Foi possível comparar como a tarefa é prescrita e como a atividade é realizada. Para melhor visualização e compreensão dessas diferenças apresentadas entre o prescrito e o real, o Quadro 11 mostra uma síntese dessa etapa.
Quadro 11 – Síntese analítica do trabalho: caracterização da tarefa e percepção da atividade.
TAREFA PRESCRITA ATIVIDADE
LIMPEZA Efetuar limpeza de plantio,
rebaixamento de mato e retirada das samambaias. Trabalho individual.
O operador anda em torno da linha, verifica necessidade de limpeza, efetua retirada da samambaia com estrovenga, amontoa a folha em local apropriado; efetua rebaixamento de capim e retira entulho do caminho amontoando-o junto afolha.
PODA Efetuar poda de plantio médio
e adulto. Retirar as folhas acompanhando o espiral. Utiliza a foice para cortar a folha. Trabalho em dupla.
O operador anda em torno da linha, verifica necessidade de poda, efetua o corte da folha com foice, amontoa a folha em local apropriado; efetua rebaixamento de capim e retira entulho do caminho amontoando-o junto a folha. Tem que decidi e cortar o número de folhas corretamente, tem que decidir quantas folhas vai deixar no plantio, tem que amontoar as folhas no local certo e da forma correta. Preocupação do operador da folha cair na cabeça.
COLHEITA PLANTIO ALTO
Efetuar colheita de cachos em plantio alto. Utiliza a foice para cortar o cacho e a machadinha para cortar a tala do cacho. Trabalho individual.
Caminha em sua linha, rodeia o plantio a procura de cacho maduro geralmente com o pescoço flexionado para cima, com a foice e movimento inclinado para cima, efetua o corte de folha que esteja impedindo o acesso ao cacho, impõe força no cacho, utiliza a machadinha para cortar a ponta da tala se vier junto com o cacho, empurra com a machadinha o cacho para posição de transporte e remove a folha para posição de limpeza. Preocupação do operador do cacho ou folha cair na cabeça.
COLHEITA PLANTIO MÉDIO
Efetuar colheita de cachos em plantio médio utilizando o sacho. Trabalho individual.
Caminha em sua linha, rodeia o plantio a procura de cacho maduro, com o sacho e movimento inclinado para cima, efetua o corte de folha que esteja impedindo o acesso ao cacho, impõe força no cacho, utiliza o próprio sacho para cortar a ponta da tala se vier junto com o cacho, empurra com o sacho o cacho para posição de transporte e remove a folha para posição de limpeza. Preocupa-se com queda de folha na cabeça ou rosto.
COLHEITA PLANTIO JOVEM
Efetuar colheita de cachos em plantio baixo utilizando o sacho. Trabalho individual.
Caminha em sua linha, rodeia o plantio a procura de cacho maduro, com o sacho movimento inclinado para baixo impõe força no cacho, utiliza o próprio sacho para cortar a ponta da tala se vier junto com o cacho, empurra com o sacho o cacho para posição de transporte e remove a folha para posição de limpeza. O operador efetua a atividade com a postura curvada em função dos galhos baixos. Preocupa-se com o espinho da folha no rosto e animais peçonhentos enrolados na folha.
DE CACHO utilizando o espeto. Acompanha o trator e arremessa na basculante.
um lado, o trator entra na parcela ao meio das fileiras de plantio, os cachos são lançados na basculante pelos operadores. O operador agacha-se para espetar o cacho, espeta o cacho, impõe uma força, suspende o cacho e lança na basculante.
COLETA DE
FRUTOS SOLTOS
Efetuar coleta de fruto solto manualmente e levar a saca até a beira da estrada para ser transportada. Atividade individual.
Caminha em sua linha com um balde e um saco vazio em suas mãos, rodeia o plantio a procura de fruto solto, com um pedaço de madeira mexe os galhos caídos próximo ao pé do plantio antes de meter a mão para escapar de cobra, manualmente coleta um a um fruto caído no chão, coloca-os no balde, ao encher o balde, coloca no saco. Inicia seu trajeto com balde e saco vazio, à medida que enche o balde e o saco, sua caminhada é mais árdua. Algumas operadoras andam com o balde na mão e o saco na cabeça, outras andam com o balde na mão e arrastam o saco. Quando o saco está totalmente cheio, este deve ser levado para beira da floresta, meio fio da rua para aguardar o transporte de fruto solto, a operadora agacha-se e coloca o saco na cabeça, leva até o ponto do transporte.
