• No results found

Entrevistadora: Bom, então a primeira pergunta, em torno da qual vai girar esta

nossa conversa, é: como é, para você, atender as pessoas que o procuram para aconselhamento espiritual? Como se dá este atendimento? Conte, pra mim, um pouquinho da sua experiência

Padre Felipe: Ok! É, antes de tudo, uma experiência de fé. Eu creio que o momento

do atendimento espiritual das pessoas é, para o padre, em primeiro lugar, esta experiência de fé. É o momento no qual ele percebe o tamanho da sua fé ou os limites da sua fé. Porque as pessoas trazem os problemas mais variados possíveis. Problemas em si, sem soluções, naquele momento. E que, de repente, as pessoas depositam na pessoa do padre, elas o procuram com uma esperança enorme, né? Uma esperança enorme e você sabe, né, que não tem tanto para oferecer. Então enquanto a pessoa vai falando... Qual é a minha experiência pessoal? Enquanto a pessoa vai falando, em muitos casos, eu vou rezando (risos), eu vou ouvindo por um lado e conversando com Deus, por outro, porque sem Deus é muito difícil ter uma palavra de alento para a maioria das pessoas que procuram orientação espiritual. Creio ser esta uma experiência de fé que questiona, mesmo, o nível de fé do padre.

A única saída que eu vejo até esse momento da minha vida é essa: me colocar junto da pessoa, como alguém que a pessoa acredita ser um enviado de Deus, no caso; e você também tem que assumir esse lugar de enviado de Deus porque, do contrário, o aconselhamento espiritual vai se tornar algo puramente humano. Eu não diria que vai se tornar uma experiência... um tratamento psicológico porque o padre não teria as habilidades suficientes para podermos dar esse nome à conversa. Mas cai no puramente humano, se não for para o padre uma experiência de fé. Eu vejo dessa forma.

Entrevistadora: Qual é o objetivo de um aconselhamento espiritual e o que pode

ser feito para ajudar a pessoa que o procura?

Padre Felipe: O primeiro objetivo é unir a pessoa de maneira mais íntima com Deus.

Este é o primeiro objetivo. Antes de dar qualquer dica para pessoa, eu tenho que ajudar a pessoa a confiar mais em Deus. E depois, num segundo plano, como algo em si, de menos valor, mas também necessário, nesse aconselhamento espiritual, eu, no caso, vou tentar oferecer para a pessoa, depois de ter dado este primeiro passo de incentivá-la à fé, à perseverança, à confiança absoluta em Deus; acreditar que para Deus nada é impossível... Depois, num segundo momento, eu vou estar ajudando a pessoa, a partir do que ela falou. Não interessa muito o que ela falou, em primeiro plano, eu vou ajudá-la a confiar em Deus, seja qual for a história. Neste segundo plano, a partir do que ela falou, eu vou orientá-la a dar alguns passos. Mas não passos no sentido de resolver aquele problema dela porque ela é que tem que resolver. Mas alguns passos, sobretudo, no sentido de se aproximar mais de Deus, se aproximar mais das pessoas que, de repente, poderão ajudá-la e de se aproximar mais de si mesma, naquilo que for possível, necessário e importante.

Para mim, a questão do aconselhamento espiritual possui quatro pontos importantes. Além de Deus, do outro e de si mesmo, aí, no caso, existe também toda a estrutura ao redor da pessoa: o trabalho, a natureza em si, né? Isso também é importante... São estes quatro pontos. O primeiro é o movimento em direção a Deus. Como Deus não pode ser visto, aí, de maneira palpável, a orientação que vem a seguir, vai ser a respeito da própria pessoa, as pessoas que vivem ao redor dela e ao mundo dela, ao círculo de interesses e as coisas que ela vê no dia-a-dia, por onde anda. Para a pessoa superar qualquer dificuldade mais séria, nesta vida, ela precisa enxergar o mundo de forma diferente, também. São esses quatro pontos.

Entrevistadora: O objetivo que seria o de colocar a pessoa num relacionamento

mais íntimo com Deus, passa por uma nova visão acerca de seu próprio mundo...

