2 Summary of the articles
2.1 Literature review
As anedotas representam uma leitura do mundo diversa da estrita racionalidade cartesiana. Definem-se por outras possibilidades de apreensão do mundo normatizado. É a inscrição, no mundo, de maneiras muito próprias e idiossincráticas de ver e viver. É fruto das misturas de múltiplas experiências em quadros culturais diversos. É um estranho entre as racionalidades modernas e sucinta gestos de riso, menosprezo, estranhamentos, comentários pejorativos, mas também afirmação, criatividade, possibilidades de formulações ante os limites da vida civilizada.
Na Revista Escolar e no livro Anno Escolar, as anedotas indicam85 a tentativa dos alunos de criarem um vínculo dos estudos com a sua realidade. Embora o método fosse intuitivo e pelas coisas, quando um aluno procurava estabelecer relação entre a prática e as lições, era no campo das anedotas que suas intervenções caiam.
No livro Anno Escolar de 1910, uma série de anedotas dá sinais de como os alunos reagiam a abstrações das lições. Um aluno responde ao professor mesas e móveis, quando este lhe pede exemplos de quadrúpedes86. Outro dá exemplo de seu irmão menor para caracterizar um réptil que se arrasta pelo chão de sua casa. Quando um professor pergunta de onde vem o açúcar, o aluno, muito seguro, responde que vem do açucareiro. Em outra situação de classe, o professor examina o aluno e o pergunta quais eram os tempos obscuros da história. E este, muito confiante, diz que certamente eram aqueles antes da invenção dos óculos. No exame de geografia, o mestre pergunta: “onde fica a Suíça?”. O aluno responde: “fica do lado do bigode”.
Entre as categorias relacionadas ao riso, as anedotas podem ser percebidas como elementos que possuem papel relevante na constituição das relações sociais,
85
ANNO ESCOLAR PARA 1910, 2º V, Destinado à leitura dos alunos do Instituto de Humanidades. Fortaleza: Typ. Escolar, 1910. ANNO ESCOLAR DO INSTITUTO DE HUMANIDADES PARA O ANO DE 1908. Destinado ao uso de seus alunos. Fortaleza: seção de obras do Cruzeiro do Norte, 1908. REVISTA ESCOLAR DO COLÉGIO NOGUEIRA. Fortaleza, 11ºano, Nº119, V 11, Nº3, 1925. 86
ANNO ESCOLAR. PARA 1910. Destinado à leitura dos alunos do Instituto de Humanidades. Fortaleza: Typ. Escolar, 1910, p. 115, 116, 117, 123, 124, 125.
na atribuição de sentidos a experiências e práticas de grupos humanos convivendo em comunidades. Bakhtin, pesquisando as festas populares dos loucos e dos asnos na Europa medieval e renascentista, e ainda a noção de riso presentes nas obras de Rabelais, Shakespeare e Cervantes, aponta os significados da paródia, do cômico e do riso, bem como o papel das recreações escolares na história das paródias87:
As recreações escolares e universitárias tiveram uma importância muito grande na história da paródia medieval e, de maneira geral, em toda a literatura medieval. Elas coincidiam habitualmente com as festas e gozavam igualmente de todos os privilégios da festa, estabelecidos pela tradição: riso, brincadeiras, vida material e corporal. Durante as recreações, os jovens repousavam do sistema das concepções oficiais, da sabedoria e do regulamento escolares e, além disso, faziam deles o alvo dos seus jogos e das suas brincadeiras jocosas e degradantes. Eles liberavam-se, antes de mais nada, dos pesados entraves da piedade e da seriedade(“da incessante fermentação da piedade e do amor divino”) e também do jugo das categorias lúgubres: “o eterno”, “o imutável”, “o absoluto”. Opunham a elas o aspecto cômico, alegre e livre, do mundo inacabado e aberto, dominado pela alegria das alternâncias e da renovação. Por essa razão, as paródias da Idade Média não eram de maneira nenhuma pastiches rigorosamente literários ou puramente denegridores dos textos sagrados ou dos regulamentos e leis da sabedoria escolar: elas transpunham tudo isso ao registro cômico e sobre o plano material e corporal positivo, elas corporificam, materializavam e ao mesmo tempo aligeiravam tudo o que tocavam.
