Ao analisarmos o objetivo central e os específicos dessa pesquisa, identificamos suas três temáticas centrais como: responsabilidade social empresarial interna, qualidade de vida no trabalho e administração do estresse no trabalho.
Para identificarmos quais variáveis seriam pesquisadas, fizemos uma avaliação mais profunda de cada objetivo específico e chegamos ao Quadro 9, correlacionando objetivos da pesquisa e quais modelos da literatura seriam capazes de fornecer elementos que colaborassem para a obtenção de dados adequados. Detalharemos em seguida, como chegamos a esse resultado, assim como as variáveis selecionadas para cada objetivo e modelo.
OBJETIVO ESPECÍFICO MODELO
1. Mapear as práticas de qualidade de vida no trabalho
da empresa pesquisada; Não se aplica. 2. Investigar a existência de ações relacionadas à
administração do estresse no trabalho da empresa pesquisada;
Não se aplica. 3. Identificar as práticas de qualidade de vida no
trabalho adotadas pela empresa pesquisada que tenham relação com o estresse no trabalho;
- Modelo Biopsicossocial de França - Modelo do Prêmio SESI de Qualidade no Trabalho
4. Diagnosticar os fatores que mais contribuem para a elevação ou a redução do estresse no trabalho na empresa pesquisada;
- Modelo Demanda Controle - Modelo Esforço-Recompensa 5. Verificar a ocorrência de estresse no trabalho entre
os colaboradores da empresa pesquisada;
Inventário de Sintomas de Estresse de Lipp.
QUADRO 9 – OBJETIVOS DA PESQUISA x VARIÁVEIS x MODELOS TEÓRICOS Fonte: Elaborado pelo autor (2006).
5.5.1 Variáveis de responsabilidade social empresarial interna
Dois aspectos levaram a não utilização de modelos ou variáveis específicos para a responsabilidade social empresarial interna. O primeiro o fato de não encontrarmos na literatura modelos e variáveis que tratassem especificamente do foco interno. Segundo, o fato de que essa temática é encarada nessa pesquisa como qualidade de vida no trabalho, a qual dispõe de diversos modelos e variáveis.
5.5.2 Variáveis de qualidade de vida no trabalho
Buscamos identificar, na literatura, um modelo de QVT que fosse abrangente e também que considerasse a administração do estresse como um importante elemento. Identificamos, então, o modelo Biopsicossocial de França (1996) que considera as pessoas a partir de uma visão abrangente e que inclui a problemática do estresse.
De acordo com França (1996, p. 13), “o stress é, talvez, a melhor medida do estado de bem-estar obtido ou não pela pessoa, por meio de suas diferentes manifestações de
stress”. Para ela, o estresse é vivido no trabalho a partir da capacidade de adaptação, que
envolve sempre o equilíbrio obtido entre a exigência que é feita e sua capacidade de atendê-la. Se o equilíbrio for atingido, obtém-se o bem-estar; se for negativo, gerará diferentes graus de incerteza, conflitos e sensação de desamparo.
Para confirmar essa visão, Rodrigues (1992) faz detalhada revisão sobre os aspectos psicossociais do estresse, ao considerar que não há qualidade de vida no trabalho, se as condições em que se trabalha não permitem viver em um bom nível de estresse.
Selecionado o modelo, precisávamos então determinar quais variáveis do mesmo seriam estudadas, de acordo com os objetivos da pesquisa e a realidade da empresa pesquisada. Para obtermos uma melhor adaptação à empresa pesquisada, optamos por incluir também as variáveis definidas no Prêmio SESI de Qualidade no Trabalho (SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA, 2005) em nossa análise. Essas variáveis foram extraídas do questionário usado para avaliação das empresas que participam do prêmio (ANEXO A).
Desta forma, elaboramos o Quadro 10 (Variáveis de QVT Selecionados) que sintetiza e correlaciona as variáveis do modelo Biopsicossocial proposto por França (1996) com as propostas pelo Prêmio SESI de Qualidade no Trabalho (SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA, 2005). A partir desses dois conjuntos de variáveis foram formuladas as variáveis de nossa pesquisa, a serem usadas para os objetivos relacionados à QVT.
