2 Background and Theory
2.4 Literature review
Diversos trabalhos investigaram as preferências românticas e as razões por trás das escolhas realizadas na seleção de parceiros de relacionamentos românticos (Buss, 1989; Buunk et al., 2002; Castro & Lopes, 2011; Castro, Hattori, & Lopes, 2012; Fletcher et al., 2004; Lee et al., 2008; Lippa, 2007). Este trabalho explorou um aspecto complementar às preferências e à escolha de parceiros, quando objetivou investigar as expectativas que homens e mulheres possuem sobre como devem ser formados os pares românticos, bem como o efeito do ambiente (contexto) nas expectativas, autopercepção e preferências românticas.
Ao invés de questionar as preferências que as pessoas possuem por parceiros românticos ideais ou solicitar que os indivíduos envolvidos em relacionamentos avaliassem seus parceiros, os dois primeiros estudos abordaram as expectativas que indivíduos do sexo masculino e feminino possuem sobre o mercado de relacionamentos românticos. Para tal, os participantes avaliaram um pequeno universo constituído de oito sujeitos-estímulo do mesmo sexo, formulados a partir das variações de características relevantes na escolha de parceiros, e, após avaliar estes sujeitos, descreveram os prováveis parceiros que estes sujeitos deveriam possuir. Nesses estudos, foram utilizadas amostras originadas do Brasil e dos Estados Unidos, países que apresentam costumes e valores diferentes (Beekun, Stedham, & Yamamura, 2003; Pearson & Stephan, 1998), a fim de identificar possíveis efeitos do ambiente local e dos valores culturais.
De forma geral, os resultados indicaram que homens e mulheres apresentam expectativas semelhantes. Foi observado que eles esperam que os pares sejam formados por pessoas com características similares, isto é, que os indivíduos com as melhores qualidades devem apresentar parceiros com os melhores atributos, e que a expressão de alguns traços afeta a avaliação de outras características nas próprias pessoas e também as características esperadas nos parceiros. Corroborando uma predição formulada pela Teoria das Estratégias Sexuais (Buss & Schmitt, 1993), os participantes do sexo masculino descreveram parceiras fisicamente atraentes para homens com alto status social, enquanto as participantes do sexo feminino descreveram parceiros com alto status social para as mulheres que apresentam alta atratividade física. A comparação entre as amostras provenientes do Brasil e dos Estados Unidos revelou que valores culturais e até mesmo limitações ambientais locais afetam as expectativas românticas de ambos os sexos. Um achado interessante foi que, enquanto os brasileiros valorizaram com maior intensidade as características relacionadas à habilidade social, os americanos deram mais ênfase aos atributos associados à atratividade física e status social.
Apesar das diferenças entre os sexos estarem sempre em destaque, elas podem apresentar caráter mais quantitativo que qualitativo, pois, de forma geral, espera-se que os parceiros que apresentam as melhores qualidades, independente do tipo, sejam sempre os mais desejados. Além disso, sabe-se que as características mais valorizadas por pessoas de ambos os sexos e para todos os tipos de relacionamento parecem ser aquelas relacionadas à confiança e bom convívio (Buss, 1985; Cottrell et al., 2007; Sprecher & Regan, 2002). Dessa forma, o terceiro estudo foi desenvolvido para verificar se homens e mulheres podem ser agrupados por acreditarem que um mesmo conjunto de características é o mais relevante nos indivíduos do mesmo sexo para atrair parceiros do sexo oposto.
Nesse estudo, foi observado que indivíduos de ambos os sexos foram agrupados em três grupos, muito embora a proporção de homens e mulheres presentes em cada grupo não tenha sido semelhante. Em um dos agrupamentos, os participantes indicaram que as características relacionadas ao status social foram os atributos mais relevantes para garantir um parceiro desejável para os indivíduos do mesmo sexo. Este grupo apresentou uma maior proporção de homens. Os outros grupos foram constituídos majoritariamente por mulheres, e, enquanto um desses grupos indicou que as habilidades sociais são as características mais relevantes, o outro indicou que seriam os atributos físicos. O padrão observado sugere que o sexo das pessoas parece ser um dos fatores que influenciam as expectativas sobre qual tipo de atributos são mais valorizados pelo sexo oposto e que a relevância dos diferentes atributos para cada um dos sexos parece estar relacionada com o tipo de investimento que cada um dos sexos faz nos seus filhos (Trivers, 1972). Os resultados também indicaram que valorizar determinado tipo de características não está associado à percepção que as pessoas possuem de suas próprias características, o que permite especular que outras variáveis, como valores e expectativas culturais, e não a autopercepção dos indivíduos, podem ter um efeito mais forte para determinar as expectativas românticas.