Padre Felipe: Sem dúvida. Eu diria assim: como se o objetivo em si fosse a

intimidade com Deus. Aumentar essa intimidade com Deus para que, fortalecida pela fé, a pessoa consiga buscar aquela força que não está tendo naquele momento; e

depois desse contato novo com Deus, seria a própria pessoa... um novo modo de vê-la; as pessoas que estão ao seu redor e este mundo todo que a cerca. Ela precisa ter um contato novo consigo mesma, com as outras pessoas e com o mundo para que ela consiga caminhar em direção ao relacionamento fecundo e necessário com Deus.

Meu objetivo, enquanto conselheiro espiritual, é ajudar a pessoa a mudar o foco. Os exemplos mais comuns, na minha experiência, são mães que têm dois, três, às vezes, quatro filhos ou mais e que estão morrendo por causa de um, enquanto os outros estão ótimos, maravilhosos, com uma vida espetacular; mas a mãe está morrendo, aos poucos, por causa daquele que não reage. E ela está morrendo junto com ele. Então, de repente, ajudar essa mãe a olhar a vida de maneira mais ampla, a mudar o foco. Se o foco está voltado somente para aquele que não está bem, ajudá-la a continuar, sim, sendo solidária, exercendo o seu papel de mãe junto daquele que está sofrendo, mas sem se esquecer dos outros três ou quatro que estão bem. Porque é uma tendência das pessoas, no momento de crise, olhar somente para aquilo que não dá certo. Se elas andam para ruas, elas só vêem violência, perigo de assalto... Se elas vão viajar, elas já vão pensando que pode ter um acidente, isso ou aquilo. E esquecem de tudo mais de bonito que está acontecendo a sua volta. Então, é exatamente isso, ajudar a pessoa, não a mudar o foco, mais que isso, a ampliar o foco, para que ela enxergue a realidade como um todo. Um exemplo mais comum ainda é daquelas pessoas que pensam que estão sendo castigadas por Deus, falam assim: ‘Ah, Deus está me castigando, me provando. Ah, é provação de Deus. Acho que eu estou recebendo um castigo.’ Se elas formam o foco somente em cima desta ideia, num instante, elas vão entrar em crise e vão perder a força para a ação. Por quê? ‘Já que é Deus que está me provando, me castigando, eu não posso fazer nada sobre isso, porque Deus é uma força maior.’ Nessa hora, eu tenho que ajudar a pessoa a abrir seu campo de visão e ver que se é que Deus prova, Ele não prova só no sofrimento. Eu acho que, quando tudo vai muito bem na nossa vida, a provação é tão grande quanto quando tudo vai mal. A provação no sentido de possibilidade de queda, de não seguir a conduta ideal da fé cristã. Então, ajudar a pessoa a enxergar a vida como um todo. Se ela pensa: ‘Ah, Deus está me provando’, é preciso ajudá-la a ver que, se é que Deus prova, Ele também prova no prazer, na alegria. Então, ajudá-la a ver a vida como um todo. ‘Ah,

mas Deus se esqueceu de mim’. ‘Mas vamos ver se tudo na sua vida vai mal mesmo... Para começar, você está viva, aqui, falando comigo.’ (risos). Partindo daí, mesmo, de que nem tudo está tão mal assim... é preciso ajudar a pessoa a ampliar esse foco.

Este é o desafio, que eu vejo, na vida espiritual e creio ser também, o do campo psicológico. Às vezes, a gente abre o leque da visão da pessoa e ela volta a fechar, você abre e ela fecha de novo... (sorri e gesticula os braços, abrindo e fechando as mãos).

