recentes, seja por verdadeira experiência ou por memória seletiva, também se generaliza a tendência de recordar o passado com um ar nostálgico, logrando ao passado condições de desenvolvimento superiores às do presente.
Esse movimento dificulta, e às vezes até impede a projeção adiante, sendo o futuro pensado apenas como um delineamento de resgate ao passado. Pela perspectiva do desenvolvimento, esse tipo de manifestação representa a própria constituição de barreiras e
limites, cujo esquivo deve tornar-se prioridade, pois não haverá iniciativas com impacto coletivo enquanto não puderem superar tais tendências nostálgicas (AROCENA, 2004, p. 39).