VARIÁVEIS MODELO BIOPSICOSSOCIAL
(FRANÇA, 1996)
VARIÁVEIS PRÊMIO SESI (SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA, 2005) VARIÁVEIS SELECIONADAS PELO PESQUISADOR
. direitos legais garantidos . relaciona-se com vários dos itens
citado no restante do quadro Não . privacidade para trabalhar
VARIÁVEIS MODELO BIOPSICOSSOCIAL
(FRANÇA, 1996)
VARIÁVEIS PRÊMIO SESI (SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA, 2005) VARIÁVEIS SELECIONADAS PELO PESQUISADOR . esperança de continuidade no emprego . estabilidade no emprego . salário
não se aplica Não
. nível cultural dos empregados e
empregadores não se aplica Não
. autonomia no trabalho . comprometimento político e dos empregadores e empregados . distribuição justa de
rendimentos entre os cargos . imparcialidade nas decisões gerenciais
. informações sobre o que deve ser feito
. liberdade de expressão . proteção do patrimônio da empresa
. conhecimentos dos objetivos e metas da empresa pelos
empregados
gestão participativa
. informações sobre o que deve
ser feito . forma de comunicação das decisões da empresa endomarketing e comunicação . ausência de preconceitos
. educação no relacionamento
. relacionamento com a chefia imediata
boa relação com chefia
. ausência de preconceitos . educação no relacionamento . estima por parte dos colegas . valorização do serviço pelos outros setores
. relacionamento entre os
empregados (colegas de trabalho)
boa relação entre empregados
. padrão geral de saúde dos empregadores/empregados . seguro de vida
. acompanhamento periódico da saúde dos empregados
. realização de ações educativo- preventivas em saúde (prevenção de acidentes e doenças do
trabalho, uso de drogas, dst/aids, hipertensão, diabetes e etc.)
acompanhamento da saúde
. ausência de insalubridade
. atuação da equipe de prevenção de doenças e acidentes do trabalho (cipa, sesmt, responsável legal e etc.)
prevenção de doenças e acidentes de trabalho
. ação ecológica da empresa
. realização de ações para educação e prevenção ambiental (reciclagem, economia de água, energia, matérias primas, coleta seletiva de lixo, controle de poluentes, reciclagem de resíduos)
preservação ambiental
VARIÁVEIS MODELO BIOPSICOSSOCIAL
(FRANÇA, 1996)
VARIÁVEIS PRÊMIO SESI (SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA, 2005) VARIÁVEIS SELECIONADAS PELO PESQUISADOR
. ação social da empresa . imagem da empresa na sociedade
. engajamento da empresa em campanhas sociais.
. estímulo à participação dos empregados em ações sociais como voluntários.
ações sociais
. condições gerais de trabalho . conforto do ambiente físico . qualidade de alimentação fornecida pela empresa
. condições do ambiente de trabalho (ruído, temperatura, iluminação, substâncias químicas e etc.)
. oferecimento de ginástica ou exercícios físicos durante a jornada de trabalho
bom ambiente de trabalho em termos físicos
. capacitação múltipla para o trabalho
. carreira
. crescimento como pessoa em função do trabalho
. oportunidade de elevação da escolaridade
. pagamento de cursos ou
concessão de bolsas de estudo aos empregados e/ou dependentes . incentivo para o desenvolvimento de novas competências para o crescimento pessoal e profissional dos empregados
. promoção de ações educativas para a formação da cidadania dos trabalhadores (direito do
consumidor, educação para o trânsito e para a vida familiar, palestras e etc.)
aumento de escolaridade e aperfeiçoamento profissional
. atividades esportivas culturais e de lazer
. realização de atividades esportivas para os empregados. . oportunidades de lazer nos intervalos da jornada de trabalho.
atividades esportivas e lazer
. atividades esportivas . culturais e de lazer
. realização de eventos
socioculturais para os empregados e seus dependentes
atividades sócio- culturais
. seguro de vida
. direitos legais garantidos
. oferta de benefícios sociais aos empregados e dependentes (assistência médica e
odontológica, auxílio-creche, cestas básicas, previdência privada e etc.)
benefícios sociais oferecidos
QUADRO 10 - VARIÁVEIS DE QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO SELECIONADAS Fonte: adaptado de França (1996), Serviço Social da Indústria (2005).