Até o momento, os estudos evidenciaram que indivíduos de diferentes culturas apresentam algumas expectativas peculiares, que, no geral, homens e mulheres esperam que os parceiros nos casais apresentem características semelhantes, que indivídos de ambos os sexos podem até ser agrupados por valorizarem os mesmos traços nos sujeitos do mesmo sexo, e que as características das pessoas não podem ser avaliadas de forma independente uma das outras. O último estudo desse trabalho foi desenvolvido para investigar se a percepção das pessoas se modifica em função das características dos indivíduos que estão a sua volta. Nesse estudo, foi examinado o efeito que a comparação social intrassexual
apresenta sobre a visão que as pessoas possuem de seus próprios atributos e sobre o que valorizam nos parceiros românticos ideais.
Por meio da exposição dos participantes a sujeitos-estímulo com diferentes combinações de atributos, foi verificado que as pessoas estão cientes das características valorizadas pela maior parte dos indivíduos do sexo oposto e que a autopercepção das pessoas parece ser afetada pelas características das pessoas próximas a elas. De modo sucinto, foi observado que mulheres expostas a descrições femininas com baixa atratividade física melhoraram a avaliação de sua face e se perceberam como pessoas mais determinadas e trabalhadoras, enquanto aquelas que tiveram contato com as descrições atraentes se sentiram menos determinadas e trabalhadoras. Entre os homens, aqueles expostos a descrições masculinas com baixo status social aumentaram a percepção do desejo que despertam como parceiros para o sexo oposto. Contudo, o efeito da comparação social intrassexual nas preferencias românticas não foi observado, sugerindo que outros fatores como, por exemplo, normas sociais, valores culturais ou limitações ambientais, poderiam ser mais importantes na determinação dessas preferências.
De forma conjunta, os resultados do trabalho sugerem que os relacionamentos românticos possuem características muito similares àquelas encontradas em um mercado biológico (Noë & Hammerstein, 1995; Pawlowski, 2000). Considerando as expectativas masculinas e femininas, dois grupos, homens e mulheres, conquistam parceiros com qualidade equivalente ao seu valor como parceiro romântico, que, por sua vez, se origina da interação entre os atributos que esses indivíduos possuem. Verificou-se também que, além dos fatores intrínsecos dos indivíduos (características dos parceiros nos casais), fatores externos a esse sistema afetam o valor dos atributos no mercado romântico. Fatores como valores culturais, limitações ambientais locais e o valor dos atributos das pessoas presentes no ambiente podem determinar o valor atribuído às características no mercado romântico local. Diferenças entre as expectativas encontradas entre os sexos e valorização diferencial de características específicas estão de acordo com as predisposições biológicas esperadas com base na assimetria do investimento parental que existe entre os sexos (Trivers, 1972). Contudo, a variação intrassexual não deixa de estar presente, isto é, apesar das diferenças observadas entre os sexos, muitos homens e mulheres possuem expectativas e comportamento similares.
Por fim, este trabalho sugere que a relevância do tipo de atributo expresso por um sexo para a atração dos indivíduos do sexo oposto não está vinculada à autopercepção das pessoas, e que as preferências românticas parecem não sofrer efeito da comparação social
intrassexual. Esses últimos pontos permitem especular que valores culturais ou condições ambientais podem apresentar um papel mais importante na determinação desses comportamentos.
Concluímos que a abordagem utilizada neste trabalho revelou novas informações para a compreensão dos relacionamentos humanos na dinâmica de um mercado biológico e que predisposições biológicas associadas ao sexo dos indivíduos, valores culturais, limitações ambientais e o ambiente social afetam as expectativas românticas e a avaliação que as pessoas realizam de suas próprias características. Esses fatores, por sua vez, podem modular o ajuste comportamental individual com a finalidade de otimizar o investimento de energia empregado na busca por parceiros românticos e expressão das estratégias ou táticas sexuais.