TRANSPORTE
DE FRUTO
SOLTO
Efetuar o transporte de fruto solto, colocando as sacas de frutos da beira da estrada na basculante. Trabalho em trio.
Essa atividade é realizada por três operadores, 2 efetuam o lançam do fruto ainda na saca para dentro da basculante, buscam a saca cheia, ajeitam a saca se tiverem duas próximas com metade cada uma, despejam tudo somente em uma saca e carregam de dois, cada um de um lado; e o 3º já na caçamba despeja os frutos da saca. Os dois descem quando observam sacas na beira e sobem na basculante, especificamente na parte traseira (basculante) para continuarem o trajeto. Se na ocasião tiver cacho, lançam também o cacho na basculante utilizando o espeto.
Identificou-se que os maiores constrangimentos dos operadores estão associados ao manuseio da ferramenta, receio de acidente com o espinho da folha, encontrar animais peçonhentos, retirar cachos imprensados entre galhos e adaptação da ferramenta (pega, amolar, tamanho do cabo e peso).
Além dos constrangimentos mencionados, em todas as atividades pode-se ainda citar como variabilidades as relacionadas: as condições climáticas, a incidência de raios solares, que é muito maior em plantio jovem, os EPIs inadequados que dificultam a realização de algumas tarefas, como é o caso do chapéu de folha que caí a toda hora, as luvas que escorregam no cabo da ferramenta, as perneiras que não permitem o agachamento, os óculos que embaçam. Como estratégias os operadores buscam o conhecimento da localização mais frequente dos animais peçonhentos (embaixo das folhas no chão, no “pé da planta”, enroladas na folha no plantio) e evitam andar por esses meios.
Outro fato observado é o estudo, por parte do operador, do melhor local para a retirada do cacho, ou seja, onde corte menos galho, além de colocarem areia no cabo da ferramenta, cortam ou emendam cabo da ferramenta com solda e colocam um elástico (liga) na área da pega.
Não se pode deixar de mencionar as dificuldades relacionadas a grandes caminhadas e carregamentos de pesos, além dos constrangimentos associados à infraestrutura de não haver banheiros suficientes e locais para as refeições, o que aumenta a caminhada na busca de suprir essas necessidades sendo que muitas vezes são realizadas no mato mesmo (evitam caminhar até o banheiro). Fazem cobertas com folha para se proteger de sol e chuva durante as refeições.
No que se refere aos EPIs e as ferramentas, estes são entregues aos operadores no escritório quando ingressam na empresa. Os EPIs são distribuídos no próprio posto de trabalho quando danificados ou necessitam de troca. EPIs e ferramentas ficam de posse do operador, que se responsabilizam por levar e trazer a cada jornada de trabalho.
As ferramentas são leves, variam entre 0,870kg a 1,020kg, condicionando a duas situações: melhor facilidade na caminhada e maior imposição de força para o corte (no caso da estrovenga, da foice e do sacho), principalmente em plantio alto, onde cachos e folhas são mais pesados. O cabo das ferramentas é oco, por isso muitos operadores colocam areia para que estes fiquem mais pesados e facilitar o corte – ferramentas leves faz impor maior força para o corte do cacho - preferem caminhar com a ferramentas mais pesadas. Os cabos são de alumínio, não proporcionam boa pega, ficam lisos, houve relatos de acidentes em função disso. Outra dificuldade relatada está associada à adaptação do tamanho do cabo, que
devem estar ajustando continuadamente em função da altura do plantio. Além de terem que amolar sempre que necessário, muitos acidentes relatados também nessa tarefa.
Ferramentas como machadinha e espeto não tiveram reclamações, são leves e proporcionam boa pega. Já as sacas e os baldes que no início da atividade estão vazios e leves, ganham proporção de peso bem consideráveis, impõem grande esforço físico.
Quanto aos EPIs grandes dificuldades são encontradas durante o uso. Todos são distribuídos, independente do posto. Os operadores revezam entre o uso de capacete para plantio alto e médio (por causa do risco da folha cair na cabeça do operador), chapéu de folha ou boné para plantio baixo (para proteger do sol). No entanto todos deveriam usar perneiras, mas não se adaptam por causa do peso; no plantio médio e alto, todos os da colheita e da poda deveriam usar óculos, mas reclamam que estes embaçam. Luvas também apresentam problemas por dificultar ainda mais a “pega” da ferramenta.