Tirando partido das regras, normas e regulamentos, o riso busca estabelecer no interior da ordem vigente resistências que imprimem nas relações sentidos, desejos, noções socialmente negadas por determinados grupos dominantes. No século XIX, o primado da razão e das ciências estabeleceu o riso como o seu antagônico e sem legitimidade possível para estruturar categorias de pensamento e sentido88. No sistema escolar de viés republicano, no qual o rito tem papel fundamental, o riso não é potente para configurar imagens de patriotismo, disciplina e honra, antes pertence ao mundo da não seriedade e transgressão. Contudo, as crianças não deixam de buscar os sentidos de suas leituras em elementos que, agrupados, levam ao reino do riso.
87
BAKHTIN, Mikhail M. A cultura popular na idade média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: HUCITEC; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1993, p. 72.
88
BAKHTIN, Mikhail M. A cultura popular na idade média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: HUCITEC; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1993, p. 101.
Os exemplos dessas anedotas são muitos e se desdobram no tempo. Na
Revista Escolar de 1925, o professor pergunta no exame de história: “o que fez
Cristóvão Colombo depois que pôs o pé em solo americano?”, O aluno responde: “tratou logo de por o outro”89. O professor de matemática, testando o aluno em operações básicas, inquire-o: “se uma empregada leva “x” tempo para fazer uma tarefa de casa, duas empregadas levaram quanto tempo para fazer a mesma tarefa?”. O aluno responde: “pelo que a mamãe me ensinou, levaram o dobro do tempo”90.
Certo dia, Joaquim Nogueira convidou um dos seus alunos do Liceu para ministrar aulas no seu Colégio. Numa sala de aula, quis mostrar ao pretenso professor como os estudos eram valorizados no seu estabelecimento de maneira que escolheu três dos melhores alunos para responder oralmente às questões que colocaria. Então, perguntou qual seria a espécie de homens que, como cidadãos, devemos manter a distância. O primeiro aluno respondeu que seriam os mal- educados, o segundo disse que seriam os ignorantes. Essas respostas muito agradaram ao diretor frente ao seu aluno do Liceu. Porém, o terceiro aluno disse que seriam os cobradores. Como anedota, todos riram e o caso foi parar na Revista
Escolar e na revista carioca Fon-Fon91.
Essas anedotas indicam o que os alunos faziam com as lições que lhes eram passadas nas escolas. Elas nos encaminham para situações mais concretas dos modos como os alunos lidam com a leitura e estudos, adaptando-os a suas vivências e necessidade. Usando os métodos e informações de maneira diversa do inicialmente proposto por educadores e professores, eles imprimem na cultura escolar maneiras muito próprias de estudos que seguem ante suas demandas pessoais. Diante da rigorosa estrutura do método, subjetividades redirecionam os alvos, as didáticas, os meios.
89
REVISTA ESCOLAR, ano 9, Nº118, V. 11. Fortaleza: Typografia São José, Nº2, p. 15. Agos.1925, Nº2, p. 15.
90
REVISTA ESCOLAR, ano 9, Nº120, V. 11. Fortaleza: Typografia São José, Nº4, p. 15.Out., 1925, Nº4, p. 15.
91
ROSAL, Luciano. Os piores homens. Revista Escolar do Colégio Nogueira, ano 9, Nº119, V 11, Nº3. Fortaleza: Typographia Iris, 1925, p.4. Essa nota de Martins Capistrano, que tinha por pseudônimo Luciano Rosal, foi publicada também no Diário do Ceará e na revista Fon-Fon, nota do editor da Revista Escolar.