Entrevistadora: Como sanfona? (risos)

Padre Felipe: É uma verdadeira sanfona! Mas não tem outra saída. Você tem que

ajudar a pessoa a abrir o leque. Eu não posso falar para ela: ‘Faz isso que está resolvido’. Se eu falar isso, significa que, se ela se der mal, a responsabilidade será minha. Isso é uma falta de ética profissional, sem limites. Então eu devo ajudar a pessoa a abrir o horizonte e, depois, mesmo que ela insista que quer soluções, que quer opções, você pode falar para ela: ‘Olha, você pode fazer isso, pode fazer isso, pode fazer isso! (conta na ponta dos dedos). Agora se você vai fazer A ou B ou C, ou não vai fazer nenhuma dessas coisas, esta é uma questão sua, né?’ É importante que a gente respeite a liberdade de escolha da pessoa. Ninguém pode ser carregado à força para nada de bom, nesta vida. A pessoa tem que querer também, né? Tudo que acontece na nossa vida tem a ver com o bom uso ou o mal uso da nossa liberdade. Se não de maneira completa, pelo menos, em parte, tem a ver com as nossas opções nesta vida. Eu creio nisso e acho que a liberdade é esse grande dom que Deus permitiu ao ser humano. Quem não sabe lidar com essa liberdade, traz problemas para si e para muita gente ao redor.

Agora, o principal no aconselhamento espiritual, que eu vejo, é manter o foco voltado para Deus, no meio de toda a conversa, seja o tempo que for ou quantas vezes for. Você precisa se esforçar para manter o foco em Deus, se não você vai cair na tentação de... fazer como se estivesse ensinando uma receita de bolo (risos). Certo? É preciso estar citando referências bíblicas, se for o caso, dependendo do grau de formação da pessoa, é preciso citar alguns exemplos da vida, do dia-a-dia,

dependendo do nível acadêmico, aí, da pessoa com quem a gente está conversando. É preciso que você faça uso de algum instrumental para segurar o tema, aí, junto de Deus. Se a pessoa procurou a Igreja, ela tem que encaminhar a vida dela para Deus, eu vou ajudar nisso e tudo mais será acrescentado, desde que a vida dela seja orientada para Ele para um relacionamento mais íntimo com Deus. De repente, ela não está muito a fim. Às vezes, há casos em que as pessoas chegam e dizem: ‘Fé, eu não tenho, não. Eu não sou de rezar, não sou disso, não sou daquilo, mas gostaria de conversar com o senhor. Me falaram bem do senhor...’ Aí, chega, faz um elogio para iniciar a conversa, para amaciar a conversa, para pegar o embalo. Depois, nessa hora, é claro, deixo a pessoa falar à vontade, mas eu vou insistir com ela que, sem a conversão, sem a conformação da vida com Deus, com Jesus Cristo, no caso, qualquer tentativa, vai ser vã, em se tratando de questões de fé. E, não é tão simples ajudar a pessoa que não tem fé, não tem o mínimo de fé e não tem vontade, também, vontade de ter fé. Este tipo de caso está aumentando cada vez mais.

Então, para você entender melhor, o aconselhamento espiritual, para mim, de acordo com a minha experiência, nesta área, tem o objetivo de manter a pessoa o mais próxima de Deus possível, e ‘próximo’ no sentido de ‘intimidade’ mesmo; que ela consiga se religar a Deus, de alguma forma. A partir daí, tendo isso como objetivo, como foco principal, o aconselhamento espiritual segue com a intenção de ampliar a visão de mundo da pessoa, não que ela focalize algo de diferente daquilo que ela está focalizando, mas que ela consiga olhar para outros pontos da vida dela, que são pontos ‘sadios’; acho que a gente poderia dizer assim... pontos bons, agradáveis para ela conseguir, de certa forma, ter uma visão maior, para ela conseguir estar um pouco melhor consigo, com o mundo, com Deus. E eu faço isso através de alguns mecanismos, dentre eles, citando referências bíblicas, contando histórias da vida cotidiana para estabelecer um diálogo bem ‘cotidiano’, próximo da realidade da pessoa que procurou por mim. O diálogo é adaptado a cada realidade.