Para chegarmos às variáveis selecionadas buscamos quais variáveis seriam comuns e quais seriam exclusivas de um ou outro modelo, a partir de uma análise de seu
conteúdo e da idéia central de cada variável. Optamos apenas pelas comuns e demos uma redação mais adequada, enxugamento de textos e integrando alguns itens, sem prejuízo da essência retratada. O resultado final pode ser visto na terceira coluna do Quadro 10.
5.5.3 Variáveis de administração do estresse no trabalho
Definidas as variáveis de QVT que seriam pesquisadas, avançamos na definição de um modelo de administração do estresse que nos permitisse abordar o seguinte objetivo: diagnosticar os fatores que mais contribuem para a elevação ou a redução do estresse no trabalho na empresa pesquisada
.
Para Guimarães e Freire (2004), os modelos “Demanda-Controle” (Demand-
Control Model,D/C) e “Desequilíbrio entre esforço e recompensa no trabalho” (Effort-Reward Imbalance Model, ERI) são os mais capazes de abranger, de forma satisfatória, pesquisas em
um número considerável de grupos ocupacionais distintos. De todos os modelos pesquisados, esses foram os que se mostraram mais estruturados, apesar de não possuírem questionários validados para a língua portuguesa.
Como os modelos citados apresentavam juntos sete (7) fatores estressores, o que nos pareceu um número pequeno, optamos por aprofundar nossa pesquisa na literatura sobre os fatores que contribuem para a elevação ou redução do estresse e em seguida buscar correlacionar tais fatores com os modelos citados.
O processo que desenvolvemos consistiu da identificação de listas de fatores estressores propostas por diversos autores e da seleção dos fatores que foram mais citados. Os autores que pesquisamos foram Cooper e Marshall (1976), Beehr e Newman (1978), Lipp (1996), Dick (2000), Tamayo, Lima e Silva (2002), Giga, Cooper e Faragher (2003), O’Driscoll (2003), Burke (2004) e Johnson et al. (2005), além das contribuições dos modelos D/C e ERI. A partir da identificação dos fatores mais citados, construímos o Quadro 11.
FATORES ESTRESSORES OU ESTRESSANTES Modelo D/C Modelo ERI
1. Falta de equilíbrio entre tempo para o trabalho e para a família 2. Más condições físicas do ambiente de trabalho (iluminação,
barulho)
3. Excesso de pressão por metas e prazos X
4. Sobrecarga de informações X
5. Sobrecarga de responsabilidade X
6. Excesso de mudanças tecnológicas 7. Má relação com a chefia
8. Má relação com colegas
9. Baixo envolvimento na tomada de decisões na empresa X
10.Falta de estabilidade no emprego X
11.Falta de perspectivas de desenvolvimento de carreira X
12.Insatisfação com remuneração X
13.Clima organizacional ruim
QUADRO 11 - FATORES ESTRESSORES OU ESTRESSANTES E SUA RELAÇÃO COM MODELOS DE ADMINISTRAÇÃO DO ESTRESSE
Fonte: elaborado pelo autor (2006).
Como pode ser observado pela lista exposta no Quadro 11, identificamos quatro fatores relacionados ao modelo D/C, ligados à demanda e controle, quais sejam: excesso de pressão por metas e prazos, sobrecarga de responsabilidade, sobrecarga de informações e baixo envolvimento na tomada de decisões na empresa. Já para o modelo ERI, identificamos três fatores ligados a recompensas: satisfação com remuneração, perspectiva de carreira e estabilidade no emprego. As demais questões não são relacionadas diretamente com os fatores-chave dos modelos citados, porém, são identificadas pelos diversos autores como fatores estressores muito importantes, motivo pelo qual foram mantidos em nossa pesquisa.
Optamos então por não selecionar apenas um modelo para nossa pesquisa, mas utilizar os aspectos que mais se adequariam a nossos objetivos com base nos dois modelos citados.
Ainda nos restava definir como medir a ocorrência do estresse no trabalho dos colaboradores. Para que pudesse ser feita essa verificação, aplicamos um formulário para descobrir a ocorrência de sintomas de estresse com base em Lipp e Rocha (1996), pois conforme Lipp (1999), quando o indivíduo não consegue mais lidar com a tensão emocional, o corpo e a mente dão sinais de alerta. O momento em que os sinais e sintomas aparecem, marca o limite da resistência.
Com todas as variáveis selecionadas, de acordo com cada objetivo, partimos para a elaboração dos instrumentos de pesquisa.