Uma vez ultimada a revista de imprensa, seguiu-se a aplicação de um inquérito por questionário aos utentes da Biblioteca Pública Municipal de Setúbal.
Este teve lugar entre os dias 7 de Janeiro e 2 de Fevereiro de 2013, durante o horário completo de funcionamento daquele espaço, quer no caso dos serviços centrais, quer no caso dos pólos da Bela Vista e de São Julião, os dois pólos situados na cidade7. Os serviços centrais, sitos na Avenida Luísa Todi, a principal avenida de Setúbal, são, pela sua localização, os mais frequentados, mas os pólos da Bela Vista e de São Julião, ambos a alguma distância do centro, têm públicos específicos e não desprezáveis.
O primeiro dia forçou, porém, a uma alteração dos planos iniciais, que estipulavam a aplicação simultânea do inquérito nos serviços centrais e nos dois pólos, o que seria possível com o auxílio – previamente solicitado e concedido – dos funcionários da Biblioteca. Contudo, verificaram-se as seguintes situações: os utentes da Biblioteca não manifestavam a iniciativa de pegar no inquérito deixado na recepção; os utentes eram incitados a responder mas a equipa da Biblioteca não conseguia esclarecer dúvidas que estes colocavam; os murais, esmagadoramente de cariz decorativo, realizados no âmbito da iniciativa autárquica Setúbal Mais Bonita geravam, nos respondentes, certa confusão quanto ao foco do nosso inquérito (o mural de índole político-social); as respostas a um questionário podiam afigurar-se coerentes e válidas mas estar assentes em pressupostos completamente errados, não sendo isso detectado no acto de preenchimento, nem detectável a posteriori8.
Perante estas situações – algumas das quais passíveis de enviesar os resultados – pareceu-nos mais prudente suspender a aplicação simultânea do inquérito nos serviços centrais e nos pólos e delinear uma nova estratégia, que passou por permanecer duas semanas consecutivas nos serviços centrais e, em seguida, uma semana em cada um dos pólos, totalizando um mês. Todavia, o facto de qualquer dos pólos ser frequentado quase sempre
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A BPMS dispõe ainda de dois outros pólos: um na freguesia rural de Gâmbia, Pontes e Alto da Guerra e outro em Vila Nogueira de Azeitão (o Pólo Sebastião da Gama).
8 Ex.: nos serviços centrais, um utente preencheu um inquérito com base num alegado “mural político sobre
questões laborais” (mais especificamente sobre medicina dentária) que vira pintado no bairro da Fonte Nova (então Freguesia de Nossa Sr.ª da Anunciada). A surpresa perante a especificidade do mural motivou algumas perguntas acessórias, tendo ficado esclarecido que o inquirido se referia a um painel em azulejo indicativo de uma clínica dentária! Sendo um episódio deveras caricato, ele suscitou, contudo, uma questão séria: se, na ausência do investigador, o inquérito tivesse sido deixado, já preenchido, na recepção da biblioteca, a coerência geral das respostas não levantaria suspeitas que justificassem a sua exclusão e o mesmo seria contabilizado e considerado para análise. Ou seja, não havendo motivo para questionar o respondente (nem como fazê-lo, dado o inquérito ser anónimo) e não se encontrando na Fonte Nova qualquer parede pintada sobre o tópico mencionado, a conclusão seria de que o respondente se referia a um mural antigo, entretanto apagado. E um inquérito assente em pressupostos completamente errados seria assim, de boa-fé, validado.
pelos mesmos utentes, rapidamente esgotou as possibilidades de aplicação do questionário, forçando a uma nova mudança de actuação. Assim, após uma terceira semana equitativamente distribuída pelos pólos (dois dias e meio em cada), na quarta semana regressámos aos serviços centrais. E eis como os planos no papel se alteram em função das circunstâncias reais...
Há um outro aspecto a salientar no que se refere à aplicação do inquérito e que diz respeito ao público-alvo. A escolha da BPMS prendeu-se com dois factores: a existência de um local de acolhimento para ir ao encontro da população e a possibilidade de, nesse local, encontrar pessoas potencialmente mais atentas ao mundo que as rodeia e, como tal, talvez também aos murais. A primeira condição (ter um local de acolhimento) não nos suscitou, por si mesma, reservas, mas a segunda (interligada com a primeira) atormentava-nos: seria a amostra, assim obtida, representativa? Havendo a noção de que o universo de utentes da BPMS resulta de uma triagem desse universo mais abrangente que é a população de Setúbal, não estaríamos a tentar alcançar o público que nos convinha em detrimento de um outro que podia deixar-nos de mãos vazias no final do trabalho (por não saber responder, por nunca ter pensado nisso e não querer deter-se a fazê-lo, etc.)? As leituras tanto nos alertam para os riscos de falsear os resultados que estas angústias se tornam inevitáveis, e a intencionalidade da triagem, o facto de os utentes da BPMS serem como que filtrados a partir do todo populacional, não dando, por isso, um retrato inteiramente fiel desse todo, incomodava-nos. Mas, então, como agir? Que local escolher? Inquéritos de rua dar-nos-iam mais garantias? Quantas escusas teríamos se até num espaço fechado as pessoas se esquivam?