10. REFERÊNCIAS
Beekun, R. I., Stedham, Y., & Yamamura, J. H. (2003). Business ethics in Brazil and the U.S.: A comparative investigation. Journal of Business Ethics, 42(3), 267-279. doi:10.1023/A:1022200702149
Brase, G. L. (2006). Cues of parental investment as a factor in attractiveness. Evolution and Human Behavior, 27, 145–157. doi:10.1016/j.evolhumbehav.2005.06.003
Brasil. (1996). Ministério da Saúde / Conselho Nacional de Saúde. Resolução 196/96 Buss, D. M. (1985). Human mate selection: opposites are sometimes said to attract, but in
fact we are likely to marry someone who is similar to us in almost every variable. American Scientist, 73, 47-51.
Buss, D. M. (1989). Sex differences in human mate preferences: Evolutionary hypotheses tested in 37 cultures. Behavioral and Brain Sciences, 12(1), 1-14.
doi:10.1017/S0140525X00023992
Buss, D. M. (2003). The evolution of desire: Strategies of human mating (Revised edition). New York: Basic Books.
Buss, D. M., & Barnes, M. (1986). Preferences in human mate selection. Journal of Personality and Social Psychology, 50(3), 559-570. doi:10.1037/0022-3514.50.3.559 Buss, D. M., & Schmitt, D. P. (1993). Sexual strategies theory: An evolutionary perspective
on human mating. Psychological Review, 100, 204-232. doi:10.1037/0033- 295X.100.2.204
Buunk, B. P., Dijkstra, P., Fetchenhauer, D., & Kenrick, D. T. (2002). Age and gender differences in mate selection criteria for various involvement levels. Personal Relationship, 9(3), 271-278. doi:10.1111/1475-6811.00018
Castro, F. N., & Lopes. F. A. (2011). Romantic preferences in Brazilian undergraduate students: From the short term to the long term. Journal of Sex Research, 48(5), 479-485. doi:10.1080/00224499.2010.506680
Castro, F. N., Hattori, W. T., & Lopes. F. A. (2012). Relationship maintenance or preference satisfaction? Male and female strategies in romantic partner choice. Journal of Social, Evolutionary & Cultural Psychology, 6, 217-226.
Cottrell, C. A., Neuberg, S. L., & Li, N. P. (2007). What do people desire in others? A sociofunctional perspective on the importance of different valued characteristics. Journal of Personality and Social Psychology, 92(2), 208-231. doi:10.1037/0022-3514.92.2.208 Darwin, C. R. (2004). A origem das espécies. Belo Horizonte: Itatiaia. (Trabalho original
Fletcher, G. J., Tither, J. M., O'Loughlin, C., Friesen, M., & Overall, N. (2004). Warm and homely or cold and beautiful? Sex differences in trading off traits in mate selection. Personality and Social Psychology Bulletin, 30, 659-672.
doi:10.1177/0146167203262847
Gangestad, S. W., & Simpson, J. A. (2000). The evolution of human mating: trade-offs and strategic pluralism. Behavioral and Brain Sciences, 23, 573-644.
doi:10.1017/S0140525X0000337X
Gaulin, S. J., & McBurney, H. D. (2001). Psychology: an evolution approach. New Jersey: Prentice Hall.
Geary, D. C., Vigil, J., & Byrd-Craven, J. (2004). Evolution of human mate choice. Journal of Sex Research, 41, 27-42. doi:10.1080/00224490409552211
Gutierres, S. E., Kenrick, D. T., & Partch, J. J. (1999). Beauty, dominance, and the mating game: contrast effects in self-assessment reflect gender differences in mate selection. Personality and Social Psychology Bulletin, 25(9), 1126-1134.
