Não menos trabalhosa do que a viagem pelos múltiplos arquivos, a revista de imprensa – que incidiu no trissemanário O Setubalense1, o mais antigo jornal da cidade e de publicação praticamente ininterrupta2 durante o período em análise –, estava programada para ocorrer posteriormente às entrevistas. Todavia, veio a tornar-se a segunda etapa.
O que motivou a alteração de planos? A percepção de que a informação veiculada pela imprensa local poderia facultar nomes de pessoas que, por nosso desconhecimento da sua intervenção em determinados contextos, podiam não figurar na lista de “entrevistáveis”. Avançada esta explicação, daremos conta de alguns percalços desta etapa.
No livro Fartas de Viver na Lama é contado que, após o 25 de Abril, a tradicionalmente influente imprensa setubalense adere ao programa do Movimento das Forças Armadas (MFA) e que “o principal jornal, O Setubalense, adopta um estatuto editorial em que reivindica ser o porta-voz das lutas sociais que alastram pela cidade” (Pinho et al., 2002: 24). Contudo, essa declaração de intenções não impediu que, a 22 de Outubro de 1975, o trissemanário então dirigido por Carlos Bordallo-Pinheiro passasse a ser gerido por um grupo de trabalhadores contestatários da direcção do título, continuando a sair sob aquele nome até 26 de Novembro.
Na véspera, a 25 de Novembro, fora decretado o estado de sítio, sendo expressamente proibida a publicação de qualquer órgão de informação. Como O Setubalense contrariou a ordem, as suas instalações foram ocupadas por forças do Regimento de Infantaria de Setúbal e por Comandos que, após evacuarem o local, danificaram “algum material, tendo sido desviado (pluralisticamente) algum dinheiro, selos, um rádio transístor, cassetes, entre outras coisas”3. Entretanto, “cerca de vinte famílias viam a sua sobrevivência ameaçada com a
suspensão do jornal”4
, pelo que os trabalhadores, no sentido de garantirem a sua subsistência e conservarem as instalações, lançaram um novo periódico, o Nova Vida, publicado pela primeira vez a 7 de Janeiro de 1976.
1
O trissemanário, fundado a 1 de Julho de 1855, liderou por diversas vezes o Bareme Imprensa da Marktest como jornal mais lido do distrito, recebendo, em Janeiro de 2005, um Louvor de Mérito Jornalístico e Empresarial da Comunicação Social Regional e Local atribuído pela Presidência do Conselho de Ministros. Em Dezembro do mesmo ano foi distinguido com a Medalha de Mérito Distrital do Governo Civil de Setúbal e, em Junho de 2007, por ocasião do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, cujas celebrações a cidade acolheu, recebeu uma nota de enaltecimento por parte do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.
2 Exceptuam-se o período entre 26 de Novembro de 1975 e 16 de Fevereiro de 1981 (coberto pela existência do
Nova Vida, conforme descrito no texto central) e o período entre 10 de Maio de 2013 e 24 de Fevereiro de 2014.
3 “‘O Setubalense’ – Da frente de luta à cooperativa”, Página Um, 26/07/1976, p.4 4
Apenas a 16 de Fevereiro de 1981 O Setubalense retomou a edição, prosseguindo em simultâneo com o Nova Vida até ao final de 19855, quando o segundo deixou de se publicar.
Procurando acompanhar este sobressalto – que, inclusivamente, se repercutiu em dificuldades de catalogação na Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, onde realizámos a revista de imprensa –, optámos por, nos anos em que O Setubalense e o Nova Vida tiveram edição simultânea, consultar ambos. Esta “análise extra”, não contemplada nos moldes iniciais de trabalho, implicou um esforço e um gasto de tempo acrescidos, pelo que importa explicar as razões que a ela nos impeliram. A opção decorreu de uma questão que se nos colocou: Quem faz efectivamente um jornal? A direcção, quando prevê determinadas linhas orientadoras para o título, ou os jornalistas, ao escolherem os ângulos de abordagem das matérias? Será que os segundos se submetem efectivamente à primeira?
Pareceu-nos que, tendo em conta o sucedido com O Setubalense e o surgimento do Nova
Vida, devíamos acompanhar o novo título (atentando na abordagem noticiosa assinada pelos
jornalistas que transitaram da anterior redacção) sem descurar o trajecto d’O Setubalense a partir do momento em que a sua publicação é retomada. E se bem que a revista de imprensa do Nova Vida não se tenha vindo a revelar imprescindível, prosseguir o trabalho sem descartar aquela possibilidade equivaleria a uma incerteza que nos espicaçaria até ao fim...
Importa ainda esclarecer outro aspecto relativo à revista de imprensa. A intenção inicial passava por proceder à consulta dos jornais nos moldes usuais: deslocação à biblioteca, apontamento dos temas com referência à data e à página, e fotocópia das notícias que se revestissem de interesse para a investigação. Todavia, vimo-nos obrigados a outra prática pois, logo que foram postos à nossa disposição os primeiros volumes, apercebemo-nos do estado precário dos exemplares (aparentemente resultante do manuseio ao longo do tempo) e fomos informados da inexistência dos mesmos noutro suporte. Um problema foi-nos, então, colocado: os jornais não podiam ser fotocopiados, pois o movimento necessário à reprodução agravaria a sua já frágil condição. Além disso, a dimensão das páginas, superior ao A3, obrigava a cópias parcelares quando havia interesse na página inteira, sendo ainda que muitas páginas ficavam ilegíveis devido ao estado de deterioração em que se encontravam. A solução proposta pela direcção da Biblioteca foi o registo fotográfico, o que prontamente aceitámos6.
5 O Nova Vida sofreu, contudo, um largo interregno entre Agosto de 1983 e Setembro de 1985.
6 Em nossa opinião, se comparada às fotocópias, esta prática tem a vantagens de permitir que as páginas fiquem
Transitando destas considerações para a análise em si, assinalamos que um primeiro contacto com o trissemanário nos fez deparar com situações que não havíamos ponderado, a mais relevante das quais se prende com o tratamento das temáticas dos murais no jornal.
Assim, e embora pretendêssemos ter por foco as notícias (das breves às reportagens), cedo constatámos que os temas cujo tratamento noticioso nos interessava estudar eram também objecto de crónicas de colaboradores assíduos ou pontuais, cartas ao director e, inclusivamente, comunicados, muitas vezes inseridos na secção da publicidade paga.
A título de exemplo, apontamos as questões laborais (amiúde referidas em comunicados das comissões de trabalhadores que o jornal reproduzia), as condições de vida e os problemas ambientais (abordados em cartas ao director ou em textos de opinião) e a política internacional (focada sobretudo em crónicas). Perante isto, que fazer? Procurando não pecar por defeito, também estes registos foram fotografados, no entendimento de que, sendo os comunicados, as cartas ao director e as crónicas material informativo (ainda que não noticioso no sentido estrito), este devia ser considerado numa primeira triagem.
Durante a escrita da tese, comprovou-se que o tempo ali empregue não podia ser dado por perdido, pois certas tomadas de posição expressas em colunas de opinião podiam dar uma mais eficaz apresentação dos factos, uma melhor contextualização dos acontecimentos e uma mais profunda análise da realidade do que o mero somatório de notícias publicadas ao longo dos anos (veja-se, a propósito, a transcrição de um texto opinativo inclusa no subcapítulo 7.3). No que concerne ao dissecar do material informativo stricto sensu, enveredámos por um caminho entre a tradicional análise de conteúdo (AC) e uma análise dos conteúdos. A destrinça entre os dois métodos não é líquida e imediata, pelo que requer uma breve reflexão.
2.3.1. “Análise dos conteúdos” vs “análise de conteúdo”
Sempre que se recorre a uma revista de imprensa – e tendo nós, antecedentemente, organizado os temas das fotografias numa tabela – há uma questão que quase de imediato se coloca: proceder ou não à clássica AC? Neste caso, pareceu-nos que a mesma não se enquadrava inteiramente na investigação em curso, ainda que houvesse, da nossa parte, a preocupação de compreender se os temas focados nos murais eram igualmente objecto de cobertura na imprensa local, com que recorrência esta os abordava e em que moldes o fazia.
Bauer e Gaskell (2000: 136) explicam que “os materiais clássicos da AC são textos escritos que já foram usados para algum outro fim. Contudo, todos estes textos podem ser manipulados para fornecer respostas às perguntas do investigador”. Sem dúvida que a
imprensa preenche estes requisitos, na medida em que os temas das suas páginas não foram produzidos a pensar em investigadores num hipotético futuro mas em potenciais leitores do então presente. Também é certo que os textos que as suas páginas acolhem estão sujeitos a ser utilizados por outrem como forma de obter resposta a questões específicas, geralmente de um tempo passado. A tradicional AC permite ainda extrair “inferências sobre a fonte, a situação em que esta produziu o material objecto de análise, ou até, por vezes, o receptor ou destinatário das mensagens” (Vala, 1986: 104), o que se revelava vantajoso no contexto de investigação. A rigidez ou insistência da “análise de conteúdo” na frequência das ocorrências não se coadunava, porém, com as características dos materiais disponíveis, além de se revelar redutora e tolher a observação pretendida. Preferimos, pois, a “análise dos conteúdos”.
A diferença entre as duas pode parecer uma nuance, mas socorremo-nos de José Rebelo (1998: 36), que perfilha a crítica de A. J. Greimas, para quem a análise de conteúdo cria uma “absurda identificação entre frequência e importância”, quando a repetição de palavras pode ocultar em vez de revelar, obscurecer em vez de iluminar, silenciando os materiais em estudo.
Por isso, no caso da sua dissertação doutoral, José Rebelo procurou “trabalhar o corpus sem a preocupação de construir categorias, de definir unidades de conteúdo ou de estabelecer regras pelas quais as segundas se articulam com as primeiras. Sem a preocupação de contar, de comparar” (1998: 36), esclarece na introdução do livro resultante da adaptação da sua tese. No nosso caso, no que concerne ao exame das edições, combinámos os dois métodos. Por um lado, a frequência com que determinado tema era levado às páginas do trissemanário (vertente mais quantitativa) não podia ser ignorada, por ser sinónimo do seu grau de acompanhamento por parte do jornal. Nesse sentido, houve – em linha com a metodologia da AC – o cuidado de contar as referências (leiam-se as notas de rodapé no caso do encerramento da Renault, no subcapítulo 6.3, ou da luta contra a incineração, recordada no subcapítulo 7.1).
Todavia, escolhemos igualmente considerar e valorizar aspectos qualitativos a que a AC é alheia, como o destaque de que determinado tema usualmente granjeava (se era objecto de uma simples breve, de uma notícia mais ampla ou de uma reportagem, se tinha “honras de primeira página”, etc.), o ângulo de abordagem (quem era ouvido no âmbito da peça, que espaço lhe era dado, etc.) e as flutuações na cobertura jornalística (veja-se, no subcapítulo 7.4, o sucedido com a Secil e a luta popular contra a incineração em finais dos anos 2000).