Enfim, mesmo não se tendo dissipado por completo, esta preocupação amenizou-se ao verificarmos, logo ao início, que a amostra seria bastante heterogénea e, como tal, assaz representativa da diversidade populacional. Isto porque, entre os utentes da Biblioteca, está quem ali se dirige para requisitar livros, assistir a palestras ou consultar a imprensa arquivada (o utente que, aparentemente, corresponde ao tal público mais atento e reflexivo em relação ao mundo) mas também quem ali se detém apenas para ver os anúncios de emprego nos jornais do dia, tirar uma fotocópia / imprimir um documento ou ficar horas a jogar online.
Assim, responderam ao inquérito trabalhadores no activo e no desemprego, pessoas das mais variadas profissões, com a quarta classe ou com ensino superior, nascidas na cidade ou que para ela migraram, incluindo cidadãos estrangeiros radicados em Setúbal, estudantes com menos de 15 anos e pensionistas com mais de 80. Será a população setubalense mais diversificada do que isto? Apesar do acima descrito, a resposta é ainda “sim”. Basta pensarmos que quem nunca aprendeu a ler talvez não frequente a biblioteca (embora possa fazê-lo para ver uma exposição de fotografia ou pintura), podendo, no entanto, olhar para as
paredes com curiosidade e ter uma opinião formada sobre os murais com base nas imagens que estes veiculam... Contudo, nunca chegaríamos a todos – há que reconhecê-lo e aceitá-lo.
Mas outras dúvidas se nos colocaram, nomeadamente no que respeita ao desenho do inquérito. As leituras deixavam-nos divididos quanto às vantagens e desvantagens dos vários modelos, alertando para os riscos associados à grafia das questões (evitar as perguntas ambíguas, investindo em frases simples; ter cautela para que as perguntas não influenciassem
a priori o inquirido, etc.) e avançando sugestões diversas acerca do tipo de questões: das
dicotómicas às de resposta múltipla, passando pelas graduadas ou escalonadas e pelas encadeadas (em que a pergunta seguinte depende da resposta dada na anterior)9.
Considerando a heterogeneidade do público que podíamos encontrar e a elevada probabilidade de os inquiridos alegarem pressa, o questionário cingiu-se a duas páginas e procurou pautar-se pela simplicidade, visando obter informação sobre a memória deixada pelos murais nos transeuntes (através de questões sobre a data e o local da pintura e o assunto nela retratado); a reacção dos cidadãos aos murais (mediante perguntas acerca da mensagem e a reflexão que esta desencadeou); a fronteira entre a observação e a participação; a validade ou pertinência deste tipo de intervenção enquanto forma de comunicação.
Para os dados pessoais foram utilizadas perguntas escalonadas, enquanto no âmbito do tema propriamente dito empregámos algumas perguntas encadeadas. As sempre controversas perguntas dicotómicas foram, estamos em crer, compensadas pelas de resposta aberta. Curiosamente, observámos que a dificuldade em escolher entre o “sim” e o “não” podia espelhar duas reacções diametralmente opostas face ao tema – alguns inquiridos não conseguiam escolher porque, até então, pouco haviam pensado sobre o assunto, enquanto outros hesitavam por ter já reflectido demoradamente e necessitarem agora, perante o inquérito, de acomodar as suas conclusões e as apresentar sob a forma de respostas.
Durante o período de aplicação do inquérito por questionário na BPMS, foi-nos possível obter 601 inquéritos, dos quais 569 reuniam condições para validação (ver subcapítulo 9.1).
Também neste âmbito trabalhámos distintamente aspectos quantitativos (ex.: quantas vezes foi referido um determinado local ou força política) e qualitativos (ex.: apreciação do mural enquanto media alternativo e ponderação da sua pertinência nos tempos que correm).
Quase arriscamos dizer que AC e análise dos conteúdos voltaram aqui a dar as mãos.
9 Sem mencionar a possibilidade de trabalhar com escalas de frases de intensidade crescente referentes a um só
tema ou conceito (como a Escala de Guttman) ou escalas que classificam a concordância do respondente com uma série de frases sobre um tema (caso da Escala de Likert).