doi:10.1177/01461672992512006
Hill, R. (1945). Campus values in mate selection. Journal of Home Economics, 37, 554-558. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. (2010a). Censo Demográfico 2010:
Resultados do Universo - Características da População e dos Domicílios (Tabela 3175). Retrieved from http://www.sidra.ibge.gov.br/cd/cd2010universo.asp?o=7&i=P
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. (2010b). Síntese de indicadores sociais: Uma análise das condições de vida da população Brasileira, Estudos & pesquisas: Informação demográfica e socioeconômica (número 27). Rio de Janeiro, Brazil: Author. Kenrick, D. T., Groth, G. E., Trost, M. R., & Sadalla, E. K. (1993). Integrating evolutionary
and social exchange perspectives on relationships: effects of gender, self-appraisal, and involvemente level on mate selection criteria. Journal of Personality and Social
Psychology, 64, 951-969. doi:10.1037/0022-3514.64.6.951
Kenrick, D. T., Kenrick, D. T., Sadalla, E. K., Groth, G., & Trost, M. R. (1990). Evolution, traits, and the stages of human courtship: Qualifying the parental investiment model. Journal of Personality, 58(1), 97-116. doi:10.1111/j.1467-6494.1990.tb00909.x
Kniffin, K. M., & Wilson, D. S. (2004). The effect of nonphysical traits on the perception of physical attractiveness: three naturalistic studies. Evolution and Human Behavior, 25(2), 88-101. doi:10.1016/S1090-5138(04)00006-6
Lee, L., Loewenstein, G., Ariely, D., Hong, J., & Young, J. (2008). If I’m not hot, are you hot or not? Physical-attractiveness evaluations and dating preferences as a function of one’s
own attractiveness. Psychological Science, 19(7), 669-677. doi:10.1111/j.1467- 9280.2008.02141.x
Li, N. P., & Kenrick, D. T. (2006). Sex similarities and differences in preferences for short- term mates: What, whether, and why. Journal of Personality and Social Psychology, 90(3), 468-489. doi:10.1037/0022-3514.90.3.468
Li, N. P., Bailey, J. M., Kenrick, D. T., & Linsenmeier, J. A. (2002). The necessities and luxuries of mate preferences: Testing the tradeoffs. Journal of Personality and Social Psychology, 82(6), 947-955. doi:10.1037/0022-3514.82.6.947
Lippa, R. A. (2007). The preferred traits of mates in a cross-national study of heterosexual and homosexual men and women: an examination of biological and cultural influences. Archives of Sexual Behavior, 36, 193-208. doi:10.1007/s10508-006-9151-2
Noë, R., & Hammerstein, P. (1995). Biological markets. Trends in Ecology & Evolution, 10(8), 336-339. doi:10.1016/S0169-5347(00)89123-5
Pawlowski, B. (2000). The biological meaning of preferences on the human mate market. Anthropological Review, 63, 39-72.
Pawlowski, B., & Dunbar, R. I. (1999). Impact of market value on human mate choice decisions. Proceedings of the Royal Society B, 266, 281-285. doi:10.1098/rspb.1999.0634 Pearson, V. M. S., & Stephan, W. G. (1998). Preferences for styles of negotiation: a
comparison of Brazil and the U.S.. International Journal of Intercultural Relations, 22(1), 67-83. doi:10.1016/S0147-1767(97)00036-9
Regan, P. C. (1998). What if you can't get what you want? Willingness to compromise ideal mate selection standards as a function of sex, mate value, and relationship context. Personality & Social Psychology Bulletin, 24(12), 1294-1303.
doi:10.1177/01461672982412004
Scott, I., Swami, V., Josephson, S. C., & Penton-Voak, I. S. (2008). Context-dependent preferences for facial dimorphism in a rural Malaysian population. Evolution and Human Behavior, 29(4), 289-296. doi:10.1016/j.evolhumbehav.2008.02.004
Sprecher, S., & Regan, P. C. (2002). Liking some things (in some people) more than others: Partner preferences in romantic relationships and friendships. Journal of Social and Personal Relationships, 19(4), 463-481. doi:10.1177/0265407502019004048
Stewart, S., Stinnett, H., & Rosenfeld, L. B. (2000). Sex differences in desired characteristics of short-term and long-term relationship partners. Journal of Social and Personal
Stone, E. A., Shackelford, T. K., & Buss, D. M. (2007). Sex ratio and mate preferences: a cross-cultural investigation. European Journal of Social Psychology, 37(2), 288-296. doi:10.1002/ejsp.357
Trivers, R. L. (1972). Parental investment and sexual selection. In B. Campbell (Org.), Sexual Selection and the Descent of Man, 1871-1971 (pp. 136-179). Chicago: Aldine.
Wiederman, M. W., & Dubois, S. L. (1998). Evolution and sex differences in preferences for short-term mates: results from a polity capturing study. Evolution and Human Behavior, 19(3), 153-170.
Wilson, M. & Daly, M. (2004). Do pretty women inspire men to discount the future? Proceedings of the Royal Society B, 271(4), 177-179 doi:10.1098/rsbl.2003.0134
134
APÊNDICES
135
136
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE