o caminho doíardim
do agora
O jardim agora foi uma escolha. Uma invenção. Um caminho trilhado. Tristeza-alegria-tristeza-alegria. Alegria... Encontros. (Re)encontros. Neste jardim, nenhuma revelação, nenhuma certeza. Criação. Sentidos. Ressonâncias. Miniaturas que desassossegaram. E encantaram. Miniaturas que marcaram. Marcas que ficaram. Encontro com marcas. Uma flor-tema colhida-inventada. Um tempo com ela, o afeto por ela. Vou com ela ou ela vai comigo? Um perfume impregnado em meu corpo e em minha alma. É meu ou dela? Rompem-se suas estruturas, exala-se o óleo essencial. A alma da flor-tema lança sua nuvem aromática: a potência de um grupo. Um grupo de professoras de ciências. Que são flores. Que carregam marcas. Marcas de ciência e de laboratório. Marcas em suas práticas pedagógicas.
No jardim do agora, encontros com professoras-flores. Suas marcas, suas composições, suas resistências. Pequenas aberturas, fendas, brechas. Miniaturas. Ações. Confissões. Eu, você, ela, vocês, elas, nós. Nós? Nós! Desatou. Abriu, escancarou. Constituiu. Constituiu-se. Um grupo. Um? Mais um!? Hummm... Constituímos. O grupo. O! Grupo! Não há eu sem o outro. Aqui, a potência do grupo foi única. Uma
miniatura. Encantadora e única. Este grupo, que engendrou novas composições, estabelecendo novas condições, foi capaz de produzir um livreto
de divulgação de suas atividades e se produzir para o lançamento do seu trabalho. Este grupo quis estar junto. E isso só foi possível porque havia disposição, abertura, envolvimento, afeto. E as diferenças, desavenças, reclamações e lamentações foram minimizadas. Eu-você. Você-eu. Ela- ela. Eu-você-ela. Ela-você. Troca. Compartilha. Partilha. Pertencimento. “Quero estar aqui”. “Eu também”.
No jardim do agora, as marcas de ciência só foram vistas porque, antes que elas fossem evidenciadas, emergiu-se o grupo. Foi neste
grupo, então, que concebemos que a ciência levada para dentro da escola por meio de situações e atitudes das professoras-flores mimetizam o
modelo de uma ciência clássica, tida como desinteressada, neutra, reveladora de verdades e descobridora da natureza. Assim, o laboratório da escola foi visto como um sistema de inscrição literária, no qual equipamentos e objetos são necessários e importantes para as aulas das
professoras-flores, que também acreditam que só por meio desses objetos de laboratório é que elas poderão executar seu trabalho. Colado a isso
temos a reificação dos materiais e equipamentos do laboratório, tomados como fazendo parte desse ambiente, desassociados de sua origem, conhecidos apenas por seu nome, utilizados pelas professoras em seus laboratórios e, por estarem tão bem consolidados pelo que são e pelo que
fazem nesse espaço, não são passíveis de serem contestados por sua eficácia. Então, pelo modelo de difusão, as controvérsias são eliminadas, não
Além disso, foi pela manifestação deste grupo que encontramos nas falas das professoras-flores as atitudes de persuasão, a eliminação de ruídos de fundo e a agregação de aliados como forma de justificar e legitimar tanto a existência do laboratório na escola como o trabalho e a permanência dessas docentes neste local. É preciso contar e mostrar o que fazem e dizer sobre a importância do laboratório para os estudantes. Mas é preciso deixar de lado aqueles que não se importam com as aulas de laboratório. E é necessário também que existam interesses do lado de fora do laboratório da escola para que lá dentro ele possa funcionar pelas mãos das professoras-flores.
Quando, ainda pela confiança e pelo grupo essas docentes foram convidadas a divulgarem suas aulas, pudemos olhar para seus fazeres pedagógicos como invenção e para elas como professoras-flores que fazem a diferença. Também conferimos às suas ações o mimetismo da ação dos cientistas, já que elas se valem de experimentos com componentes não-humanos para intermediarem e transformarem situações em manifestações do real. E, ainda, foram pelos relatos e falas das professoras-flores que consideramos que o laboratório na escola é uma caixa- preta que só tem sentido pela rede de atores que engendra.
Portanto, foi a potência deste grupo que permitiu encontrar tais ressonâncias na antropologia da ciência e atribuir às práticas pedagógicas das professoras-flores esses significados. Práticas impregnadas da ciência que as marcaram. Ações que mimetizam as falas do Jano esquerdo, talvez a única face apresentada a essas docentes em sua trajetória de formação profissional. A implicação das professoras-flores com e no jardim
do agora produziram este conhecimento. Conhecimento local e concreto, em que subjetividade e objetividade estão imbricadas.
Aqui, uma pesquisa que não revela, que não julga. Mas que abre, se abre. Dá sentido. Inventa. Compartilha o sentido inventado. Enxerga a potencialidade das sementes. Ora, são as sementes que contêm o embrião. E o embrião é o início de tudo, ele é devir, ele pode vir a ser, a se tornar. No caminho pelo jardim do agora, um ciclo: sementes do jardim do antes; estabelecimento no jardim do agora; encontros com a flor
tema, o jardineiro, as professoras-flores; encontro com a invenção e a antropologia das ciências. Ora, um ciclo implica transformações, e implica
retornar ao estado inicial. E como tudo começa com as sementes, são elas que eu carrego comigo. Todas as que me foram oferecidas. Todas as que me permitiram conhecer. Se me perguntarem o que farei com elas, responderei: “são apenas sementes”.