4.4 External Political Efficacy
4.4.3 Structural Features of Mini-Publics
O convite veio espontaneamente. Em um dos nossos encontros, enquanto Orquídea distribuía água com planárias, peixes e protozoários, contava da sua escola, de como era, o que fazia. “Vai lá me visitar, estou lá todos os dias”, ela me disse. No encontro, afeto inesperado. Virtualmente, o convite foi estendido às outras colegas. Movimento. Grupo.
Era uma tarde fria de julho. Cheguei antes das 14h, encontrei Petúnia na porta. Entramos na escola. Tive uma boa impressão do local. Fomos bem recebidas pela atendente da portaria, que foi até a direção para anunciar nossa chegada. A diretora estava ocupada, mas nos encaminhou para a Orquídea, que em seguida veio nos receber. Sempre muito animada, nos levou laboratório, mostrando, pelo caminho, os espaços da escola. Uma parada no banheiro feminino, para mostrar o trabalho da professora de artes, que, para evitar as frequentes pichações nas portas e paredes, mobilizou as alunas a “fazerem arte”, mas com pinturas de desenhos. Valorização do outro. Orquídea foi caminhando, apontando e falando: “Ali fica o quiosque, e de lá a horta, onde está o tanque com as planárias que levei no encontro”.
O laboratório de ciências da escola da Orquídea é um lugar alegre. Tem parte das paredes pintadas de verde. E um modelo do sistema solar pendurado no teto. Tem uma bancada com pia na parede em frente à porta e três bancadas no centro. Também tem armários fechados, que guardam materiais, como roteiros e atividades para uso em aula e coleções úmidas, como cobras e lagostas preservados em álcool. Uma prateleira abriga livros didáticos. Outro armário guarda os microscópios e estereomicroscópios. Enquanto Orquídea mostrava todo esse espaço, foram chegando ao laboratório a Cravo e a Papoula. Orquídea foi abrindo os armários e apresentando alguns materiais e atividades que ela realiza com os alunos. Primeiro, pegou o microscópio e mostrou o defeito do botão de foco, “aqui ó, não pára”, disse, mexendo no equipamento. Conversou com a Petúnia dizendo que tinha falado com o amigo da filha: “Ele ficou de ver se ajuda”. Envolvimento. Troca. Depois, abrindo outro armário, mostrou um tecido e as borboletas de papel, dizendo que usa esse material para trabalhar com o tema camuflagem.
As outras professoras comentaram o que faziam para abordar esse tema: “Eu coloco pedaços de papel na grama” (Cravo). “Eu usava pedacinhos de tecido e colocava na área verde ali fora” (Orquídea). Detalhando sobre isso, Orquídea disse ainda que costuma fazer grupos, dividindo os alunos em quem irá esconder as borboletas e quem irá ‘adivinhar’ onde estão. Experiência. Troca.
Ao mostrar as coleções úmidas, Orquídea disse que alguns desses materiais foram adquiridos por ela e por outra professora, em virtude de viagens à praia e/ou fazenda. Envolvimento. Troca.
Mostrou um cartaz que usa para os alunos identificarem seres vivos do fundo do mar, a partir do material seco. “Eles não acham que isso foi um ser vivo”, disse, mostrando as coleções de conchas e corais calcificados.
Buscou no outro armário os animais de plástico e um tabuleiro de jogo, explicando que os alunos jogam e depois montam a cadeia alimentar
com os animais.
Depois, nos apresentou “A coisa”, material que montou a fim de trabalhar sobre o método científico com alunos de nono ano, afirmando que a repercussão entre eles tinha sido bastante positiva. Criatividade. Troca.
Conforme relato pessoal de Orquídea esta atividade foi elaborada por ela mesma, na qual foi montado um modelo com diferentes objetos (um ralador, um amassador e uma peruca de boneca), colocado dentro de um saco plástico preto e levado por ela para a aula. Os alunos deveríam tentar descobrir que objeto havia dentro do saco plástico apenas tocando-o. O objetivo desta atividade era a discutir sobre o método científico de elaboração e teste de hipóteses utilizado pelos cientistas.
Enquanto conversávamos ali, a diretora entrou no laboratório e veio falar conosco. “Ela é da nossa área, eu e ela dividíamos o laboratório, agora que ela está na direção ficou só eu”, explicou Orquídea, que nos mostrou ainda garrafinhas de refrigerante com bonecos grudados e o roteiro dessa aula, que ela realiza na primeira atividade no laboratório como “Dinâmica de Acolhida”, logo no início do ano letivo com os alunos do sexto ano. “Haja vinagre e bicarbonato”, ela disse. “Eu usei essa para falar sobre liberação de gás carbônico, não com essa criatividade”, falei, me referindo à mesma prática, mas não com a intencionalidade mostrada no roteiro. Experiência. Troca.
AULA DE LABORATÓRIO- DINÂMICA DE ACOLHIDA PROFESSORA-
(prepare uma garrafa de água descartável com um pouquinho de vinagre. Coloque bicarbonato num balão e prenda-o na garrafa)
Receba os alunos com alegria e diga que o laboratório é nossa casa portanto eles devem se sentir felizes e cuidar daquele espaço. Mostre o boneco com o balão murcho e vá falando que muitas vezes eles estão assim- bola murcha, isto é, desanimados com a escola,
sem vontade de aprender ou participar de alguma coisa. Mas o aluno bola murcha acaba desistindo dos sonhos, desistindo da escola e as vezes da própria vida. O aluno bola murcha já acorda reclamando, não quer nada com nada, só resmunga.
Alguém aqui quer continuar sendo bola murcha? O aluno que quer ser diferente ele acorda de bem com a vida, encara os problemas de frente e já que tem que fazer alguma coisa que faça bem feito, (ir mechendo a bexiga para cair o bicarbonato rto vinagre- o balão irá
encher). Estão vendo, quem já levanta de alto astral é diferente. Vejam o balão. Está enchendo, pois é esse é o aluno bola cheia, todo o mundo conspira em favor dele. Esse vai longe! E você quer ser bola cheia ou bo|<a murcha?
Conversamos mais um pouco sobre atividades, microscópios, lâminas, rochas, materiais. Troca. Em seguida, fomos até a horta, onde ficava o tanque com as planárias, peixes e protozoários. Orquídea foi nos mostrando o local, as plantas que morreram e as que ainda vivem. Falou que ela e os alunos plantaram, e que “os [alunos] mais custosos são os que „pegam na enxada’; e gostam.” Mexemos no tanque, pegamos água, tiramos foto. Rimos. Movimento. Troca. Afeto.
De volta ao laboratório, Orquídea ensinou uma preparação de lâmina que ajuda “a ver os menorzinhos”, disse, referindo-se aos seres microscópicos encontrados na água. Falou: “Assim ó”, mostrando os fiapos de algodão sobre a lâmina, e cobrindo com a lamínula. Vimos protozoários, possíveis ovos de ameba, rotíferos. Planária na lupa. Que linda! “Olha os ocelos...” (Petúnia) “Dá pra ver ela se movimentando direitinho” (Papoula). Assim, naquela tarde fria, um dia de aprendizado. De autoformação. De alegria. De troca.