O pano de fundo do aconselhamento espiritual pode ser visto, lá, na carta de São João: ‘Se você não consegue amar ao irmão que você vê, muito menos a Deus, que você não vê’. A pessoa tem que ter um relacionamento novo com tudo o que está ao seu redor e, consigo mesma, para depois conseguir um relacionamento mais intenso

com Deus. Se eu não tenho um bom relacionamento com as obras criadas por Deus, que estão ao meu redor, a começar por mim mesmo, eu não vou conseguir o contato com o Criador em si. Como quando olhamos para uma obra de arte e não conseguimos... Se nós não conhecemos uma obra de arte, não temos muito o que falar do artista.

Entrevistadora: Bom, padre, para finalizar a nossa conversa, eu gostaria, que

dentre os casos que você já atendeu, você descrevesse um dos casos.

Padre Felipe: Eu me recordo, de alguns, aqui, no momento. São muitos os que me

chamam a atenção, mas eu quero ficar com um deles... Logo no começo da minha vida de padre, uma pessoa me procurou, uma senhora de, aproximadamente 35 anos de idade, vítima de um medo, de algo assim que a psicologia explicaria, mas que eu, na época, não tinha condição de entender. Foi algo que eu tive que enfrentar sobretudo pela fé, talvez seja uma das experiências em que eu lutei, no começo da minha vida de fé. Eu estava em São Paulo, estudando e essa pessoa me procurou, dizendo que já não dormia há quase uma semana. Na casa dela era impossível dormir, porque assim que ela se deitava, vinha uma... uma sombra que queria sufocá-la. O marido dormia, numa boa, os filhos também e ela ficava, ali, apavorada porque, quando ela deitava, apagava a luz, vinha aquela sombra por cima dela. Aí, depois, começa aquela coisa de todo mundo falando isso, falando aquilo, que a casa era mal assombrada: ‘A coisa aí é feia mesmo, ninguém para nessa casa’. E o drama daquela mulher, só aumentando. A mulher estava praticamente caminhando para o lado da psiquiatria, mesmo, não é? E me recordo que eu não tinha muitos argumentos, para falar com ela, né? Assim, humanamente falando, eu não tinha argumento nenhum, mas pela fé, os argumentos estavam todos ali. Em primeiro lugar, eu fui ajudar aquela pessoa a confiar mais em Deus, a ver qual o grau de confiança que ela tinha em Deus. Para minha sorte, era uma pessoa que tinha uma confiança, pelo menos, inicial em Deus. Eu invoquei a confiança dela em Deus, rezei um pouco com ela, dei uma benção pra ela... E disse aquilo que eu sabia que não podia dar um resultado tão negativo dentro da minha experiência. Eu falei assim: ‘Olha, agora, com toda esta confiança em Deus, você continue rezando...’ Depois, ela se confessou, também. Comungou, e eu disse: ‘Agora, você vai para a sua casa e chegando lá, à noite, com a força da sua fé, você

vai ao encontro dela. Em vez de se esconder embaixo da coberta, você vai ao encontro da sombra, que você vai ver a força do seu Deus, a força da sua fé. Enfrente! Na hora em que ela aparecer, lá, na porta (porque ela falou que vinha sempre da porta do guarda-roupa), vá ao encontro dela e enfrente porque, se continuar assim, você vai morrer mesmo’. Disse, brincando, assim, com ela (risos): ‘Do jeito que você está indo... Ficar sem dormir, ninguém sobrevive, mesmo. Enfrente! Se tiver de machucar, vai machucar hoje mesmo’. Brincando assim, com ela, mas depois que eu vi que ela estava mais ou menos embasada, tinha recuperado pelo menos um pouco da confiança em Deus. Aí, ela foi para casa e eu fiquei, é claro, rezando por ela e torcendo, também, porque era um caso de chorar, de dar pena, pena da pessoa. Passados alguns dias, eu me encontrei com ela. Ela veio toda sorridente, né? Nossa! Animadíssima. Me deu um abraço enorme, me deu um beijo, eu nem conhecia direito a pessoa, eu achei meio engraçado e fiquei pensando: ‘Será que ela é meio louca!’ (risos). Depois, eu fui ver que ela era normalzinha, sem problemas... e falando para mim: ‘Olha, a sombra ainda não desapareceu, só que toda noite, na hora em que ela aparece, eu vou ao encontro dela; ela some, desaparece e aí, eu volto, deito e durmo. Perdi o medo!’ Depois, tudo bem, eu reforcei, para ela continuar rezando, buscando a Deus, buscando tudo aquilo que a gente já falou aqui na entrevista: novos relacionamentos, buscando um novo jeito de ver o mundo. E passados mais alguns dias, ela voltou falando que não existia mais sombra, não existia mais nem isso, nem aquilo. Então, este caso me chamou muita atenção porque a pessoa venceu pela fé. Se ela não tivesse despertado para a fé, iria parar na psiquiatria, com certeza. Era só na casa dela; se ela fosse dormir na casa da sogra, na casa da mãe, não tinha problema. E não tinha como ela mudar de casa porque os pais não moravam na cidade. Então, este caso me marcou bastante por ter sido bem no começo da vida de padre... Depois tem vários outros, também.

Eu acho que essa experiência me ajudou a confiar muito em Deus. Tanto que, hoje, quando eu estou indo para atender as pessoas, eu não me preocupo com o tamanho do problema, eu me preocupo com o tamanho da minha fé e da fé da pessoa. Para mim, o que interessa, na verdade, é a minha confiança em Deus e eu preciso despertar na pessoa essa fé. Porque se tivermos fé, esses probleminhas da nossa vida, que acabam conosco, eles deixam de existir, né? Depois desses anos,

eu já encontrei com a mesma pessoa, várias vezes, e sempre ela me dá ótimas notícias: que a vida dela é outra, bem diferente daquele tempo. Agora, todo problema para ela é pequeno porque ela descobriu uma força que ela não sabia que tinha, que é a força da fé. É uma pessoa que reza, participa da Igreja, está sempre na missa da família, etc, etc... Era um problema pequeno? Era, se considerado, aí, em outros níveis de ciência; não era um problema tão sério assim, mas para a pessoa era...

Eu tenho um outro caso, que eu me recordo, aqui. Esse já... eu não tinha tempo para tratá-lo porque eu tinha terminado uma missa e tinha horário marcado para celebrar outra. E aquele horário já estava muito próximo e uma pessoa veio... Enquanto eu saía da Igreja, uma pessoa veio chorando, um jovem que devia ter uns 20 e poucos anos... Só que ele, eu não cheguei a ver mais e é um pecado que eu carrego comigo até hoje... (risos). Não sei... ele deve estar bem porque era uma pessoa que morava próximo e eu nunca mais vi a pessoa... Deve estar bem, não sei... Ele chegou e entrou na sacristia da Igreja e de lá não saía mais. Ele gritava, ficava bravo. Dava para notar que ele era, assim, dependente de drogas e que... a dose deve ter sido muito alta naquele dia e ele estava totalmente sem rumo e começou a ver coisas, né? Aquela mania de perseguição, aquelas coisas comuns, também... ‘Estava sendo perseguido, estava sendo isso, que era o diabo que estava com um garfo.’ Todas aquelas visões infantis voltaram, de repente, para a vida dele e ele correu para a sacristia e falou: ‘Daqui, eu não saio mais, hoje’. Ele era forte. Eu não tinha como tirar ele de lá. A essas alturas, eu acabei ficando sozinho com ele na sacristia porque todo mundo tinha ido embora. E eu precisava de ir também porque tinha outra missa e não tinha como trancar o rapaz dentro da Igreja. Eu ouvi o rapaz. Ele falava um pouco e chorava um pouco e se agarrava em mim. Ele ficava assim, naquele desespero, tristeza, comum nesses casos. Eu não tinha tempo também para chamar alguém da família. Ele também não conseguia falar direito sobre a família dele. Ele falou, mais ou menos, onde morava, mas não lembrava número de telefone, nem nada, não lembrava disso, nem daquilo e eu não tinha mais o quê fazer com ele. Mas eu comecei a ouvir, ouvir, ouvir e depois que ele falou bastante, gritou bastante, falando sempre que dali não saía, de jeito nenhum, eu falei para ele: ‘Então você veio no lugar certo, eu tô até enxergando o demônio em você. De fato,